LOGINO alvo de Angelina Monteiro era conquistar a própria liberdade longe do pai que a tratava como um peso vivo, mas a dificuldade maior agora era enfrentar o homem que a despedaçara e reconstruíra numa única noite, enquanto o medo de ser vista como frágil e a atração selvagem que ele despertava ameaçavam destruir todo o controle que ela lutara para manter.
Uma semana. Sete dias desde que ela atravessara a porta daquele quarto pequeno atrás do bar, com o corpo ainda latejando e o orgulho em frangalhos. Sete dias em que as amigas se culparam, pediram desculpas, juraram nunca mais a levarem para nenhum rolê. Angel ouvira tudo em silêncio. A culpa era dela. Só dela. Tinha aceitado a aposta, tinha subido naquela moto, tinha empurrado a porta e tirado a própria blusa. Ele usara camisinha. Ela tomava anticoncepcional desde os dezesseis por causa do fluxo irregular. Estava tudo sob controle. Pelo menos o lado prático. O resto… o resto era outra história. Ela nunca fora a garota de contos de fadas. Os pés sempre estiveram fincados no chão frio da realidade. Sabia que o mundo não perdoava mulheres que tomavam as próprias decisões sexuais sem pedir licença. A mente coletiva ainda era retrógrada, julgava, rotulava. Angel não se arrependia. A adrenalina daquela noite ainda corria nas veias quando ela fechava os olhos. O jeito como ele a olhara, a voz grave ordenando, as mãos grandes que a viraram e a possuíram como se ela fosse feita exatamente para aquilo. Doeu. Depois virou fogo. Depois virou algo que ela ainda não conseguia nomear. Mas ele a expulsara. Grosseiro. Frio. Como se a experiência tivesse sido a pior da vida dele. Ela saíra magoada, sim. Mas compreendia. Tinha mentido por omissão. Tinha usado o próprio corpo para ganhar uma aposta e provar um ponto. Ele tinha o direito de estar puto. Agora, deitada na cama do próprio quarto, Angelina Monteiro olhava o teto e tentava organizar os pedaços. Filha única de um empresário renomado. A mãe morrera no parto. Desde que se entendia por gente, carregava o peso silencioso de ter “matado” a mulher que o pai amara. Ele nunca dissera as palavras em voz alta, mas o abandono falava por si. Presentes caros, escola particular, mesada generosa, babá dedicada. Amor? Nunca. Presença? Quase nenhuma. Angel aprendera cedo que carinho vinha de outras fontes: das quatro amigas do condomínio e de Martinha, a mulher que a criara como filha de verdade. As amigas estavam crescendo, cada uma seguindo o próprio caminho. Angel também. O vestibular era daqui a uma semana. Uma das melhores universidades públicas do país. Ela estudara como louca. Estava confiante. Precisava passar. Precisava de um caminho que não dependesse do sobrenome Monteiro nem do dinheiro do homem que a olhava como lembrança dolorosa. Levantou. Tomou banho demorado. Vestido azul simples, rasteirinha, cabelo preso num coque frouxo. Desceu até a cozinha. — Bom dia, Martinha. A cozinheira — e ex-babá — sorriu do jeito que só ela sabia. — Bom dia, minha querida estrela. Senta que eu te sirvo o café. — Não vou comer. Só vim avisar que vou sair. Se meu pai perguntar… o que acho difícil. Martinha levou a mão à boca, escandalizada. — Menina! Isso não se diz. Ele se preocupa sim. Só é muito ocupado. Angel se aproximou, beijou a testa enrugada da mulher e sorriu sem alegria. — Finjo que acredito. Assim continuo vivendo. Saiu antes que Martinha pudesse responder. O carro do motorista a levou até o condomínio vizinho. Mila a esperava de roupão, cabelo molhado, já com aquele brilho perigoso nos olhos. O dia passou entre piscina, conversa fiada e a tentativa constante de Mila de arrancá-la da zona de conforto. Quando o sol começou a baixar, a amiga surgiu do closet com um vestido de couro preto, decote profundo e fenda lateral. — Hoje quem te produz sou eu. E você vai comigo para a festa. — Mila, eu não… — Já falei. O Zyan convidou. É a comemoração da volta de um amigo dele. E você vai usar isso. Angel segurou o vestido. O couro era macio, caro, ousado demais para o estilo discreto que ela cultivava. Mas Mila tinha razão em uma coisa: ela já tinha cruzado uma linha. Não precisava ficar com ninguém. Só precisava lembrar que o corpo era dela. Aceitou. Duas horas depois, o táxi parou em frente ao bar do Zyan. Angel desceu com o coração batendo alto demais. O vestido colava em todas as curvas, o decote revelava mais do que ela costumava mostrar, o cabelo solto caía em ondas escuras sobre os ombros. Mila a segurou pelo braço. — Postura de mulher fatal. Peitos pra cima. Você é linda. Usa isso. Angel obedeceu. A fila da porta abriu caminho. Olhares desceram pelo corpo dela. Ela sentiu o peso, o julgamento, a curiosidade. Entrou. A música ao vivo tocava “Angels”, de Robbie Williams. A mesma que Martinha cantarolava nos dias em que a menina chorava a mãe que nunca conhecera. Angel sentiu um aperto no peito. Caminhou atrás de Mila em direção às mesas perto do palco. Zyan apareceu primeiro. Alto, cabelo preto preso pela metade, traços orientais, barba bem feita. Os olhos dele desceram direto para o decote e ficaram lá tempo demais. O sorriso foi lento, predatório. — Essa quem é? — Angel — respondeu Mila, já puxando a amiga para frente. — Achei que vocês se conheciam. Zyan se inclinou. Angel virou o rosto no último segundo. O beijo pousou no canto da boca. O cheiro de perfume caro e cigarro invadiu o nariz dela. — Prazer. Zyan. Ao seu dispor. Hoje o bar está em festa pela volta do meu amigo… Ele varreu o ambiente com o olhar. Angel seguiu o movimento sem querer. E então o viu. Apollo. Falcão. O homem da semana passada. Loiro escuro, cabelo longo preso de qualquer jeito, barba cerrada, tatuagens subindo pelos braços fortes até desaparecerem sob a camisa preta. Estava sentado numa mesa no fundo, copo na mão, postura relaxada demais para alguém que carregava cinco anos de prisão no corpo. Quando Zyan gritou o nome, ele levantou a cabeça. Os olhos verdes encontraram os dela. O mundo estreou. O coração de Angel disparou tão forte que ela quase tropeçou. Mila apertou o braço dela com força. Falcão se levantou. Cada passo dele em direção ao grupo era calculado, pesado, inevitável. A voz grave chegou antes do corpo. — Eu já as conheci semana passada. Como vão, meninas? O arrepio subiu pela espinha de Angel como eletricidade. Ela odiou a própria reação. Odiou lembrar das palavras sujas que ele dissera enquanto a comia, do jeito como a virara, do orgasmo que a fizera perder a noção de quem era. — Angel? — Mila chamou, preocupada. — Sim. Desculpa. Me distraí. Ela ergueu o olhar. Ele ainda a encarava. O mesmo olhar felino daquela noite. Frio. Intensamente presente. Como se pudesse ver através do vestido de couro e lembrar exatamente como ela gemera sob ele. Zyan bateu as mãos, animado demais. — Vocês vão ficar na área vip com a gente. Não é o máximo? Mila quase gritou de empolgação. Angel só conseguiu acenar. O sorriso de Zyan continuava colado no decote dela. O olhar de Falcão, porém, era diferente. Mortal. Avaliador. Como se estivesse decidindo se ela era uma ameaça, uma distração ou apenas mais um problema que ele não pedira. Eles caminharam para a área reservada. Angel sentiu o calor do corpo dele perto demais quando passou ao lado. O cheiro era o mesmo: pele quente, sabonete barato, algo metálico que ela associava à liberdade recém-conquistada. As pernas tremeram. Sentou-se. O couro do vestido grudou na coxa. A fenda se abriu um pouco mais. Ela puxou o tecido, inútil. Falcão ocupou a cadeira exatamente à frente dela. Zyan ao lado. Mila já pedia drinks e ria alto demais. A conversa fluiu ao redor. Angel ouvia sem escutar. Cada vez que ele falava, a voz grave batia nela como um soco baixo. Cada vez que ele sorria de lado para alguma piada de Zyan, ela lembrava o mesmo sorriso quando a mandara ficar de quatro. O corpo reagia sozinho: calor entre as pernas, peito apertado, boca seca. Ela precisava sair. Inventar uma desculpa. Ir ao banheiro e nunca mais voltar. Mas as pernas não obedeciam. O alvo que ela se impusera — independência, vestibular, vida própria — parecia distante demais naquele momento. A dificuldade real estava sentada a menos de um metro, com olhos verdes que não a soltavam e uma presença que fazia o resto do bar desaparecer. Zyan se inclinou para falar algo no ouvido de Mila. Falcão aproveitou. A voz dele saiu baixa, só para ela. — Não esperava te ver de novo, Angelina. O uso do nome completo a atravessou. Ela engoliu. — Eu também não. — Achou que ia sumir e eu nunca mais lembraria da aposta de quatro mil reais e da virgem que apareceu na minha porta? O sangue subiu para o rosto dela. Mila estava distraída. Zyan ria de alguma coisa. Ninguém mais ouvia. — Eu não… — Relaxa. Não vou contar. Mas não gosto de ser usado. E não gosto de surpresas. Ele bebeu um gole da cerveja sem desviar o olhar. Angel sentiu o peso da ameaça velada. Ao mesmo tempo, o corpo dela traía: o lembrete daquela noite vinha em ondas quentes, a memória das mãos dele na cintura, da barba roçando a parte interna das coxas, do momento em que ele descobriu que ela era virgem e mesmo assim continuou. Ela apertou as mãos no colo. — Eu não pretendo te usar de novo. Foi uma noite. Acabou. Falcão inclinou a cabeça. O sorriso foi mínimo, perigoso. — Foi mesmo? Antes que ela pudesse responder, Mila voltou a atenção para a mesa, já meio alterada, puxando assunto sobre a música, sobre o bar, sobre qualquer coisa. Zyan ria. Alguém pedia outra rodada. Angel tentou se concentrar no copo de água que pedira. O líquido tremia dentro do copo porque as mãos não paravam quietas. Minutos se arrastaram. Cada olhar trocado entre ela e Falcão era uma conversa inteira que ninguém mais entendia. Ele a estudava. Ela tentava não se desmontar. A atração era um animal vivo entre os dois, latejando, exigindo atenção. O medo caminhava lado a lado: medo de ser engolida de novo, medo de perder o foco nos planos, medo de que uma única noite tivesse aberto uma porta que ela não sabia fechar. Quando a banda tocou a próxima música, Mila puxou Angel pela mão. — Vamos dançar. Agora. Angel se deixou arrastar. No meio da pista, sob as luzes baixas, ela finalmente conseguiu respirar. O corpo balançava no ritmo, o vestido de couro se movia com ela, o decote chamava olhares que ela fingia não notar. Mas de vez em quando, entre uma volta e outra, os olhos dela encontravam a mesa vip. Falcão ainda estava lá. Observando. Como um predador que já escolhera a presa e só esperava o momento certo. A música mudou. Mila ria, livre, leve. Angel sentia o contrário: o peso de cada decisão, o eco daquela noite, o pai distante, a mãe morta, o vestibular se aproximando, e agora aquele homem que a fazia lembrar que o corpo tinha vontades próprias e perigosas. Ela precisava ir embora. Inventar uma dor de cabeça. Chamar um táxi. Voltar para a segurança do quarto onde Martinha deixava chocolate quente e silêncio. Mas quando olhou de novo, Falcão se levantara. Estava vindo na direção da pista. Devagar. Inevitável. O coração de Angelina Monteiro disparou tão forte que ela sentiu o pulso latejar no fundo da garganta, as pernas tremerem sob o couro preto e o ar sumir dos pulmões no exato segundo em que os olhos verdes dele se cravaram nos seus no meio da multidão.Falcão Três meses depois Mais alguns meses se passaram e hoje é o casamento de Zyan com a cabelo de cenoura. E para variar será num salão riquíssimo. Angel e eu somos padrinhos, e os nossos filhos também não ficaram de fora. Acabamos de entrar, assim como os outros padrinhos, Zyan esta a ponto de enfartar... Chega a testa está suada. Graças a Deus não fiquei tão nervoso, pois Angel e eu casamos apenas no Civil, pois ela quem preferiu assim. Os músicos começam a tocar uma canção instrumental e a tão aguardada noiva aparece. E tenho que admitir, a cabelo de cenoura parece uma princesa. Zyan como um bom embocetado não conseguiu se segurar e chora ao ver a garota que por muito pouco ele não perdeu. E que sempre amou ele apesar dele ter sido um grande otário a maior parte do tempo e agora com certeza deve esta passando tudo na cabeça dele. Minha docinho também chora muito ao ver a amiga tão feliz. Não demorou muito e a cerimonia começou. Logo a minha pequena entrou com as alianças. Ela
FALCÃOJá faz meses que estamos muito bem. Angel diminuiu o seu tempo de trabalho e só vai três vezes na semana. Nossos filhos amaram ter a mãe mais presente e eu principalmente.Acabei de sair do banho, ando até a varanda e ela está lá sentindo a brisa da noite. A sua camisola fina desenha seu corpo que eu tanto amo. Me aproximo deslizando minha mão por sua coxa sentindo a maciez da sua pele. Aperto a sua bunda durinha me encaixando atrás dela, cheiro a curva do seu pescoço e sorrio ao ver seus braços arrepiados. Deve ser a brisa da noite.— Tão cheirosa... Eu tenho planos bem interessantes para você hoje...Mordisco sua pele quente, ela suspira se escorando mais em meu corpo. Estou sem camisa só com a toalha que saí do banho, viro ela de frente e o movimento faz minha toalha cair. O seu olhar vai direto para baixo e vê-la lamber os lábios me deixou doido. Tomo esses lábios gostosos nos meus, infiltro meus dedos em seu cabelo apertando com um pouco de força, invado sua boca com minha
*4 Anos Depois*— Tchau, papai! — Alan e Alana, ambos agarram minhas pernas e saem correndo em direção a professora— Até daqui a pouco... Se comportem... Amo vocês.Eles acenam entrando para a escolinha, não acredito que meus pequenos já estão estudando, sinal que estou ficando velho.Velho é o caralho! Eu estou um coroa gostoso, só tenho trinta e nove anos, se é que posso ser chamado de coroa.No caso estou pensando numa certa novinha que fez da Docinhos e Cia, o seu segundo lar, já que ela só não dorme lá porque eu não deixo.Ô mulher para gostar de fazer bolo e doces... Acho que já estou ficando barrigudo de tanto comer aquelas delícias.Hoje vou raptar ela, aproveitar que está cedo e por milagre o dia não está nublado. O céu está claro e o dia está muito bonito.Assim que chego já tem clientes comprando tortas e alguns comendo aqui mesmo. Ela com certeza está na cozinha. Sigo para lá e como eu imaginava. Marta deve estar no depósito e a outra funcionária está atendendo os cliente
FALCÃODois meses DepoisPuta merda! Dois meses voaram, nossos filhos estão as coisas mais lindas do mundo. Sou um pai babão mesmo! E como eu estava debilitado quando eles nasceram, não conseguia nem ajudar a Angel. Mas ainda assim eu era teimoso. Pense na loucura que foi quando tentei dar banho no Alan?Angel me encheu de instruções e eu morrendo de medo dele escorregar das minhas mãos e cair na banheira... Nunca pensei que fosse tão complicado assim cuidar de um filho, mas cada segundo com eles só me torna alguém melhor. Nesse dia perdemos bons minutos comigo tentando acertar como deixar a cabecinha dele apoiada em minha mão. Mas o importante é que deu tudo certo e no final Alan ainda olhou pro papai aqui e deu aquele sorrisão que me deixa babando.Já com a Alana, a loucura foi na hora de trocar a fralda. Eu disse que esse era fácil e fui com a cara e na coragem. Angel ficou de lado me olhando e se controlando para não rir. Imitei tudo que ela fazia, pelo menos tentei, passando aqu
ANGELFaz um mês e duas semanas que estou com Apollo no hospital... Acabei de fechar os nove meses, o médico deu alta, mas proibiu ele de fazer qualquer tipo de esforço.A mudança para a nova casa enfim aconteceu, aluguei o apartamento dele como havíamos planejado. Estou aqui ansiosa esperando sua chegada.A campanhia tocou e Marta foi abrir, sorrio alisado minha ultra Power barriga de gêmeos. Ele entra com Zyan que o apoia em um dos ombros, sua cara amarrada da lugar um sorriso lindo ao me ver... Ele se solta de Zyan andando um pouco mais rápido.— Oh seu fodido! Você não pode correr! Ela não vai fugir!Ele levanta a mão mostrando o dedo do meio para Zyan, que balança a cabeça e sorrir.— Selvagem entregue em segurança, agora vou nessa... Tenho um jantar com uma certa ruiva de língua venenosa... Ela que não me ouça falar isso. — sorrimos e ele me dá um aceno— Valeu irmão! Precisando de qualquer coisa pode contar comigo. — ele sorrir saindo e Apollo já sabe que foi Zyan que matou Mig
Duas semanas depoisÉ minha quarta visita nessas semanas, ele continua em coma, mas o médico disse que hoje ele pode voltar a si. Não vejo a hora disso acontecer, não suporto mais ve-lo nessa cama de hospital e nesse estado vegetativo. É muito doloroso ver Quem amamos sofrendo desse jeito. Esses foram os piores dias da minha vida. Entrei no meu oitavo mês, só de pensar que provavelmente ele não vai poder estar presente no meu parto me faz querer chorar, ele esta tão pálido. Observo seu sono, ele está tão quieto.— Ele deve acordar a qualquer momento, seu marido é um verdadeiro milagre... Suas feridas já estão com boa cicatrização. Ele ficará bem, agora vou deixa-la a vontade.O doutor sai me deixando só com o meu amor, aliso sua barba que mesmo a maioria achando feia, eu amo, pois faz parte dele, de sua personalidade única. Marta veio comigo ela já não me deixa sair sozinha.— Oi meu ogro lindo... Deixa eu ver esses lindos olhos verdes... Você é um verdadeiro guerreiro meu amor, nosso







