MasukO rosto de Mauro perdeu a cor. Foi coisa rápida, quase nada, mas eu percebi. Pela primeira vez desde que entrei naquela sala, ele pareceu menos dono do mundo e mais um homem que tinha acabado de ver alguma coisa sair completamente do controle.
— Você não sentiu nada? — ele perguntou. — Senti o cheiro do perfume. — Só isso? — Só. É bom, se é isso que você quer ouvir. Mas não me deu vontade de arrancar sua roupa nem de escrever seu nome no meu caderno. Ele não achou graça. Pegou o frasco de novo e borrifou mais no pescoço, nos pulsos e no ar entre nós. O cheiro ficou tão forte que tive vontade de espirrar. Dei um passo para trás, mas ele se aproximou, olhando fixamente para o meu rosto, como se meus olhos fossem algum exame de laboratório. — E agora? — Agora está exagerado. — Nathalia, olha para mim. Olhei. Devia ser uma cena linda vista de fora: eu, num quarto vermelho cafona, encarando o CEO bilionário mais desejado da empresa enquanto ele esperava que um perfume secreto me transformasse numa idiota apaixonada. Por dentro, eu só pensava que rico realmente inventava problemas que pobre jamais teria tempo de ter. Mas seria mentira dizer que a proximidade dele não mexia em nada. Não era o Relux. Eu tinha certeza disso. Era Mauro mesmo. A pele, a voz, a boca bonita demais, a tatuagem no pescoço subindo pelo colarinho. Tudo isso era irritantemente eficiente. Só que eu não daria esse gostinho para ele nem morta. — Nada? — ele insistiu. — Nada. — Nem calor? Tontura? Alguma alteração? — Só irritação no nariz e na paciência. Ele passou a mão pelo cabelo, bagunçando os fios sempre impecáveis. Aquilo quase me distraiu. Quase. Tinha alguma coisa indecente em ver Mauro Ventura perder a pose por causa de mim. Indecente não no sentido literal. Indecente no sentido de injusto mesmo. O homem ficava bonito até frustrado. Que inferno. — Você tem algum problema olfativo? — Não. Sou sensível a cheiro, inclusive. — Já fez avaliação hormonal? Psiquiátrica? Alguma coisa? Eu ri sem conseguir evitar. — Você está mesmo tentando descobrir se eu tenho defeito porque não fiquei apaixonada por você? — Não é paixão. É reação. — Ah, perdão. “Reação” torna tudo muito mais normal. Ele apoiou o frasco na bancada com força. Por um segundo, achei que fosse explodir. Mas apenas respirou fundo, tentando se controlar. Era estranho ver aquele homem, que provavelmente conseguia qualquer coisa com um telefonema, completamente perdido porque uma auxiliar administrativa não tinha babado no perfume dele. — Eu vou ao laboratório — ele disse. — Preciso verificar algumas coisas. — Ótimo. Posso voltar para o meu trabalho normal? — Amanhã você começa como minha assistente. — Mesmo depois do fracasso do seu perfume? — Principalmente por causa dele. Aquilo me deu um frio na barriga. Eu tinha conseguido a promoção, sim, mas não por mérito, nem por reconhecimento. Eu estava sendo promovida porque era um problema que Mauro Ventura não conseguia resolver. E, pelo jeito como ele me olhava, eu não era só um problema técnico. Era uma provocação. Antes que eu saísse, ele falou: — Nathalia. Parei na porta. — Não comenta isso com ninguém. — Isso o quê? O quarto de motel da empresa, o perfume secreto ou o fato de você achar que sou imune ao seu feitiço de sedução? — Nada. Não comenta nada. O tom dele mudou. Ficou baixo, sério. Pela primeira vez, percebi que aquela história talvez fosse maior do que a vaidade de um homem bonito demais. Mesmo assim, não resisti: — Tá. Mas, para constar, se eu aparecer com alergia, vou processar todo mundo. Ele quase sorriu. Quase. Voltei para o meu setor com a cabeça cheia e o cheiro dele grudado em mim. Isso foi o pior. Não o perfume em si, mas a lembrança do perfume misturada à imagem dele chegando perto, perguntando se eu sentia alguma coisa. Eu não tinha sentido o que ele queria. Mas tinha sentido alguma coisa. Uma coisa minha, não do Relux. E justamente por ser minha, era mais perigosa. Quando entrei, as conversas diminuíram quase ao mesmo tempo. Alessandra estava sentada na beirada da minha mesa, me esperando como se fosse dona dela. Dalila fingia olhar para o computador, mas estava claramente ouvindo. Outras colegas olhavam de canto, curiosas demais para disfarçar. — E aí? — Alessandra perguntou. — O que aconteceu lá em cima? — Nada demais. — Como assim nada demais? Você sobe para falar com Mauro Ventura, volta com essa cara e quer que eu acredite nisso? — Eu estou com cara de quê? — De quem viu coisa. Pior que eu tinha visto mesmo. Só não podia contar. Comecei a juntar minhas coisas da mesa, porque no dia seguinte eu já não trabalharia mais ali. A mudança de setor, que deveria ser motivo de alegria, estava parecendo uma condenação com crachá novo. — Ele explicou por que te escolheu? — Dalila perguntou. — Disse que precisava de alguém do operacional. — E tinha que ser você? — outra colega soltou. Respirei fundo. — Pelo visto, sim. Alessandra me puxou pelo braço, baixando a voz. — Amiga, me conta. Sério. Você sabe que pode confiar em mim. Eu olhei para ela. Alessandra era minha amiga, mas também era a rádio interna não oficial da Noir. Ela conseguia transformar um espirro em comunicado urgente. — Alê, não é que eu não confie em você. Eu só não confio na sua boca. Ela fechou a cara. — Nossa. Obrigada pela consideração. — Não faz drama. Ela saiu ofendida e atravessou o setor. Não ouvi o que disse para as meninas da outra fileira, mas percebi o efeito. Em poucos minutos, os olhares mudaram. Antes era curiosidade. Agora tinha julgamento. Como se todo mundo tivesse decidido que eu não tinha subido até o último andar para uma reunião, mas para alguma coisa bem menos profissional. Foi então que o elevador abriu. Mauro entrou no setor. Só que não era o Mauro impecável de sempre. Ele estava descabelado, com a camisa meio aberta no colarinho e uma expressão quase desesperada. Todo mundo ficou em silêncio. Ele veio direto até a minha mesa, como se não existisse mais ninguém ali. — Preciso te perguntar uma coisa. — Agora? — Agora. Olhei em volta, constrangida com todos os olhos em nós. — Não é melhor conversar em particular? Mauro parecia nem perceber a plateia. — Você já se apaixonou? O setor inteiro ouviu. E eu, pela primeira vez naquele dia, fiquei sem resposta.A antiga torre da Noir estava quase vazia.Não abandonada, não destruída, não cinematográfica o bastante para satisfazer quem gosta de ruína bonita. Apenas esvaziada. O letreiro luminoso tinha sido retirado, as vitrines estavam cobertas por tapumes discretos, e o hall principal, onde antes o cheiro da marca tentava convencer todo mundo de que luxo era destino, agora cheirava a pano úmido e tinta fresca.O lugar onde tudo começou errado. Eu sabia exatamente qual era. Não fui ao laboratório, nem à presidência, nem à sala de conselho. Fui à antessala do andar executivo, aquela em que Mauro me observou pela primeira vez tentando entender por que eu não reagia ao perfume dele. Na época, eu era funcionária comum demais para aquele andar, e ele era arrogante demais para admitir que não saber me controlar tinha virado curiosidade antes de virar desejo.A porta estava aberta. Mauro estava lá dentro. Sem terno. Sem gravata. Sem perfume perceptível. Usava camisa escura simples, mangas dobradas,
Os flashes explodiram antes que eu conseguisse decidir se voltava para dentro.Do lado de fora da Noir, havia repórteres, curiosos, funcionários fingindo que não eram curiosos, seguranças tentando parecer úteis e celulares levantados em todos os ângulos. Meu nome vinha de bocas diferentes ao mesmo tempo, cada uma tentando me puxar para uma versão mais vendável de mim.— Nathalia, você era amante de Mauro Ventura?— Você sabia do perfume?— É verdade que você é imune?— Você derrubou a Noir por vingança?A última pergunta quase me fez rir. Vingança. Como se eu tivesse acordado um dia, colocado uma roupa qualquer e decidido destruir um império entre o almoço e o expediente. Como se não tivesse sido o império a me escolher primeiro, me cercar, me cheirar, me catalogar e depois se ofender porque eu ainda respirava sem pedir autorização.Parei no primeiro degrau da entrada. Um segurança tentou abrir caminho, mas levantei a mão. Não para dar entrevista bonita. Só para não sair correndo como
“A amante que derrubou o império Ventura.”A legenda ficou na tela do celular de Larissa como uma cusparada elegante. Eu li uma vez, depois outra, esperando sentir raiva do tamanho certo, mas o que veio primeiro foi cansaço. Um cansaço antigo, quase sem surpresa. Depois de tudo que eu tinha dito, depois de maleta com meu nome, crachá falso, mulheres dopadas, Helena viva, Mauro criança usado como parâmetro e Marisa tentando transformar trauma em método, o mundo lá fora tinha encontrado a palavra mais fácil.Amante.Claro.Era mais simples do que imune. Mais vendável do que vítima. Mais picante do que testemunha. Mais confortável do que admitir que uma empresa inteira tinha tratado mulheres como matéria-prima.Larissa percebeu minha cara e abaixou o celular.— Eu não devia ter mostrado.— Devia. Melhor ver a facada vindo do que fingir que é brisa.Mauro pegou o celular da mão dela antes que eu impedisse. Leu a manchete, e a expressão dele mudou. Não foi culpa bonita, nem tristeza polida
O vidro quebrou dentro da caixa de contenção.Não houve explosão, nem luz bonita, nem aquele tipo de silêncio sagrado que as pessoas inventam depois para transformar escolha difícil em cena perfeita. Houve um estalo seco, pequeno demais para o tamanho daquilo tudo. A última fração estável do Relux se espalhou no fundo metálico da caixa, azul por dois segundos, depois escura, feia, quase comum.Marisa gritou como se tivéssemos quebrado um osso dela.— Suas idiotas!Foi a primeira vez que ela nos chamou de alguma coisa sem disfarce técnico. Não éramos origem, imune, resposta resistente ou linhagem afetiva. Éramos idiotas. Duas mulheres que tinham feito a ciência dela sangrar fora do vocabulário bonito.Helena soltou o caco antes de se cortar. Eu também. Beatriz fechou a tampa da caixa de contenção com força, e o técnico externo travou o lacre. Tudo muito rápido, muito prático, quase ofensivo para Marisa, que parecia esperar um ritual mais digno para o fim da própria obsessão.Mauro cont
A ampola azul estava na mão de Mauro.Por alguns segundos, o auditório inteiro virou uma única respiração presa. Era pequena demais para carregar tanto estrago. Um vidro fino, quase bonito, com um líquido azul que parecia refletir a luz antes mesmo de ser iluminado. Se alguém entrasse naquele momento sem saber de nada, talvez achasse que era uma amostra de perfume de luxo, uma promessa de campanha, um produto. Era assim que a Noir tinha sobrevivido por tanto tempo: fazendo horror parecer embalagem.Mauro olhava para a ampola como se ela tivesse brotado da pele dele.— Eu não coloquei isso no bolso.Marisa sorriu.— Eu sei.Beatriz fez sinal para os seguranças, mas ninguém se moveu depressa. Não porque faltasse ordem, mas porque todos entenderam o risco de um gesto errado. Mauro segurava a última fração estável. Se alguém avançasse, se ele se assustasse, se a ampola caísse, ninguém ali sabia o que podia ser liberado. Talvez nada. Talvez tudo. O desconhecido era uma forma eficiente de c
A última fração estável estava com Marisa.O vídeo terminou, mas a imagem dela colocando a ampola azul no bolso do jaleco continuou na minha cabeça. A mulher tinha sido contida, cercada, exposta, gravada e, ainda assim, saíra da sala com a única coisa que podia manter o Relux vivo. Era quase admirável, se não fosse doentio.Beatriz viu o vídeo duas vezes, sem piscar. Na terceira, entregou o celular a um dos seguranças.— Revistem Marisa agora.— Tarde — Marisa disse, ainda com os pulsos presos. — Vocês deviam ter aprendido que o corpo nunca é o esconderijo mais interessante.Larissa fechou os olhos.— Eu odeio quando vilão fala bonito. Dá vontade de jogar uma cadeira.Dois seguranças revistaram o jaleco de Marisa ali mesmo, diante de todos. Encontraram luvas, um cartão de acesso, um aplicador vazio, mas nenhuma ampola. Eu olhei para Mauro. Ele entendeu antes que alguém dissesse. Marisa tinha mostrado a ampola à câmera sabendo que o vídeo chegaria até mim. Se não estava mais com ela, e







