FAZER LOGINNyla recolheu o dinheiro e o violino com as mãos trêmulas, caminhando a passos incertos em direção à saída. Ela sentia o mundo oscilar, o veneno do álcool já travando uma guerra contra seu sangue.
Ethan nem sequer se dignou a olhar para ela. Em vez disso, virou uma taça de champanhe de um só gole e disparou, com uma frieza cortante:
— Além disso, senhorita Green, esse anel de prata que você carrega no pescoço... é uma aberração.
Nyla estancou junto à porta, de costas para ele. Inconscientemente, seus dedos subiram até o peito, tocando o metal simples que pendia de uma corrente. Era um dos anéis de casal que Ethan comprara seis anos atrás. Prata barata, mas para ela, o objeto mais valioso do mundo.
— Estou acostumada a usá-lo — respondeu ela, sem se virar. — Ele me foi dado há seis anos, portanto, é meu. Se o uso ou não, Sr. Brooks, não é mais da sua conta.
Ela foi egoísta. Queria preservar aquela única prova de que o Ethan que a amava um dia existiu, mesmo que a lembrança fosse uma lâmina cega torturando-a nas madrugadas. Antes que a fúria dele transbordasse, Nyla saiu.
Na sala privativa, o som de vidro se estilhaçando foi ensurdecedor. Ethan esmagara a taça em sua palma. O champanhe misturou-se ao sangue vivo que escorria entre seus dedos, gotejando no tapete caro.
— Ethan! A culpa foi minha, eu não pensei... — Ronan começou, chocado com a reação violenta.
— Essa é a surpresa que você preparou? — Ethan zombou, os olhos injetados de sangue e o rosto envolto em uma sombra assassina. — Que tédio. Não tome decisões por conta própria no futuro. Especialmente se envolverem Nyla Green.
Enquanto Ethan se retirava com sua aura de gelo, Levi passou o braço pelo ombro de Ronan.
— Ronan, por que você defendeu aquela mulher hoje?
— Achei que seis anos seriam suficientes para o Ethan superar — lamentou Ronan. — Eles eram o casal de ouro da Universidade. Não quero que ele viva nesse ciclo de ódio. Ele está se tornando um estranho até para nós.
— Ela o mandou para a cadeia, Ronan! — Levi rebateu. — Esqueceu que ele quase morreu esfaqueado lá dentro? Aquela cicatriz a um centímetro do coração tem o nome da Nyla Green escrito nela.
Ronan apenas assentiu, em silêncio. Ele sabia que a dívida de sangue entre os dois era profunda demais para qualquer reconciliação.
Nyla voltou para casa em um estado de transe. O caminho foi um borrão de náuseas; ela parou várias vezes para vomitar o veneno que fora forçada a ingerir. Em uma farmácia de plantão, comprou antialérgicos e remédios para ressaca, engolindo-os a seco.
Quando finalmente abriu a porta de seu pequeno apartamento, a erupção cutânea havia cedido, mas o cheiro de álcool ainda impregnava suas roupas. O silêncio a recebeu — um silêncio que a aterrorizou.
— Charlote? — chamou, a voz rouca.
Onde estava a pequena que sempre corria para seus braços? Nyla entrou no quarto e sentiu o coração despencar.
Charlote estava encolhida na cama, o rosto de uma palidez doentia e os lábios entreabertos, lutando para puxar o ar em uma respiração curta e ruidosa.
— Charlote! O que foi, meu amor? O que você tem? — Nyla caiu de joelhos ao lado da cama, o pânico substituindo instantaneamente qualquer rastro de embriaguez.
— "Mamãe... não me sinto bem. Meu peito dói..." — a voz da menina era um sopro, quase inaudível contra o silêncio do quarto.
— A mamãe vai te levar para o hospital agora mesmo! Charlote, resista! — Nyla sentiu o pânico subir pela garganta.
Ela ligou para a emergência, mas a agonia de ver a filha perder os sentidos era maior que a espera. Colocou Charlote nas costas e disparou escada abaixo. Lá fora, o céu de Ulares desabara em um aguaceiro torrencial, lavando as ruas com uma escuridão impiedosa.
Sem sinal da ambulância, Nyla ignorou o frio e a chuva. No meio da avenida, ela tentava desesperadamente interceptar qualquer veículo.
— "Mamãe... eu vou morrer? Dói demais..." — Charlote murmurava, o rostinho colado ao ombro úmido da mãe.
— Não! Charlote, aguenta firme! Não durma, olhe para a mamãe! — Nyla gritava entre soluços, sinalizando freneticamente para os carros que passavam como vultos borrados. — Parem! Por favor, parem! Minha filha está morrendo! Salvem minha filha!
Mas o egoísmo da cidade grande se refletia nos vidros fechados que a ignoravam. De repente, um Maybach preto cruzou a avenida em alta velocidade. Suas rodas pesadas atingiram uma poça profunda, lançando uma onda de lama e água suja sobre Nyla.
Instintivamente, ela se encolheu, protegendo o corpo da filha com o próprio. A lama misturou-se às lágrimas e à chuva.
Dentro do Maybach, o assistente Thiago olhou pelo retrovisor. A imagem daquela mulher solitária, coberta de lama e carregando uma criança no meio da tempestade, apertou-lhe o coração.
— Sr. Brooks... aquela mãe e a criança atrás de nós parecem desesperadas. A menina parece estar muito doente e a chuva está piorando. Devemos parar e dar uma carona?
No banco de trás, a silhueta de Ethan Brooks era uma estátua de gelo. Seu rosto, esculpido pela amargura, não vacilou.
— Compaixão — disse ele, a voz seca como um deserto — é o luxo de quem nunca foi destruído. Não se intrometa.
O Ethan de seis anos atrás teria parado sem hesitar. Mas aquele homem fora enterrado vivo em uma cela. O atual Ethan Brooks era movido por um niilismo sombrio.
Ao longe, as sirenes da ambulância finalmente cortaram o som do trovão. Nyla subiu no veículo médico em um último esforço. Enquanto o Maybach se distanciava, Ethan franziu a testa, um impulso inexplicável fazendo-o olhar para trás por um breve segundo. Mas a ambulância branca já era apenas um ponto de luz sumindo na névoa.
Deve ser ilusão, pensou ele, fechando os olhos. Como poderia ser Nyla Green?
Ele baixou o olhar para o anel de prata em seu dedo, o último elo com uma vida que ele agora desprezava. O Maybach seguia para o norte, a ambulância para o sul. Dois caminhos opostos, distantes e, ainda assim, irremediavelmente ligados.
Pressões FamiliaresAssim que Levi deixou o ambiente, Kezia recebeu uma chamada telefônica vinda de sua família.Era a voz da mãe de Kezia ao telefone: "Kezia, as festividades de fim de ano estão se aproximando. O que acha de você e do Levi virem almoçar conosco na véspera? Ele comentou que gostou daquela preparação especial de abóbora quando esteve aqui, lembra? Este ano, seu pai trouxe algumas cultivadas diretamente na propriedade do interior. Testei a receita e ficou excelente. Tenho certeza de que ele apreciará. Traga-o para o almoço. À tarde, vocês podem seguir para a residência principal dos Sterling para passar a data com o avô dele."A mãe de Kezia falava sem pausas.Kezia ouvia o diálogo em silêncio, sentindo-se distante daquela animação.Diante da falta de resposta, a mãe de Kezia insistiu do outro lado: "Kezia, você está me ouvindo?"Kezia sentia uma mistura de entorpecimento e desilusão diante daquela dinâmica."Mãe, o Levi esteve na nossa casa pouquíssimas vezes. Quando m
A Ilusão do PassadoO tom de Levi era frio e categórico, desprovido de qualquer calor, e seu olhar para ela transmitia uma desconfiança profunda. A cobrança que fazia não era motivada por carinho ou ciúme genuíno, mas por um hábito de controle e escrutínio constante.Superficialmente, Levi mantinha uma postura descontraída, capaz de interagir e brincar com qualquer pessoa. Por dentro, porém, carregava uma distância inabalável.Não importava o quanto tentassem aproximar-se dele, a resposta era sempre a mesma reserva fria.Durante o primeiro ano de casamento, no aniversário de Kezia, Levi encomendou uma estrutura comemorativa grandiosa para a ocasião. Naquela noite, posicionou-se atrás dela, abraçou-a pela cintura e sussurrou em seu ouvido: "Feliz aniversário, Sra. Sterling."Um homem como Levi possuía presença e recursos. Se ele decidisse tomar a iniciativa para criar um ambiente envolvente, poucas pessoas deixariam de se impressionar.Kezia era uma mulher comum, e Levi correspondia ex
A caminho da instituição de repouso, Nyla acompanhava os tópicos mais comentados nas redes sociais em seu celular.#A renomada modelo Diana retorna ao país e anuncia a abertura de seu estúdio próprio##Rumores apontam reconciliação com antigo relacionamento de perfil reservado#Ao notar a repercussão, Nyla clicou por curiosidade. A maioria dos comentários vinha de seguidores fiéis de Diana celebrando o retorno, mas, ao avançar pelos fóruns de discussão, o foco mudava rapidamente para a identidade do homem mencionado nas especulações."Não é possível! Ela sempre foi focada na carreira internacional, por que priorizar relacionamento agora?!""Apenas especulação! Ela retornou porque o contrato com a agência de Nova York encerrou e há novas oportunidades no mercado interno. Nada de romance!""Mas os boatos dizem que o homem pertence a uma linhagem extremamente influente!""Parece ser uma figura do passado dela. Na época em que assinou aquele contrato de cinco anos no exterior, ela preciso
A princípio, Ethan supôs que Nyla estivesse se referindo a algum incômodo ou reação alérgica na pele decorrente do drink que consumira.As pontas dos dedos dele, levemente marcadas pela rotina, roçaram com cuidado a cintura dela, provocando um leve tremor na jovem.Ele se aproximou e perguntou em voz baixa, preocupado: "O incômodo está muito forte? Quer que eu te leve ao médico para checar?"Segurou as mãos dela com delicadeza para evitar que ela machucasse a própria pele, temendo qualquer irritação maior.Nyla fez uma pequena resistência, esclarecendo com tom suave: "Não é nenhum sintoma alérgico...""Hum? Então o que é?"No instante em que a indagação saiu de sua boca, Ethan compreendeu a intenção dela.Surpreendeu-se ligeiramente, pois não esperava uma postura tão receptiva e afetuosa da parte de Nyla naquela noite.Ele a encarou fixamente por alguns segundos. Ao cruzarem os olhares, ambos sustentaram uma respiração pausada.O efeito da bebida deixava a cabeça de Nyla um pouco leve
Ethan passou o braço pela cintura de Nyla e usou a outra mão para puxar o casaco dela para mais perto, dizendo: "O vento está muito gelado aqui fora, vá me esperar dentro do carro."Ela costumava enfrentar desconfortos severos durante o período menstrual. Se não evitasse o frio ou bebidas geladas nos dias anteriores, o mal-estar só se intensificaria.Nyla olhava com evidente preocupação para Kezia, que continuava alterada pelo álcool na calçada.Ethan observou a cena e garantiu: "Eu resolvo a situação dela para você."Enquanto falava, um veículo escuro de grande porte aproximou-se e parou junto ao meio-fio. Levi desembarcou em seguida.Antes que Nyla dissesse qualquer coisa, Ethan deu um toque suave em suas costas e dirigiu-se a Levi: "A sua esposa está aos seus cuidados. Estamos de saída."Ele não tinha qualquer intenção de prolongar a presença ali diante do estado de Kezia.Levi apenas assentiu em silêncio.Nyla deu dois passos em direção ao carro, mas parou, virou-se e encarou o ho
Nyla olhou para ela e, ao sorrir, sentiu uma estranha pontada de compaixão. Apenas balançou a cabeça em silêncio.Kezia exibiu um sorriso radiante, mas havia um toque inegável de melancolia em seus olhos.Ela ergueu o copo e continuou: "Aquele idiota nunca se importa com o quanto eu gasto! Nyla, às vezes penso se não deveria apenas desistir de tudo e aceitar as coisas como são... Mas minha terapeuta diz que isso é um padrão disfuncional. Eu achava que não seria afetada, mas acabei desenvolvendo uma fixação idêntica à da minha mãe!"Apesar do sorriso nos lábios, lágrimas silenciosas começaram a escorrer pelo rosto de Kezia.Nyla estendeu a mão com carinho e enxugou as lágrimas da amiga: "Kezia, quer você escolha o divórcio ou decida permanecer, estarei ao seu lado apoiando o que te fizer bem."Se Kezia hesitava em dar o passo definitivo, ela tinha suas próprias razões. Nyla jamais a pressionaria cegamente a adotar uma postura rígida de independência. Neste mundo, cada pessoa carrega se







