Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York

Gravidez Secreta: O Herdeiro do Diabo de Nova York

last updateDernière mise à jour : 2026-10-16
Par:  Nati AlmeidaMis à jour à l'instant
Langue: Portuguese
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Adrian Wolfe não conhece dó. Construiu um império em cima do medo de Nova York e, quando um senador o encurralou, pagou o preço sem piscar: um casamento de um ano com a filha do homem que o chantageava. Mia Voss também não escolheu aquele altar. O pai a usou a vida inteira como vitrine para os tubarões da cidade. Aos vinte, quase foi estuprada numa gala. Quem a tirou de lá foi Adrian. Ela o amou em silêncio desde então. Ele só viu a filha do chantagista. O contrato já nasceu com o divórcio assinado. O primeiro ano foi um inferno: jantares, humilhação, a modelo que todos diziam ser o único amor dele aparecendo minutos antes do sim para destruir a noiva. Mia aguentou. Até o dia em que o ano acabou. Ela mudou de nome, de país e de vida. Só descobriu a gravidez quando já era tarde demais para voltar. Cinco anos depois, Naomi Brenner volta a Nova York com um menino de quatro anos que tem o rosto do diabo e fala como gente grande. Adrian passou esse tempo inteiro procurando a mulher que sumiu. Um jantar de negócios. Um contrato de milhões. Uma cláusula que ele mesmo escreveu: se houver um herdeiro, o divórcio deixa de valer. Ele comprou um ano. Não contava com o filho. Nem com o fato de que a mulher que ele odiava nunca foi a inimiga.

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Chapitre 1

O lugar à direita

Mia Wolfe

O salão cheirava a dinheiro antigo e aquele vinho que as pessoas pedem para serem vistas pedindo. Eu conhecia o cheiro desde os dezoito anos. Meu pai me empurrava para salas iguais e eu aprendi a sorrir sem ocupar mais do que o espaço de um vaso.

Adrian puxou a cadeira à direita dele, sem nem virar o rosto na minha direção, e eu sentei. Onze meses e quatro dias eu ocupava aquele lugar porque era o da esposa. Ninguém perguntava se eu queria. Era como se a cadeira já vinhesse com o meu nome gravado por causa do contrato.

— A senhora Wolfe... — ele disse, quando um homem de gravata azul estendeu a mão tempo demais na minha direção — ela é só um acordo que o Senado de Nova York teve a gentileza de me vender.

Os presentes na mesa riram no tom certo. Para eles eu era isso: a esposa de papel, a cláusula com um vestido escuro e uma joia discreta. Eu não era mais importante do que a mobília. Na verdade, se eu desaparecesse no meio do segundo prato, alguém pediria outro vinho e todos, inclusive o meu marido, seguiriam a conversa sobre margens como se nada tivesse acontecido.

Dos dezoito aos vinte e três anos meu pai me ensinou o ofício. Entrar depois dos homens, ficar em pé só o necessário, inclinar a cabeça quando o negócio fechava e desaparecer no elevador antes que alguém se desse ao trabalho de lembrar o meu primeiro nome. Eu sempre saía com a maquiagem intacta e o estômago embrulhado.

Agora doía diferente, porque o homem à minha esquerda era o mesmo do terraço. O mesmo que havia ocupado o meu coração desde então.

Tudo começou quando eu tinha vinte anos. O convidado do meu pai já estava bêbado quando me prensou contra a mureta e falou da assinatura como quem fala de um favor que se cobra depois. A mão dele subiu demais; o hálito veio antes da boca. Eu ia empurrá-lo, com os olhos já embaçados pelas lágrimas que ameaçavam cair, quando alguém atravessou o terraço.

Um soco certeiro fez o homem cair. Antes que ele pudesse se dar conta do que o tinha golpeado, um copo foi jogado com fúria sobre ele, acertando sua têmpora. Vidro e uísque escorreram pela gola branca. Adrian, enquanto limpava as mãos com um lenço, mandou tirá-lo dali com uma frase só e sumiu no mesmo instante em que o segurança apareceu. Mas antes, jogou seu casaco nos meus ombros, pesado de lã e de um cheiro delicioso que misturava madeira nobre e âmbar, e que eu nunca esqueci. Ele não perguntou se eu estava bem. Em vez disso, mandou que me levassem para casa. No banco de trás, eu apertei o forro do casaco até os dedos doerem e inventei que aquilo tinha sido proteção, até porque ninguém nunca tinha me defendido daquela forma.

Que tola eu fui. Aquilo não tinha sido proteção; tinha sido limpeza de cena. Quando me casei com ele, descobri que aquele lugar pertencia à família Wolfe.

E mesmo que fosse. Por ironia do destino, eu casei com esse homem e me tornei o brinde dele.

Sloane Whitmore estava na outra ponta. Milão tinha feito bem à ela: pele impecável, usava a mais alta costura. Desde que ela voltou a Nova York há algumas semanas, nenhuma revista se cansava de repetir que ela era a única que o poderoso CEO da Wolfe capital tinha amado. E o pior é que ela estava bem ali… então talvez fosse verdade mesmo.

Ela sorriu para mim por cima da taça.

— Que alívio ver que o contrato ainda te deixa jantar com a gente.

A frase veio baixa, o bastante para o que estavam ali presentes fingirem que não ouviram e o bastante para eu ouvir inteira. Uma mulher à esquerda disfarçou tossindo. O investidor da ponta pediu mais vinho.

— Os negócios do meu marido exigem a minha presença — respondi, tomando lentamente um gole do meu vinho — Os sites de fofoca, por outro lado, andam dizendo que você voltou bem disponível.

Sloane não desfez o sorriso, mas o ângulo mudou, um milímetro, o suficiente para eu saber que a frase tinha chegado onde eu queria.

Meu celular vibrou contra a coxa. Era do cartório. Abri a notificação embaixo da toalha. Faltavam trinta e um dias para assinar o fim. Os papéis do divórcio tinham chegado grampeados no contrato de casamento, uma delicadeza de quem gosta de lembrar de onde a gente veio. O prazo de um ano foi exigência do meu marido, dita sem alarde, no mesmo tom em que se pede água sem gás. No começo doía de um jeito bobo, de noiva que ainda espera ser escolhida. Agora era minha tábua de salvação. Eu contava as noites. Cada jantar era mais um risco vencido e eu ia para a cama com essa conta feita, como quem marca um X num calendário escondido na gaveta.

Um investidor de cabelo grisalho se inclinou na minha direção, educado demais para o que ia perguntar.

— E a senhora Wolfe, o que pensa da fusão?

Adrian respondeu antes que eu abrisse a boca.

— A esposa pensa o que o contrato manda pensar.

Riram de novo. Dessa vez o riso veio mais solto, como se a frase tivesse sido ensaiada para aquele exato segundo. Eu encostei o garfo no prato. Falei sem levantar a voz:

— Fusões se parecem com casamentos arriscados. Quem subestima o que acabou de adquirir se surpreende quando o prazo vence. Contrato nenhum foi feito para durar além da data.

Alguns calaram. Um garfo bateu com um pouco mais de força. Sloane bebeu. Adrian virou o rosto para mim com aquela rapidez de homem que não admite perder na frente dos outros. O olhar durou pouco, mas bastou. Eu segurei o guardanapo no colo até a ponta ficar amassada.

Pediram foto. O casal e a amiga, disseram, como se tudo já tivesse sido arranjado antes. Adrian passou o braço por trás do encosto da minha cadeira e não me tocou. A palma ficou no ar, a uns dois centímetros do meu ombro. Sloane se aproximou pelo outro lado, riu para a lente e beijou o canto da boca dele.

Todos na mesa viram, e eu vi.

Ele afastou o rosto um segundo tarde. O batom dela ficou no lugar errado, um ponto escuro demais para passar por vinho. Eu não baixei a cabeça. Sorri para o flash com a mesma cara que meu pai me ensinou a usar quando o cheque ainda não tinha sido depositado.

Adrian encostou a boca no meu cabelo. A voz saiu só para mim, quente demais para o que dizia.

— No carro. Agora.

Levantei primeiro. Não olhei para trás, porque olhando eu ia imaginar Sloane alcançando o pulso dele, o dedo no lugar do batom, algo falado no pé do ouvido.

A náusea subiu. Não houve cordialidade, nem ao menos um aceno ao me despedir de nenhuma daquelas pessoas. Passei pelo maître sem agradecer. O corredor até os elevadores era mais comprido do que me lembrava.

No elevador encostei a testa no aço escovado. A vida que eu levava era uma mentira patética.

Toda noite, antes de apagar a luz do quarto, eu repetia a mesma frase: sobrevivi a mais um dia.

O motorista já tinha a porta aberta quando cheguei à calçada. O ar da Quinta Avenida entrou mais limpo do que o do salão e, mesmo assim, eu levei um segundo para respirar. Entrei, fechei o cinto, olhei o movimento pelo vidro. Os hotéis piscavam. Um casal atravessava na faixa de mãos dadas. Ela falava sem parar, e o sorriso não saiu dos lábios dele por todo o caminho enquanto os meus olhos conseguiram alcançar os dois.

Quando meus pensamentos voltaram para o carro, esperei o peso do outro corpo no banco, o cheiro dele misturado com o da lã do paletó, a ordem curta que ele costumava dar ao motorista. Mas o que acontecia lá em cima deveria estar muito interessante, porque a porta não abriu.

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