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LUCAS
Meu nome é Lucas Almeida. A imprensa costuma me chamar de "o herdeiro mais cobiçado do país". Para os investidores, sou o novo presidente do Grupo Almeida. Para as revistas de celebridades, sou apenas mais um milionário cercado de luxo. Se dependesse deles, minha vida seria perfeita, mas ninguém conhece a verdade. Tenho trinta anos, uma fortuna que nunca consegui gastar e uma empresa bilionária prestes a ficar sob minha responsabilidade. Cresci cercado por privilégios, viagens internacionais, carros de luxo e tudo o que o dinheiro pode comprar. Só existe uma coisa que ele nunca conseguiu comprar. Felicidade. Há oito anos, cometi o maior erro da minha vida. Na época, eu tinha apenas vinte e dois anos. Era impulsivo, inconsequente e acreditava que nada poderia me atingir. Helena era apenas mais uma das minhas ficantes. Até o dia em que apareceu, chorando, na porta do meu apartamento, segurando um teste de gravidez nas mãos. Ela estava esperando um filho meu. Antes que eu pudesse decidir o que fazer, meu pai decidiu por mim. Marcelo Almeida jamais permitiria que o herdeiro da família tivesse um filho fora do casamento. Para proteger o nome dos Almeida, ele me obrigou a subir ao altar. Eu não estava apaixonado. Nunca estive, mas obedeci. Dois meses depois do casamento, Helena perdeu o bebê. Apesar da dor daquela perda, enxerguei uma oportunidade de recuperar minha liberdade. Achei que, sem o filho, não havia mais motivos para continuarmos juntos. Eu estava errado. Quando pedi o divórcio, meu pai me mostrou uma cláusula do contrato pré-nupcial que seus advogados haviam preparado antes mesmo do casamento. Se eu me divorciasse antes de completar quinze anos de casado, perderia o direito de assumir a presidência do Grupo Almeida Construções & Infraestrutura e abriria mão de boa parte da herança da família. Naquele instante, percebi que não havia me casado apenas com Helena. Eu havia me casado com uma prisão. Com o passar dos anos, nosso relacionamento se transformou em um campo de batalha. As discussões substituíram as demonstrações de carinho, e o respeito deu lugar ao silêncio. Dormíamos em quartos separados. Conversávamos apenas quando era necessário. Helena dizia que ainda me amava. Eu sabia que ela amava muito mais o sobrenome Almeida, o status e a fortuna do que a mim. Naquela manhã, enquanto ajustava a gravata diante do espelho, Helena apareceu na porta do quarto. — Vai sair sem tomar café comigo? A voz de Helena ecoou atrás de mim. Olhei para ela. Ela usava um elegante vestido de seda vermelho e segurava uma xícara de café. — Tenho uma reunião importante. — Você sempre tem uma reunião importante. Respirei fundo. Não queria começar outra discussão. — Hoje assumo oficialmente a presidência da empresa. — Eu sei. Aproximou-se lentamente. Parou ao meu lado. — Só espero que você não esqueça que continua sendo meu marido. Fechei os olhos por um segundo. Meu marido. Duas palavras que já não significavam absolutamente nada. Peguei o relógio sobre a cômoda e o coloquei no pulso. — Quando eu voltar, quero conversar sobre o divórcio. O sorriso desapareceu do rosto dela. — Você ainda insiste nisso? — Até quando pretende prolongar isso? Ela cruzou os braços. — Até você entender que eu nunca vou deixar de ser sua esposa. — Helena... — Não. Sua voz endureceu. — Você fez um juramento diante de Deus e de toda a sociedade. — Fiz porque fui obrigado. Ela fingiu não ouvir. — Você pertence a mim, Lucas. Aquelas palavras me causaram um desconforto imediato. Respirei fundo. Não valia a pena discutir. Peguei as chaves do carro e caminhei até a porta. Antes de sair, ouvi sua última frase. — Você pode fugir para a empresa todos os dias... Ela esperou que eu olhasse para trás. Não olhei. — ...mas sempre vai voltar para mim. Fechei a porta sem responder. Enquanto o elevador descia, tive a estranha sensação de que aquela prisão estava prestes a mudar. (...) O trânsito estava surpreendentemente tranquilo para uma segunda-feira. Enquanto dirigia pelas avenidas da cidade, tentei afastar da mente a discussão que acabara de ter com Helena. Não queria levar aquele peso para o meu primeiro dia como presidente da empresa. A partir daquele momento, eu precisava pensar apenas nos negócios. Estacionei meu carro na garagem privativa do Grupo Almeida Construções & Infraestrutura e entreguei a chave ao manobrista. — Bom dia, senhor Almeida. — Bom dia. Assim que as portas de vidro se abriram, fui recebido pelo imponente saguão revestido de mármore branco. O logotipo dourado da empresa ocupava quase toda a parede principal, refletindo a luz dos enormes lustres de cristal. Aquele lugar sempre me impressionava. Meu avô havia fundado a empresa com apenas um caminhão e meia dúzia de funcionários. Décadas depois, ela se tornara uma das maiores construtoras do país. Agora, cabia a mim dar continuidade àquele legado. Os funcionários interromperam o que estavam fazendo assim que me viram entrar. — Bom dia, senhor Lucas. — Parabéns pela posse. — Sucesso nessa nova fase. Cumprimentei cada um deles com um sorriso discreto. Apesar da fama de playboy que a imprensa insistia em alimentar, eu sabia exatamente o peso daquela responsabilidade. A empresa empregava milhares de famílias. Uma decisão errada poderia comprometer o futuro de muita gente. — Senhor Lucas. A voz da recepcionista chamou minha atenção. Era Sônia, funcionária da empresa há mais de vinte anos. — Seu pai já está aguardando o senhor na sala de reuniões. Assenti. — Obrigado, Sônia. Enquanto caminhava pelo corredor principal, observei os departamentos funcionando a todo vapor. Engenheiros analisavam plantas. Arquitetos discutiam projetos. Advogados carregavam pilhas de contratos. Todos pareciam completamente concentrados. Era exatamente assim que eu queria ver aquela empresa. Organizada. Produtiva. Respeitada. Quando cheguei à sala de reuniões, bati levemente na porta antes de entrar. Meu pai estava de pé, observando a cidade através da enorme parede de vidro. Ao me ver, abriu um raro sorriso. — Achei que fosse se atrasar. — Nunca me atrasaria no meu primeiro dia. Ele caminhou até mim e apertou minha mão com firmeza. — A partir de hoje, esta empresa é sua. Olhei ao redor da sala. Na parede estavam penduradas fotografias antigas. Meu avô em seu primeiro canteiro de obras. Meu pai assinando o contrato do primeiro grande empreendimento. A inauguração da sede. Era impossível não sentir o peso da responsabilidade. — Espero estar à altura. Meu pai colocou a mão sobre meu ombro. — Você foi preparado para isso desde que nasceu. Assenti em silêncio. Talvez ele estivesse certo. Eu conhecia cada setor daquela empresa. Cada contrato importante. Cada cliente estratégico. Mas administrar números parecia muito mais simples do que administrar a própria vida. — Os diretores já estão esperando. As portas da sala se abriram e os principais executivos entraram um a um. Todos me cumprimentaram cordialmente. Depois de uma breve apresentação, meu pai fez o discurso oficial. — Senhores, depois de quarenta anos à frente do Grupo Almeida Construções & Infraestrutura, chegou a hora de passar o bastão. Tenho orgulho de apresentar o novo presidente da empresa... meu filho, Lucas Almeida. A sala foi tomada por aplausos. Levantei-me lentamente. Respirei fundo. Era o momento pelo qual me preparara durante anos. — Antes de qualquer coisa, quero agradecer pela confiança de todos. Sei que assumir uma empresa deste tamanho é uma enorme responsabilidade. Não pretendo mudar aquilo que fez do Grupo Almeida uma referência nacional, mas acredito que toda empresa precisa evoluir. Meu compromisso é conduzir esta companhia com responsabilidade, inovação e respeito por cada funcionário que faz parte desta história. Alguns diretores assentiram positivamente. Aquilo aumentou minha confiança. Após quase uma hora de reunião, meu pai entregou oficialmente a pasta com todos os documentos da presidência. — Bem-vindo ao seu novo cargo, presidente. Pela primeira vez naquele dia, sorri de verdade. Talvez aquele fosse o recomeço que eu precisava.POV NATÁLIAA manhã estava tranquila no andar da presidência. Eu estava sentada à minha mesa revisando alguns documentos e respondendo aos e-mails que haviam chegado logo cedo. Ao meu lado, Pedro e Gabriel conversavam sobre um projeto enquanto esperavam por uma reunião.Eu tentava me concentrar no trabalho, mas os dois não pareciam dispostos a manter o silêncio.— Se você continuar alterando esses números, o orçamento nunca vai fechar — Alex comentou, olhando para a planilha.— O problema não são os números. O problema é que você está cortando justamente onde não deveria — Gabriel respondeu.Pedro soltou uma risada.— Vocês dois estão discutindo por causa disso desde cedo?— Porque ele não entende que algumas mudanças são necessárias — Gabriel rebateu.— E você não entende que precisamos respeitar o orçamento — Alex respondeu.Pedro balançou a cabeça, divertido.Revirei os olhos, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.— Vocês dois deveriam discutir isso em outro lugar — falei, se
POV LUCASA noite estava agradável e, pela primeira vez naquela semana, eu não precisava pensar em contratos, reuniões ou problemas da empresa.Estava sentado em uma mesa no canto do bar com Gabriel, Pedro e Alex. Os três discutiam sobre alguma partida de futebol enquanto eu apenas observava, tomando minha bebida.— Eu ainda não entendo como vocês conseguem discutir tanto por causa de futebol — Alex comentou.— Porque você não entende nada de futebol — Pedro respondeu.— E você entende?— Muito mais que você.Gabriel soltou uma risada.— Vocês dois são ridículos.— Ridículo é você torcer para aquele time — Pedro rebateu.— Vamos mudar de assunto — falei, já cansado daquela discussão.Pedro apontou para mim.— Está vendo? É por isso que ele é o único sensato dessa mesa.— Não. Ele só quer que vocês parem de falar — Alex corrigiu.— Também. — Ri baixo.Era exatamente por isso que gostava de estar com eles. Apesar das provocações, eram os poucos momentos em que eu conseguia esquecer um p
NATÁLIASábado à noite.Depois de uma semana intensa de trabalho, eu só queria esquecer um pouco da rotina. Precisava rir, conversar e passar algumas horas longe de planilhas, reuniões e, principalmente, dos pensamentos que vinham me acompanhando nos últimos dias.Pensamentos sobre Lucas. Balancei a cabeça diante do espelho.— Para com isso, Natália — murmurei para mim mesma.Peguei minha bolsa e saí de casa. Quando cheguei ao apartamento de Marina, toquei a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abriu.— Finalmente! — Marina falou, abrindo um sorriso. — Achei que você tinha desistido de vir.— Claro que não. Eu só demorei um pouco para me arrumar — respondi, entrando.— Um pouco? — Luísa apareceu atrás dela. — Você demorou quase uma hora.— Vocês estavam contando?— É claro — Camila respondeu, sentada no sofá com uma taça de vinho nas mãos. — Não temos nada melhor para fazer.Ri e deixei minha bolsa sobre uma cadeira.— Vocês são impossíveis.Marina fechou a porta e me entrego
Acordei lentamente, o corpo ainda preso numa espécie de névoa quente e confusa. Por alguns segundos, o cérebro teimou em acreditar que eu estava no meu próprio quarto, na cama larga e fria que compartilhava com Helena. Mas o cheiro era diferente. O colchão, não. Era o sofá. O tecido macio contra a minha pele, o apoio um pouco baixo demais para as costas, a posição torta em que eu tinha desmaiado horas antes.O apartamento estava silencioso. Silencioso demais.Abri os olhos de verdade. A luz da manhã filtrava pelas cortinas finas, pintando o chão de um dourado pálido. Levantei o tronco, sentindo cada músculo reclamar. Passei a mão pelo rosto, pelo cabelo bagunçado, e olhei ao redor como se o ambiente pudesse me dar alguma resposta.— Natália?A voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Rouca. Estranha até para mim.Nenhuma resposta.O silêncio me incomodou de imediato. Ontem ela parecia forte, firme, resolvida a não se deixar abalar. Mas eu tinha visto o tremor nas mãos dela quando falo
NatáliaA segunda-feira parecia não ter fim. Desde que cheguei ao Grupo Almeida naquela manhã, minha mesa não ficou vazia nem por cinco minutos. Eram contratos para conferir, reuniões para remarcar, ligações de clientes importantes e uma sequência interminável de e-mails que pareciam se multiplicar sempre que eu respondia um.Quando olhei para o relógio do computador, já passava das dezoito horas.Finalmente.Alonguei discretamente os ombros e comecei a organizar minha mesa. Gostava de deixar tudo impecável antes de ir embora. Era uma mania antiga, daquelas que minha mãe dizia que eu herdara dela.O último andar já estava praticamente vazio. Marina apareceu ao lado da minha mesa segurando a bolsa.— Até amanhã, Nat.Sorri.— Até amanhã. Vai descansar.— Você também. Não fica trabalhando até tarde.Ela lançou um olhar divertido para a porta da presidência antes de entrar no elevador.— E tenta convencer o chefe a fazer o mesmo.Balancei a cabeça, rindo.— Boa noite.Assim que ela foi e
LUCASO ronco do motor ecoou pelo autódromo no instante em que pisei mais fundo no acelerador. O carro respondeu imediatamente. A curva surgiu à minha frente e reduzi apenas o suficiente para manter o controle. Alguns metros atrás, Gabriel tentava diminuir a distância, enquanto Pedro e Alex disputavam posição logo depois.Sorri de lado. Fazia semanas que não dirigia daquele jeito. Ali, dentro do carro, eu não era presidente do Grupo Almeida. Não existiam contratos, reuniões, investidores ou funcionários esperando respostas. Muito menos um casamento fracassado me esperando em casa. Ali, existia apenas velocidade. Cruzei a linha de chegada alguns segundos antes dos outros.Diminuí a velocidade e conduzi o carro até os boxes. Assim que desliguei o motor, Gabriel estacionou ao meu lado.— Você continua insuportável.Abri a porta e saí do carro. — Perdeu de novo. — Porque você roubou.Ri.— Essa desculpa já tem uns dez anos.Pedro estacionou logo atrás.— Eu falei que ele ia levar isso c







