Mag-log in
Londres amanhece envolta em um céu de nuvens delicadas e um clima tipicamente britânico, fresco, com uma leve névoa que torna cada esquina mais cinematográfica. No coração do elegante bairro de Kensington, Sophia Jones desperta em seu pequeno apartamento de estudante, com o coração pulsando em expectativa.
O dia da formatura chegou.
Um dia que representa muito mais do que apenas o fim de um ciclo acadêmico é, para ela, um marco silencioso do amor proibido que vive há meses.
Ela permanece alguns segundos sentada à beira da cama, olhando para o vazio do quarto ainda meio escuro. Seus pensamentos se embaralham enquanto os dedos tocam o lençol. O nome dele sussurra dentro dela como uma oração secreta: Pietro. O homem que ensinou mais do que as leis e teorias jurídicas. O homem que a fez acreditar, ainda que às escondidas, que o amor era possível mesmo em meio a tantas impossibilidades.
Faz pouco mais de nove meses desde que aquela troca de olhares carregada de tensão em uma das salas da Universidade de Cambridge se transformou em encontros furtivos, bilhetes dobrados dentro de livros de direito constitucional e toques discretos em corredores escuros. Meses em que Sophia vive entre o céu e o abismo. Foram madrugadas inteiras em que ela se deitava ao lado dele sentindo-se a mulher mais amada do mundo, apenas para acordar com o medo de ser descoberta e ter sua reputação, e a dele, destruída.
Agora, tudo parece estar por um fio.
Enquanto calça os saltos altos diante do espelho, ela sorri com suavidade, tocando os cabelos cuidadosamente arrumados. O vestido longo, de seda dourada, molda sua silhueta com elegância sutil. Ela está deslumbrante, e sabe disso, mas a beleza exterior não apaga o nervosismo que começa a se alastrar em seu peito. Hoje é o dia da promessa: depois da cerimônia, ela e Pietro conversariam sobre o futuro. Sophia acredita, com o coração esperançoso, que ele finalmente dará um passo público em direção ao que eles vivem. Afinal, ele havia contado a Alessandro, professor e melhor amigo e isso deveria significar algo, certo?
Ela desce correndo os degraus do prédio quando ouve a buzina impaciente de sua amiga Anne Marie. A morena espera encostada no carro com um sorriso largo, exibindo um vestido azul cintilante que realça suas curvas de maneira escandalosamente elegante.
— Sophia, pelo amor de Deus! Você está um espetáculo! O professor vai babar quando te vir assim! — diz Anne, caminhando ao redor da amiga como se estivesse diante de uma obra de arte.
Sophia ri, tímida.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza. Se o professor Pietro não se ajoelhar hoje pedindo sua mão, eu mesma me demito da amizade! — responde Anne, em tom de brincadeira.
As duas seguem animadas no carro, rindo, compartilhando ansiedades e lembranças. Sophia, embora sorrindo, sente a tensão aumentar à medida que se aproximam do Royal Kensington Hotel, um dos mais requintados hotéis da cidade. O local onde será a cerimônia e o baile de formatura e onde ela acredita que sua história com Pietro terá um novo capítulo.
O trajeto até o Royal Kensington Hotel foi como atravessar um conto de fadas prestes a se realizar. O edifício majestoso erguia-se no centro de Londres com sua arquitetura vitoriana imponente, o tapete vermelho estendido como uma promessa de noites inesquecíveis. Dentro, lustres de cristal iluminavam o salão principal com um brilho dourado, e a música clássica preenchia os espaços com solenidade.
Sophia olhou para tudo aquilo como uma garota que ousava sonhar. Mas o que mais procurava era ele.
E então o viu.
Pietro estava de costas, conversando com alguns reitores. Usava um terno cinza impecável, a gravata dourada reluzia sob a luz dos lustres. Ele estava lindo. Mais do que isso. Ele era o homem dela. Seu coração acelerou, o sangue ferveu nas veias e as mãos suaram. Cada passo em direção a ele era a confirmação de tudo o que tinham vivido. Aquela noite era deles. O início de tudo.
Ela apertou a mão de Anne Marie, como quem pedia coragem.
— Vai lá, garota. Vai buscar o teu final feliz.
Anne se adiantou até Alexander, sorrindo. Sophia, com o coração martelando, se aproximou de Pietro e, com doçura e firmeza, tocou sua mão.
Mas o que veio em seguida foi o desmoronamento de tudo.
Pietro afastou-se. Sem olhar. Sem reagir. Sem sequer reconhecer o toque que tantas vezes buscou no escuro.
E então, com a voz que costumava lhe dizer “eu te amo” nas madrugadas, disse algo que a atravessou como uma faca em chamas:
— Senhores, por favor, conheçam as alunas Anne Marie e sua amiga, Sophia Jones.
Amiga?
A palavra que ecoou em sua mente foi amiga.
Amiga?
A garganta dela secou. As pernas fraquejaram, o chão parecia desaparecer sob os pés. Tudo ao redor se tornou borrado, os rostos, as vozes, as luzes.
Ela havia sido apagada, reduzida, escondida.
Sophia manteve o sorriso. Mas por dentro … algo morreu.
Anne ficou paralisada. Tentou dizer algo, mas Sophia já não ouvia. Estava mergulhada numa dor surda. Sentia-se pequena, exposta, ridícula. Como se tudo o que viveram tivesse sido apenas um capricho proibido. Um segredo sujo que ele nunca teve a intenção de assumir.
Foi como se o tempo retrocedesse, e ela voltasse a ser só uma estudante. Só mais uma menina. Enquanto ele… era o professor ilustre, o intelectual respeitado. O homem cobiçado. E ela… a aluna que ele escondia.
A vergonha colou em sua pele como veneno. A mágoa queimava, a traição latejava.
Ele nunca planejou ficar.
Sophia manteve a postura até o último segundo. Cumprimentou os reitores com educação, fingiu estar bem, fingiu que não sentia o coração sendo esmagado no peito.
Quando Pietro se virou novamente para a conversa, esquecendo-se dela como se fosse um vulto, ela soube.
Ele jamais a amaria à luz do dia.
Anne Marie tentou intervir, mas Sophia tocou seu ombro, negando com a cabeça. Um sorriso triste se formou em seus lábios antes de se afastar, decidida a deixar aquele lugar.
Não queria mais vê-lo. Decidiu, naquele instante, seguir sua vida. Iria para a América e esqueceria toda a sua história com Pietro. Amaldiçoou-se por ter acreditado nele, pelo amor que ainda guardava em seu coração. Ele nunca desejou um futuro que pudesse ser exposto publicamente. Era apenas uma garota, e ele a via como um mero divertimento.
Anne tentou alcançá-la, mas Sophia tocou seu ombro num gesto silencioso, suplicando para a amiga não dizer nada.
— Deixe-me ir. — gesticulou com os lábios.
Com um sorriso melancólico e uma lágrima represada, ela virou-se e caminhou com passos firmes para longe dele.
Fora do salão, a fachada grandiosa do hotel não tinha mais brilho algum. Sophia desceu as escadas correndo, segurando a barra do vestido com uma das mãos, enquanto com a outra chamava o carro por aplicativo. Seus olhos estavam marejados, mas não deixou que as lágrimas caíssem até ficar sozinha.
Quando finalmente entrou no veículo e a porta se fechou, a respiração falhou. Seu peito arfava como se estivesse se afogando em terra firme. Passou a mão pelo ventre, sentindo a pequena vida que crescia dentro dela.
E então, entre soluços e silêncio, fez a promessa mais dura de sua vida:
— Eu vou te criar com todo o amor que ele negou a nós dois. E vou arrancar esse homem do meu coração… mesmo que isso me mate um pouco por dentro todos os dias.
Sophia JonesAs portas do elevador se abriram com um suspiro metálico. Ele saiu primeiro, mas sem me tocar, ainda assim, cada passo ao lado dele parecia um fio invisível puxando o meu corpo. O corredor era silencioso, perfumado por um cheiro discreto de madeira encerada e chuva que havia vindo conosco da rua. Quando a chave girou na maçaneta, uma corrente de ar morno nos recebeu. O apartamento era amplo, limpo, com linhas retas de alguém que gosta de controle. Sofás de couro grafite, uma estante com livros, uma mesa de jantar de madeira escura. A cidade brilhava através das janelas como um mosaico.Ele fechou a porta e permaneceu encostado nela por um segundo, como se a segurasse com o peso das costas. Não disse “bem-vinda”, não ofereceu água, não quebrou o clima com gentilezas. Apenas me olhou como quem inicia um depoimento e já prevê a contradição.— Casaco. — ordenou.Sua voz não soava como convite. O encarei e tirei o casado devagar. O tecido do blazer deslizou pelos meus ombros
O relógio no criado-mudo piscava os números em vermelho como se fosse uma contagem regressiva. 19h42. Ainda faltava mais de uma hora para o encontro, mas meu corpo já estava em ebulição, como se cada minuto fosse uma tortura calculada. Eu andava em círculos pelo quarto, os saltos dos meus pensamentos ecoando mais alto que os da sola no piso. A tela do celular repousava sobre a cama, a mensagem dele ainda aberta. Eu a lia pela décima vez só naquela noite, como quem recitava uma sentença de memória:"Vista algo que eu tenha vontade de arrancar."Mordi o lábio, sentindo o arrepio subir pela espinha. Pietro não usava meias palavras. Não usava ternura quando queria me lembrar quem estava no comando. E era justamente isso que me enlouquecia.Fui até o guarda-roupa e abri as portas com força. Os cabides deslizaram, tecidos se agitaram. Escolher a roupa para aquela noite era um jogo de xadrez: eu precisava parecer sóbria, quase formal, como se estivéssemos apenas dois adultos discutindo Direi
Sophia JonesA luz quente do corredor me recebeu como um tapa depois do frio da sala. Coloquei a bolsa no ombro, respirei fundo. Tentei manter o passo firme, mas dentro de mim era só desordem. A aula inteira havia sido um campo de batalha, cada olhar, cada provocação minha uma flecha lançada, cada tensão dele uma resposta que se infiltrava no meu corpo como corrente elétrica.Eu sabia que tinha o atingido. Vi o traço falhar um milímetro no quadro, vi o músculo do maxilar vibrar, vi a respiração pesada quando ele fingia calma.“Respira, Sophia. Respira.”Dei três passos. O som dos saltos ecoou no piso encerado como as três batidas de um martelo. No fim do corredor, duas das meninas da frente ainda cochichavam, olhando para trás, em direção à porta que eu deixara para trás.Eu sorri de canto, sozinha. O jogo continuava.— Sophia. — A voz dele veio baixa, às minhas costas.Meu corpo inteiro reagiu. Virei o rosto devagar.Ele estava na porta, uma mão no batente, o cabelo loiro bagunçado c
Pietro voltou a caminhar. Parei a caneta de repente, como se tivesse lembrado de pedir algo:— Professor? — chamei, acentuando o “r” como quem acaricia uma navalha.— Diga, Jones. — respondeu sem inflexão.— O senhor poderia… — apoiei os cotovelos na mesa, com os dedos entrelaçados, inclinando o corpo para frente — exemplificar um caso em que o consentimento é dado formalmente, mas ainda assim o abuso se configura?O marcador parou no ar. Quase imperceptível, mas parou. A linha que ele ia traçar ficou suspensa e o músculo do maxilar acendeu de novo. — Poderia. — disse, retomando o movimento. — Quando há disparidade de poder a ponto de viciar a vontade. Quando o consentimento vira instrumento de opressão, o papel assinado não salvaguarda ninguém. O Direito não é cúmplice da maldade.“Respira, Sophia. Respira.”Alguns alunos anotaram isso inteiro. Eu não. Eu só senti cada palavra como se me pertencesse. Ele estava falando comigo sem me mencionar.— E quem decide o ponto exato em que a
Sophia JonesQuando empurrei a porta da sala, o ar gelado do ar-condicionado bateu no meu rosto junto com o cheiro conhecido de marcador, papel e café. As janelas deixavam entrar uma luz branca, quase clínica, e os murmurinhos foram cessando à medida que avancei entre as carteiras. Minhas pernas obedeciam a um compasso estranho, meio ensaiado, meio natural, como se eu equilibrasse o papel de quem finge distração e, ao mesmo tempo, sabe exatamente o que está fazendo.Pietro já estava lá, de costas, escrevendo no quadro com sua letra impecável. A calça social bege moldava-lhe as pernas e o quadril sem exagero, acompanhada pelo colete no mesmo tom, ajustado na medida exata dos ombros largos. A camisa branca tinha as mangas dobradas até os antebraços, como quem não suporta formalidades desnecessárias. E os cabelos loiros… estavam bagunçados de um jeito que parecia casual, mas que eu sabia que não era. Aquilo me irritava profundamente: como podia um simples descuido ser tão indecentemente
— Você está querendo saber como foi a aula… ou como uma determinada ruiva se comportou?Pietro parou de andar. Por um segundo, o reflexo dele no vidro escuro da porta ao lado mostrou um homem perfeitamente composto por fora, enquanto por dentro algo se contraía, áspero. A mandíbula marcou. Ele podia quase ouvir o riso do amigo, do outro lado da cidade, aproveitando a oportunidade para cutucá-lo.— Ela estava de tirar o fôlego, com todo respeito. — completou Paulo, sem piedade.Pietro fechou os olhos um instante, respirou pelo nariz, como quem doma um cavalo bravo dentro do peito. Os polegares pairaram sobre o teclado, mas ele não respondeu. Guardou o celular no bolso e retomou a caminhada, atravessando o hall até o estacionamento.A noite lá fora estava limpa, com um vento que prometia chuva distante. Ele destravou o carro com um bip discreto, acomodou o fichário no banco do passageiro e, antes de ligar o motor, tirou novamente o celular. Olhou a tela bloqueada como se ela pudesse, po







