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O carro deslizou pelas ruas arborizadas de São Paulo, e eu olhava tudo pela janela, tentando conter a ansiedade. Quando estacionamos em frente a um prédio gigantesco de fachada espelhada, meu coração acelerou. Segui o tio Thiago pelo saguão elegante até o elevador panorâmico, que subia suavemente enquanto a cidade ficava pequena sob nossos pés. Assim que a porta se abriu no último andar, meus olhos se arregalaram. O apartamento era imenso. Pé direito duplo, paredes de vidro de onde se via a cidade inteira, móveis modernos, decoração minimalista — e ainda assim acolhedora. Cada ambiente parecia saído de uma revista de arquitetura. Era difícil acreditar que alguém podia viver sozinho ali, naquele mundo particular. Ele soltou as chaves em cima de uma mesa de mármore e sorriu de lado, aquele sorriso fácil que eu ainda lembrava da minha infância. — Vou te mostrar os quartos — disse, guiando-me por um corredor longo e iluminado. As portas iam se abrindo uma a uma, revelando suítes que eram maiores que a casa da família minha amiga Rafaela. No fim do corredor, ele apontou para a última porta. — Esse é o meu. Pode escolher qualquer outro. Fiquei parada por um segundo, pensando. Então, sem muita lógica, abri a porta do quarto mais próximo ao dele. — Esse aqui, tá ótimo. Ele apenas assentiu, me lançando um olhar indecifrável antes de se afastar. Entrei no quarto e me joguei na cama macia, soltando um suspiro. A sensação era estranha: aquela casa, aquele homem... tudo era novo e familiar ao mesmo tempo. Levantei e comecei a desfazer as malas, dobrando minhas roupas e arrumando os poucos pertences que tinha trazido. O cheiro dele estava em tudo — couro, madeira, perfume amadeirado misturado com algo masculino e inebriante que eu não conseguia nomear. Assim que terminei, fui para a sala. O tio Thiago estava mexendo no celular, mas quando me viu, sorriu. — A gente precisa ver uma escola pra você — disse, sentando-se casualmente no sofá, com as pernas abertas e o braço estirado sobre o encosto, como se tomasse posse do ambiente inteiro. — Você já tem alguma em mente? — Tenho sim — respondi rápido, sentando do outro lado. — Meus pais já tinham pesquisado antes... quando eu queria fazer faculdade aqui em São Paulo, eu queria a Escola Internacional. Tem cursinho pra quem quer vestibular e aulas de reforço de inglês e francês. Ele assentiu, já digitando algo no telefone. — Vou ligar pro advogado. Ele resolve tudo. Fiquei observando-o enquanto falava ao celular. Era impressionante como ele parecia controlar tudo com facilidade, como se o mundo girasse ao seu redor e ele apenas desse as ordens. Quando desligou, relaxou no sofá e me encarou. — Tá resolvido. Amanhã já começamos o processo de matrícula. De repente, me lembrei de uma dúvida que fervilhava em minha cabeça. — Posso receber visitas? — perguntei, tentando soar casual. Ele ergueu uma sobrancelha, curioso. — Claro. Aqui também é sua casa agora, Mirela. Faça o que quiser. Sorri, aliviada. — Que bom... meu namorado vai querer vir me ver às vezes. Foi como jogar um balde de água gelada no ambiente. A expressão dele endureceu na hora. O maxilar trincou, e ele ajeitou o corpo no sofá como se algo o incomodasse profundamente. — Namorado? — repetiu em um tom baixo, quase rouco. Assenti, tentando soar natural. — Sim... Rodrigo. A gente namora há quase quatro anos. Ele passou a mão nos cabelos, bagunçando ainda mais os fios grisalhos que eu achava tão bonitos, e soltou um suspiro pesado. — Eles... sabiam disso? Assenti de novo, firme. Menti. Eu e o Rodrigo namorávamos escondido. Meu pai não me deixava namorar. Meus pais nunca souberam. Mas ali, diante do olhar desconfiado do tio Thiago, achei melhor pintar uma versão mais aceitável da história. Ele não disse mais nada, apenas desviou o olhar para o teto por alguns instantes, como se estivesse digerindo a informação. A tensão era palpável no ar. Para quebrar o clima, ele pegou o telefone e pediu comida. Falava com naturalidade, como quem já tinha decorado o cardápio de todos os restaurantes da cidade. Enquanto esperávamos, ele me olhava como se tentasse entender quem eu era agora. — E aí, pequena? — perguntou, recostando-se no sofá. — Me conta mais de você. Que curso quer fazer? Quais são os seus planos? Comecei a falar. Sobre os sonhos que tinha para o futuro, sobre estudar Jornalismo, viajar, fazer a diferença no mundo. Ele ouvia com atenção, os olhos presos em mim, como se cada palavra fosse um pequeno tesouro. Era estranho... nos primeiros minutos, me senti analisada, como se ele tentasse reencontrar a menina que conheceu anos atrás. Mas logo, percebi algo a mais no olhar dele — algo mais quente, mais denso. E eu... eu sentia o sangue aquecer nas veias cada vez que nossos olhares se cruzavam por tempo demais. O que está acontecendo comigo? pensei. Felizmente a comida chegou, e o clima relaxou um pouco. Sentamos lado a lado à mesa da grande sala de jantar, dividindo pratos e risadas tímidas. Parecia que tentávamos construir uma ponte sobre um abismo de emoções que nem ousávamos nomear ainda. E, em meio àquele momento, me dei conta de que viver com o tio Thiago não seria simples. Não era só a perda dos meus pais que bagunçava meu peito. Era ele. Era aquele cheiro, aquele sorriso torto, aquele jeito de me olhar como se eu fosse algo que ele não devia querer... mas queria. E eu... talvez, muito no fundo, já queria também.THIAGO Eu poderia dizer que estou cansado. E estaria sendo sincero.Tem brinquedo espalhado em todos os cantos da sala, tem uma boneca sem braço na mesa da cozinha, um carrinho atolado de massinha grudada na sola do meu chinelo e um giz de cera azul derretido no banco do sofá que, honestamente, nem quero saber como foi parar ali. Mas no meio desse caos, eu respiro fundo e sorrio. Porque esse caos... é meu. É nosso.Lucas já tem 8 anos. Tá um rapazinho. Inteligente, sensível, sempre com alguma pergunta que me faz parar pra pensar antes de responder. Às vezes me pego observando ele, como quem tenta gravar na memória cada gesto, cada olhar. Ele é o meu primeiro amor de pai, o que me ensinou o que era amar alguém com a alma, sem nenhuma dúvida.Gabriel, com 4, é um furacão. Grita, corre, escala o sofá, some, aparece, fala pelos cotovelos, responde como se tivesse o dobro da idade. Não tem tempo ruim pra ele, só quer brincar. Já me fez acordar com o rosto todo pintado de canetinha, e outr
MIRELA Nunca vou esquecer aquele silêncio.Aquele tipo de silêncio que parece engolir tudo: palavras, planos, esperança. Foi o que aconteceu no consultório, quando o médico respirou fundo antes de dizer:— Infertilidade masculina.Meus olhos buscaram os de Thiago. Ele ficou parado, como se não tivesse entendido de primeira. E eu entendi. Entendi que naquele instante ele se sentiu falho, culpado, menor. Eu quis correr pra ele, tirar aquela dor do peito dele, dizer que a gente ia ficar bem. Mas por um segundo… a gente só ficou em silêncio.Depois veio o choro. Dos dois. Sem vergonha, sem culpa. Só lágrimas e um abraço tão apertado que dava pra ouvir o coração do outro dizendo: “tô aqui”.Foi um luto. Não só pelo filho que não viria de nós dois, mas por todos os testes de farmácia que a gente comprou na esperança. Por cada exame. Por cada vez que eu acordei no meio da madrugada acreditando que, talvez, aquele enjoo fosse sintoma de gravidez.Mas sabe de uma coisa? A dor ensinou. A dor r
THIAGO Era uma daquelas noites em que o mundo inteiro parece calmo. O relógio já passava das duas da manhã, mas o sono não vinha. Fiquei deitado, só ouvindo a respiração suave da Mirela ao meu lado. Ela dormia tranquila, virada pra mim, o rosto relaxado, o cabelo espalhado no travesseiro. E eu ali, olhando pra ela com uma mistura de paz e urgência.A gente estava tentando. Tentando aumentar nossa família. Todo mês se enchia de esperança, de amor, de expectativa… e às vezes de silêncio também, quando o teste dava negativo. Mas ela nunca deixava a peteca cair. Ela sorria, dizia “tudo bem, ainda não era a hora”, e continuava acreditando. E esse jeito dela, essa força suave… isso me matava de amor por dentro.Me levantei devagar da cama pra não acordar ela e fui até o banheiro. Olhei meu reflexo por um tempo. Os olhos já não tinham aquela pressa de antes. Eu era outro cara. E tudo por causa dela e do Luquinhas. Eu me tornei um homem de verdade no dia em que Mirela segurou meu mundo com a
MIRELATem noites que o silêncio pesa. Que a casa parece grande demais, mesmo com o som suave da babá eletrônica no quarto ao lado, ou os braços fortes do Thiago ao meu redor. Tem noites que o escuro me transporta de volta para lugares onde jurei que nunca mais voltaria.É difícil explicar. Às vezes, estou ali, dormindo tranquila, com o som do ventilador girando e o cheiro do nosso bebê ainda preso nos lençóis. Mas, de repente, é como se o ar mudasse. E eu estou de novo frente a frente com Rodrigo se aproximando, transtornado. A arma em punho. O disparo. O sangue. O desespero.Acordo sempre da mesma forma: ofegante, o coração disparado e as mãos suadas. Algumas vezes, com um grito preso na garganta. Outras, chorando baixinho pra não acordar Thiago. Mas ele sempre acorda. Mesmo quando não diz nada, ele sente. Ele percebe.Essa noite foi mais uma dessas.Abri os olhos sentindo o peito apertado, os olhos marejados. E ali estava ele, o homem que mudou a minha história. Que segurou a minha
MIRELAA luz do luar entrava pelas frestas das cortinas, pintando o quarto de prata e sombras. Eu estava deitada de costas, com os dedos traçando círculos lentos na própria barriga, enquanto observava Thiago na porta do banheiro, escovando os dentes. Ele estava só de cueca, o corpo marcado pelo tempo e pela vida, mas que ainda me fazia tremer por dentro. Cada músculo, cada cicatriz, cada fio de cabelo grisalho naquele peito largo — tudo me excitava nesse meu marido gostoso. Ele cuspiu na pia, enxaguou a boca e então olhou pra mim pelo reflexo do espelho. — O que foi, pequena? — perguntou, a voz já mais grossa, como se já soubesse exatamente o que eu estava pensando. Sorri, mordendo o lábio. — Tô só pensando… que a gente devia aproveitar que o Lucas tá na cama ainda.Ele secou as mãos na toalha e virou-se, os olhos escuros queimando. — É mesmo? E o que você sugere?Arqueei uma sobrancelha, deixando minha mão descer devagar, passando pela barriga, até chegar na borda da minha calci
MIRELA A vida seguia num ritmo tão doce que às vezes eu me pegava perguntando se merecia mesmo tanta paz depois de tudo que já enfrentei. A nossa casinha vivia cheia de risadas, cheirinho de comida fresca, brinquedos espalhados pelo chão e o som do Lucas balbuciando coisas que só ele entendia. Estávamos perto do segundo aniversário dele e era impossível não me emocionar vendo o quanto ele crescia lindo, inteligente e amoroso.Mesmo nos dias mais cansativos, entre trabalhos da faculdade e as responsabilidades da casa, eu me sentia realizada. Ainda mais quando Thiago chegava do trabalho e me envolvia naquele abraço de corpo inteiro, como se ali ele estivesse dizendo silenciosamente:"Eu tô aqui com você. Sempre estive."Lucas era a mistura perfeita de dois mundos. Ele tinha os olhos vivos do pai biológico, que infelizmente já não estava entre nós, mas herdou a personalidade tranquila e afetuosa do Thiago. Sim, o Thiago. Meu marido, meu parceiro, meu melhor amigo. Ele não era o pai biol







