LOGINChego do trabalho no final da tarde.
O frio úmido da estação cola-se à minha pele, elevo os olhos para o horizonte que se estende ao norte, e sinto o peso dos dias que se repetem. O céu se abre em tons de laranja e violeta, por um breve instante, a cidade parece suspensa entre silêncio e memória. Antes de puxar o trinco do portão enferrujado, que solta um gemido rouco e estridente em meus ouvidos, deixo-me hipnotizar pelo pôr do sol, um espetáculo gratuito que insiste em me lembrar de que ainda existe beleza, mesmo nos dias cansados. Entro pela porta da sala, e o cheiro doce de leite em pó me alcança. Ajoelho-me na beirada do sofá e beijo minha filha, que repousa tranquila, abraçada à mamadeira enquanto enrola distraidamente alguns fios de cabelo nos dedinhos miúdos. Esse gesto simples é a minha maior riqueza. Vou para o quarto, retiro a farda que carrego não apenas no corpo, mas também na alma, marcada pelas horas pesadas do dia. Sento-me na beirada da cama, e por alguns segundos deixo que o silêncio me envolva, como se fosse um cobertor invisível. Ao lado, sobre o criado-mudo, repousa um porta-retrato com a fotografia da Anna Carolina. Estendo a mão, pego-o com delicadeza e beijo o vidro frio, como se assim pudesse atravessar o tempo e sentir sua pele novamente. Aperto a foto contra o peito, próximo ao coração, numa tentativa desesperada de abraçá-la. Respiro fundo, levanto-me da cama, enrolo a toalha na cintura e caminho até o banheiro. A água morna desliza pelo meu corpo, levando embora parte do cansaço, mas nunca a saudade. Depois do banho, visto-me e sigo até a cozinha. O aroma de café fresco se espalha pelo ar, bebo um gole, sentindo o calor me despertar, e, como sempre, aproveito cada segundo para estar com a Heloisa. — Já está pronta, Helo? — pergunto, segurando as chaves do carro sobre a mesa de madeira. — Sim, papai! — ela surge correndo, vinda do quarto da minha avó. Usa um vestido rosa rodado e, na cabeça, um arquinho de unicórnio. Seus olhos brilham quando gira na pontinha dos pés, fazendo a saia rodopiar. — Você acha que o Papai Noel vai gostar? Eu tô bonita? Ela insiste há meses para entrar no ballet, mas o orçamento apertado não me permite. Ainda assim, ela improvisa em cada rodopio. — Você está linda, filha! Claro que o bom velhinho vai adorar. — beijo seu rostinho macio. — Pegou a cartinha? Lembra do pedido? — Sim. Eu quero uma gatinha. — ela sorri com ternura. — Já até escolhi o nome: Mimi. Eu sei o que, no fundo, ela deseja de verdade. Seus olhinhos tímidos denunciam, suas mãozinhas se escondem atrás das costas, e o corpinho balança de um lado para o outro, um gesto que sempre faz quando está nervosa. — Pode falar, minha princesa — digo, encorajando-a. Ela me encara por alguns segundos e, com a voz baixinha, solta: — Eu queria mesmo era uma mamãe... Mas acho que o Papai Noel não vai me atender. Sinto o coração se despedaçar. Fiz de tudo para realizar seus sonhos, mas este está além de mim. — Você entende por quê, não é? — pergunto, tentando manter a voz firme. — Entendo. Pra ser minha mamãe, ela precisa ser sua namorada. E você disse que ainda gosta da mamãe que foi morar com o Papai do Céu... — sua maturidade dói mais do que qualquer verdade. Respiro fundo, luto contra a emoção e tento devolver-lhe esperança: — Quem sabe no próximo Natal o bom velhinho realize esse pedido? Ela abre um sorriso, confiante, e me abraça com força. — Tá bom, papai! Partimos. Belém, nosso bairro em Lisboa, pulsa com vida, restaurantes cheios, turistas misturados a portugueses, brasileiros espalhando sotaques e música. O trânsito na Avenida da Liberdade é caótico, mas nada tira o brilho dos olhos da Heloisa. No shopping, as luzes de Natal piscam em dourado e vermelho. Uma fila imensa se estende até o trono do Papai Noel. Enquanto minha avó segura a neta, corro até a praça de alimentação, compro um McLanche Feliz e volto a tempo para a tradicional foto com o bom velhinho. Mais tarde, seguimos para a área externa. Heloisa escolhe apenas quatro brinquedos, consciente das minhas limitações. Obedece sem reclamar, aproveitando cada instante de diversão. Na volta, dirijo em silêncio. Pelo retrovisor, vejo seus olhinhos tristes. Não preciso perguntar o motivo: durante toda a noite, percebi como ela observava as crianças com suas mães. É sempre o mesmo vazio. Na esquina de casa, o carro engasga, tosse, até parar de vez. O motor fundiu. Minha avó desce, pega a Heloisa adormecida no colo e segue a pé até em casa. Eu fico para trás, empurrando o carro até a garagem, sentindo o peso da vida me esmagar. Não tenho dinheiro para consertá-lo, mas nem isso me preocupa no momento. O que me destrói é saber que não posso dar à minha filha o que ela mais deseja: uma mãe para chamar de sua. Ao entrar pela porta da sala, sua tristeza logo se vai ao correr direto para os braços da tia Camila que está na cozinha terminando de preparar o jantar.Ao entrarmos pela porta da sala, o cansaço parece se dissipar do rostinho da Heloisa. Ela logo corre, esquecendo qualquer tristeza, e se j**a nos braços da tia Camila, que está na cozinha terminando de preparar o jantar. O cheiro de alho refogado e cebola dourando no azeite preenche o ambiente, trazendo uma sensação de lar que há muito tempo tento preservar. Camila é minha irmã de criação. Desde pequenos, dividimos não apenas o mesmo teto, mas os mesmos sonhos e, muitas vezes, as mesmas dores. Foi dela a ideia de vir para a Europa, e até hoje não compreendo por completo sua decisão. No Brasil, tinha tudo para se estabelecer: era apaixonada pelo ex-namorado Wagner, filho dos nossos antigos patrões, e eu acreditava que, mais cedo ou mais tarde, ela iria se casar com ele. — Quero saber tudo! — diz Camila, puxando a cadeira e sentando-se. Heloisa, toda animada, logo pula em seu colo e começa a contar cada detalhe do passeio ao shopping, os pedidos feitos ao Papai Noel, sem deixar escapar nada. Ela fala com tanta empolgação que parece uma matraca. Camila, por sua vez, não fica atrás: as duas conversam como se o mundo fosse pequeno demais para tanto assunto. — É mesmo, minha princesa? — pergunta Camila, cobrindo-a de beijos. — Mas acho que ainda está faltando um pedido... Quero que me conte todos! Conta aqui, bem baixinho, no ouvido da titia. — Uma mamãe, titia Camila! — confessa Heloisa em um cochicho cheio de gargalhada inocente, tentando esconder de mim. — Posso saber o que estão tramando aí? — pergunto, desconfiado. — Segredo de menina! — Camila responde, gargalhando junto com a pequena. Enquanto Heloisa devora o lanche, termino meu jantar e vou para a cadeira de balanço na área. O inverno em Lisboa até que se mostra ameno naquela noite: o termômetro marca 14°C. Antes de me recolher, decido abrir uma cerveja gelada e deixar que a música faça companhia. Pareio o celular à caixinha de som e, sem me importar com o volume, coloco Teodoro e Sampaio para tocar. Os vizinhos às vezes reclamam com minha avó, mas não me importo. Também não sou obrigado a fingir que não ouço as brigas constantes da casa ao lado. Entre uma garrafa e outra, afogo minha solidão. Algumas lágrimas rolam sem que eu perceba, até que caio na armadilha de cantar junto, com voz embargada, os versos que falam de ausência, de vestidos de seda esquecidos no canto e de copos vazios na mesa. A música termina, e com ela meu fôlego. Volto para dentro, querendo dar boa noite à Heloisa, mas encontro-a adormecida nos braços da tia. Vou para meu quarto, exausto. O passeio ao shopping cansou-me mais do que um dia inteiro de trabalho. Deito, e em poucos minutos apago. No entanto, na madrugada, um sonho me rouba a paz. Vejo a Heloisa correndo por um campo aberto, verde como nunca vi em Lisboa. O sol doura cada fio do seu cabelo e sua risada ecoa como sinos, tão leve e contagiante que parece música. Ela segura a mão de uma mulher. Não consego ver o rosto de imediato, apenas o movimento delicado do vestido claro, que balança com o vento, quase flutuando. Meu coração b**e acelerado, há uma sensação de familiaridade, como se eu conhecesse essa presença, mesmo sem conseguir nomeá-la. Aos poucos, a cena muda. As flores se fecham, o céu ganha tons de entardecer, e mulher que até então corre de costas, começa a diminuir o passo. Heloisa solta a sua mão e corre em minha direção. A mulher então se vira e uma luz intensa, ofuscante, encobre o seu rosto, como se o sonho me impedisse de vê-la. Mas os olhos... ah, os olhos são castanhos, profundos, como se atravessassem minha alma, e brilham como se me reconhecessem. Sinto o meu corpo estremecer, é impossível, mas eu já conheço o seu olhar. — Papai! — Heloisa me chama apontando para a mulher. — Olha! Estendo a mão para me aproximar, mas meus pés parecem presos ao chão. Quanto mais tento andar, mais a distância aumenta. O vento forte, traz consigo o perfume doce de jasmim misturado a maresia, tão real que parece que posso respirar o aroma fora do sonho. O olhar dela não se desviava de mim. Havia ternura, mas também mistério, como se quisesse me dizer algo que eu ainda não estava preparado para ouvir. No instante seguinte, a cena se desfaz. O campo some, o riso da minha filha silencia, e acorda ofegante, com o coração batendo descompassado. Olho ao redor, meu quarto está escuro, silencioso. Mas a sensação não passa. O olhar dela ainda está comigo, queimando dentro do peito. Passo as mãos pelo rosto, e seco o suor frio. — Tolice... — murmuro. — Só pode ser efeito da bebida. Mas, por mais que eu tente me convencer, sei que não é apenas o efeito da bebida. O brilho daqueles olhos não me abandonará tão cedo.Alguns meses depois...A manhã de sábado na Fazenda Felicidade está banhada pelo brilho dourado do sol da primavera. O Pasto balança suave, o lago reflete o céu azul infinito, e por um instante tenho a sensação de estar assistindo o começo de algo muito maior do que planejávamos.Estou com as mãos apoiadas na cerca de madeira, Tatiane está ao meu lado, e juntas observamos nossos maridos caminhando ao longe.Henrique gesticula, aponta para as terras, olhando o horizonte como quem mede o mundo. Gustavo caminha devagar, atento, analisando minuciosamente cada detalhe como se estivesse lendo um mapa invisível desenhado sobre o chão. Olhos profissionais de quem sabe construir impérios. Eles não estão apenas andando... Estão sonhando.E sentimos isso de onde estamos.Descemos o pequeno caminho de terra lentamente, querendo chegar perto sem interromper. Conforme me aproximo, escuto a voz firme de Gustavo.— Aqui pode ser a recepção principal.Paramos alguns passos atrás deles.Henrique se vir
Seguimos até o deck externo do restaurante onde o som do mar domina tudo do lado de fora. Por alguns segundos ficamos em silêncio, apoiados no guarda-corpo, olhando o oceano escuro. Homens não precisam falar imediatamente, e Gustavo é tipo de homem que analisa tudo com cautela e precisão. Ele bebe mais uma dose do uísque, e então quebra o silêncio. — Então… Henrique. O que você faz quando não está em lua de mel? Solto um riso baixo. — Trabalho demais. Ele arqueia a sobrancelha.Espero um instante antes de responder.— Trabalhava, na verdade... — Cresci em uma fazenda em Capitólio, Minas Gerais. Vivi lá até me casar com a minha primeira esposa e entrar na Rotam.Gustavo permanece em silêncio, atento, como se pesasse cada detalhe da minha história.— Depois que ela faleceu… em um trágico acidente — continuo, respirando fundo — Minha vida virou de cabeça para baixo.Ele ergue levemente as sobrancelhas, impressionado.— Cara, eu também perdi a minha esposa em um trágico acidente. —
A música ainda toca, porém, não mais alto que o som de nossas respirações misturadas. Sinto o toque dos dedos de Emanuelly percorrendo meu rosto, e pescoço, descendo devagar.Ela sorri apaixonada, eu a olho nos olhos e declaro todo o meu amor.Ao tomá-la com delicadeza em meus braços, caminho lentamente até a suíte. O corpo dela repousa contra o meu, quente e confiante, como se fosse o lugar onde sempre sonhou estar.Na banheira, envoltos pela água morna e pelo silêncio do fim de tarde, nos amamos mais uma vez... sem pressa, apenas sentindo um ao outro, como se o mundo lá fora deixasse de existir.Depois, eu a envolvo em uma toalha macia e a levo para a cama.Com cuidado, eu a deito sobre os lençóis ainda aquecidos. Seus cabelos se espalham pelo travesseiro como um véu escuro, e seus olhos começam a pesar.Não demora muito e Emanuelly adormece em meus braços, tranquila, respirando suavemente contra meu peito.Eu a observo por um momento, tomado por uma ternura silenciosa. Inclino-me d
HENRIQUESinto o momento exato em que o tremor domina o corpo de Emanuelly. Ouço seus gemidos balbuciando palavras carinhosas, em ondas avassaladoras de prazer.Encaro seu rosto contorcendo em puro êxtase, e então ela se arqueia em minha boca segurando forte em meus cabelos e me puxa com força, atolando ainda mais o meu rosto em sua boceta. Seguro-a com firmeza, mordisco o interior de sua coxa, saboreando sua entrega até o último gemido rouco.Pela cintura, a coloco de quatro na cama, e espalho uma trilha de beijos por todo a sua pele. Minha língua percorre o seu corpo até chegar em sua intimidade traseira. Enquanto o sugo, introduzo dois dedos sua intimidade melada.— Henrique! — ela grita meu nome em êxtase.— Gostosa! — rosno em seu ouvido.Em um impulso com o corpo, ela me joga para o lado e se posiciona agora por cima de mim, dominando totalmente o momento. Sua boca macia percorre meu peito largo, forte, depois desce pelo meu abdômen até chegar ao cós da minha boxer. Faminta, a p
As duas se cumprimentam com um beijo no rosto, e trocam aquele olhar rápido que só mulheres entendem. Em segundos já existe simpatia entre elas.Gustavo nos observa por um instante, analisando, como se estivesse acostumado a ler pessoas.E então nos diz:— Espero que aproveitem a estadia. Esse lugar costuma guardar boas histórias.Franzo o cenho.— Costuma? — sorrio.— A minha lua de mel, foi aqui também, esse é o lugar preferido da Tatiane.Tatiane lança um olhar divertido para ele.— Estamos em uma segunda lua de mel... Aliás eu acho que nunca saímos dela.Gargalhamos juntos, Emanuelly acaricia a sua barriga e pergunta-lhe:— E já encomendaram logo um bebezinho... Está linda a sua barriga... É o primeiro?Tatiane sorri.— Tenho um mocinho que irá completar seis aninhos, o meu príncipe Guilherme, e agora virá a Maria Alice para completar a nossa felicidade.Olho novamente ao redor, depois para Gustavo, e solto uma risada curta.Algo curioso acontece, sinto que, não é só uma conversa
Ligo o motor do carro, minhas mãos permanecem firmes no volante enquanto observo pelo retrovisor a fazenda ficando para trás. O sol da manhã vem nascendo, cobrindo os campos, o curral, a varanda os pomares e jardimRespiro fundo, e olho para Emanuelly sentada ao meu lado... Minha esposa, a mulher por quem sou perdidamente apaixonado.Ela mantém o buquê repousado no colo, os dedos delicados brincam distraidamente com uma das fitas brancas. O vestido de noiva foi trocado por um vestido leve de viagem, mas ela continua perfeita como sempre foi.Com os olhos marejados, ela sorri sem olhar para mim.— Eu ainda não acredito, que nos casamos... Eu te amo tanto Henrique! — ela diz, se virando e se sentando em cima de uma das pernas dobradas no banco do carro.Sorrio, apaixonado. Cada “Eu te Amo” que Emanuelly diz, é como se fosse a primeira que estivesse ouvindo.— Deita aqui... — peço, trazendo sua cabeça para o meu peito, e beijo sua testa.O carro começa a avançar pela estrada de terra, le







