เข้าสู่ระบบScarlett Sinclair...
Naquela noite, eu não consegui dormir. Deixei a janela do meu quarto entreaberta, permitindo que o vento frio entrasse e movimentasse suavemente as cortinas, enquanto eu permanecia deitada, olhando para o teto escuro e tentando convencer minha mente de que, em algum momento, ela simplesmente se cansaria de pensar. Não aconteceu. Toda vez que fechava os olhos, eu voltava para a livraria. Para aquele livro. Para a carta. Para o homem ruivo que havia cruzado o meu caminho naquela tarde. E para o homem de terno escuro. Havia alguma coisa naquela situação que não se encaixava. Eu não sabia o quê. Mas sentia. K continuava sendo a única coisa que fazia sentido em meio àquela confusão. Ou, pelo menos, era o que eu queria acreditar. Virei-me na cama e puxei o cobertor até o peito. Minha própria carta estava guardada dentro da bolsa. A resposta que eu havia escrito para ele. As palavras que eu escolhera com tanto cuidado. Eu pretendia entregá-la na manhã seguinte. Era simples. Eu iria até a livraria. Colocaria a carta no lugar combinado. E voltaria para casa. Nada mais. Era isso que deveria acontecer. Mas a vida raramente respeita aquilo que planejamos. --- Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. O céu estava coberto por nuvens cinzentas, e uma chuva fina batia contra a janela. Fiquei alguns minutos sentada na cama. Havia alguma coisa estranha dentro de mim. Uma inquietação que não conseguia explicar. Talvez fosse apenas ansiedade. Talvez fosse a expectativa de saber se K responderia à minha carta. Levantei-me. Tomei banho. Arrumei os cabelos. Peguei minha bolsa. E saí. A cidade parecia silenciosa naquela manhã. As pessoas caminhavam depressa pelas calçadas, protegendo-se da chuva com guarda-chuvas escuros. Eu seguia pela rua conhecida quando tive aquela sensação novamente. A sensação de estar sendo observada. Parei. Olhei para trás. Nada. Continuei andando. Alguns metros depois, parei novamente. Foi quando a vi. Uma mulher estava parada diante da vitrine de uma pequena loja. Ela parecia ter pouco mais de trinta anos. Cabelos escuros presos em um coque baixo. Um sobretudo preto. Luvas. E um guarda-chuva fechado apoiado contra o chão. Ela não observava a vitrine. Observava a mim. Nossos olhos se encontraram. Meu primeiro impulso foi continuar andando. Mas ela falou antes. — Scarlett Sinclair? Meu corpo inteiro ficou alerta. — Quem quer saber? Ela deu um pequeno sorriso. Não era exatamente amigável. Mas também não parecia ameaçador. Era o tipo de sorriso de alguém que sabia alguma coisa que você ainda não sabia. — Meu nome não é importante. — Então por que sabe o meu? Ela olhou rapidamente para a minha bolsa. Meu coração acelerou. — Você carrega uma carta aí dentro. Fiquei imóvel. — Como sabe disso? Ela não respondeu. Apenas atravessou a calçada e parou a poucos passos de mim. — Você precisa ter cuidado. — Com o quê? — Com quem escreve para você. Meu estômago se apertou. — Você conhece K? A mulher desviou o olhar por um instante. Quando voltou a me encarar, havia algo diferente em seus olhos. Cansaço. Talvez medo. — Eu conheço o nome que ele usa. Meu coração disparou. — Então você sabe quem ele é? — Talvez. — Isso não faz sentido. — Faz mais do que você imagina. A chuva começou a ficar mais forte. A mulher finalmente abriu o guarda-chuva. — Não entregue essa carta hoje. Franzi a testa. — Por quê? — Porque alguém está esperando por ela. Senti um arrepio. — Quem? Ela ficou em silêncio. Olhou para o outro lado da rua. Eu acompanhei seu olhar. O carro preto estava lá. O mesmo carro que eu havia visto antes. Os vidros escuros não permitiam enxergar quem estava dentro. Quando voltei a olhar para a mulher, ela estava me observando atentamente. — Está vendo aquele carro? Assenti. — Ele apareceu ontem também. Meu coração bateu mais forte. — Você está me seguindo? — Não. — Então como sabe? Ela respirou fundo. — Porque estou tentando impedir que você cometa o mesmo erro que outras pessoas cometeram antes de você. — Que erro? Ela apertou os lábios. — Confiar demais nas cartas. Fiquei em silêncio. — As cartas são perigosas? — Não. Ela fez uma pausa. — As pessoas que as procuram são. Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, o carro começou a se mover. Passou lentamente por nós. Por um instante, consegui enxergar uma silhueta no banco traseiro. O homem do terno. Meu coração acelerou. Quando o carro desapareceu na esquina, a mulher segurou meu braço. — Escute. Olhei para ela. — Se alguém perguntar sobre K, você não sabe de nada. — Quem perguntaria? Ela hesitou. — Pessoas que não deveriam saber que você existe. Meu rosto perdeu o calor. — Por que eu? A mulher me soltou. — Essa é a pergunta que você precisa fazer. Ela começou a se afastar. — Espere! Ela parou. — Quem é você? Ela olhou por cima do ombro. — Alguém que também recebeu uma carta. Meu coração parou. — De K? Ela não respondeu. Apenas continuou andando. — Espere! Corri alguns passos atrás dela. Mas quando virei a esquina, ela havia desaparecido. Como se nunca tivesse estado ali. --- Fiquei alguns minutos parada no meio da calçada. A chuva molhava meus cabelos. Eu não me importava. Minha cabeça estava cheia de perguntas. Uma mulher que conhecia K. Uma carta. O carro preto. O homem do terno. E aquele aviso. Não entregue essa carta hoje. Eu deveria ignorar. Era isso que uma pessoa racional faria. Voltaria para casa. Esqueceria aquela mulher. Esqueceria o carro. Esqueceria tudo. Mas eu não era mais a mesma Scarlett que encontrara o primeiro envelope de cera preta. Eu precisava saber. Voltei para a livraria. O lugar estava quase vazio. Caminhei até o corredor dos fundos. Meu coração batia rápido. O esconderijo estava exatamente onde deveria estar. Retirei a carta da bolsa. Fiquei olhando para ela. A cera vermelha brilhava sob a luz fraca. Por alguns segundos, pensei em colocá-la ali mesmo. Mas me lembrei das palavras da mulher. Alguém está esperando por ela. Guardei novamente. Foi então que percebi algo sobre a prateleira. Havia um livro diferente. Preto. Pequeno. Colocado entre dois livros antigos. Puxei-o. Não era o livro que K havia me enviado. Era outro. Abri a primeira página. Nada. Segunda. Nada. Terceira. Uma frase. “Você deveria ter entregado a carta.” Meu coração acelerou. Virei a página. “Agora ele sabe que você desconfia.” Outra. “E ele está mais perto do que você imagina.” Fechei o livro. Meu corpo inteiro ficou arrepiado. Olhei para o corredor. Ninguém. Então ouvi passos. Lentos. Do outro lado das estantes. Meu coração disparou. Não consegui me mover. Os passos se aproximaram. Um. Dois. Três. Parei de respirar. Uma sombra apareceu no chão. Alguém estava do outro lado da estante. Segurei a bolsa contra o corpo. Então a pessoa passou. Vi apenas parte do rosto. Cabelos ruivos. O mesmo rapaz do café. Ele não me viu. Ou fingiu que não viu. Passou lentamente pelo corredor e desapareceu entre as estantes. Meu coração batia tão forte que parecia impossível que ele não tivesse ouvido. Não sabia quem ele era. Não sabia por que continuava aparecendo. E não sabia por que, toda vez que o via, sentia aquela estranha impressão de reconhecimento. Como se alguma parte de mim já soubesse quem ele era. Abri a bolsa. Toquei no envelope. A carta ainda estava lá. E então percebi uma coisa. Havia uma pequena marca de cera preta no canto do envelope. Eu não tinha colocado aquilo ali. Passei o dedo sobre a marca. Meu coração afundou. Era o mesmo símbolo. O círculo. As duas linhas entrelaçadas. O símbolo que aparecia nas cartas de K. Olhei para o corredor por onde o rapaz ruivo havia desaparecido. Depois para a carta. E finalmente compreendi que aquela história não era mais apenas sobre duas pessoas que haviam encontrado uma na outra um lugar seguro para existir. Havia outras pessoas envolvidas. Pessoas que sabiam. Pessoas que observavam. Pessoas que talvez estivessem esperando o momento certo para entrar naquela história. Apertei a carta contra o peito. Eu ainda não sabia quem era K. Não sabia quem era aquela mulher. Não sabia quem era o homem do terno. E muito menos quem era aquele rapaz ruivo que continuava surgindo nos lugares mais improváveis. Mas havia uma coisa que eu sabia. Eu não entregaria aquela carta. Ainda não. Porque, pela primeira vez, eu precisava descobrir quem estava lendo antes mesmo de ela chegar ao destinatário. E, naquela manhã, pela primeira vez desde que tudo começou, eu tive uma certeza assustadora: talvez algumas cartas nunca devessem ser lidas. Principalmente quando alguém já está esperando para descobrir o que foi escrito.Eu não consegui responder.Fiquei olhando para Sandy como se, em algum momento, o rosto dela fosse revelar que aquilo era apenas mais uma mentira.Mas não revelou.Ela parecia assustada.Não era o tipo de medo que alguém demonstrava quando era descoberto.Era diferente.Parecia o medo de alguém que acabara de perceber que não conseguiria mais impedir alguma coisa.— Quem eu era? — repeti.Sandy apertou os lábios.— Você ouviu.— Ouvi. Só quero entender.— Não é tão simples.— Então simplifica.Kellan permaneceu ao meu lado, em silêncio.Eu conseguia sentir a presença dele, mas naquele momento minha atenção estava completamente presa a Sandy.Ela olhou para a porta da biblioteca.Depois para as janelas.Como se estivesse verificando se estávamos sozinhos.— Aqui não — disse.— Onde, então?— Em qualquer lugar, menos aqui.— Por quê?Sandy olhou para as estantes.— Porque esta biblioteca guarda mais do que livros.Meu estômago se apertou.— Isso eu já descobri.Ela respirou fundo.— Ent
A porta se fechou atrás de Sandy.Eu continuei olhando para ela por alguns segundos.Não sei quanto tempo fiquei parada.Talvez porque alguma parte de mim ainda esperasse que ela voltasse e dissesse que tudo aquilo tinha sido uma brincadeira.Que eu estava imaginando coisas.Que ela não sabia de nada.Mas ninguém voltou.A biblioteca permaneceu silenciosa.— Ela sabia — Kellan disse.Olhei para ele.— Também acho.— Não. — Ele balançou a cabeça. — Não estou falando do livro. Estou falando da carta.Senti um arrepio.— A frase.— Exatamente.“Talvez esteja na primeira.”Sandy não tinha como saber daquela frase.A menos que...— Ela tenha visto a carta — completei.Kellan se aproximou da estante.— Ou alguém contou para ela.Passei os olhos pelos livros.— E se ela tiver encontrado o que escondi?Kellan ficou sério.— Então precisamos descobrir antes dela o que está naquela carta.Tirei o livro da prateleira.Meu coração batia rápido.Por alguns segundos, tive medo de que as coisas tive
A porta da sala secreta continuava aberta atrás de nós.Eu ainda conseguia sentir o peso daquelas palavras na minha cabeça.Procurem na primeira carta que Scarlett recebeu.A primeira carta.Aquela que tinha iniciado tudo.Olhei para Kellan.Ele parecia tão inquieto quanto eu.— Precisamos voltar — murmurei.— Para onde?— Para a biblioteca.Kellan franziu a testa.— Scarlett, nós acabamos de sair de lá.— Eu sei.Passei a mão pelo bolso da jaqueta, sentindo o pequeno objeto que havia escondido ali.A chave encontrada na segunda caixa.Eu não sabia o que ela abria.Mas agora tinha certeza de que não era coincidência.O problema era outro.Sandy.Desde que aquela mensagem apareceu, alguma coisa nela tinha mudado.Ou talvez tivesse mudado em mim.Talvez eu simplesmente tivesse começado a enxergá-la de verdade.---Quando voltamos à biblioteca, Sandy estava sentada atrás do balcão.Ela mexia no celular como se aquela noite fosse completamente normal.Quando nos viu, levantou os olhos.—
Por alguns segundos, ninguém se moveu.A frase continuava diante de mim.A segunda está onde tudo começou.E, abaixo dela:N.Não era apenas uma pista.Era uma provocação.Como se alguém soubesse exatamente quais perguntas estávamos fazendo e tivesse decidido responder apenas o suficiente para nos manter procurando.Kellan ainda segurava a fotografia.— Precisamos sair daqui — disse.— Não.Ele me encarou.— Scarlett.— Não vou sair agora.— Alguém esteve aqui.— Eu sei.— E sabe o que isso significa?— Que estamos perto.— Ou que alguém quer que pensemos isso.A resposta me fez parar.Ele tinha razão.Aquela era a primeira coisa que eu precisava aprender sobre tudo envolvendo N.Nem toda pista levava a uma resposta.Algumas levavam a outras pistas.Outras levavam a armadilhas.E talvez algumas tivessem sido colocadas ali justamente para que nós encontrássemos.Olhei novamente para a fotografia.— "Não confie no primeiro Hawthorne que encontrar."— Eu vi.— Você acha que é sobre você?
Acordei antes de Kellan.Por alguns segundos, não soube onde estava.O teto desconhecido.A luz pálida entrando pelas cortinas.O silêncio diferente daquele da biblioteca.Então me lembrei.A casa de Kellan.A caixa 27.N.Sandy.As cartas.Tudo voltou de uma vez.Sentei-me devagar e procurei meu celular sobre a mesa ao lado. A tela marcava pouco depois das sete da manhã.Havia uma mensagem.De Sandy.Precisamos conversar. Sozinhas.Meu estômago se apertou.Li novamente.Não havia explicação.Nenhum emoji.Nenhuma segunda mensagem tentando amenizar o tom.Apenas aquilo.Levantei-me e caminhei até a janela.A rua estava quase vazia. Algumas folhas se moviam com o vento, e o céu carregava aquela tonalidade cinzenta que parecia anunciar chuva.Atrás de mim, ouvi passos.— Você sempre acorda tão cedo?Virei-me.Kellan estava na porta.Parecia tão cansado quanto eu me sentia.— Recebi uma mensagem da Sandy.O rosto dele mudou imediatamente.— O que ela disse?Mostrei a tela.Ele leu.Depoi
Sandy foi a primeira a se mexer. Ela recolheu duas das cartas que estavam sobre a mesa e as devolveu à caixa 27, com o cuidado de quem guardava algo frágil demais para ser deixado exposto. — Eu preciso resolver uma coisa — disse. Olhei para ela. — Agora? — Agora. A resposta veio rápido demais. Kellan desviou os olhos, mas não antes que eu percebesse o pequeno sorriso no canto de sua boca. Sandy percebeu também. — Não façam essa cara — falou, fechando a tampa da caixa. — Não estou abandonando vocês. Só estou dando a oportunidade de conversarem sem alguém interromper a cada cinco segundos. — Você não interrompeu — disse Kellan. — Eu interrompi várias vezes. — Você fez perguntas importantes. — O que é uma forma elegante de dizer que interrompi. Ele soltou uma risada baixa. Foi a primeira vez que o vi rir daquela maneira. Sem ironia. Sem a sombra que geralmente parecia acompanhar cada expressão dele. O som foi breve, mas ficou na sala depois que terminou. Sandy colocou







