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* Capítulo 05 - Emanuelly Amorim

last update Fecha de publicación: 2026-08-30 02:05:54

Esse jardim é a distração da minha mãe, o lugar é realmente privilegiado, há árvores frondosas circundadas por um gramado bem aparado, e uma diversidade de flores por toda extensão. Apesar da ausência do sol, respirar esse ar puro é como um bálsamo para mim.

Calçada com minhas pantufas, caminho até o início da passarela central e me sento embaixo de uma das árvores onde o antigo balanço de madeira está pendurado, o mesmo que a minha mãe brincava comigo em minha infância. Aqui é meu lugar favorito do jardim, todas as melhores lembranças que tenho de quando era apenas ainda uma garotinha vêm em minha mente.

Respiro fundo e, inevitavelmente, minha memória me leva de volta ao dia em que sonhei que estávamos brincando nesse mesmo jardim. Ao vê-la pela primeira vez junto à minha tia Niele, e mesmo sendo apenas uma criança, entendi que era ela a mulher que o meu pai tamou por toda a sua vida e nunca havia desistido de encontrar.

Quando ainda pequena, carregava meus momentos de dor. Sentia-me incompleta por não ter uma mãe, e por mais que a minha família me mimasse ao extremo, a ausência maternal era um buraco impossível de preencher. Então, a Nanda chegou. Vi nela uma mulher perfeita. Ela transformou a minha vida, trouxe alegria, deu cor aos meus dias. Tínhamos nossos momentos só de meninas, algo que eu mais sentia falta. O meu pai sempre foi maravilhoso, mas havia coisas que não estavam ao alcance dele. A Nanda veio para somar; ela deixou nossa família inteira mais feliz. Hoje reconheço, sentada aqui, que estou sendo ingrata ao fazê-la sofrer tanto com as minhas atitudes.

Sento-me no balanço e tento me concentrar na beleza desse lugar. O vento balança suavemente os galhos, e o perfume das flores invade meus pulmões. Falo com Deus, como sempre faço, e pouco a pouco sinto uma paz sutil preencher o espaço que a dor insiste em ocupar, é como se Ele me pegasse no colo, acalentando-me.

Sinceramente, gostaria muito de voltar a ser aquela menina de sorriso fácil, falante igual a uma maritaca, como a Dona Nanda sempre diz.

De repente, a lembrança do olhar do homem que salvou a minha vida toma conta dos meus pensamentos. Por que aquele olhar não sai da minha mente? Principalmente nos momentos mais escuros, quando pensamentos suicidas me atravessam, tirando-me a paz. Lembro-me vagamente de sua voz me chamando de “amor”... “Por favor, meu amor, não me deixe...” Será que ele me confundiu com alguém? Provavelmente sim. Eu o ouvi me chamar de Anna Carolina.

Ergo o olhar e, através das grades que cercam a mansão, observo uma viatura da Polícia da Segurança Pública passar lentamente pela rua. Meu coração acelera, ouço o barulho dos freios derrapando no asfalto e meu corpo estremece. Um carro em alta velocidade vira a esquina e quase se choca contra o portão de casa.

As nuvens escuras cobrem completamente o céu, como um manto cinza espesso. A visão embaçada não me deixa distinguir o rosto do policial que faz uma manobra arriscada, como numa busca implacável. De onde estou, só consigo ver uma pequena cabeça surgir pelo vidro semiaberto da viatura.

O vento chicoteia os galhos das árvores com violência. Sei que não vai demorar para a tempestade desabar de vez. O Rio Tejo, lá adiante, está cada vez mais agitado. Olho para o céu e sinto o peso daquela lembrança, tempestades ainda me paralisam.

Quero levantar, correr para dentro, mas uma sensação estranha me invade, como uma paralisia. Meu corpo não obedece, permanece estática, enquanto tudo ao meu redor se move.

E então a chuva começa. Primeiro leve, mansa, depois mais firme. Os pingos batem no telhado e escorrem como pequenas lágrimas lavando tudo. E, no meu corpo, cada gota parece lavar também um pouco da minha alma.

Avisto a viatura parada quase em frente ao portão principal. Um tumulto começa a se formar na rua, os seguranças da casa e curiosos se amontoam para ver o que está acontecendo. Em passos lentos, aproximo-me um pouco mais da grade. A ansiedade aperta o meu peito, enquanto algo dentro de mim alerta, essa sensação estranha não é normal.

— Senhorita Manu, é melhor não se aproximar. Pode haver troca de tiros entre o policial e os suspeitos. — Me diz um dos seguranças ao me barrar com o braço estendido.

Obedeço, mesmo a contragosto, e permaneço do lado interno do jardim, tentando acompanhar a cena pela grade. Meu coração b**e forte, acelerado.

O policial desce apressado da viatura. Seu porte autoritário domina o espaço enquanto aborda os dois homens que, há poucos minutos, passaram em alta velocidade. Me viro para um dos seguranças e pergunto:

— O que está acontecendo?

— Houve um furto em uma residência aqui por perto senhorita.

Me aproximo um pouco mais, ignorando o frio que sobe pelas pernas. Nesse instante, reconheço um carro familiar chegando. Meu tio Marlon, que é delegado, desce com sua postura firme, braços cruzados, apenas observando o policial trabalhar.

Ao me ver apoiada na grade, com as mãos entrelaçadas, se aproxima.

— Bom dia, Manu! Que surpresa boa. Fico feliz em vê-la de pé. Princesas não vivem em seus castelos eternamente; elas passeiam pelos jardins também. — ele brinca.

Esboço um sorriso tímido, já nem me lembrava mais das duas covinhas que se formam em minhas bochechas quando sorrio.

— Oi, tio! Pois é… fui expulsa do meu quarto pelo senhor Luiz Armando, ele me botou pra correr. — Brinco, aliviando o clima. — Por pouco não apanhei de cinta. O que está acontecendo? — questiono, apontando discretamente para a rua.

Olho para o policial de costas e observo impressionada, a sua habilidade em render os dois homens de uma só vez com as algema. Meu olhar percorre seus movimentos, a destreza com que atua. Seu corpo é escultural: braços musculosos, farda justa que destaca coxas torneadas e um bumbum perfeitamente desenhado. Por um segundo sinto uma centelha de atração, mas ela morre no instante em que noto uma aliança grossa de ouro em sua mão esquerda.

Ainda assim, os tremores no corpo e o coração disparado insistem em me denunciar.

— Houve um furto próximo daqui. Vim correndo achando que fosse na casa de vocês. Todo cuidado é pouco… — diz meu tio, colocando-se à minha frente, bloqueando a minha visão do policial.

— Estou seguindo para a delegacia! — anuncia o policial ao entrar na viatura.

O timbre da sua voz é como um choque elétrico no meu corpo. Ele fala e arrepios sobem pela minha pele. Essa voz… eu já ouvi antes. Mas onde? Se não saio de casa desde o acidente …

— Quem é esse policial, tio? — pergunto, tentando disfarçar a inquietação.

— Você não o conhece, Manu. Ele se chama Henrique Sales. Chegou na cidade há poucos meses, é brasileiro. Já faz quase um ano que você não sai de casa, esqueceu?

Engulo em seco, é verdade. Desde o acidente, minha vida ficou limitada às paredes desta casa.

Me despeço do meu tio com um aceno discreto e volto a caminhar pelo jardim com o copo de chocolate quente já frio, agora misturado com a água da chuva que desaba de vez enquanto o vento uiva.

De repente, o estrondo de um trovão parece estilhaçar o mundo. Meu coração dispara, o copo escorrega das minhas mãos e se despedaça no chão. A chuva agora se transforma em uma tempestade violenta.

Encharcada, tremendo dos pés à cabeça, corro para dentro de casa aos gritos, tentando escapar do peso do céu que desaba sobre mim.

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