FAZER LOGIN— Você já se apaixonou?
O setor inteiro ouviu. Eu fiquei parada, olhando para Mauro, tentando entender se ele tinha realmente acabado de me fazer aquela pergunta na frente de todo mundo. Havia umas vinte pessoas ali. Vinte pessoas fingindo que estavam trabalhando, mas com os ouvidos praticamente enfiados na nossa conversa. — Como é? — perguntei, porque às vezes a gente fala uma coisa idiota só para ganhar tempo. Mauro parecia transtornado. A camisa estava meio aberta no colarinho, o cabelo bagunçado, uma gota de suor escorrendo pela lateral do rosto. Era estranho vê-lo daquele jeito. Ele, que sempre parecia ter saído de uma propaganda de perfume caro, agora estava parecendo um homem comum. Pior: um homem comum enlouquecendo. — Eu preciso saber se você já se apaixonou — ele repetiu. Ouvi alguém engasgar de leve atrás de mim. Talvez Dalila. Talvez Alessandra. Talvez eu mesma por dentro. Respirei fundo. — Doutor Mauro, acho melhor conversarmos em particular. — Não precisa. É uma pergunta simples. — Simples para quem? Para mim não é. — Você já sentiu isso ou não? Agora eu estava ficando com raiva. Não era só constrangimento. Era raiva mesmo. Quem ele pensava que era para sair do laboratório, atravessar a empresa inteira e me perguntar aquilo na frente dos meus colegas? Nós mal tínhamos conversado. Ele tinha me promovido por causa de um perfume secreto maluco e agora queria invadir minha vida afetiva como se estivesse perguntando a senha do Wi-Fi. — O senhor me desculpe — falei, fazendo questão de usar “senhor” —, mas isso é pessoal. Ele pareceu incomodado. — Mauro. — Doutor Mauro — corrigi, num tom mais alto do que o necessário. — Eu não me sinto à vontade para falar sobre esse tipo de coisa com o senhor. Principalmente aqui. O silêncio que veio depois foi horrível. Dava para sentir o constrangimento das pessoas em volta. Algumas olhavam para mim com surpresa. Outras olhavam para ele como se aquilo fosse a coisa mais romântica do mundo. Era impressionante. O homem podia fazer a pergunta mais inconveniente da história e ainda assim tinha gente achando lindo. Mauro pareceu finalmente perceber onde estava. Olhou ao redor, viu os rostos curiosos, os cochichos mal disfarçados, a tensão no ar. Passou a mão pelo cabelo e soltou o ar devagar. — Você tem razão — disse, mais baixo. — Eu passei do ponto. Aquilo me surpreendeu um pouco. Eu esperava arrogância, não um pedido de desculpa. — Passou bastante. — É que eu não estou me reconhecendo. — Isso eu percebi. Ele me olhou de um jeito estranho. Não era o olhar sedutor que eu já tinha visto ele lançar para outras mulheres. Era outra coisa. Confusão, talvez. Ou desespero. Pela primeira vez, tive a impressão de que o tal perfume não era só uma vaidade absurda de bilionário. Talvez aquilo mexesse com algo mais profundo nele. Algo que eu ainda não entendia. — Amanhã, oito horas, na minha sala — ele disse, tentando recuperar a postura. — Começamos oficialmente. — Como sua assistente? — Como minha assistente. — E sem perguntas constrangedoras na frente da empresa inteira? Ele hesitou. — Sem perguntas constrangedoras na frente da empresa inteira. — Ótimo. Mauro ajeitou o colarinho, como se isso fosse suficiente para recuperar a dignidade perdida, e caminhou até o elevador. Antes de entrar, olhou para mim uma última vez. Ou talvez tenha olhado para os meus olhos, procurando de novo aquela reação que não vinha. As portas se fecharam. No segundo seguinte, o setor explodiu. — Que porra foi isso? — Alessandra perguntou, chegando perto antes de todo mundo. Dalila veio logo atrás. — Eu nunca vi ele agir assim com ninguém. — Ele te perguntou se você já se apaixonou, Nathalia — Alessandra disse. — Na frente de todo mundo. — Obrigada por repetir. Eu quase tinha esquecido. Alessandra cruzou os braços, me olhando com aquela mistura de curiosidade e veneno que ela usava quando queria parecer amiga e jornalista investigativa ao mesmo tempo. — Você tem certeza que não aconteceu nada lá em cima? — Tenho. — Então por que ele veio até aqui desse jeito? — Porque ele é maluco. — Maluco por você, né? Revirei os olhos. — Não começa. — Eu não estou começando nada. Eu só tenho olhos. — Então usa eles para trabalhar. Dalila soltou uma risadinha, mas Alessandra não riu. Continuou me olhando como se estivesse tentando arrancar alguma coisa do meu rosto. E talvez tivesse alguma coisa ali mesmo. Porque eu estava irritada, sim. Constrangida, com certeza. Mas também havia uma parte ridícula de mim que ainda lembrava o jeito como ele tinha dito meu nome lá em cima. O jeito como tinha me olhado no setor, como se eu fosse uma resposta e um perigo ao mesmo tempo. Tentei voltar para minhas coisas, mas já era inútil. Depois daquilo, ninguém naquele lugar ia olhar para mim do mesmo jeito. Eu tinha subido para o último andar como uma funcionária qualquer e voltado como assunto principal da empresa. E, pela primeira vez, percebi uma coisa que me deu um certo prazer e um certo medo ao mesmo tempo: Mauro Ventura, o homem que deixava todas as mulheres aos seus pés, estava completamente desestabilizado por mim. O problema era que eu talvez estivesse começando a gostar disso.A antiga torre da Noir estava quase vazia.Não abandonada, não destruída, não cinematográfica o bastante para satisfazer quem gosta de ruína bonita. Apenas esvaziada. O letreiro luminoso tinha sido retirado, as vitrines estavam cobertas por tapumes discretos, e o hall principal, onde antes o cheiro da marca tentava convencer todo mundo de que luxo era destino, agora cheirava a pano úmido e tinta fresca.O lugar onde tudo começou errado. Eu sabia exatamente qual era. Não fui ao laboratório, nem à presidência, nem à sala de conselho. Fui à antessala do andar executivo, aquela em que Mauro me observou pela primeira vez tentando entender por que eu não reagia ao perfume dele. Na época, eu era funcionária comum demais para aquele andar, e ele era arrogante demais para admitir que não saber me controlar tinha virado curiosidade antes de virar desejo.A porta estava aberta. Mauro estava lá dentro. Sem terno. Sem gravata. Sem perfume perceptível. Usava camisa escura simples, mangas dobradas,
Os flashes explodiram antes que eu conseguisse decidir se voltava para dentro.Do lado de fora da Noir, havia repórteres, curiosos, funcionários fingindo que não eram curiosos, seguranças tentando parecer úteis e celulares levantados em todos os ângulos. Meu nome vinha de bocas diferentes ao mesmo tempo, cada uma tentando me puxar para uma versão mais vendável de mim.— Nathalia, você era amante de Mauro Ventura?— Você sabia do perfume?— É verdade que você é imune?— Você derrubou a Noir por vingança?A última pergunta quase me fez rir. Vingança. Como se eu tivesse acordado um dia, colocado uma roupa qualquer e decidido destruir um império entre o almoço e o expediente. Como se não tivesse sido o império a me escolher primeiro, me cercar, me cheirar, me catalogar e depois se ofender porque eu ainda respirava sem pedir autorização.Parei no primeiro degrau da entrada. Um segurança tentou abrir caminho, mas levantei a mão. Não para dar entrevista bonita. Só para não sair correndo como
“A amante que derrubou o império Ventura.”A legenda ficou na tela do celular de Larissa como uma cusparada elegante. Eu li uma vez, depois outra, esperando sentir raiva do tamanho certo, mas o que veio primeiro foi cansaço. Um cansaço antigo, quase sem surpresa. Depois de tudo que eu tinha dito, depois de maleta com meu nome, crachá falso, mulheres dopadas, Helena viva, Mauro criança usado como parâmetro e Marisa tentando transformar trauma em método, o mundo lá fora tinha encontrado a palavra mais fácil.Amante.Claro.Era mais simples do que imune. Mais vendável do que vítima. Mais picante do que testemunha. Mais confortável do que admitir que uma empresa inteira tinha tratado mulheres como matéria-prima.Larissa percebeu minha cara e abaixou o celular.— Eu não devia ter mostrado.— Devia. Melhor ver a facada vindo do que fingir que é brisa.Mauro pegou o celular da mão dela antes que eu impedisse. Leu a manchete, e a expressão dele mudou. Não foi culpa bonita, nem tristeza polida
O vidro quebrou dentro da caixa de contenção.Não houve explosão, nem luz bonita, nem aquele tipo de silêncio sagrado que as pessoas inventam depois para transformar escolha difícil em cena perfeita. Houve um estalo seco, pequeno demais para o tamanho daquilo tudo. A última fração estável do Relux se espalhou no fundo metálico da caixa, azul por dois segundos, depois escura, feia, quase comum.Marisa gritou como se tivéssemos quebrado um osso dela.— Suas idiotas!Foi a primeira vez que ela nos chamou de alguma coisa sem disfarce técnico. Não éramos origem, imune, resposta resistente ou linhagem afetiva. Éramos idiotas. Duas mulheres que tinham feito a ciência dela sangrar fora do vocabulário bonito.Helena soltou o caco antes de se cortar. Eu também. Beatriz fechou a tampa da caixa de contenção com força, e o técnico externo travou o lacre. Tudo muito rápido, muito prático, quase ofensivo para Marisa, que parecia esperar um ritual mais digno para o fim da própria obsessão.Mauro cont
A ampola azul estava na mão de Mauro.Por alguns segundos, o auditório inteiro virou uma única respiração presa. Era pequena demais para carregar tanto estrago. Um vidro fino, quase bonito, com um líquido azul que parecia refletir a luz antes mesmo de ser iluminado. Se alguém entrasse naquele momento sem saber de nada, talvez achasse que era uma amostra de perfume de luxo, uma promessa de campanha, um produto. Era assim que a Noir tinha sobrevivido por tanto tempo: fazendo horror parecer embalagem.Mauro olhava para a ampola como se ela tivesse brotado da pele dele.— Eu não coloquei isso no bolso.Marisa sorriu.— Eu sei.Beatriz fez sinal para os seguranças, mas ninguém se moveu depressa. Não porque faltasse ordem, mas porque todos entenderam o risco de um gesto errado. Mauro segurava a última fração estável. Se alguém avançasse, se ele se assustasse, se a ampola caísse, ninguém ali sabia o que podia ser liberado. Talvez nada. Talvez tudo. O desconhecido era uma forma eficiente de c
A última fração estável estava com Marisa.O vídeo terminou, mas a imagem dela colocando a ampola azul no bolso do jaleco continuou na minha cabeça. A mulher tinha sido contida, cercada, exposta, gravada e, ainda assim, saíra da sala com a única coisa que podia manter o Relux vivo. Era quase admirável, se não fosse doentio.Beatriz viu o vídeo duas vezes, sem piscar. Na terceira, entregou o celular a um dos seguranças.— Revistem Marisa agora.— Tarde — Marisa disse, ainda com os pulsos presos. — Vocês deviam ter aprendido que o corpo nunca é o esconderijo mais interessante.Larissa fechou os olhos.— Eu odeio quando vilão fala bonito. Dá vontade de jogar uma cadeira.Dois seguranças revistaram o jaleco de Marisa ali mesmo, diante de todos. Encontraram luvas, um cartão de acesso, um aplicador vazio, mas nenhuma ampola. Eu olhei para Mauro. Ele entendeu antes que alguém dissesse. Marisa tinha mostrado a ampola à câmera sabendo que o vídeo chegaria até mim. Se não estava mais com ela, e







