LOGINEu estou cansada. Minhas pernas vacilam e bambeiam como se buscassem forças para continuar. Não sei se terei energia para prosseguir por mais tempo.
Também, não sei para onde ir. Não tenho ninguém para quem pedir ajuda. Mas, imagino que se eu chegar a alguma cidade, haverá algum trabalho. Talvez em uma fazenda. Eu sou boa com os animais e sei limpar qualquer coisa, desde uma casa a uma estrebaria. Não sei como é no mundo aqui fora. Mas, Janaína me disse que ela sempre trabalhou. Talvez os demônios do mundo externo a Igreja da Aurora me deixassem em paz e eu poderia me suster. Essa esperança surgiu enquanto eu vagava pela floresta durante a madrugada e nenhum deles me atacou. Estava assustada durante todo o trajeto. Orei ao Deus dos céus que me protegesse, mas não sabia se ele ouviria a voz de alguém que traiu e recusou seu profeta. Ainda assim eu tentei. Uma parte de mim tinha esperança de que ele pudesse me perdoar. Quando o sol apareceu, eu cheguei à estrada. O asfalto era quente, o que trazia algum conforto ao meu corpo gelado. Durante algum momento meus chinelos rasgaram, e não tive escolha, precisei andar descalça. Agora, sentia meus pés em carne viva. Monstros de rodas cruzaram por mim. Não carros normais, como aqueles que eu via na Igreja da Aurora, mas enormes veículos com várias rodas, que traziam carrocerias pesadas na sua traseira. Eles ventavam quando passavam, sua força quase me derrubando. Estava com medo, mas os salmos me mantiveram de pé. Era perto das nove quando avistei um tipo de mercado na beira do asfalto. Estranhamente, o cheiro perfumado de pães me fez roncar o estômago, e eu me aproximei dele. Havia um tipo de cartaz diante dele, e eu me sentei em um banco abaixo. Não sabia o preço para conseguir um pedaço de pão, talvez fosse minha alma, então preferi simplesmente abrir minha sacola e pegar o pão velho que trazia comigo. Antes, porém, de levá-lo a boca, vi um pequeno anjo se aproximando. Era um daqueles querubins que coloriam os livros que tinham na Igreja de Aurora. Ela sorriu e eu sorri em retribuição. — Tá com fome? — ela me perguntou, sua dicção esforçando-se para pronunciar as palavras. Ok. Não era um querubim. Era uma criança como aquelas que eu cuidava na comunidade. — Estou. Ela me estendeu um pedaço de bolo preto, com um tipo de cobertura por cima. Eu o aceitei, porque sabia que o gesto era inocente e doce. Quando o levei a boca, pensei que o mundo inteiro estava derretido entre meus lábios. — Que delícia — murmurei. — Chocolate — ela apontou. — Adoro chocolate! Eu também adorava chocolate. Mas, aquele que eu comia, feito com manteiga, açúcar e o resto do achocolatado dos filhos do profeta em nada se assemelhava a essa maravilhosa doçura. — Algo tão gostoso assim só pode ser pecado — eu apontei, e ela pareceu confusa. — Ei! O som enérgico quase me fez derrubar o pedaço de bolo. Eu me coloquei em pé. Diante de mim apareceu um homem alto, forte e de olhar curioso. Meu coração disparou, porque eu não era acostumada a ver outros homens além dos membros da Igreja, e porque ele também pareceu bonito demais, diferente do que eu era acostumada. Ontem, quando acordei, imaginei que teria outro dia típico. Em vinte e quatro horas, minha vida mudou completamente. — Eu sinto muito — murmurei. — Eu não roubei o bolo dela — disse, estendendo a ele o pedaço de bolo. Eu sentia o peso do olhar dele. O homem estava me medindo. Eu baixei meus olhos para a garotinha de cachos dourado escuro, adorável com suas bochechas rosadas. Ela parece toda tranquila, como se a frase do homem não mudasse absolutamente nada. Mas, mudou. Estou com medo de ter provocado uma reação em cadeia que pode me levar a perdição. — Está tudo bem — ele disse. — Você é da comunidade nas montanhas? Concordo. Até onde posso falar? — Está perdida? Precisa de ajuda para voltar? Eu nego energicamente, lágrimas se formando em meus olhos. Não quero que ele saiba o quanto estou desesperada, mas vejo nele um tipo de compreensão que mal posso alçar. É como se aquele homem de cabelos escuros e curtos, vestindo um terno ajustado, pudesse entender exatamente o que era o medo. — Está com fome? — ele indaga. Não posso negar. Minha barriga dói. — Venha. Vou te pagar um café da manhã — ele diz. Então ele começa a rumar para o estabelecimento. Não sei se é certo segui-lo, mas eu vou com ele porque minha vida já está desgraçada de qualquer maneira.1 ano depoisMeus passos ecoam pelo assoalho amadeirado. Eu posso sentir o montante de olhares sobre mim. Há vários tipos de olhares, a maioria é curioso, outros são carregados de piedade, e há um em especial que transborda medo.Medo.Profeta Jorge está sentado no banco dos réus. Ele teme minhas palavras porque sabe que eu vou condená-lo. E, vê-lo assim, só me enche de satisfação. Agora ele não é mais um líder que eu temo. Ele é só um homem apavorado, prestes a ser condenado há muitos anos de cadeia. Eu o encaro e ele desvia os olhos, abaixa a cabeça. É só um covarde.— Sra. Atalia — ouço a voz do promotor, enquanto ele aponta uma cadeira diante do juiz. Eu me sento e ele prossegue: — Por favor, sinta-se à vontade para responder todas as nossas perguntas. Caso não queira responder algo, é só dizer que iremos respeitar sua vontade. Sabemos que é um capítulo difícil em sua vida.Posso sentir uns breves flashes de luz. Há câmeras em minha direção, apesar do juiz só ter permitido uma equ
Acordei com o peso da cabeça de Atalia sobre meu peito. Ela está apagada, mas seus cabelos macios brincam contra meus mamilos, enquanto seu corpo inteiro, protegido por uma camisola fina e pelas cobertas, está repousado encostado em mim.Ela é tão doce. Tão gentil. Sou tão apaixonado por ela.As coisas que aconteceram nos últimos dias foram terríveis. Graças a Deus, tudo passou. Agora ela estava segura em meus braços e eu nunca permitiria que nada de mal acontecesse a ela.Sei que ainda teríamos muitos percalços. A ida ao tribunal, a luta para colocar aquele estuprador atrás das grades. O testemunho de Atalia seria fundamental. Mas, ainda assim, nossa vida, juntos, estava só começando e teríamos muitos dias para aproveitarmos a presença um do outro enquanto criávamos nossos filhos.Eu sorrio enquanto Atalia se mexe, em seu sono. Ela suspira pesadamente, enquanto sua pele resvala contra a minha. Sei que está dormindo, mas a ação me deixa instantaneamente saudosos dos nossos breves mom
— Falei com o médico. Os exames saíram, e você não sofreu nenhuma lesão grave — Levi disse, sentando-se na cama do hospital. — Ele vai vir conversar com você em breve.Assenti. Apesar dos ferimentos superficiais, eu sabia que havia outros bem profundos que não seriam encontrados por exames laboratoriais.— Como se sente? — Levi indagou.Sorri, triste.— Meu pai tentou me salvar — contei a ele. — Ele cortou minhas cordas — ergui meus punhos machucados. — E tentou me ajudar a sair.Uma parte de mim estava tão agradecida. Eu nem entendo por quê. Era dever dele me proteger e me amar e ele foi tão relapso com esse dever por tantos anos. Ele não me olhava. Não me protegia. Não impedia que o mal me acontecesse.E ele nem me ajudou por mim. Era só um acaso.— Foram todos presos, incluindo seus pais — Levi me contou. — O corpo e delito vai provar as agressões. Quando a polícia chegou, sua mãe estava preparando chás abortivos...— Sim — assenti. — Eles queriam me forçar a tomar.Levi se curvou
Algumas horas antes.Todos os dias, antes de voltar para casa, eu comprava um mimo para Atalia. Eu sei que é uma coisa idiota a se fazer, mas era uma das maneiras de eu demonstrar a ela o quanto a queria bem, já que não conseguia dizer com palavras.Então, mais uma vez, eu dirigi de volta para casa com um botão de rosa vermelha no banco do lado. Infelizmente, ele ficou completamente esquecido quando, ao estacionar, percebi o Toyota Etios vermelho com calotas cor-de-rosa de Aline parado à entrada.Meu sangue gelou. Eu realmente não esperava ver minha ex-esposa, não quando sentia que estava me recuperando tão bem de um momento tão terrível em minha vida.Entrei na casa, meus olhos procurando por Atalia. Eu a chamei, mas ela não apareceu como de costume. Então, rumei até o quarto de Alice. Percebi minha filha sentada na cama, brincando de boneca com a mãe. Nós dois nos encaramos por alguns segundos, e então eu indaguei:— O que está fazendo aqui?Sinceramente, esperei que ela fosse ficar
A luz do sol arde em minhas vistas. Eu tento abrir meus olhos, lutando desesperadamente por retomar a minha consciência. Eu temo nunca mais acordar. Eu temo permanecer para sempre na escuridão.Minhas mãos estão presas por cordas fortes, daquelas que se usa para amarrar a cabeça dos porcos antes do abate. Meu corpo dói e eu sei que há sangue na minha cabeça porque sinto um gelado e molhado em um canto direito que arde muito.Eu sei onde estou, antes mesmo de vislumbrar o feno um pouco sujo de barro do chão daquele celeiro velho e caindo aos pedaços. Tento recuperar meu fôlego, enquanto a realidade vai me tocando, como mãos geladas e cruéis, e eu sei que é meu fim.De alguma forma, eu sei.Tive a coragem de fugir do Profeta Jorge. À visão de todos ali, eu estava entregue aos demônios. Eu ousei me retirar da presença de Deus e me curvar ao mundo, viver fora dos dogmas da religião.Uma mão forte me ergue do chão, me forçando a sentar. Encaro meu velho pai, que nem sequer tem a ousadia de
Apesar de primeiramente eu ter me enchido de coragem, a verdade me tomou no dia seguinte, quando Levi quis me levar ao médico, e eu soube que fora de casa havia aquele monte de gente me querendo mal. Assim, eu mal consegui chegar à porta. Pedi por tempo, e ele cedeu.E cedeu nos dias seguintes, conforme eu ia me enclausurando mais.Meu mundo está pequeno, e eu me preocupo que estou fazendo o de Alice se tornar também.Naquela tarde de quarta-feira, quando ela me pediu para ir brincar lá fora novamente, eu olhei em todas as direções pela janela, antes de permitir sua saída. Então a segui, minhas mãos tremiam e o medo tomava conta de mim.A comunidade já sabia onde eu estava. Eles viriam atrás de mim ou estavam esperando pacientemente que toda a lavagem cerebral que sofri durante anos fizesse efeito e eu fosse atrás deles?Eu precisava ir até à polícia. Não apenas por mim, mas também pelo filho que eu carregava no ventre. Ainda não tinha prova médica, mas eu sabia que estava grávida.—







