MasukTHIAGO
O clima entre a gente tava esquisito. Não ruim, só… estranho. Difícil explicar. A Mirela não era mais criança. Essa parte era o que mais me confundia. Porque minha cabeça ainda lembrava dela de maria-chiquinha correndo com a boneca no braço, pedindo picolé e me chamando de "tio Thi". Mas agora, ali no meu sofá, com aquele shortinho que mal cobria as coxas e o cabelo solto escorrendo nas costas, não dava pra fingir que ela era a mesma menininha. Não era. Longe disso. Agora era uma mulher. Uma mulher linda. De parar o trânsito. E por mais errado que isso soe — e sei que soa — ela mexia comigo. A gente tava sentado no sofá depois de comer. Pedi comida japonesa, que ela devorou como se fosse a última refeição da vida. E depois, entre um gole de refrigerante e uma risada abafada, ela olhou pra mim com aqueles olhos azuis que pareciam pedir mais do que palavras. — Tio, me conta uma história? Igual quando eu era criança… Soltei uma risada curta, meio sem jeito. — Ih, Mirela… nem lembro mais dessas histórias. Faz um tempão. A última vez que contei uma dessas tu devia ter o quê? Uns seis anos? Ela deu de ombros, fazendo bico. Um bico bonito, provocante. — Por favor, tio… só uma. Ela ajeitou as pernas no sofá, se aproximando, colocando a cabeça no meu ombro como fazia quando era pequena. Mas agora o toque era diferente. Não sei explicar. O cheiro dela me atingiu, doce, fresco, com um perfume que grudava no nariz. Puxei as pernas pro sofá, sentei de perna cruzada igual um tiozão mesmo e suspirei, tentando achar na memória alguma história besta. — Tá bom. Mas você promete que não vai rir se ficar ruim, hein? Ela riu baixinho, o que só me fez sorrir também. Aquela gargalhada gostosa que ela dava… Deus me perdoe, mas me dava vontade de morder o canto da boca dela. Comecei a contar a história do macaquinho que queria fugir do circo — lembro que ela adorava essa quando era pequena. Fui inventando os pedaços que faltavam, só pra fazer graça, e ela ria, ria de verdade, se jogando em mim, com a mão encostando no meu peito de um jeito que parecia sem querer... mas será que era? A verdade é que cada vez que ela se encostava mais, eu sentia meu corpo reagir. Era só uma história, mas o jeito que ela me olhava, de baixo pra cima, os olhos brilhando e a boca entreaberta, parecia pedir mais que um final feliz pro macaquinho. Eu sabia que era errado pensar assim. Era minha sobrinha… tecnicamente. Mas ela não me via como tio, isso tava ficando claro. E pior: eu também já não conseguia fingir que via ela só como aquela menininha que um dia sentou no meu colo pra ver desenho. Ela tava toda jogada no sofá agora, com a perna encostando na minha, aquele toque quente e macio. E sem querer — ou querendo muito — ela deitou a cabeça na minha coxa. — Tô com sono, tio — murmurou, os cílios quase fechando, a respiração calma. Meu corpo inteiro enrijeceu. A sensação dela ali, tão perto, o calor da pele dela passando pela minha calça, o cheiro… aquilo tudo era tortura. Tentei manter a cabeça no lugar, juro. Mas a minha mão foi parar no cabelo dela, afagando devagar, como um carinho inocente. Só que nada naquela noite era inocente. — Tio… — Hm? — Cê acha que eu mudei muito? Engoli seco. — Bastante. você virou mulher, Mirela. Não é mais a menininha que queria brincar com meu cabelo. Ela levantou o rosto devagar, me encarando. Os olhos azuis pareciam cheios de segredos. — Isso é ruim? Balancei a cabeça, tentando fugir da armadilha que ela armava com uma simples pergunta. — Não. Só… perigoso. Ela mordeu o lábio inferior, como se saboreasse aquela resposta. Eu tava ferrado. Sabia disso. Mas não conseguia me afastar. — Perigoso por quê, tio? Dei um riso sem humor, passando a mão pelo rosto. — Porque você cresceu, tá linda, cheia de atitude… Silêncio. Só o som do ar-condicionado e o coração batendo forte — o meu e, tenho certeza, o dela também. Ela deitou de novo, dessa vez mais próxima, o rosto encostando no meu abdômen, os dedos traçando círculos pequenos na costura da camisa. — Então não olha pra mim como se fosse… — Como se fosse o quê? Ela levantou o olhar, atrevida. — Como se fosse pecado. Puxei o ar com força, me afastando devagar. Fui até a cozinha pegar um copo d’água, tentando esfriar o sangue que já tava fervendo. Precisei de uns bons minutos pra voltar e, quando voltei, ela já tava dormindo no sofá, encolhida, com a mão segurando o travesseiro e os cabelos bagunçados. Fiquei parado ali, olhando. A Mirela era problema. E eu sabia que, se continuasse daquele jeito… uma hora eu não ia conseguir parar. Mas o pior de tudo? Eu já nem queria.THIAGO Eu poderia dizer que estou cansado. E estaria sendo sincero.Tem brinquedo espalhado em todos os cantos da sala, tem uma boneca sem braço na mesa da cozinha, um carrinho atolado de massinha grudada na sola do meu chinelo e um giz de cera azul derretido no banco do sofá que, honestamente, nem quero saber como foi parar ali. Mas no meio desse caos, eu respiro fundo e sorrio. Porque esse caos... é meu. É nosso.Lucas já tem 8 anos. Tá um rapazinho. Inteligente, sensível, sempre com alguma pergunta que me faz parar pra pensar antes de responder. Às vezes me pego observando ele, como quem tenta gravar na memória cada gesto, cada olhar. Ele é o meu primeiro amor de pai, o que me ensinou o que era amar alguém com a alma, sem nenhuma dúvida.Gabriel, com 4, é um furacão. Grita, corre, escala o sofá, some, aparece, fala pelos cotovelos, responde como se tivesse o dobro da idade. Não tem tempo ruim pra ele, só quer brincar. Já me fez acordar com o rosto todo pintado de canetinha, e outr
MIRELA Nunca vou esquecer aquele silêncio.Aquele tipo de silêncio que parece engolir tudo: palavras, planos, esperança. Foi o que aconteceu no consultório, quando o médico respirou fundo antes de dizer:— Infertilidade masculina.Meus olhos buscaram os de Thiago. Ele ficou parado, como se não tivesse entendido de primeira. E eu entendi. Entendi que naquele instante ele se sentiu falho, culpado, menor. Eu quis correr pra ele, tirar aquela dor do peito dele, dizer que a gente ia ficar bem. Mas por um segundo… a gente só ficou em silêncio.Depois veio o choro. Dos dois. Sem vergonha, sem culpa. Só lágrimas e um abraço tão apertado que dava pra ouvir o coração do outro dizendo: “tô aqui”.Foi um luto. Não só pelo filho que não viria de nós dois, mas por todos os testes de farmácia que a gente comprou na esperança. Por cada exame. Por cada vez que eu acordei no meio da madrugada acreditando que, talvez, aquele enjoo fosse sintoma de gravidez.Mas sabe de uma coisa? A dor ensinou. A dor r
THIAGO Era uma daquelas noites em que o mundo inteiro parece calmo. O relógio já passava das duas da manhã, mas o sono não vinha. Fiquei deitado, só ouvindo a respiração suave da Mirela ao meu lado. Ela dormia tranquila, virada pra mim, o rosto relaxado, o cabelo espalhado no travesseiro. E eu ali, olhando pra ela com uma mistura de paz e urgência.A gente estava tentando. Tentando aumentar nossa família. Todo mês se enchia de esperança, de amor, de expectativa… e às vezes de silêncio também, quando o teste dava negativo. Mas ela nunca deixava a peteca cair. Ela sorria, dizia “tudo bem, ainda não era a hora”, e continuava acreditando. E esse jeito dela, essa força suave… isso me matava de amor por dentro.Me levantei devagar da cama pra não acordar ela e fui até o banheiro. Olhei meu reflexo por um tempo. Os olhos já não tinham aquela pressa de antes. Eu era outro cara. E tudo por causa dela e do Luquinhas. Eu me tornei um homem de verdade no dia em que Mirela segurou meu mundo com a
MIRELATem noites que o silêncio pesa. Que a casa parece grande demais, mesmo com o som suave da babá eletrônica no quarto ao lado, ou os braços fortes do Thiago ao meu redor. Tem noites que o escuro me transporta de volta para lugares onde jurei que nunca mais voltaria.É difícil explicar. Às vezes, estou ali, dormindo tranquila, com o som do ventilador girando e o cheiro do nosso bebê ainda preso nos lençóis. Mas, de repente, é como se o ar mudasse. E eu estou de novo frente a frente com Rodrigo se aproximando, transtornado. A arma em punho. O disparo. O sangue. O desespero.Acordo sempre da mesma forma: ofegante, o coração disparado e as mãos suadas. Algumas vezes, com um grito preso na garganta. Outras, chorando baixinho pra não acordar Thiago. Mas ele sempre acorda. Mesmo quando não diz nada, ele sente. Ele percebe.Essa noite foi mais uma dessas.Abri os olhos sentindo o peito apertado, os olhos marejados. E ali estava ele, o homem que mudou a minha história. Que segurou a minha
MIRELAA luz do luar entrava pelas frestas das cortinas, pintando o quarto de prata e sombras. Eu estava deitada de costas, com os dedos traçando círculos lentos na própria barriga, enquanto observava Thiago na porta do banheiro, escovando os dentes. Ele estava só de cueca, o corpo marcado pelo tempo e pela vida, mas que ainda me fazia tremer por dentro. Cada músculo, cada cicatriz, cada fio de cabelo grisalho naquele peito largo — tudo me excitava nesse meu marido gostoso. Ele cuspiu na pia, enxaguou a boca e então olhou pra mim pelo reflexo do espelho. — O que foi, pequena? — perguntou, a voz já mais grossa, como se já soubesse exatamente o que eu estava pensando. Sorri, mordendo o lábio. — Tô só pensando… que a gente devia aproveitar que o Lucas tá na cama ainda.Ele secou as mãos na toalha e virou-se, os olhos escuros queimando. — É mesmo? E o que você sugere?Arqueei uma sobrancelha, deixando minha mão descer devagar, passando pela barriga, até chegar na borda da minha calci
MIRELA A vida seguia num ritmo tão doce que às vezes eu me pegava perguntando se merecia mesmo tanta paz depois de tudo que já enfrentei. A nossa casinha vivia cheia de risadas, cheirinho de comida fresca, brinquedos espalhados pelo chão e o som do Lucas balbuciando coisas que só ele entendia. Estávamos perto do segundo aniversário dele e era impossível não me emocionar vendo o quanto ele crescia lindo, inteligente e amoroso.Mesmo nos dias mais cansativos, entre trabalhos da faculdade e as responsabilidades da casa, eu me sentia realizada. Ainda mais quando Thiago chegava do trabalho e me envolvia naquele abraço de corpo inteiro, como se ali ele estivesse dizendo silenciosamente:"Eu tô aqui com você. Sempre estive."Lucas era a mistura perfeita de dois mundos. Ele tinha os olhos vivos do pai biológico, que infelizmente já não estava entre nós, mas herdou a personalidade tranquila e afetuosa do Thiago. Sim, o Thiago. Meu marido, meu parceiro, meu melhor amigo. Ele não era o pai biol







