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Capítulo 4

last update Data de publicação: 2026-03-16 12:03:12

Nyla  recolheu o dinheiro e o violino com as mãos trêmulas, caminhando a passos incertos em direção à saída. Ela sentia o mundo oscilar, o veneno do álcool já travando uma guerra contra seu sangue.

Ethan nem sequer se dignou a olhar para ela. Em vez disso, virou uma taça de champanhe de um só gole e disparou, com uma frieza cortante:

— Além disso, senhorita Green, esse anel de prata que você carrega no pescoço... é uma aberração.

Nyla estancou junto à porta, de costas para ele. Inconscientemente, seus dedos subiram até o peito, tocando o metal simples que pendia de uma corrente. Era um dos anéis de casal que Ethan comprara seis anos atrás. Prata barata, mas para ela, o objeto mais valioso do mundo.

— Estou acostumada a usá-lo — respondeu ela, sem se virar. — Ele me foi dado há seis anos, portanto, é meu. Se o uso ou não, Sr. Brooks, não é mais da sua conta.

Ela foi egoísta. Queria preservar aquela única prova de que o Ethan que a amava um dia existiu, mesmo que a lembrança fosse uma lâmina cega torturando-a nas madrugadas. Antes que a fúria dele transbordasse, Nyla saiu.

Na sala  privativa, o som de vidro se estilhaçando foi ensurdecedor. Ethan esmagara a taça em sua palma. O champanhe misturou-se ao sangue vivo que escorria entre seus dedos, gotejando no tapete caro.

— Ethan! A culpa foi minha, eu não pensei... — Ronan começou, chocado com a reação violenta.

— Essa é a surpresa que você preparou? — Ethan zombou, os olhos injetados de sangue e o rosto envolto em uma sombra assassina. — Que tédio. Não tome decisões por conta própria no futuro. Especialmente se envolverem Nyla Green.

Enquanto Ethan se retirava com sua aura de gelo, Levi passou o braço pelo ombro de Ronan.

— Ronan, por que você defendeu aquela mulher hoje?

— Achei que seis anos seriam suficientes para o Ethan superar — lamentou Ronan. — Eles eram o casal de ouro da Universidade. Não quero que ele viva nesse ciclo de ódio. Ele está se tornando um estranho até para nós.

— Ela o mandou para a cadeia, Ronan! — Levi rebateu. — Esqueceu que ele quase morreu esfaqueado lá dentro? Aquela cicatriz a um centímetro do coração tem o nome da Nyla Green escrito nela.

Ronan apenas assentiu, em silêncio. Ele sabia que a dívida de sangue entre os dois era profunda demais para qualquer reconciliação.

Nyla voltou para casa em um estado de transe. O caminho foi um borrão de náuseas; ela parou várias vezes para vomitar o veneno que fora forçada a ingerir. Em uma farmácia de plantão, comprou antialérgicos e remédios para ressaca, engolindo-os a seco.

Quando finalmente abriu a porta de seu pequeno apartamento, a erupção cutânea havia cedido, mas o cheiro de álcool ainda impregnava suas roupas. O silêncio a recebeu — um silêncio que a aterrorizou.

— Charlote? — chamou, a voz rouca.

Onde estava a pequena que sempre corria para seus braços? Nyla entrou no quarto e sentiu o coração despencar.

Charlote estava encolhida na cama, o rosto de uma palidez doentia e os lábios entreabertos, lutando para puxar o ar em uma respiração curta e ruidosa.

— Charlote! O que foi, meu amor? O que você tem? — Nyla caiu de joelhos ao lado da cama, o pânico substituindo instantaneamente qualquer rastro de embriaguez.

— "Mamãe... não me sinto bem. Meu peito dói..." — a voz da menina era um sopro, quase inaudível contra o silêncio do quarto.

— A mamãe vai te levar para o hospital agora mesmo! Charlote, resista! — Nyla sentiu o pânico subir pela garganta.

Ela ligou para a emergência, mas a agonia de ver a filha perder os sentidos era maior que a espera. Colocou Charlote nas costas e disparou escada abaixo. Lá fora, o céu de Ulares desabara em um aguaceiro torrencial, lavando as ruas com uma escuridão impiedosa.

Sem sinal da ambulância, Nyla ignorou o frio e a chuva. No meio da avenida, ela tentava desesperadamente interceptar qualquer veículo.

— "Mamãe... eu vou morrer? Dói demais..." — Charlote murmurava, o rostinho colado ao ombro úmido da mãe.

— Não! Charlote, aguenta firme! Não durma, olhe para a mamãe! — Nyla gritava entre soluços, sinalizando freneticamente para os carros que passavam como vultos borrados. — Parem! Por favor, parem! Minha filha está morrendo! Salvem minha filha!

Mas o egoísmo da cidade grande se refletia nos vidros fechados que a ignoravam. De repente, um Maybach preto cruzou a avenida em alta velocidade. Suas rodas pesadas atingiram uma poça profunda, lançando uma onda de lama e água suja sobre Nyla.

Instintivamente, ela se encolheu, protegendo o corpo da filha com o próprio. A lama misturou-se às lágrimas e à chuva.

Dentro do Maybach, o assistente Thiago olhou pelo retrovisor. A imagem daquela mulher solitária, coberta de lama e carregando uma criança no meio da tempestade, apertou-lhe o coração.

— Sr. Brooks... aquela mãe e a criança atrás de nós parecem desesperadas. A menina parece estar muito doente e a chuva está piorando. Devemos parar e dar uma carona?

No banco de trás, a silhueta de Ethan Brooks era uma estátua de gelo. Seu rosto, esculpido pela amargura, não vacilou.

— Compaixão — disse ele, a voz seca como um deserto — é o luxo de quem nunca foi destruído. Não se intrometa.

O Ethan de seis anos atrás teria parado sem hesitar. Mas aquele homem fora enterrado vivo em uma cela. O atual Ethan Brooks era movido por um niilismo sombrio.

Ao longe, as sirenes da ambulância finalmente cortaram o som do trovão. Nyla subiu no veículo médico em um último esforço. Enquanto o Maybach se distanciava, Ethan franziu a testa, um impulso inexplicável fazendo-o olhar para trás por um breve segundo. Mas a ambulância branca já era apenas um ponto de luz sumindo na névoa.

Deve ser ilusão, pensou ele, fechando os olhos. Como poderia ser Nyla Green?

Ele baixou o olhar para o anel de prata em seu dedo, o último elo com uma vida que ele agora desprezava. O Maybach seguia para o norte, a ambulância para o sul. Dois caminhos opostos, distantes e, ainda assim, irremediavelmente ligados.

 

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