INICIAR SESIÓNDurante a adolescência, Lívia Duarte e Caio Valença descobriram que algumas diferenças pareciam maiores do que qualquer sentimento. Ela cresceu na Vila Esperança, criada pela mãe costureira; ele, em uma família rica e tradicional, dona de uma das clínicas mais importantes da cidade. O amor dos dois nasceu escondido, entre aulas, mensagens apagadas e encontros breves. Mas uma antiga briga entre as famílias marcada por orgulho, ressentimento e uma dívida nunca esclarecida tornou o relacionamento impossível. Aos dezessete anos, Lívia e Caio foram obrigados a se afastar, sem sequer conseguirem dizer adeus. Cinco anos depois, eles se reencontram na Universidade Santa Aurora. Lívia está no primeiro ano de Fisioterapia. Caio, no curso de Medicina. Mais maduros, carregando feridas que nunca cicatrizaram completamente, os dois precisam decidir se o passado continuará separando suas vidas ou se podem construir, juntos, um futuro que ninguém mais escolherá por eles.
Ver másLívia Duarte tinha aprendido a medir as tardes pelo som da máquina de costura de sua mãe.
Quando o pedal diminuía, significava que Helena estava cansada. Quando parava de repente, significava que havia algum problema com a linha, com o tecido ou com as contas da casa. Quando continuava, até depois das dez da noite, Lívia sabia que o dinheiro daquele mês não seria suficiente e que, no dia seguinte, sua mãe aceitaria mais encomendas do que deveria. Naquela quinta-feira, porém, a máquina parou antes do jantar. — Vai sair? — Helena perguntou, sem erguer os olhos da barra de um vestido azul-marinho. Lívia, que estava sentada no chão da sala separando botões por tamanho, tentou parecer casual. — Vou devolver uns livros na biblioteca. — A biblioteca fecha às seis. — Eu sei. Helena finalmente olhou para a filha. Não havia acusação em seu rosto, apenas aquela atenção silenciosa que fazia Lívia se sentir transparente. — E depois? — Depois eu volto. — Lívia. Ela respirou fundo. Mentir para a mãe era difícil. Não por medo de castigo, mas porque Helena conhecia cada pequena alteração em sua voz. — Vou encontrar uma pessoa. — Quem? — Um colega. A agulha parada sobre o tecido parecia apontar diretamente para ela. — Colega de onde? — Da biblioteca. Helena baixou a cabeça. Durante um momento, Lívia pensou que a conversa terminaria ali. Então sua mãe disse, em um tom baixo: — Se for quem eu estou pensando, não vá. O estômago de Lívia apertou. — A senhora nem sabe quem é. — Sei que ele é um Valença. O sobrenome atravessou a sala como uma corrente de ar frio. Lívia levantou-se, segurando os botões na palma da mão. — O nome dele é Caio. — O nome não muda a família. — Ele não fez nada. — Você também não fez nada quando seu pai morreu, e mesmo assim ficou com as consequências. É assim que algumas famílias funcionam. — A senhora fala como se todos fossem iguais. — Não são. É justamente esse o problema. Lívia quis perguntar, mais uma vez, o que Renato Duarte havia feito para que os Valença fossem tratados como inimigos. Desde criança ouvia pedaços da história: documentos, acusações, uma discussão na clínica, o acidente na estrada. Cada adulto tinha uma versão, e nenhuma delas parecia completa. Mas naquela noite ela não queria falar do passado. Queria falar de Caio. — Eu vou voltar antes das dez — disse. — Lívia. — Eu não estou indo para a casa dele. Vou encontrar alguém na estação. Em lugar público. Helena fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, parecia mais velha. — Não se apaixone por alguém que possa transformar você em segredo. Lívia fingiu não ouvir. Pegou a mochila e saiu. A antiga estação ficava a quinze minutos dali. Os trilhos estavam desativados havia anos, mas a plataforma ainda servia de atalho para os moradores da Vila Esperança. Àquela hora, o sol se escondia atrás dos prédios baixos e deixava tudo dourado, até o muro descascado e os bancos quebrados. Caio estava do outro lado da rua. Lívia o viu antes que ele a percebesse. Usava o uniforme do Colégio Saint Martin, uma escola particular cujo nome aparecia em outdoors espalhados pela cidade. A camisa branca estava impecável, a mochila parecia nova e o carro que o deixara ali tinha desaparecido na esquina. Ainda assim, era o mesmo garoto que entrara por engano na biblioteca três semanas antes.Naquele dia, ele perguntara onde ficava a Rua das Acácias. Lívia apontara o caminho errado de propósito, apenas para vê-lo se atrapalhar entre as estantes. Depois, sentira culpa e o guiara até a porta. Ele voltou no dia seguinte para devolver um livro que nem sequer havia levado. Agora atravessou a rua sorrindo. — Você demorou. — Minha mãe descobriu que tenho uma vida fora de casa. — Isso é grave. — Muito. Ela pretende investigar. — E o que vai descobrir? — Que encontrei um colega inconveniente. — Inconveniente? — Você aparece numa biblioteca, faz perguntas demais e depois começa a me esperar na saída. Caio colocou a mão sobre o peito. — Eu prefiro “insistente”. — “Insistente” é uma palavra generosa. Caminharam até a plataforma. Caio falava muito quando estava nervoso, e Lívia começava a reconhecer os sinais: ele mexia na pulseira do relógio, fazia piadas ruins e mudava de assunto antes que alguém pudesse perguntar algo importante. — Como foi a prova de Biologia? — ela perguntou. — Tirei nove. — Só?— Está me chamando de incompetente? — Estou tentando descobrir se a escola cara funciona. — Funciona. O problema é que o aluno não acompanha. — Você pretende mesmo fazer Medicina? A brincadeira desapareceu do rosto dele. — Pretendo. — Porque seu pai quer? Caio demorou a responder. — Também. Mas não só por isso. Sentaram-se no último banco da plataforma. Ele contou que gostava de entender como o corpo se recuperava, como uma pessoa podia passar meses sem andar e, ainda assim, encontrar força para tentar novamente. Lívia ouviu com atenção, lembrando que aquele entusiasmo não combinava com a imagem do herdeiro arrogante que sua mãe descrevia. — Eu quero fazer Fisioterapia — ela disse. — Eu sei. — Como sabe? — Você fala disso toda vez que alguém pergunta o que pretende fazer. — Não falo. — Fala, sim. Seus olhos mudam. Lívia desviou o rosto para que ele não percebesse que estava sorrindo. O celular de Caio vibrou. Ele viu o nome na tela e guardou o aparelho sem atender. — Seu pai? — Minha mãe. — Você não vai atender? — Se eu atender, ela vai perguntar onde estou. Se eu disser, vai contar ao meu pai. Se contar ao meu pai... — Ele vem buscar você? — Não. Ele manda alguém. Lívia observou a rua. De repente, a diferença entre eles pareceu ocupar todo o espaço da estação. Ela conhecia os adultos que chegavam em carros antigos, com roupas de trabalho e preocupação nos olhos. Caio conhecia pessoas que mandavam alguém. — Você sempre faz o que ele quer? — perguntou.— Não. — Parece que sim. Caio a encarou. — Você acha que, porque tenho dinheiro, não tenho medo? — Não acho isso. — Mas acha que é fácil. — Acho que deve ser mais fácil escolher quando ninguém ameaça tirar sua casa, seu estudo ou o sustento da sua família. A frase ficou entre eles. Lívia se arrependeu, mas Caio não se afastou. — Talvez você tenha razão — ele disse. — Só não quero que pense que eu não sei a sorte que tenho. — Então o que você quer? Caio olhou para os trilhos cobertos de mato. — Quero alguma coisa que seja minha. A sinceridade dele desarmou-a. Quando a noite caiu, ele a acompanhou até a esquina da sua rua. Não passou dali. — Amanhã? — perguntou. Lívia pensou na advertência da mãe. — Amanhã. — Mesmo lugar? — Talvez. — Isso significa sim? — Significa que você precisa aprender a esperar. Caio sorriu. — Para você, eu espero. Lívia entrou em casa com o coração acelerado. Helena estava na sala, dobrando o vestido azul. — Ele a acompanhou? — Até a esquina. — E você já está apaixonada? Lívia sentiu o rosto esquentar. — Não. Helena não discutiu. Apenas guardou o vestido numa sacola. Naquela noite, Lívia abriu o caderno e tentou estudar, não conseguiu. No canto de uma página, escreveu o nome dele, depois riscou e escreveu outra vez. Do outro lado da cidade, Caio estava sentado no escritório do pai, ouvindo Augusto falar sobre o futuro como se fosse uma estrada já asfaltada. Medicina, Especialização, A clínica, O sobrenome. Caio respondeu quando era necessário, mas pensava em uma garota que usava tênis gastos, falava com coragem e olhava para ele como se ainda houvesse alguma possibilidade de escolha. Pela primeira vez, desejou atravessar a cidade não para fugir de casa, mas para chegar a alguém.A proposta de financiamento da clínica foi aprovada depois de três reuniões.Lívia exigiu transparência, participação dos moradores e autonomia da universidade. Caio apoiou cada condição. Augusto assinou os documentos sem pedir alterações.Ainda assim, a convivência entre eles permanecia delicada.Augusto não tentava comprar proximidade, mas também não sabia como oferecê-la. Às vezes aparecia no hospital com relatórios. Outras vezes mandava mensagens a Caio perguntando se ele precisava de alguma coisa. Caio respondia apenas quando queria, sem transformar cada contato em uma obrigação.Lívia observava de longe.— Você o odeia? — Caio perguntou certa noite.Eles estavam no apartamento dele, cercados por livros e roupas que precisavam ser lavadas. A janela emperrada deixava entrar o som dos carros da avenida.— Odeio o que ele fez— É diferente?— É. Se eu odiasse ele por completo, seria mais fácil. Pessoas inteiras são fáceis de condenar. O problema é que ele também é o homem que financi
No semestre seguinte, Lívia começou o estágio no setor de reabilitação infantil do hospital escola. O primeiro paciente que acompanhou chamava-se Samuel. Tinha oito anos e chegara ao hospital depois de um acidente de bicicleta. A perna direita fora imobilizada, mas o maior obstáculo não era físico. Samuel recusava-se a ficar em pé. — Se eu tentar, vai doer — dizia. — Talvez doa um pouco — Lívia respondeu. — Então não vou tentar. — Tudo bem. A mãe dele pareceu surpresa. — Tudo bem? — perguntou depois, no corredor. — Ele precisa se esforçar. — Ele precisa confiar que não será obrigado a enfrentar tudo de uma vez. Lívia explicou que a recuperação começaria com movimentos pequenos. Samuel poderia escolher a música durante os exercícios, decidir se queria contar as repetições ou apenas observar. A mãe parecia desconfiada, mas concordou. Caio acompanhava o caso pela equipe médica. Estava no terceiro ano e começava a assumir mais responsabilidades. Ainda se sentia inseguro, mas
Caio contou tudo ao pai dois dias depois da viagem. Não contou por telefone, nem deixou os documentos na mesa do escritório. Esperou Augusto voltar da clínica e o encontrou na sala onde a família costumava receber visitas importantes. Era um ambiente amplo, com sofás claros, quadros caros e uma janela que dava para o jardim. Caio escolhera aquele lugar porque não queria que o pai se escondesse atrás da mesa. Augusto entrou carregando uma pasta e parou ao vê-lo. — Você deveria estar estudando. — Eu estava. — E agora? — Agora preciso que o senhor leia isto. Caio colocou a declaração de Miguel sobre a mesa. Augusto não tocou no papel. — Onde conseguiu? — Fomos até a cidade onde ele mora. — Fomos? — Eu e Lívia. Augusto fechou os olhos por um instante. — Você não deveria ter levado essa garota. — Ela tem mais direito à verdade do que qualquer pessoa nesta casa. — Não sabe o que está dizendo. — O senhor também disse isso quando eu perguntei sobre Renato. A sala pareceu meno
A cidade onde Miguel Valença vivia ficava a três horas de ônibus.Lívia e Caio partiram antes do amanhecer, levando uma pasta com cópias dos documentos, duas garrafas de água e uma quantidade exagerada de ansiedade.Júlia tentou convencê-los a esperar.— Vocês não sabem quem esse homem é.— Por isso vamos descobrir — Caio respondeu.— Isso parece exatamente o tipo de frase que pessoas dizem antes de entrar em uma casa abandonada.— A casa não é abandonada — Lívia disse.— Isso não me tranquiliza.No terminal, Caio comprou dois cafés. Lívia aceitou o seu sem discutir. A viagem começou em silêncio. A cidade desapareceu aos poucos, substituída por estradas, postos de gasolina e pequenas propriedades cercadas por arame.— Você dormiu? — Caio perguntou.— Duas horas.— Eu também.— Está nervoso?— Estou tentando parecer calmo.— Não está funcionando.— Você continua honesta.— Você continua tentando parecer mais preparado do que está.Ele sorriu e apoiou a cabeça no banco.Por algum tempo,


















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