INICIAR SESIÓNFraca, sentia que o sangue que escorria do meu corpo levava embora minhas forças. Fechei os olhos, rendida, e deixei-me permanecer em seus braços até ouvir, ao longe, o som estridente das sirenes.
Quando os paramédicos chegaram e me colocaram na maca, aquele homem inclinou-se sobre, se despediu com um beijo suave em minha testa e uma última carícia em meu rosto, em seguida olhou-me, e seu olhar ficou gravado para sempre em minha memória. Quem era ele? Até hoje não sei. Mas gostaria, um dia, de reencontrá-lo para agradecer. Meses se passaram, feridas nunca foram curadas, o tempo nunca é suficiente para àqueles que um dia perderam o bem mais precioso de suas vidas, um grande amor! A maior dor dessa vida é perder a pessoa que tanto amamos de uma forma trágica em que não pudemos ter feito nada para impedí-la de partir. A dor é constante, cada dia é um abismo, um castigo, uma penitência ... A dor da perda que me acompanha faz com que eu apenas sobreviva dia após dia, ao invés de viver ... Alguns até pensam que seguir em frente é uma boa opção, mas para àqueles que realmente amaram tanto uma pessoa, não é tão simples assim. Deixar de pensar na pessoa que fez dos seus dias os melhores de sua vida, olhar para frente e não ter o sorriso que fazia os seus olhos brilharem é crucial. Criar uma nova vida esquecendo-nos daquele que um dia fora o nosso grande amor, é hipocrisia. Tentar me apaixonar novamente, infelizmente é estar condenada a machucar alguém que não mereça passar por isso. Meus dias não têm sido nada fáceis, minha vida parou, e a sensação é de nunca mais me levantarei dessa cama, e por vezes dar um basta nesse sofrimento de uma vez por todas, é o primeiro pensamento que me acomete assim que me desperto de mais uma noite mal dormida. O latejar constante em minha cabeça, é a prova de que esse será mais um dia infernal, essa dor é minha companheira diária, nada mais que um pequeno lembrete do caos que está a minha vida. Tento seguir os conselhos da minha mãe que passou pela mesma situação, tento ser otimista, porém sou vencida dia a dia pela depressão. Ouço o celular alarmar, respiro fundo para encarar mais um dia, mais uma tentativa de me livrar dessa angústia e tentar retomar minha vida de antigamente. Até me disseram que não há dor que dure para sempre ... Tento colocar isso em mente e então bocejo, respiro fundo novamente e me esforço para puxar as minhas pernas para fora da cama, as cicatrizes que nelas estão, me fazem lembrar somente da cicatriz que ainda em meu peito, não cicatrizou. Ao colocar os pés no chão, sinto-os serem acariciados pela maciez do tapete felpudo que cobre quase todo o quarto. O luxo do ambiente contrasta com o peso dentro de mim. A luz suave de alguns raios de sol atravessa as frestas das cortinas, tentando se impor sobre as nuvens pesadas que cobrem o céu, mas sem sucesso. Descalça, caminho lentamente até a grande porta de vidro que separa o quarto da varanda. Ao abri-la, o vento frio invade o espaço, arrepiando minha pele. As nuvens escuras anunciam um dia chuvoso e eu os temo, esses dias cinzentos. Foi em um dia assim, exatamente assim, que tudo aconteceu. Uma tempestade de verão se aproxima. Ao longe, o céu parece uma pintura dramática, e o Rio Tejo, revolto pela força dos ventos, ondula como se estivesse vivo, mas ainda preserva uma beleza única e melancólica. Meu quarto é o lugar mais aconchegante desta casa onde vivo com meus pais e meu irmão Arthur. Aqui me sinto protegida, mesmo que não consiga fugir de mim mesma. As paredes pintadas num tom creme com branco trazem um ar de paz e serenidade, como um abrigo silencioso para minha dor. E, ao mesmo tempo, são testemunhas do meu sofrimento. Fotos de Gabriel estão espalhadas por todos os cantos, lembranças de aventuras, sorrisos e viagens pelos quatro cantos do mundo. Cada imagem é uma ferida aberta. Após um banho morno, visto uma calça de moletom e uma blusa de frio. Passo as mãos pelos meus cabelos longos, que chegam à cintura, tentando me acalmar com um gesto mecânico. Planejo deitar-me de novo, esconder-me das horas, até que a porta se abre suavemente. Minha mãe entra sorrindo, equilibrando uma bandeja de café da manhã e caminha devagar em minha direção. — Filha… bom dia, meu amor. — Sua voz é mansa, serena e se senta na beirada da cama com cuidado. — Oi, mamãe… — Trouxe seu café. Mas o seu pai está esperando na mesa para tomarmos juntos… — Não estou afim! — respondo, sentando-me com as pernas cruzadas sobre a cama. Ela me encara. Seus olhos estão cansados, marcados por olheiras profundas. — Filha… Concordo plenamente quando diz que o Gabriel é insubstituível. Eu sei, as pessoas são únicas. Mas todos os dias a vida continua, e você não se permite enxergar isso. Ela respira fundo, enxuga uma lágrima apressada, mas logo outras escorrem. — Há quanto tempo você não observa um nascer do sol? Não conversa com suas amigas, com suas primas? — sua voz embarga. — Eu não me lembro da última vez em que você se sentou à mesa conosco. Nunca mais tocou piano com o seu pai… Cada frase dela sangra-me por dentro. Quero responder, mas meu corpo não reage. — Quando paramos para olhar o que temos, percebemos o quanto somos sortudos pelas pequenas coisas — ela sussurra, e a voz se quebra. — E aí vem o arrependimento pelo tempo desperdiçado com o que já se foi. O passado não muda, Manu. O Gabriel não volta mais… — suas lágrimas agora caem sem controle. — E talvez um dia seja tarde demais para você entender que ainda pode ser muito mais feliz do que já foi. Ou… — ela cobre o rosto com as mãos por um instante — ou talvez queira continuar se afundando nessa tristeza e me ver adoecer junto com você. Meu peito se aperta, como se algo me esmagasse por dentro. As lágrimas que rolam pelo rosto da minha mãe me ferem. De repente, a porta se abre e meu pai entra. Seu andar é lento, porém firme, e sua presença impõe respeito e autoridade. Ele olha primeiro para minha mãe, depois para mim e o silêncio pesa. Abaixo a cabeça, e tento engolir o choro. — Emanuelly… olha para mim — sua voz firme me obriga a erguer o olhar. Nossos olhos se encontram, e eu conheço muito bem quando os seus olhos tremem, eles não vacilam. — Levanta agora dessa cama! — sua ordem ecoa autoritária. Ele se aproxima, percebo o seu rosto tenso, a respiração pesada, e pela primeira vez em toda a minha vida, sinto medo do meu pai, embora sempre o respeitei. — Luiz Armando, calma… amor… — pede minha mãe ao se levantar rápido, afim de impedi-lo de se aproximar um pouco mais. — Chega, Nanda! — seu grito corta o ar, tão forte que me faz estremecer. — Eu não suporto mais ver você se acabando junto com ela! Eu não aguento mais essa situação! Ele se volta para mim, aponta-meno dedo, o tom de voz é baixo, mas carregado de autoridade. — Levanta dessa cama agora, Emanuelly. Isso é uma ordem. Meu coração dispara. Por um segundo, penso em resistir, mas minhas pernas se movem sozinhas. Levanto-me, seco as lágrimas com as costas da mão, pego o casaco que está sobre a cadeira, enfio os pés nas pantufas da Minnie e seguro o copo de chocolate quente com força, como se fosse meu último refúgio. Passo por ele de cabeça baixa, com o peito pesado, e engulo o choro que insiste em me sufocar. — Tudo tem limite, Nanda! — a voz do meu pai explode pelo quarto novamente, firme pela raiva contida. — Ninguém morre de amor! Eu não aguento mais vê-la chorar dia e noite pela Emanuelly! — ele faz uma pausa, respira fundo e solta um suspiro pesado. — Você não morreu de amor quando perdeu o Gustavo… Fico imóvel perto da porta do quarto, Cada palavra que ouço me atinge em cheio e ecoa pelas paredes. — Sei o quanto ela está sofrendo, Luiz Armando… — ouço minha mãe dizer. — Me lembro que a minha mãe precisou ser dura comigo também, me empurrar para a realidade… ou eu não teria conhecido você, que hoje é tudo na minha vida. — Ela respira fundo e solta em tom pesaroso: — A vida sempre nos oferece oportunidades de conhecer novos amores… mas eu já não sei mais o que fazer para convencê-la disso. O silêncio entre eles é quebrado pela resposta dura do meu pai: — Não quero mais vê-la chorar pela Emanuelly, Nanda! Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance… agora é preciso que ela dê os primeiros passos e abra os olhos para a realidade. Ouço o som dos seus passos e rapidamente desço as escadas, até me aproximar da porta dos fundos. O estalo da maçaneta vibra em minhas mãos, e, logo em seguida, o silêncio do jardim invade-me. Respiro fundo, sinto o perfume do jardim em meus olfato. Há uma profusão de flores coloridas lá fora, um sopro de vida que eu não percebia há meses, esse cheiro me traz as melhores lembranças de quem eu era antes de tudo, uma lembrança que, de repente, parece mais próxima do que nunca.— Tem certeza? — Eduardo sussurra baixinho em meu ouvido.— Sim ... Há muito tempo não sou tocada dessa forma, sou mulher e sei exatamante o que estou fazendo. — afirmo com a voz trêmula, em um sussurro ao pê do seu ouvido.Vejo em seus olhos o brilho que revela a mesma necessidade que sinto queimar dentro de mim.Ao se aproximar um pouco mais, seus lábios quentes e carnudos percorrerem lentamente o meu pescoço causando arrepios em minha pele.Suavemente, suas mãos deslizam pelos meus braços e ombros como se estivessem explorando cada partezinha do meu corpo.Beijando-me de uma forma possessiva, em seus braços sou levada até outra pilha de feno. Nossos olhares se encontram novamente em uma busca delirante, e encontro no fundo dos seus olhos o desejo ardente que reflete nos meus que faz o meu coração bater compulsivamente dentro do peito.Acaricio o seu rosto, sinto a aspereza de sua barba serrada, com um sorriso tímido deslizo minhas mãos em seu peito, desabotoo alguns botões de sua s
Saio no gramado vestindo o melhor sorriso no rosto e caminho em direção a Eduardo que nos aguarda encostado no capô da caminhonete com a perna direita apoiada na grade. Ele está maravilhosamente lindo, vestido com um camisão jeans escuro, calça caqui colada no corpo demarcando suas coxas e bumbum, bota preta e um cinto de fivela, na cabeça um lindo chapéu preto com a medalhinha de Nossa Senhora da Aparecida. Ao nos ver, retira o chapéu e apaga o palheiro de menta que estava fumando. Com um selinho o cumprimento, me sento no banco dianteiro, coloco o cinto de segurança e me embriago no rastro do se perfume deixado dentro da cabine. Um silêncio predomina até que Emanuelly o quebra ao reclinar o corpo para frente entre os dois bancos. — Desistiu das competições Du? — Esse ano não competi Manu! — E por que não? — Sei lá, não senti vontade. Emanuelly me olha, e com um sorriso orgulhoso do amigo me diz: — O Eduardo foi campeão por diversas vezes na festa de peão em Barre
Meu coração parece derreter diante da intensidade da chama acesa no olhar de Eduardo, ao ser puxada pelo braço para um beijo intenso sinto seus lábios tocarem os meus com urgência e tomar minha boca por completo. Um fogo percorre todo o meu corpo me fazendo estremecer, logo ele é levado para ainda mais perto, diminuindo qualquer distância entre nós. Fecho os olhos e me entrego de corpo de alma ao momento, minha língua envolvida a dele, acompanha seus movimentos intensos até que o beijo começa a ficar lento e profundo. Com os olhos semiabertos o vejo de olhos fechados como se quisesse memorizar cada segundo e sensação. Seus dedos deslizarem pelos cabelos da minha nuca, e um arrepio percorre pela minha espinha dos pés à cabeça. Com a língua, exploro cada pedacinho do céu de sua boca, minhas mãos trêmulas, acariciam o seu rosto, traçando com a ponta dos dedos a linha da sua mandíbula. Suas mãos percorrem o contorno da minha cintura, em seguida repousam em minhas coxas apertando-as
Aos 25 anos de idade, tive apenas um relacionamento amoroso em minha vida. Se é que posso chamar aquela relação conturbada de “amorosa”. Nasci, cresci e vivi na roça durante praticamente a minha vida toda. Assim que acabei de completar 15 anos, perdi os meus pais em uma catástrofe que houve em Capitólio. Houve o desmoronamento de um dos paredões de pedra de um dos cânions. Naquela época, trabalhávamos na roça durante a semana, e aos Sábados e Domingos fazíamos o roteiro que incluía uma passagem pela Lagoa Azul, Cânions, Cascatinhas e Lago de Furnas. Em um momento de descontração, em que rotineiramente as embarcações ficavam paradas para que as pessoas desfrutassem das paisagens, uma das rochas se desprendeu e atingiu a lancha dos meus pais. Alguns turistas que perceberam o que ia ocorrer gritaram, mas eles não conseguiram ouvir, infelizmente o desastre estava relacionado com o processo de erosão e outros fatores geológicos, que comprometeram a sustentação da rocha.Eu estava em uma
Seguimos diretamente para a Hangaragem da família onde todos nos aguardam para alçarmos voo. Heloísa, com sua fofura e carisma encanta a todos.A viagem até o Brasil parece uma eternidade. Mal espero o avião aterrissar e já me levanto. Meu coração bate forte dentro do peito, uma angústia avassaladora toma conta de cada célula do meu corpo e um nó na garganta me sufoca.Meus pensamentos estão em Henrique a todo momento.A camionete branca em que estou percorre o que resta da estrada de asfalto e depois vira à direita pegando o caminho de cascalho em direção à Fazenda Doce Encanto. A paisagem árida se estende enquanto o imenso açude se desdobra ao longo do caminho.Ouço os cascalhos da estrada tilintar contra o para-choque, sinto o cheiro da terra molhada e um sorriso encantado brota em meus lábios, observo os pastos verdejantes e a soja aqui do alto do norte da fazenda pronta para colher. O sol brilha forte no alto do céu, "estalando mamona" como diz o pessoal da região. Conheço ca
Entro pela porta da sala, procuro meus pais pela casa, e não os vejo, provavelmente já tenham ido se deitar. Caminho alguns passos e ouço vozes vindas do escritório, aproximo um pouco mais o ouvido da porta e então ouço: — É ele Nanda, eu tenho certeza de que é ele!— Também posso jurar que sim ... E parece muito com o pai quando era mais jovem ... A personalidade, os traços faciais...Logo minha presença é notada pelo meu pai que possui uma audição aguçada e uma sensibilidade extrema a sons.— Emanuelly? — ele chama pelo meu nome.— Oi pai?— Quer conversar filha? — pergunta minha mãe ao abrir a porta.— Agora não mãe, preciso terminar de arrumar minhas malas.Me despeço com um beijo no rosto, termino de arrumar minhas malas com o coração apertado dentro do peito. Exausta, me jogo na cama ainda vestida com o agasalho de Henrique. O perfume impregnado no tecido me envolve como um abraço quente.Repouso a cabeça no travesseiro. Meus olhos ainda estão inchados. Sinto o rosto







