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Fogo sob a pele

last update publish date: 2023-01-03 21:19:51

O homem que destruíra sua vida e o trancara por cinco anos ainda caminhava livre pelas ruas, enquanto Falcão carregava no corpo as marcas das grades, a fome de toque e a dificuldade constante de lembrar que ainda era capaz de sentir qualquer coisa além de ódio.

O capacete ficou pesado nas mãos dela por um segundo antes de ela aceitar. O motor roncando baixo, o asfalto molhado da avenida refletindo as luzes da cidade, e o aperto firme dos braços dela em sua cintura diziam tudo: medo. Medo bom. Falcão acelerou de propósito, cortando entre os carros, sentindo o corpo dela se colar mais, o rosto enterrado entre suas costas, o grito abafado contra o tecido da camisa. O vento batia no cabelo solto, na barba, nas cicatrizes que a prisão deixara. Cada curva era um lembrete de que ele estava fora. Cada acelerada era um teste. Ela apertou mais. Ele diminuiu só o suficiente para não perder o equilíbrio, o canto da boca puxando um sorriso frio.

O prédio ainda tinha o mesmo porteiro sonolento. Falcão mostrou o documento, estacionou a moto e desceu. Ela tirou o capacete tremendo, cabelos bagunçados, olhos claros arregalados. Quase deu pena. Quase. Ele se aproximou, passou a mão pelos fios escuros, e ela bateu com força na sua mão.

— Ficou louco? A gente poderia ter morrido!

A voz saiu furiosa, sem o tremor de antes. Garras. Ele gostou. Pegou-a pela cintura e a tirou da moto de uma vez. O corpo pequeno, quente, curvilíneo, se encolheu por um segundo. Medo de novo. Melhor assim.

— Vem.

Ela travou os pés no chão.

— Não vou subir. Você disse que era só um passeio.

Falcão coçou a barba, impaciente. Cinco anos sem mulher e a primeira que aceitava sair com ele fazia birra na calçada. O ódio antigo latejou atrás dos olhos. O demônio ainda respirava. Ele não tinha tempo para jogos.

— Relaxe. Só vim buscar umas coisas. Não vou te obrigar a subir. Já vi que isso foi perda de tempo.

Virou as costas e entrou no elevador. Ouviu os passos dela correndo. A porta quase fechou quando ela se enfiou dentro, ofegante, peito subindo e descendo sob o vestido curto.

— Você tem nome? Por que me chamou?

Ele sorriu de lado, sem humor de verdade. A pergunta ficou no ar. O elevador parou. A chave girou na fechadura. O apartamento cheirava a poeira e tempo parado. Tudo no lugar onde ele deixara cinco anos atrás. Zyan cumprira a palavra. Nada mexido, nada roubado. Só o silêncio de uma vida interrompida.

Ela entrou olhando ao redor. Falcão ignorou. Foi direto ao quarto, puxou a mochila velha de cima do guarda-roupa e começou a enfiar roupas. Calças, camisas, um par de botas que ainda serviam. Precisava de coisas novas. O corpo mudara. Mais músculo, mais cicatriz, menos paciência.

— Seu apartamento é bacana… faz tempo que não vem aqui.

Ele não respondeu. Ziper da mochila fechado. Saíram. No elevador ela o encarava, a curiosidade brilhando atrás do nervosismo. Falcão não ofereceu explicações. Não queria conversa. Queria o corpo dela, o silêncio depois, e depois o plano. O demônio tinha nome, endereço, rotina. Falcão já sabia por onde começar. Mas o corpo pediacarne antes de sangue.

No bar ela agradeceu o passeio com a voz baixa. Ele só acenou e subiu para o quarto pequeno atrás do estabelecimento. A cama era estreita, mas limpa. Melhor que o chão de cimento. Tirou a camisa, soltou o cabelo, ficou só de cueca. O banho quente lavou o cheiro de rua e de adrenalina. Quando se jogou na cama, o cansaço bateu junto com a fome antiga. Cinco anos. Cinco anos de mãos próprias e imaginação. A foda que tanto desejava ia ficar para outro dia. Ou assim pensou.

As batidas na porta vieram baixas, insistentes.

— Porra, Zyan, eu tava quase dormindo.

Abriu com cara fechada, cabelo solto caindo sobre os ombros, peito nu marcado pelas antigas feridas. Não era Zyan. Eram os mesmos olhos claros da tímida do bar. Ela estava ali, ainda de vestido, ainda com o batom meio borrado, olhando direto para ele.

— Me deixa passar a noite com você.

Falcão piscou. A raiva subiu rápida.

— Que merda de pegadinha é essa? Olha, garota, não sei que problema você tem, mas me deixa em paz.

Ela passou por baixo do braço dele antes que ele pudesse reagir. Entrou. O quarto ficou pequeno demais. O olhar dela desceu pelo torso dele, parou nas cicatrizes, subiu de novo. As pupilas dilataram.

— Sai. Eu não quero você aqui. Se não sair por bem, sai por mal.

A voz dele saiu mais baixa, mais perigosa. Ela estremeceu, mas não recuou. Puxou a blusa pela cabeça. O sutiã preto de renda apareceu, seios firmes, pezones já duros. Falcão engoliu em seco. O corpo reagiu antes da mente. Cinco anos. O sangue desceu rápido.

— Veste essa porra. Teve sua chance e não quis. Agora vaza.

Ela abriu o botão da saia. O tecido caiu. Lingerie preta, salto alto, pele bronzeada, coxas grossas, cintura marcada. O cabelo longo e negro caía sobre os ombros. Falcão mordeu o lábio inferior. O controle que a prisão ensinara a manter a qualquer custo começou a rachar.

— Não sabe em que merda está se metendo. Vou contar até três. Se não sair, eu te como até você desfalecer. Te marco com palmadas que você vai lembrar por uma semana. Te faço gritar tão alto que o bar inteiro vai ouvir. Um…

Ela não se moveu. O medo estava nos olhos, mas também outra coisa: desafio. Decisão.

— Dois…

A respiração dela acelerou. O peito subia e descia.

— Três.

Ele trancou a porta. O clique ecoou como uma sentença. Virou-se. Ela ainda estava parada, mas a ousadia começava a dar lugar à menina tímida de novo. Falcão caminhou até ela. O cheiro floral dela misturado ao suor da moto invadiu o nariz. Ele passou o polegar pelo lábio inferior dela, sentindo o batom grudento.

— Todo esforço será recompensado. Se era eu que você queria, agora você me tem.

Ela se esticou e colou a boca na dele. O beijo saiu desajeitado no começo. Falcão tomou o controle. Língua profunda, mão na nuca, a outra apertando a cintura quente. O corpo dela se derreteu contra o dele. A barriga macia, os seios pressionados no peito marcado. Ele desceu para o pescoço, chupou a pele, roçou a barba. Ela suspirou alto, unhas cravadas nas costas dele.

— Muito gostosa…

Empurrou-a na cama. O gritinho dela foi engolido pelo colchão. Tirou os sapatos com pressa, beijou a panturrilha, chupou a pele interna da coxa. As pernas dela tremeram. Ele subiu, beijando a barriga, tirando a própria cueca. O pau já estava duro, pesado, latejando de tanto tempo sem. Abriu a gaveta do criado-mudo. Camisinhas. Zyan de novo. Ainda bem.

Vestiu a proteção, inclinou-se sobre ela, tomou a boca de novo. Ela retribuía com espasmos, apertando as costas dele. O corpo tenso.

— Relaxa, docinho. Você está pronta.

Afastou as pernas dela, se encaixou. A entrada quente e apertada. Tentou entrar. Ela se travou toda.

— Olha pra mim. Não vai amarelar agora. Foi você que começou.

Ela suspirou, o beijou com mais força. Falcão empurrou devagar. Os músculos dela pulsavam, apertando, resistindo e cedendo ao mesmo tempo. O calor era absurdo. Cinco anos de abstinência explodindo num único ponto.

Então sentiu.

A resistência diferente. O aperto impossível. As lágrimas que escorriam dos cantos dos olhos dela.

— Você era virgem?

Ela não respondeu com palavras. Só segurou o braço dele quando ele tentou sair, as unhas cravadas, a voz baixa e rouca:

— Continua… por favor.

Falcão parou. O coração batendo forte demais no peito. O ódio antigo, o plano de vingança, o demônio livre por aí, tudo latejou atrás dos olhos. Ele não queria complicação. Não queria laços. Não queria ser o primeiro de ninguém. Mas o corpo dela o envolvia quente, apertado, vivo, e a fome de cinco anos gritava mais alto que qualquer razão.

Ele respirou fundo, a testa encostada na dela, o suor já misturado, e empurrou mais fundo, sentindo as unhas dela rasgarem a pele das suas costas no mesmo instante em que um gemido abafado escapou da garganta dela misturado ao gosto salgado das próprias lágrimas.

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