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Sangue e aposta

last update Data de publicação: 2023-01-03 21:22:32

O demônio que o entregara à prisão ainda respirava livre, enquanto Falcão lutava contra a dificuldade de manter o controle depois de cinco anos de grades, a fome de toque que ameaçava destruir sua disciplina e o risco constante de qualquer descuido o devolver ao inferno de onde acabara de sair.

Ela estava debaixo dele, olhos fechados, lábios vermelhos presos entre os dentes. Falcão passou a língua por eles com lentidão deliberada. O corpo dela arrepiou inteiro. Ele tomou a boca num beijo profundo, explorando, dominando. As mãos dela subiram para o cabelo dele, puxando, e o gemido baixo que escapou da garganta dela fez o sangue latejar mais forte.

Precisava se controlar. Cinco anos sem mulher transformavam cada segundo em tortura doce. A força que a prisão forjara em seus músculos era perigosa demais para uma pele tão macia. Ele diminuiu o ritmo de propósito, beijou o pescoço, roçou a barba na curva da orelha. O corpo dela tremeu de novo.

— Geme pra mim — ordenou, a voz rouca.

Ela obedeceu. O som saiu abafado, sincero. Falcão sorriu sem humor. Era especial. Só sua. Pelo menos naquela noite.

— Qual é o seu nome? Eu sou…

— Sem nomes — cortou. — Agora fica de quatro.

Segurou a cintura dela e a virou. O protesto saiu incompleto quando ele enterrou o rosto entre as coxas por um segundo, só para sentir o cheiro, e depois se posicionou de novo. Empurrou com vontade. O grito dela foi abafado pelo travesseiro. Ele segurou o quadril com as duas mãos e começou a se mover com força controlada, cada estocada marcada, profunda.

— Gosta de ser devorada assim, docinho?

Ela só gemeu. Falcão saiu de dentro dela de propósito, se deitou de costas e a puxou para cima.

— Agora me cavalga.

O olhar dela desceu. A camisinha manchada de sangue fez a expressão mudar. Surpresa. Quase medo. Ele apertou o maxilar.

— O lacre já foi. Agora é só aproveitar. O controle é seu. Mostre o que sabe fazer.

Ela se acomodou devagar, o aperto ainda impossível, e começou a se mover. Primeiro hesitante. Depois, quando ele deu uma palmada firme na nádega, o ritmo acelerou. Os cabelos negros balançavam, grudavam no rosto suado. A boca aberta. Os seios embalançando. Falcão apertou as coxas dela, abriu os olhos e apreciou a visão com a frieza de quem catalogava cada detalhe.

— Mais rápido.

Ela obedeceu. As unhas cravaram no peito dele. O gemido dela ficou mais alto, mais descontrolado. Quando o corpo se contraiu ao redor dele, quente e pulsante, Falcão segurou o quadril e a puxou para baixo no momento exato em que o próprio limite chegou. O orgasmo veio forte, longo, quase doloroso de tão atrasado. Eles respiraram descompassados por longos segundos.

— Respira — murmurou ele, retirando-a com cuidado. — A noite ainda não acabou.

Tirou o preservativo, se limpou e voltou o olhar para a cama. Ela já estava com o rosto enterrado no travesseiro, respiração pesada, corpo mole. Inexperiente. Exausta. Falcão cobriu o corpo nu dela com o lençol, prendeu o próprio cabelo e abriu a janela. O ar da madrugada entrou frio. O céu estava estrelado. O relógio na parede marcava mais de meia-noite.

Quem em sã consciência fazia o que ela fizera? Ninguém. Louca. Gostosa. E agora dormindo na cama dele como se aquilo fosse normal.

Ele se sentou na beira do colchão e a observou. Não podia se envolver. Era só uma noite. Amanhã ela sumiria e ele seguiria o plano. O demônio ainda estava lá fora. Tinha nome, tinha rotina, tinha dívidas a pagar. Falcão precisava se estabilizar, reunir informação, não se meter em encrenca. Uma garota louca não fazia parte de nenhum cálculo.

Não conseguiu dormir. A mente girava. Os anos de prisão, os aliados que fizera lá dentro, os nomes dos que o traíram, o gosto metálico da liberdade ainda recente demais. O desejo de fazer merda era grande. Queria sangue. Queria ver o outro perder tudo como ele perdera. Mas precisava de paciência. Precisava de cabeça fria.

As batidas na porta vieram baixas, insistentes.

Falcão vestiu a calça jeans, deixou o peito nu e abriu. Quatro garotas. As mesmas do bar. Olhares descendo pelo abdômen marcado, depois subindo com medo. Uma delas — a ruiva — apertava a mão da outra.

— O que vocês querem?

A voz saiu grossa. Elas deram um passo para trás.

— Nossa amiga… ela disse que vinha ficar com você. Cadê ela?

Falcão cruzou os braços.

— Como têm tanta certeza? Pode ter saído com outro.

— Não. Ela veio nessa direção. Meu Deus, o que você fez com ela? Eu disse, Mila, que aquilo era loucura!

A baixinha gordinha empurrou a amiga e ficou vermelha. Falcão sentiu a raiva subir.

— Desembucha. Que loucura é essa?

Elas se entreolharam. Culpa clara nos rostos.

— A Angel… ela é a única virgem do grupo. Hoje decidiu que ia perder com o cara que sentisse química. Pelo visto rolou com você. Mas quando voltaram do passeio ela disse que ficou sem coragem. A gente começou a zuar. Fomos idiotas. Ela falou que vinha atrás de você e a gente apostou mil reais cada uma que ela não teria coragem.

A negra do grupo foi a única que teve coragem de falar até o fim. Falcão sentiu o maxilar travar.

Então era isso. A morena gostosa, a tímida de olhos claros, tinha transado com ele para provar um ponto e ganhar quatro mil reais. Manipulação. Aposta. Ele, que saíra da prisão decidido a nunca mais ser usado por ninguém, tinha caído na rede de um bando de meninas bêbadas e irresponsáveis.

— Vocês são loucas — disse, a voz baixa e cortante. — E péssimas amigas. Pararam para pensar no que poderia ter acontecido com ela?

A mais bêbada começou a chorar. Outra a amparou.

— Por favor, diz que não machucou ela. Angel é inocente. Diz que ela está com você.

Falcão poderia ter deixado elas sofrerem. Poderia ter fechado a porta e sumido. Mas não queria barulho. Não queria polícia. Não queria nada que pudesse colocá-lo de volta atrás das grades.

— Esperem aqui.

Fechou a porta. Caminhou até a cama. A Angel dormia tranquila, o cheiro floral ainda impregnado nos lençóis, o corpo marcado pelas mãos dele. Ele cutucou o ombro dela.

— Acorda.

Ela resmungou. Ele cutucou de novo, mais forte.

— Acorda. Você precisa ir embora.

Os olhos claros se abriram no susto. Ela se cobriu com o lençol, o rosto ainda marcado pelo sono e pelo que tinham feito.

— Se veste. Rápido.

Ela obedeceu em silêncio, as mãos tremendo enquanto puxava a roupa. Falcão observou cada movimento com a frieza de quem já calculava os riscos. Quando ela ficou pronta, ele se aproximou, segurou o rosto dela com uma mão, o polegar pressionando a bochecha.

— Já sei da armação. Se estiver tentando me ferrar de algum jeito, eu acabo com você. E não vai ser como foi horas atrás. Sacou? Tem quantos anos?

A voz saiu entre os dentes. Ela engoliu em seco.

— Dezenove. Eu… eu não vou te ferrar.

Ele a beijou uma última vez, curto, quase punitivo, e soltou o rosto.

— Vai. E esquece que me conheceu. O que acho difícil.

Abriu a porta. Ela saiu. As amigas a agarraram imediatamente, beijos, abraços, perguntas atropeladas. Falcão revirou os olhos e bateu a porta com força.

As vozes se afastaram pelo corredor.

Ele ficou parado no meio do quarto. A raiva latejava nas têmporas. Tinha sido usado. Manipulado por uma aposta de meninas. O corpo ainda carregava o cheiro dela, o gosto, a memória do aperto. E no entanto o único pensamento que restava era o mesmo de sempre: o demônio ainda estava livre. E qualquer descuido — qualquer laço, qualquer escândalo, qualquer noite mal calculada — podia devolvê-lo ao lugar de onde jurara nunca mais voltar.

Falcão se sentou na beira da cama, agarrou os cabelos com as duas mãos e puxou com força até a dor física cortar o turbilhão dentro da cabeça. O lençol manchado de sangue ainda estava ali, jogado no chão. Ele o chutou para longe, deitou no colchão nu e fechou os olhos, mas o cheiro floral continuava impregnado na pele, misturado ao gosto metálico da própria fúria.

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