FAZER LOGINDurante a adolescência, Lívia Duarte e Caio Valença descobriram que algumas diferenças pareciam maiores do que qualquer sentimento. Ela cresceu na Vila Esperança, criada pela mãe costureira; ele, em uma família rica e tradicional, dona de uma das clínicas mais importantes da cidade. O amor dos dois nasceu escondido, entre aulas, mensagens apagadas e encontros breves. Mas uma antiga briga entre as famílias marcada por orgulho, ressentimento e uma dívida nunca esclarecida tornou o relacionamento impossível. Aos dezessete anos, Lívia e Caio foram obrigados a se afastar, sem sequer conseguirem dizer adeus. Cinco anos depois, eles se reencontram na Universidade Santa Aurora. Lívia está no primeiro ano de Fisioterapia. Caio, no curso de Medicina. Mais maduros, carregando feridas que nunca cicatrizaram completamente, os dois precisam decidir se o passado continuará separando suas vidas ou se podem construir, juntos, um futuro que ninguém mais escolherá por eles.
Ver maisO beijo aconteceu por acidente, embora Lívia soubesse que acidentes raramente eram tão simples.Naquela semana, o hospital escola recebeu uma nova paciente, uma mulher chamada Teresa, que precisava de acompanhamento depois de uma cirurgia no joelho. Ela chegava sempre acompanhada da filha, uma menina de oito anos que corria pelos corredores e fazia perguntas sobre todos os aparelhos.Lívia gostava da menina. Explicava os exercícios com desenhos e deixava que ela contasse as repetições. Caio ajudava na avaliação clínica e passava mais tempo do que o necessário conversando com Teresa sobre os receios que ela tinha de voltar ao trabalho.— Você fala com as pessoas como se estivesse tentando convencê-las de que o medo não é vergonhoso — Lívia comentou.— Talvez porque eu saiba que é.— Você tem medo de quê?— De falhar.— Isso é muito genérico.— De falhar com meu pai, com meus pacientes, Comigo mesmo.— E comigo?Caio ficou em silêncio. Eles estavam no laboratório, revisando as anotaçõe
Lívia decidiu que encontraria Caio apenas quando fosse inevitável.A universidade, contudo, parecia empenhada em contrariá-la.Na segunda semana de aula, ela o viu na fila do restaurante universitário. Na terceira, cruzou com ele na biblioteca. Na quarta, descobriu que os cursos de Medicina e Fisioterapia participariam juntos de um projeto interdisciplinar sobre reabilitação após acidentes.A professora responsável dividiu os estudantes em grupos de quatro. Lívia ficou com Júlia, um aluno de Medicina chamado Rafael e Caio.— Há uma lógica no universo — Júlia sussurrou.— Há uma falha no sistema de matrícula. Caio ouviu e sorriu.— Posso pedir para trocar de grupo.— Não — disse a professora, antes que Lívia respondesse. — A proposta é justamente aprender a trabalhar com pessoas de formações diferentes.Eles receberam o caso de uma paciente de vinte e seis anos que sofrera um acidente de moto e precisava retomar os movimentos da perna esquerda. A tarefa consistia em elaborar um plano
Cinco anos depois, Lívia Duarte chegou à Universidade Santa Aurora carregando duas malas, uma mochila pesada e uma lista de preocupações que não cabia em nenhuma delas.A primeira preocupação era o dinheiro. Embora tivesse conseguido uma bolsa integral para o curso de Fisioterapia, a bolsa não cobria tudo: transporte, livros, alimentação, material para as aulas práticas e o aluguel do quarto que dividiria com Júlia, uma estudante de Nutrição que conhecera em um grupo de mensagens. A segunda era o medo de fracassar. Lívia havia estudado durante meses para o vestibular, fazendo exercícios entre um turno e outro na loja de tecidos, mas agora estava diante de um campus enorme, cheio de prédios modernos e estudantes que pareciam saber exatamente para onde ir.A terceira preocupação era a mais antiga de todas: Caio.Ela não pensava nele todos os dias. Isso seria uma mentira. Pensava em intervalos irregulares, às vezes quando passava por uma estação, às vezes ao sentir cheiro de chuva, às v
Os sete dias seguintes foram uma sucessão de pequenos segredos.Caio passou a descer do carro duas quadras antes da escola para caminhar até a biblioteca. Lívia inventava motivos para sair de casa depois do trabalho. Às vezes, encontravam-se por meia hora; outras, ficavam juntos até o céu escurecer.Não havia grandes declarações. Havia cafés divididos, mensagens escritas de madrugada e a descoberta cuidadosa de detalhes.Caio odiava mamão, não sabia cozinhar arroz e tinha medo de decepcionar o pai mais do que admitia. Lívia gostava de filmes antigos, guardava ingressos de ônibus dentro dos livros e chorava quando estava com raiva, algo que detestava porque as pessoas confundiam suas lágrimas com fraqueza.— Você sempre chora quando discute? — Caio perguntou certa tarde.— Só quando estou furiosa.— Isso parece contraditório.— Meu corpo não tem obrigação de obedecer à lógica.— É por isso que você quer fazer Fisioterapia?— Em parte. Eu gosto da ideia de ajudar alguém a recuperar o con












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