Share

capitulo 2

Author: Evelyn750
last update publish date: 2025-07-15 05:49:45

Amélia Moreira

Encarei Inácio com um olhar fulminante, sentindo o calor da raiva queimando meu rosto, e o peso da blusa amassada que eu vestia me incomodando. Ele, por sua vez, cruzava os braços sobre o peito nu, um sorriso irritantemente calmo brincando em seus lábios.

— Sério que vai tentar me manter presa aqui? Isso é cárcere privado, Inácio! Eu vou chamar a polícia! — rosnei, tentando controlar a tremedeira nas mãos.

Ele soltou um risinho debochado, que fez meu sangue ferver.

— Você pode tentar, meu amor, mas antes vai ter que descobrir o número deles primeiro.

Olhei para ele, confusa e irritada.

— Como assim?

— Não estamos no país — disse ele, a voz casual, como se estivesse falando do tempo.

Um desespero gélido me atingiu em cheio, apertando meu peito e cortando minha respiração. A ficha caiu, e o pânico se espalhou pelo meu corpo, fazendo minhas mãos tremerem incontrolavelmente.

— E estamos onde então, se não em Nova York? — questionei, a voz falhando, o nervosismo evidente.

— Na minha casa, no Canadá — disse ele, com uma tranquilidade absurda.

Minha boca se abriu em um perfeito "O". Eu não conseguia processar. O Canadá?!

— Tá de brincadeira comigo, né? — balbuciei, a voz um sussurro incrédulo.

— Não. E não vamos voltar tão cedo para Nova York — disse ele, o tom final e inegociável.

— Você não fez isso! Ficou louco? E o meu trabalho? A minha vida! — gritei, sentindo o desespero se transformar em fúria. Aquele imbecil tinha realmente feito isso!

— Mandei um e-mail com sua carta de demissão. Você não precisa se preocupar, te darei tudo o que quiser. Não vai precisar trabalhar — disse ele, a voz carregada de uma autoconfiança que me deixou completamente puta.

Meus olhos varreram o cômodo em busca de algo, qualquer coisa. Minha mão se fechou em torno de um pesado vaso de cerâmica que estava em cima de um aparador. Sem pensar duas vezes, o lancei em sua direção com toda a força que tinha.

Ele desviou por um triz, e o vaso se espatifou contra a parede atrás dele, deixando um buraco e estilhaços pelo chão.

— Ficou louca foi? Quase acertou meu olho! — ele exclamou, a calma finalmente abandonando sua voz

.

Soltei uma risada estridente, quase um soluço de fúria.

— Quem ficou louco foi você, seu infeliz! Quem lhe deu o direito de se intrometer na minha vida?! De destruir tudo que eu construí?!

— Fica calma, Amélia — disse ele, tentando se aproximar, os braços estendidos.

Mas eu já estava fora de controle. Avancei, tentando atingi-lo com as mãos, com os pés, com qualquer parte do meu corpo.

— Fica calma, porra nenhuma! Eu vou te matar, seu idiot— Não consegui terminar a palavra. Ele avançou em um segundo, me calando.

Seus lábios, frios e determinados, esmagaram os meus em um beijo brusco e possessivo, que roubou meu ar e meus sentidos.

Devolvi o beijo, em um impulso que mal pude conter. A princípio, era uma mistura de choque e raiva, mas logo se tornou intenso, carregado de uma eletricidade perigosa.

Quando dei por mim, Inácio já estava me erguendo, me sentando em cima de uma mesa pesada que ficava ao lado da porta, e se posicionava entre minhas pernas, prendendo-me. Seus lábios eram exigentes, suas mãos firmes na minha cintura.

Porém, um momento de lucidez gélida me atingiu. O que eu estava fazendo? Empurrei-o com força, fazendo-o cambalear para trás, e desci da mesa num pulo.

— O que foi? — Inácio perguntou, a voz rouca, os olhos confusos com minha reação abrupta.

Não ia negar. Apesar de ele ser claramente um sujeito irritante e controlador, ele tinha uma pegada e um beijo que me desarmavam. Aquilo era perigoso.

— Nada! — respondi, tentando manter a calma, mas a voz saiu mais aguda do que eu queria. — Me leve de volta para casa, Inácio. Não vou ficar aqui, e muito menos com você.

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Você não entendeu, Amélia. Ficar ou não, não é uma opção para você.

Meus olhos se arregalaram. Me afastei dele, sentindo um arrepio na espinha.

— O que você quer dizer com isso?

Eu preciso de água. Não de um banho, é urgente. Esse beijo... Pensei, tentando organizar meus pensamentos caóticos, mas fui interrompida por Inácio.

— Você já leu o contrato todo? — questionou ele, os olhos fixos nos meus. — Está disposta a pagar pela multa pela quebra de contrato?

Nem que eu vendesse meus rins, eu poderia pagar por essa porra, pensei, sentindo um nó se formar na garganta.

Eu tinha lido o contrato. Era um absurdo total, uma aberração legal. Nele, dizia que se eu quisesse quebrar o acordo, teria que pagar uma multa de, pelo menos, dez milhões de dólares. Dez milhões! E eu, pobre como era, mal tinha dinheiro para pagar o aluguel no final do mês. Não tinha nem a metade, nem um décimo, nem um centésimo daquele valor.

— Eu li sim! Mas eu não concordei com isso! Eu não assinei aquele contrato por vontade própria, seu desgraçado! — Disse, a voz explodindo em indignação.

— E eu com isso? — perguntou ele, a frieza de sua resposta me chocando.

Minha raiva explodiu novamente.

— Você não presta, Inácio! É um monstro! — disse, a voz embargada pela indignação.

Ele riu, um som que me fez arrepiar os pelos da nuca.

— Não — disse ele, dando um passo, depois outro, se aproximando de mim. Ele estendeu a mão, e meus músculos tensionaram. Seus dedos roçaram uma mecha do meu cabelo, puxando-a levemente para trás da minha orelha.

O toque, estranhamente suave, era mais arrepiante do que qualquer grito.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Acordei Casada    Capítulo 81- Capitulo Final

    Inácio HallO galpão está mais silencioso do que nunca. Nem os homens falam. Nem August. Nem eu. É como se o ar tivesse se tornado sólido, uma massa pesada que todos nós somos obrigados a carregar. Todos sabem que hoje algo termina. Ou talvez, tudo termine.Empurro a porta. O rangido do metal ecoa como um lamento fúnebre. O cheiro lá dentro é insuportável — uma mistura de ferro, suor e decomposição — mas meus sentidos já estão anestesiados. Nada mais me alcança.X9 ainda está lá, ou o que restou dele. As correntes o mantêm em uma posição grotesca, mas a vida já não habita mais aquele corpo com vontade. A cabeça pende, os olhos estão semicerrados, e a respiração é tão rasa que o silêncio parece vencê-la.Caminho até ele. Cada passo é uma sentença. Paro a poucos centímetros. Espero.Um segundo. Dois.Sentindo minha presença, ele faz um esforço sobre-humano para erguer a cabeça. Seus olhos me encontram. Não há mais desafio, não há mais a arrogância do traidor. Existe apenas um pedido mud

  • Acordei Casada    Capítulo 80

    Inácio HallO cheiro de ferrugem e sangue velho me recebe antes mesmo de eu atravessar completamente a porta do galpão. É um odor familiar, quase reconfortante. Em um mundo onde tudo desmoronou, o cheiro da morte é a única coisa que ainda faz sentido.Os homens já fizeram o trabalho inicial. X9 está amarrado a uma cadeira de metal, os braços presos para trás, o corpo inclinado. O pé baleado foi enfaixado de forma improvisada, não por humanidade, mas por estratégia: eu precisava garantir que ele não morresse rápido demais. Eu queria tempo. Queria cada segundo da agonia dele.Caminho devagar. Cada passo ecoa no concreto vazio, um som seco e definitivo, como um relógio marcando o fim de uma era. Quando ele levanta a cabeça, o sorriso de deboche desapareceu. Só restou o medo. Finalmente.— Achei que você demoraria mais — ele tenta provocar, mas a voz falha, perdendo-se na imensidão do galpão.Não respondo. Puxo uma cadeira e me sento à sua frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Eu o

  • Acordei Casada    Capítulo 79

    Inácio HallQuando abro os olhos novamente, a escuridão já tomou conta do lado de fora. O quarto de hospital está mergulhado em um silêncio sepulcral; não há ninguém aqui, além de mim e dos meus fantasmas.A memória volta como uma avalanche, soterrando qualquer vestígio de paz. As palavras de Gabriel me golpeando como socos, o vazio negro onde ouvi a voz dela, o olhar de terror da Diana... Tudo converge para uma única e dolorosa verdade: no final, fui eu. Fui eu quem a destruiu. Tirei sua liberdade, seu sorriso e, por consequência, sua vida.Arrastei Amélia para o meu mundo infernal, acreditando egoisticamente que eu merecia o seu calor. Eu estava errado. Monstros não merecem amor. Monstros não têm direito à felicidade. Eu não merecia a Mel, não merecia a Diana e, certamente, não merecia o filho pelo qual ela lutou até o último batimento cardíaco.— Não se preocupe, meu amor — sussurro para o vazio do quarto, minha voz soando como um juramento vindo do além. — Quando eu terminar o que

  • Acordei Casada    Capítulo 78

    Inácio HallIsso está errado. Tudo está errado.O mundo não pode continuar girando se ela não estiver nele. A lógica não se aplica, as leis da natureza não permitem. Ela não pode ter me deixado. Não assim. Não agora que eu finalmente entendi que ela era a única coisa real em meio às minhas sombras.— Fale a verdade! Onde está a Amélia? Onde ela está? Me diz, porra! — Minhas mãos esmagam o tecido da camisa de Xz, sacudindo-o como se eu pudesse arrancar a resposta dele à força.— Ela... eu... eu não consigo... — A voz de Xz morre. O olhar dele, baixo e covarde, é a minha ruína.A raiva explode em minhas veias, um incêndio que consome qualquer resquício de racionalidade. Empurro-o e saio do quarto, ignorando a fraqueza do meu corpo, o curativo que repuxa ou os olhares de pena dos enfermeiros. Eu precisava encontrá-la. Eu ia arrastá-la de volta para mim, nem que tivesse que ir buscá-la no inferno.— Papai...A voz pequena me ancora no meio do corredor. Diana está ali. O contraste é cruel:

  • Acordei Casada    Capitulo 77

    Gabriel Martins O corredor do hospital parece ter quilômetros de extensão. Quando o médico se aproxima, o som de seus passos no piso frio ecoa como uma contagem regressiva. Diana, pequena e vulnerável naquele ambiente hostil, agarra a barra da minha calça com força. — Tio, cadê a mamãe? — A voz dela é fina, carregada de uma esperança que me corta como uma navalha. Meu coração erra a batida. Eu olho para o médico, buscando qualquer faísca de otimismo, mas aquela expressão eu conhecia bem demais. É o rosto de quem carrega o peso de uma notícia que muda vidas para sempre. — Então, doutor... como ela está? E o bebê? — A voz de Xz corta o ar, urgente e carregada de uma tensão que ele raramente demonstra. A hesitação do médico é palpável. Ele não responde de imediato. Seu olhar recai sobre Diana por um breve segundo — um olhar de profunda piedade — antes de se voltar para mim. — O senhor poderia me acompanhar, por favor? — ele diz, e eu entendo o código. Ele não quer falar na frente d

  • Acordei Casada    Capítulo 76

    Inácio HallEstá escuro.Não é a escuridão de um quarto com as luzes apagadas; é um vazio denso, sem chão ou teto, que parece sugar o oxigênio dos meus pulmões. Sinto como se estivesse afundando em um oceano de piche, onde o tempo não faz sentido e a gravidade é uma memória distante.— Que porra é essa…? — Minha própria voz soa estranha, vinda de algum lugar fora de mim. — Onde eu estou?Tento dar um passo, mas é como se correntes invisíveis puxassem meu corpo para o nada. O controle que eu sempre tive sobre tudo — sobre as pessoas, sobre os negócios, sobre a minha vida — evaporou.— Amélia? — chamo, e o nome dela corta o silêncio como um tiro. — Para de brincadeira e aparece!Silêncio. E então, uma voz. Baixa, cortante, carregada de uma melancolia que eu não reconheço.*“Você não se cansa, não é?”*Meu peito trava. Meus punhos se fecham por instinto.— Amélia? — Desta vez, não há raiva na minha voz, mas uma urgência que me incomoda. — Onde você está? Aparece logo!*“Até quando, Ináci

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status