Inicio / Romance / Além do Teu Olhar / * Capítulo 03 - Emanuelly Amorim

Compartir

* Capítulo 03 - Emanuelly Amorim

last update Fecha de publicación: 2026-08-30 01:44:32

Ainda me lembro como se fosse hoje…

Era uma noite de sexta-feira, daquelas em que o céu parecia carregar todo o peso do mundo em suas nuvens. Eu e meu ex-noivo Gabriel trafegávamos pela autoestrada A16 quando uma tempestade inesperada despencou sobre nós. Primeiro veio a garoa fina, como um aviso sutil, mas logo se transformou em uma chuva cerrada, acompanhada por raios que riscavam o horizonte e trovoadas que faziam o carro vibrar a cada estrondo.

Os limpadores do para-brisa trabalhavam freneticamente, mas não conseguiam dar conta da cortina densa de água que caía sem piedade. O asfalto brilhava sob os faróis, reflexos distorcidos de placas e luzes de outros veículos se espalhavam como fantasmas na pista molhada. Gabriel, sempre tão confiante ao volante, o apertava com força, mantendo o olhar fixo na estrada como se qualquer desvio pudesse nos lançar ao desconhecido.

Voltávamos da casa de alguns amigos em Sintra. Tínhamos passado horas rindo, entregando os convites do nosso casamento, compartilhando expectativas e ouvindo votos de felicidade. A caixa onde guardávamos os convites restantes descansava no banco de trás, testemunha muda de um sonho que parecia tão próximo de se realizar.

Dentro do carro, o ar estava impregnado pelo perfume amadeirado de Gabriel, misturado ao cheiro úmido que a tempestade trazia. Eu o observava apaixonada, admirando a forma como sua mandíbula se contraía diante da tensão da estrada, e me perguntava se ele também pensava no quanto nossa vida estava prestes a mudar. Estávamos a poucas semanas de subir ao altar, e, ainda assim, aquela noite carregava um presságio estranho, como se o destino tivesse decidido cruzar o nosso caminho de maneira brutal.

Um raio iluminou por um segundo a cabine do carro, revelando o cansaço em seu rosto e o meu próprio reflexo no vidro embaçado, com olhos ansiosos e coração acelerado. Apertei o cinto de segurança instintivamente, e, sem perceber, minhas mãos entrelaçaram-se às dele por um instante sobre o câmbio, buscando um conforto silencioso diante da fúria da natureza lá fora.

Iríamos nos casar assim que completasse dezoito anos. Muitos me chamavam de louca por assumir um compromisso tão cedo, e eu não as julgava, de fato, era nova demais. Mas havia algo que elas não entendiam, eu o amava desde a adolescência, desde que descobri o que era amor.

O conheci no ensino médio, tinha acabado de completar quinze anos, era apenas uma menina do primeiro ano, enquanto ele já estava no terceiro. Lembro-me de matar aulas só para vê-lo jogar bola no colégio; o meu pai quase perdia a cabeça comigo. Eu, porém, não me importava, bastava um olhar de Gabriel e todos os riscos valiam a pena.

Com o tempo, a amizade deu lugar a algo mais intenso. Nosso primeiro beijo aconteceu às escondidas, em um intervalo entre as aulas, ele já tinha dezoito. Desde então, nunca mais conseguimos nos separar. Amávamos em segredo, até que um dia decidi apresentá-lo à minha família.

Meu pai, mesmo relutante, aceitou a relação, embora repetisse que eu era jovem demais. Minha mãe, ao contrário, sempre foi minha confidente. Ao confessar que estava apaixonada, ela me sentou ao seu lado e me deu uma verdadeira aula de vida, falou sobre corpo, sentimentos, responsabilidades. Marcou até uma consulta ginecológica, mesmo sabendo que eu ainda não pensava em me entregar a Gabriel. Foi ela também quem me convenceu a iniciar a pílula anticoncepcional, não por desconfiança, mas por precaução. Sua única exigência era simples e tocante, queria ser a primeira a saber quando eu perdesse minha virgindade.

Os anos passaram, e o namoro se fortaleceu. Quando conquistei a aprovação no vestibular de Medicina, outro sonho começou a se realizar. Decidimos, então, adiar o casamento para depois da minha formatura. Eu sempre amei medicina, desde pequena meus brinquedos favoritos eram jalecos, estetoscópios e seringas. Queria, de fato, transformar isso em profissão. Enquanto eu mergulhava nos livros, Gabriel seguia o curso de Administração. Quando iniciei a faculdade, ele já estava prestes a se formar.

Graduei-me na FSC Universidad, em Nova Iorque, uma instituição dentro do Hospital Stewart, pertencente a uma família influente. Minha tia Alicia, amiga íntima da minha avó paterna, foi fundamental para que eu seguisse esse caminho.

Mesmo em meio à rotina de estudos e responsabilidades, minha mente e coração tinham um único destino, Gabriel. À primeira vista, parecia arrogante, cheio de marra, mas, por trás disso, havia o homem que eu amava, doce, paciente, protetor … meu verdadeiro príncipe encantado.

O tempo passou e o noivado veio. Como presente, ganhamos uma casa ao lado da dos meus pais, e começamos a planejar cada detalhe do futuro. Então chegou o tão esperado dia, a entrega dos convites de casamento. Um deles nos levaria a Sintra.

Naquele fim de tarde, sentei-me no banco do passageiro. Gabriel, como sempre seguro de si, mantinha as mãos firmes no volante. A tempestade começava a castigar a estrada.

— Amor? Você não acha melhor pararmos em algum lugar até essa chuva acalmar? As gotas estão fortes demais, mal consigo enxergar a pista…

— Relaxa. Daqui a pouco já estaremos em Lisboa. — sorriu de canto. — Confia em mim, o pai aqui é fera no volante! — brincou. — Eu amo você, Manu. — Sua voz saiu serena, antes de me beijar no alto da cabeça. — Descansa um pouco, o dia foi cansativo.

Do lado de fora, os carros passavam velozes, via-se apenas as luzes borradas pelo vidro embaçado.

Então, em segundos, o cenário mudou. A chuva cessou, mas o silêncio não trouxe alívio foi apenas o prenúncio do caos.

Havia um tronco de árvore tombado no meio da pista, e tudo aconteceu rápido demais. Gabriel girou o volante para a esquerda, tentando desviar, mas a velocidade e o asfalto ainda úmido traíram sua manobra.

O carro derrapou com violência. Meu corpo foi pressionado contra o cinto, o barranco à beira da estrada surgiu diante de nós como um abismo sem fim.

— Manu! Segura firme! — foi o seu último grito, carregado de desespero e amor quando sua mão apertou a minha com força.

E então o mundo virou de cabeça para baixo, o som dos pneus rasgando o asfalto, o estalo seco do metal se retorcendo, o vidro estilhaçando-se em mil fragmentos que brilhavam como estrelas no breu da noite. O gosto de sangue tocou minha boca.

No instante seguinte, tudo se reduziu ao impacto. E ao silêncio.

Segurei-me no banco com medo do que poderia vir e não tardou a acontecer, haviam vários faróis acesos em nossa direção, indicando que estávamos na contramão na outra pista, e ao tentar voltar de forma brusca para a pista correta, o inevitável aconteceu, o carro capotou e se arrastou pelo asfalto escorregadio.

Naquele momento senti o meu corpo ser arremessado para frente, o air-bag apresentou uma pequena falha, e o impacto causado com a atmosfera do carro, fez com que ele ficasse preso entre as ferragens.

Ao bater com a cabeça, pude sentir o líquido vermelho que descia pelo seu rosto, enquanto ouvia somente os gritos de Gabriel chamando pelo meu nome.

Aos poucos já não conseguia mais ouvir a voz que começou a fraquejar, e de repente se perdeu ao barulho dos trovões que se retornaram ainda mais assustadores.

Presa às ferragens, só conseguia sentir dor. Uma dor difusa, latejante, como se cada osso do meu corpo estivesse sendo esmagado, um a um. O carro estava completamente destruído, um amontoado de metal retorcido. O único som que me alcançava era o da chuva que havia voltado a cair com força, tamborilando no asfalto e nas chapas amassadas do veículo como uma sinfonia de desespero.

— Gabriel? Amor? — minha voz saía trêmula, embargada pelo choro. — Gabriel, me responda, por favor… diga que está tudo bem … — insistia, repetindo seu nome como uma oração. Cada palavra parecia arranhar minha garganta.

O silêncio se tornou sufocante, ouvia-se apenas a chuva e o farfalhar distante do vento. Continuei chamando, até que minha consciência foi se esvaindo como areia entre os dedos.

Não sei por quanto tempo permaneci desacordada. Quando voltei a mim, não sentia mais as minhas pernas. Meus braços pareciam de chumbo, não conseguia me mover; a única alternativa era esperar um milagre, esperar o socorro pelo qual clamei a Deus com toda a fé que ainda me restava.

Foi então que uma voz surgiu, rouca, urgente, atravessando a névoa do meu subconsciente:

— Amor? Amor, por favor, não me deixe! — insistia, cada palavra carregada de desespero. Senti mãos pressionando meu peito, tentando reanimar-me.

Aquela voz não era a de Gabriel. Era diferente. Estranha, mas ao mesmo tempo acolhedora.

— Carol? Por favor … olha para mim. Não me deixa! — suplicou de novo.

Com um esforço, abri lentamente os olhos, a visão estava turva, mas pude sentir a chuva fina caindo sobre meu rosto machucado, lavando-o como se quisesse me despertar. Percebi, então, que meu corpo já não estava mais preso às ferragens, estava nos braços de alguém.

Alguém que me segurou contra o peito, com os olhos fixos nos meus, chamando-me de “meu amor” como se a minha vida dependesse daquilo. Em seus lábios, um sorriso breve, brotou ao perceber que retonava a consciência. Seus olhos brilhavam intensamente ao encontro dos meus, havia alívio, medo, emoção.

— Carol! Meu amor… — sussurrou ele, acariciando meu rosto com as costas das mãos. Sua pele estava quente, contrastando com o frio cortante da chuva.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 41 - Camila Sales

    — Tem certeza? — Eduardo sussurra baixinho em meu ouvido.— Sim ... Há muito tempo não sou tocada dessa forma, sou mulher e sei exatamante o que estou fazendo. — afirmo com a voz trêmula, em um sussurro ao pê do seu ouvido.Vejo em seus olhos o brilho que revela a mesma necessidade que sinto queimar dentro de mim.Ao se aproximar um pouco mais, seus lábios quentes e carnudos percorrerem lentamente o meu pescoço causando arrepios em minha pele.Suavemente, suas mãos deslizam pelos meus braços e ombros como se estivessem explorando cada partezinha do meu corpo.Beijando-me de uma forma possessiva, em seus braços sou levada até outra pilha de feno. Nossos olhares se encontram novamente em uma busca delirante, e encontro no fundo dos seus olhos o desejo ardente que reflete nos meus que faz o meu coração bater compulsivamente dentro do peito.Acaricio o seu rosto, sinto a aspereza de sua barba serrada, com um sorriso tímido deslizo minhas mãos em seu peito, desabotoo alguns botões de sua s

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 40 - Camila Sales

    Saio no gramado vestindo o melhor sorriso no rosto e caminho em direção a Eduardo que nos aguarda encostado no capô da caminhonete com a perna direita apoiada na grade. Ele está maravilhosamente lindo, vestido com um camisão jeans escuro, calça caqui colada no corpo demarcando suas coxas e bumbum, bota preta e um cinto de fivela, na cabeça um lindo chapéu preto com a medalhinha de Nossa Senhora da Aparecida. Ao nos ver, retira o chapéu e apaga o palheiro de menta que estava fumando. Com um selinho o cumprimento, me sento no banco dianteiro, coloco o cinto de segurança e me embriago no rastro do se perfume deixado dentro da cabine. Um silêncio predomina até que Emanuelly o quebra ao reclinar o corpo para frente entre os dois bancos. — Desistiu das competições Du? — Esse ano não competi Manu! — E por que não? — Sei lá, não senti vontade. Emanuelly me olha, e com um sorriso orgulhoso do amigo me diz: — O Eduardo foi campeão por diversas vezes na festa de peão em Barre

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 39 - Camila Sales

    Meu coração parece derreter diante da intensidade da chama acesa no olhar de Eduardo, ao ser puxada pelo braço para um beijo intenso sinto seus lábios tocarem os meus com urgência e tomar minha boca por completo. Um fogo percorre todo o meu corpo me fazendo estremecer, logo ele é levado para ainda mais perto, diminuindo qualquer distância entre nós. Fecho os olhos e me entrego de corpo de alma ao momento, minha língua envolvida a dele, acompanha seus movimentos intensos até que o beijo começa a ficar lento e profundo. Com os olhos semiabertos o vejo de olhos fechados como se quisesse memorizar cada segundo e sensação. Seus dedos deslizarem pelos cabelos da minha nuca, e um arrepio percorre pela minha espinha dos pés à cabeça. Com a língua, exploro cada pedacinho do céu de sua boca, minhas mãos trêmulas, acariciam o seu rosto, traçando com a ponta dos dedos a linha da sua mandíbula. Suas mãos percorrem o contorno da minha cintura, em seguida repousam em minhas coxas apertando-as

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 38 - Camila Sales

    Aos 25 anos de idade, tive apenas um relacionamento amoroso em minha vida. Se é que posso chamar aquela relação conturbada de “amorosa”. Nasci, cresci e vivi na roça durante praticamente a minha vida toda. Assim que acabei de completar 15 anos, perdi os meus pais em uma catástrofe que houve em Capitólio. Houve o desmoronamento de um dos paredões de pedra de um dos cânions. Naquela época, trabalhávamos na roça durante a semana, e aos Sábados e Domingos fazíamos o roteiro que incluía uma passagem pela Lagoa Azul, Cânions, Cascatinhas e Lago de Furnas. Em um momento de descontração, em que rotineiramente as embarcações ficavam paradas para que as pessoas desfrutassem das paisagens, uma das rochas se desprendeu e atingiu a lancha dos meus pais. Alguns turistas que perceberam o que ia ocorrer gritaram, mas eles não conseguiram ouvir, infelizmente o desastre estava relacionado com o processo de erosão e outros fatores geológicos, que comprometeram a sustentação da rocha.Eu estava em uma

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 37 - Emanuelly Amorim

    Seguimos diretamente para a Hangaragem da família onde todos nos aguardam para alçarmos voo. Heloísa, com sua fofura e carisma encanta a todos.A viagem até o Brasil parece uma eternidade. Mal espero o avião aterrissar e já me levanto. Meu coração bate forte dentro do peito, uma angústia avassaladora toma conta de cada célula do meu corpo e um nó na garganta me sufoca.Meus pensamentos estão em Henrique a todo momento.A camionete branca em que estou percorre o que resta da estrada de asfalto e depois vira à direita pegando o caminho de cascalho em direção à Fazenda Doce Encanto. A paisagem árida se estende enquanto o imenso açude se desdobra ao longo do caminho.Ouço os cascalhos da estrada tilintar contra o para-choque, sinto o cheiro da terra molhada e um sorriso encantado brota em meus lábios, observo os pastos verdejantes e a soja aqui do alto do norte da fazenda pronta para colher. O sol brilha forte no alto do céu, "estalando mamona" como diz o pessoal da região. Conheço ca

  • Além do Teu Olhar   * Capítulo 36 - Emanuelly Amorim

    Entro pela porta da sala, procuro meus pais pela casa, e não os vejo, provavelmente já tenham ido se deitar. Caminho alguns passos e ouço vozes vindas do escritório, aproximo um pouco mais o ouvido da porta e então ouço: — É ele Nanda, eu tenho certeza de que é ele!— Também posso jurar que sim ... E parece muito com o pai quando era mais jovem ... A personalidade, os traços faciais...Logo minha presença é notada pelo meu pai que possui uma audição aguçada e uma sensibilidade extrema a sons.— Emanuelly? — ele chama pelo meu nome.— Oi pai?— Quer conversar filha? — pergunta minha mãe ao abrir a porta.— Agora não mãe, preciso terminar de arrumar minhas malas.Me despeço com um beijo no rosto, termino de arrumar minhas malas com o coração apertado dentro do peito. Exausta, me jogo na cama ainda vestida com o agasalho de Henrique. O perfume impregnado no tecido me envolve como um abraço quente.Repouso a cabeça no travesseiro. Meus olhos ainda estão inchados. Sinto o rosto

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status