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* Capítulo 04 - Emanuelly Amorim

Author: Aline Gonzaga
last update publish date: 2026-08-30 01:44:42

Fraca, sentia que o sangue que escorria do meu corpo levava embora minhas forças. Fechei os olhos, rendida, e deixei-me permanecer em seus braços até ouvir, ao longe, o som estridente das sirenes.

Quando os paramédicos chegaram e me colocaram na maca, aquele homem inclinou-se sobre, se despediu com um beijo suave em minha testa e uma última carícia em meu rosto, em seguida olhou-me, e seu olhar ficou gravado para sempre em minha memória.

Quem era ele? Até hoje não sei. Mas gostaria, um dia, de reencontrá-lo para agradecer.

Meses se passaram, feridas nunca foram curadas, o tempo nunca é suficiente para àqueles que um dia perderam o bem mais precioso de suas vidas, um grande amor! A maior dor dessa vida é perder a pessoa que tanto amamos de uma forma trágica em que não pudemos ter feito nada para impedí-la de partir. A dor é constante, cada dia é um abismo, um castigo, uma penitência ...

A dor da perda que me acompanha faz com que eu apenas sobreviva dia após dia, ao invés de viver ... Alguns até pensam que seguir em frente é uma boa opção, mas para àqueles que realmente amaram tanto uma pessoa, não é tão simples assim. Deixar de pensar na pessoa que fez dos seus dias os melhores de sua vida, olhar para frente e não ter o sorriso que fazia os seus olhos brilharem é crucial. Criar uma nova vida esquecendo-nos daquele que um dia fora o nosso grande amor, é hipocrisia.

Tentar me apaixonar novamente, infelizmente é estar condenada a machucar alguém que não mereça passar por isso.

Meus dias não têm sido nada fáceis, minha vida parou, e a sensação é de nunca mais me levantarei dessa cama, e por vezes dar um basta nesse sofrimento de uma vez por todas, é o primeiro pensamento que me acomete assim que me desperto de mais uma noite mal dormida.

O latejar constante em minha cabeça, é a prova de que esse será mais um dia infernal, essa dor é minha companheira diária, nada mais que um pequeno lembrete do caos que está a minha vida.

Tento seguir os conselhos da minha mãe que passou pela mesma situação, tento ser otimista, porém sou vencida dia a dia pela depressão.

Ouço o celular alarmar, respiro fundo para encarar mais um dia, mais uma tentativa de me livrar dessa angústia e tentar retomar minha vida de antigamente. Até me disseram que não há dor que dure para sempre ... Tento colocar isso em mente e então bocejo, respiro fundo novamente e me esforço para puxar as minhas pernas para fora da cama, as cicatrizes que nelas estão, me fazem lembrar somente da cicatriz que ainda em meu peito, não cicatrizou.

Ao colocar os pés no chão, sinto-os serem acariciados pela maciez do tapete felpudo que cobre quase todo o quarto. O luxo do ambiente contrasta com o peso dentro de mim. A luz suave de alguns raios de sol atravessa as frestas das cortinas, tentando se impor sobre as nuvens pesadas que cobrem o céu, mas sem sucesso.

Descalça, caminho lentamente até a grande porta de vidro que separa o quarto da varanda. Ao abri-la, o vento frio invade o espaço, arrepiando minha pele. As nuvens escuras anunciam um dia chuvoso e eu os temo, esses dias cinzentos. Foi em um dia assim, exatamente assim, que tudo aconteceu.

Uma tempestade de verão se aproxima. Ao longe, o céu parece uma pintura dramática, e o Rio Tejo, revolto pela força dos ventos, ondula como se estivesse vivo, mas ainda preserva uma beleza única e melancólica.

Meu quarto é o lugar mais aconchegante desta casa onde vivo com meus pais e meu irmão Arthur. Aqui me sinto protegida, mesmo que não consiga fugir de mim mesma. As paredes pintadas num tom creme com branco trazem um ar de paz e serenidade, como um abrigo silencioso para minha dor. E, ao mesmo tempo, são testemunhas do meu sofrimento. Fotos de Gabriel estão espalhadas por todos os cantos, lembranças de aventuras, sorrisos e viagens pelos quatro cantos do mundo. Cada imagem é uma ferida aberta.

Após um banho morno, visto uma calça de moletom e uma blusa de frio. Passo as mãos pelos meus cabelos longos, que chegam à cintura, tentando me acalmar com um gesto mecânico. Planejo deitar-me de novo, esconder-me das horas, até que a porta se abre suavemente.

Minha mãe entra sorrindo, equilibrando uma bandeja de café da manhã e caminha devagar em minha direção.

— Filha… bom dia, meu amor. — Sua voz é mansa, serena e se senta na beirada da cama com cuidado.

— Oi, mamãe…

— Trouxe seu café. Mas o seu pai está esperando na mesa para tomarmos juntos…

— Não estou afim! — respondo, sentando-me com as pernas cruzadas sobre a cama.

Ela me encara. Seus olhos estão cansados, marcados por olheiras profundas.

— Filha… Concordo plenamente quando diz que o Gabriel é insubstituível. Eu sei, as pessoas são únicas. Mas todos os dias a vida continua, e você não se permite enxergar isso.

Ela respira fundo, enxuga uma lágrima apressada, mas logo outras escorrem.

— Há quanto tempo você não observa um nascer do sol? Não conversa com suas amigas, com suas primas? — sua voz embarga. — Eu não me lembro da última vez em que você se sentou à mesa conosco. Nunca mais tocou piano com o seu pai…

Cada frase dela sangra-me por dentro. Quero responder, mas meu corpo não reage.

— Quando paramos para olhar o que temos, percebemos o quanto somos sortudos pelas pequenas coisas — ela sussurra, e a voz se quebra. — E aí vem o arrependimento pelo tempo desperdiçado com o que já se foi. O passado não muda, Manu. O Gabriel não volta mais… — suas lágrimas agora caem sem controle. — E talvez um dia seja tarde demais para você entender que ainda pode ser muito mais feliz do que já foi. Ou… — ela cobre o rosto com as mãos por um instante — ou talvez queira continuar se afundando nessa tristeza e me ver adoecer junto com você.

Meu peito se aperta, como se algo me esmagasse por dentro. As lágrimas que rolam pelo rosto da minha mãe me ferem.

De repente, a porta se abre e meu pai entra. Seu andar é lento, porém firme, e sua presença impõe respeito e autoridade. Ele olha primeiro para minha mãe, depois para mim e o silêncio pesa. Abaixo a cabeça, e tento engolir o choro.

— Emanuelly… olha para mim — sua voz firme me obriga a erguer o olhar.

Nossos olhos se encontram, e eu conheço muito bem quando os seus olhos tremem, eles não vacilam.

— Levanta agora dessa cama! — sua ordem ecoa autoritária. Ele se aproxima, percebo o seu rosto tenso, a respiração pesada, e pela primeira vez em toda a minha vida, sinto medo do meu pai, embora sempre o respeitei.

— Luiz Armando, calma… amor… — pede minha mãe ao se levantar rápido, afim de impedi-lo de se aproximar um pouco mais.

— Chega, Nanda! — seu grito corta o ar, tão forte que me faz estremecer. — Eu não suporto mais ver você se acabando junto com ela! Eu não aguento mais essa situação!

Ele se volta para mim, aponta-meno dedo, o tom de voz é baixo, mas carregado de autoridade.

— Levanta dessa cama agora, Emanuelly. Isso é uma ordem.

Meu coração dispara. Por um segundo, penso em resistir, mas minhas pernas se movem sozinhas. Levanto-me, seco as lágrimas com as costas da mão, pego o casaco que está sobre a cadeira, enfio os pés nas pantufas da Minnie e seguro o copo de chocolate quente com força, como se fosse meu último refúgio.

Passo por ele de cabeça baixa, com o peito pesado, e engulo o choro que insiste em me sufocar.

— Tudo tem limite, Nanda! — a voz do meu pai explode pelo quarto novamente, firme pela raiva contida. — Ninguém morre de amor! Eu não aguento mais vê-la chorar dia e noite pela Emanuelly! — ele faz uma pausa, respira fundo e solta um suspiro pesado. — Você não morreu de amor quando perdeu o Gustavo…

Fico imóvel perto da porta do quarto, Cada palavra que ouço me atinge em cheio e ecoa pelas paredes.

— Sei o quanto ela está sofrendo, Luiz Armando… — ouço minha mãe dizer. — Me lembro que a minha mãe precisou ser dura comigo também, me empurrar para a realidade… ou eu não teria conhecido você, que hoje é tudo na minha vida. — Ela respira fundo e solta em tom pesaroso: — A vida sempre nos oferece oportunidades de conhecer novos amores… mas eu já não sei mais o que fazer para convencê-la disso.

O silêncio entre eles é quebrado pela resposta dura do meu pai:

— Não quero mais vê-la chorar pela Emanuelly, Nanda! Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance… agora é preciso que ela dê os primeiros passos e abra os olhos para a realidade.

Ouço o som dos seus passos e rapidamente desço as escadas, até me aproximar da porta dos fundos. O estalo da maçaneta vibra em minhas mãos, e, logo em seguida, o silêncio do jardim invade-me.

Respiro fundo, sinto o perfume do jardim em meus olfato. Há uma profusão de flores coloridas lá fora, um sopro de vida que eu não percebia há meses, esse cheiro me traz as melhores lembranças de quem eu era antes de tudo, uma lembrança que, de repente, parece mais próxima do que nunca.

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Comments (4)
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Monica
O seu verdadeiro amor ...
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Monica
Este olhar irá unir vocês ......
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Edna Anjos
Calma Emanuelly tudo no seu tempo
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