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Michelle
Michelle guardava os papelotes de cocaína em sua gaveta de roupas íntimas – onde ninguém, nem mesmo a empregada iria mexer –, depois de três meses usando quase que diariamente cocaína, Michelle percebeu o quanto já estava viciada e o quanto se afundara naquele vício sedutoramente maldito.
Michelle sentia que ninguém poderia ajudá–la – apesar da aproximação da mãe –, aquilo ainda era muito pouco perto de uma vida inteira de descaso e falsidade, afinal, Michelle sempre culpou a mãe pelo distanciamento delas...
As festas sempre eram mais importantes que ela, sua vida social perante a sociedade sempre foi mais importante do que instantes de carinho, e agora que o mundo desabou sobre as costas dela, ela queria compensar?
Michelle detestava a falsidade da mãe.
Antônia era fútil demais para saber o que era amor.
Michelle acordou atrasada para um encontro com suas amigas no shopping. Ligou para o celular da Monique e disse que chegaria um pouco atrasada.
Elas disseram que estariam esperando por ela sem problemas.
Quando Michelle estava na praça de alimentação procurando pelas amigas, sem perceber se esbarrou em um rapaz e caiu no chão.
Quando ela ia gritar para o cara – ela ia usar a palavra imbecil – tomar cuidado, o belo rapaz estava estendendo a mão e pedindo infinitas desculpas.
Michelle olhou em seus olhos, eles tinham um brilho diferente, ela jamais tinha visto tamanha verdade nos olhos de alguém em toda a sua vida, nem mesmo nos olhos de seu pai.
Michelle engoliu a raiva e se desculpou também.
–– Você está bem? – perguntou o belo rapaz – se machucou?
Ela respondeu que estava bem...
Somente o orgulho ferido... – pensou consigo mesma.
Ele foi o primeiro a dizer o nome.
–– Me chamo Ariovaldo, mas todos me chamam de Ari.
Ela deu risada pelo nome ridículo dele, e imediatamente desculpou–se afinal...
Ele podia até ter um nome ridículo, põe ridículo nisso, mas até que é bonito...
Logo em seguida ela disse:
–– Me chamo Michelle...
Mas quando ela ia tentar puxar assunto com ele, suas amigas apareceram do nada e a puxaram de lado sem se importar com ele – se é que o tinham visto.
Michelle foi sendo puxada pelas amigas por três metros – até que o cerco estava mais tranquilo –, Michelle puxou o celular do bolso de sua bolsa e jogou para ele, fazendo sinal que ligaria depois para ele.
Ari apenas sorriu olhando para aquele celular cor–de–rosa – imaginado se aquela garota era maluca.
Ele percebeu que sim...
Ari era um rapaz de classe média – mais baixa do que média –, trabalhava em um escritório imobiliário. Tinha aproximadamente 1,86m de altura, corpo atlético – apesar de ser péssimo nos esportes, principalmente no futebol –, seu maior talento era de sempre ter respostas rápidas e brilhantes. Era o melhor vendedor – apesar de detestar aquilo.
Seu grande sonho era fazer Direito e ser advogado para ajudar muitas pessoas na pequena comunidade protestante onde congregava com seus pais.
Ari sempre foi o garoto exemplo da família, sorridente em todos os momentos, o filho perfeito que adorava pescar com o pai e cozinhar com a mãe, sempre tirou notas altas nas provas apesar de detestar copiar matéria no caderno.
Michelle não falou uma palavra sequer com as amigas sobre o rapaz com o nome ridículo, afinal, elas nem notaram o homem dos seus sonhos...
Como elas poderiam ser suas amigas de verdade?
Michelle percebeu o quanto aquelas amigas eram fúteis, só falavam dos rapazes musculosos com quem saiam, os playboys riquinhos – ela nem poderia falar do rico com quem saiu, já que tinha um membro pequenininho, isso contava e muito... nas conversas fúteis que tinham –, mas Michelle percebeu que pela primeira vez na vida encontrou alguém diferente...
Completamente diferente...
–– Aqueles olhos... – sussurrou baixinho consigo mesma.
As meninas perguntaram de quem ela estava falando.
Michelle imediatamente desconversou e tentou prestar atenção naquele monte de baboseiras que era obrigada a ouvir e participar quase todos os dias.
Assim que se despediu das amigas, correu para um telefone público e ligou a cobrar para o seu próprio telefone. Michelle percebeu que, enquanto chamava a ligação, o mesmo toque de celular igual ao seu estava tocando atrás dela.
Quando ela se virou para pedir para a pessoa – irritante – atender a porcaria daquele celular, pensou ela.
Ari estava com aquele olhar que a encantara tanto.
Ela ficou sem ação.
–– Pode colocar o telefone no gancho... – disse ele com um sorriso extraordinariamente atraente.
O sorriso dele era doce – era completamente diferente do sorriso malévolo de Rodrigo.
Ele devolveu o celular – mas Michelle ainda estava sem ação por causa daquele sorriso e do brilho de seus olhos.
–– Por acaso você está me seguindo? – disse ela.
Ari deu risada e disse:
–– Não sei se você percebeu, mas... – ele olhou ao redor – você está na saída do shopping... a vi passando e vim devolver o celular.
Por um momento ela pareceu frustrada, mas ficou feliz em ver a verdade nos olhos dele, devolvendo a esperança novamente em seu coração.
Eles voltaram para a praça de alimentação e ficaram lá até serem convidados a irem embora – pois eram os últimos clientes que ainda estavam dentro do shopping. Foi aí que perceberam que o tempo passou, até então tudo era um momento mágico entre eles.
Ari a deixou em sua casa. Ele não sabia se olhava para ela, ou se olhava para a mansão que ela morava. Foi nesse momento que Ari percebeu que mesmo trabalhando em uma imobiliária, nunca tinha entrado em uma mansão de verdade – pelo menos, não como aquela.
Ari riu consigo mesmo enquanto Michelle não estava entendendo absolutamente nada daquela situação tão boba e tão inusitada.
Michelle tentou beijar Ari, mas ele desviou dizendo:
–– Não acha que ainda cedo para isso?
Michelle não sabia se aquilo era bom ou ruim, Ari tinha um ar de inocência no olhar e em suas atitudes. Ela deu risada consigo mesma e fez uma pergunta tentando deixá–lo sem ação:
–– Você é virgem, Ari?
Aquilo o pegou de calças curtas.
Ele ficou sério enquanto ela caía na risada.
Ela percebeu que ele não estava dando risada.
Quando ela ficou séria – depois de alguns minutos –, ele fez outra pergunta:
–– Seria um problema tão grande assim para você se eu dissesse que sim?
Ela voltou a dar um sorriso, mas dessa vez o sorriso era de felicidade.
–– Seria a coisa mais linda que já tenha visto em toda a minha vida, Ari...
Ele nem percebeu quando ela lhe deu um beijo, mas dessa vez ele não hesitou.
Eles estavam tão entronizados um no outro que o beijo saiu naturalmente, sem ter pressa para acabar...
Michelle entrou no seu quarto como uma garotinha sonhadora, ela jamais conheceu alguém como o Ari.
Michelle deu uma gargalhada de tanta alegria e disse consigo mesmo:
–– Não acredito que conheci alguém virgem...
Bonito e virgem, uau!!!
Ela abriu a gaveta de roupas íntimas e tinha esquecido que seu papelote de cocaína estava ali, naquele momento ela tomou uma decisão.
Michelle pegou os papelotes e os jogou na privada e deu descarga, pela primeira vez desde o enterro de seu pai, Michelle não queria usar aquela porcaria – merda –, estava feliz demais para querer estragar tudo...
Quando ela foi se deitar, fez sua primeira oração em toda sua vida...
–– Obrigada, meu Deus...
E adormeceu.
EpílogoMichelle estava no restaurante ansiosa, ela sabia que aquela noite seria o dia do pedido de casamento, Ari não conseguia se conter nas últimas semanas, ela também não, afinal, agora já era uma doutora, Ari um advogado que estava já ganhando um bom nome no meio jurídico, mas muitas coisas tinham acontecido além deles. Ari chegou e lhe deu um beijo. –– Aconteceu alguma coisa? Michelle não sabia muito o que dizer. –– Sinto que nossos caminhos estão saindo do que planejamos. –– Pensei que era o único que tinha reparado. –– Você sabe que te amo, não é mesmo? –– N&a
49AntôniaO casamento entre Antônia e Cícero não poderia ter sido mais lindo, o sítio dele estava repleto de convidados ilustres, artistas famosos, grandes empresários e tudo o mais. Antônia estava deslumbrante em seu vestido branco de cetim, entrou abraçada com Phillip, ele a elogiou muito, se Antônia não o conhecesse tão bem, ela diria que ele estava flertando com ela, mas como bons amigos, ela apenas agradeceu. A cerimônia foi presidida pelo pastor Gil – pastor da igreja que Ari e Michelle frequentavam –, e logo depois Antônia e Cícero também passaram a frequentar. O pastor Gil falou sobre I Coríntios 13, onde o apóstolo Paulo fala sobre o amor, não teve quem não se sentisse emocionado com o serm&atil
48AriUm dia antes do julgamento de Rodrigo, Ari foi visitá–lo. –– Não acha que é muita impertinência sua vir até aqui? – disse Rodrigo num tom sarcástico. –– Só gostaria de saber por que disso tudo... Porque eu? Porque a Michelle? Rodrigo deu uma gargalhada, a mesma que tirou o sono inúmeras vezes de Ari. –– Tenho os meus motivos, moleque, mesmo assim, você era apenas a cereja no bolo, minha vingança não tinha nada a ver contigo... você era apenas um bônus para me divertir, eu gostava da sua ousadia, queria ver até onde você iria, mas o que tinha que fazer mesmo, fiz e não me arrependo. Rodrigo foi julgado e condenado h&aacu
46Ari e MichelleAri comprou as alianças de noivado sem falar nada a ninguém, estava tão irradiante que nem prestou atenção que estava sendo seguido por Rodrigo e um de seus capangas. –– É hoje que eu pego esse safado – disse Rodrigo ensaiando aonde atiraria em Ari. –– É isso mesmo chefe, vamos pegar esse cara. Ari guardou a caixinha com as alianças no bolso esquerdo de sua calça Armani – que ganhou de seu chefe – todo feliz da vida quando foi abordado por Rodrigo. Rodrigo o levou até seu carro, pegou as alianças do bolso de Ari e disse: –– Para um pé–rapado, até que ele tem bom gosto – mostrando as alianças para
45AntôniaAntônia e Cícero voltaram a se encontrarem naturalmente, uma visita aqui, outra coincidência ali, parecia que aqueles quase trinta anos jamais tivessem existido, eram muitos encontros, desencontros, despedidas e fugas que Antônia já não estava entendendo mais nada. Marcelino – ela já não o chamava mais de padre – sumiu do mapa, ela até queria contar a verdade para ele, afinal, se ele tinha um filho, deveria saber, mas ninguém mais ouviu falar dele. Cícero contou que era dono de um hospital muito importante – Hospital St. Filipo – que assim que Antônia se casou, ele voltou para a faculdade e se formou entre os melhores, mas cada esforço dele fazer uma carreira bem-sucedida se tornava em vão quando conversava com a Leide, já que Ant&oc
44AntôniaTodos choraram muito no enterro, foi algo muito comovente, apenas uma pessoa em especial não tinha ido ao enterro – o padre Marcelino – mas como a Leide não era católica nem nada, ninguém deu muita importância para aquilo. Infelizmente aquele enterro estava desenterrando algo na vida de Antônia, alguém que há mais de vinte e cinco anos ela não via... Cícero. Eles mal se falaram, ele parecia que não tinha mudado nada, o que fez Antônia se sentir com dezoito anos novamente.Antônia jamais imaginou que descobriria algo sobre a sua melhor amiga. No testamento ela deixou tudo o que tinha para o seu filho – Rennan – e tinha deixado uma carta em especial para ela. A carta dizia o seguinte:







