INICIAR SESIÓN
Marioneta
O silêncio entre nós três é tão pesado quanto o ar que eu tento engolir. A risada dela ecoa, afiada, cortando a tensão como vidro quebrado.
— Não responde, Marioneta? — Ela inclina a cabeça, um sorriso torto nos lábios pintados de vermelho. O cropped assimétrico sobe um pouco mais com o movimento, revelando a curva da cintura dela. Ela sabe o que está fazendo. Sabe cada ângulo, cada centímetro de pele que mostra. — Está tão surpresa assim? Achou que era especial?
Meus dedos se contraem. As unhas cravam na palma da minha mão. A dor é um ponto de ancoragem. Não, não posso fechar o punho. Não posso dar a eles essa satisfação. Mas o corpo trai a vontade — ombros enrijecidos, maxilar travado, respiração curta que tento disfarçar.
— Você achou mesmo que tinha chances de ser esposa de um bilionário?
A pergunta vem como um tapa. Eu fico calada. Dedos ainda se segurando para não formar um punho. As palavras se embolam na garganta, nenhuma delas digna o bastante para sair. Ela ri — um som baixo, cheio de veneno — e o corpo dela se aninha mais contra o dele. A mão dele descansa na curva do quadril dela, os dedos preguiçosos, como se ela fosse um móvel confortável.
— Por favor, ele sempre foi meu… — Ela suspira, passando a mão pelos cabelos soltos com um gesto de cansada superioridade. O salto alto muda de peso. A saia curta sobe mais um centímetro. — Mas ele é homem, precisa se divertir um pouco com outras, são assim os homens, e você —
O coração aperta. Eu sei o que vem. Vejo nos olhos dela, na curvatura dos lábios, na forma como ela se inclina para frente, os dedos apoiados no peito dele através da camisa branca.
— E você — ela repete, saboreando cada sílaba — é uma vadia feia.
As palavras caem como pregos. Sinto cada uma penetrar. O rosto não se mexe, mas por dentro algo se parte e se afia ao mesmo tempo.
— Ele só queria o meio das tuas pernas. — Ela dá um passo à frente, ainda nos braços dele, e ele a acompanha, acomodando os braços em volta dela como se fosse a coisa mais natural do mundo. A gravata vermelha balança levemente com o movimento. — Confesso. Tuas pernas são perfeitas nessa sua mini-saia e mini-camisa de vadia.
O olhar dela desce pelo meu corpo, devagar, deliberado, como se avaliasse um pedaço de carne no açougue. O ar gelado toca minha pele exposta. De repente, a mini-saia parece menor. A mini-camisa parece mais curta. Quero me encolher, mas não me encolho.
— Até eu pareço me provocar certas sensações — ela continua, a voz mais baixa, mais íntima, como se dividisse um segredo. A ponta da língua molha o lábio inferior. O braço dele aperta a cintura dela. Ele não diz nada, apenas sorri aquele sorriso pequeno de canto, os olhos fixos em mim. — Pena que a cara é outra coisa.
O sorriso dela se alarga. Ela sabe que acertou. Sabe que aquela é a ferida mais funda. Enterra o dedo nela com prazer.
— Fala alguma coisa, Marioneta — ela provoca, inclinando a cabeça. O cropped assimétrico desliza no ombro exposto. — Ou a boca só serve pra outra coisa?
Não respondo. Os dedos tremem contra a palma da mão. A pressão aumenta.
Ela se vira ligeiramente para ele, ainda nos braços dele, mas os olhos continuam em mim.
— Alguma vez ele te beijou?
A pergunta perfura o ar. Fico com vários sentimentos. Raiva dos dois. Raiva dos três. Contando comigo. Porque ele nunca me beijou. Nunca. Os lábios dele nunca tocaram os meus. Nem um selo. Nem um roçar. Nada.
Revire a memória, desesperada, procurando algum beijo, algum gesto, alguma coisa que possa contrapor. Não há. Ele sempre desviava o rosto. Sempre virava na hora certa. Achei que era timidez. Achei que era espera. Achei que era construção.
Era nada.
— Nunca me beijou.
Os olhos dela brilham de satisfação, como se lessem meus pensamentos.
— Nunca te apresentou a ninguém como namorada. Nunca postou uma foto. Nunca te levou a um restaurante que não tivesse luz baixa e mesas nos cantos. E tu não leste os sinais.
Os olhos se enchem de água, mas não deixo cair. Não. Não na frente dela. Não na frente dele.
Ela ri. O riso ecoa no espaço vazio entre nós.
— Você é tão patética que dói.
Os punhos se cerram sozinhos. As unhas cravam nas palmas. A dor é real, física, e por um momento é a única coisa que me mantém no chão. O sangue pulsa nas mãos fechadas. Os músculos dos antebraços se contraem. Todo o corpo grita para explodir, para revidar, para fazer alguma coisa.
Mas não me movo.
Olho para ele.
Ali, parado. Os braços em volta dela. A camisa branca impecável. A gravata vermelha como uma faixa de sangue no meio do peito. Ele não fala. Não me defende. Não a repreende. Ele apenas sorri. Aquele sorriso pequeno, de canto, que não alcança os olhos. E que me diz tudo o que preciso saber.
Ele está se divertindo.
Ela apoia a cabeça no ombro dele e me encara. Os olhos estreitos. A boca torta num sorriso cruel.
— Olha pra ela, amor — ela sussurra, alto o bastante para eu ouvir. — Olha como ela treme. Como quer explodir. E não faz nada. Não pode fazer nada.
Ele não responde. Apenas continua sorrindo. A mão desliza pela cintura dela, os dedos traçando um caminho lento até o quadril exposto pelo cropped assimétrico. Ela arqueia as costas — um movimento felino. Eu vejo a aliança no dedo dela. Uma aliança que nunca vi antes.
O estômago se contrai.
— Acha que essa aliança é sua, Marioneta? — ela pergunta, levantando a mão propositalmente. O ouro brilha sob a luz. Ela gira o anel no dedo, devagar, para que eu veja cada detalhe. — Não é. Nunca foi. Nunca vai ser.
Engulo em seco. Os punhos ainda cerrados. As unhas tão fundas que quase rompem a pele. A voz sai. Baixa. Trêmula. Mas sai.
— Por que ele te mantém nos braços, então?
Ela pisca. Por uma fração de segundo, a certeza vacila.
— O quê?
— Você está nos braços dele. E ele está olhando para mim. — A voz treme, mas não paro. — Não sei o que ele sente por você. Mas sei que ele não está te olhando agora. Está me olhando.
Ela se vira para ele, buscando confirmação. O rosto, antes tão confiante, tem uma ruga fina entre as sobrancelhas.
— Camargo? — Ela toca o peito dele, os dedos tamborilando contra a camisa branca. — Fala alguma coisa.
Ele não fala. Apenas sorri. Olha para mim. E sorri.
O silêncio cai entre nós. Ouço meu próprio coração, alto, acelerado, batendo contra as costelas como um pássaro preso. Ela continua nos braços dele, mas o corpo está mais tenso agora. Menos aninhado. Mais agarrado. Não está mais confortável. Está se segurando.
— Isso não significa nada — ela cospe, mas a voz já não tem a mesma força. — Ele está te olhando porque és um show de horrores. Porque és patética. Porque achaste que eras alguém e não és nada.
Os olhos ainda cheios, mas não pisco. Não vou piscar. Cada lágrima é uma vitória para ela. Não vou dar isso a ela.
— Então por que estás com medo? — pergunto.
Ela ri. Um riso forçado, agudo, falso.
— Medo? De ti? Por favor, Marioneta. Mal podes segurar as próprias lágrimas.
Mas as mãos dela tremem. E eu vejo. Vejo a forma como os dedos se enrolam no braço dele, apertando, segurando, como quem agarra algo que pode escapar.
O sorriso dele nunca muda. Apenas fica ali, observando. O que ele pensa, o que sente, ninguém sabe. Ele só observa.
E eu, Marioneta, continuo ali. Parada. Punhos cerrados. Olhos ardendo. Coração batendo tão forte que juro que eles ouvem.
"Camargo, Camargo — penso, encarando-o com fervor nos olhos — tu me pagas."
A voz não sai. Fica dentro de mim. Mas sei que ele ouviu. O olhar dele se mantém no meu, fixo, inescrutável. O sorriso cresce. Só um pouco. Só o bastante para eu ver.
Ele leu meus pensamentos.
E não se importa.E agora, infelizmente estou na delegancia..
Camargo DebresMe apronto para correr no campo esta tarde, como alguém que acabou de perder uma noiva. Ela era boa, certamente seria feliz com ela, embora a rival dela estivesse muitos degraus acima.Porque está frio hoje, uso minha camisola e calça um pouco quente, pois mesmo indo correr, o rio poderia me dar uma surra nos primeiros momentos.Tomo um chazinho sem muito açúcar, embora recomendem sem açúcar, eu ponho pelo menos uma colherinha. Tomo sem pão, sem acompanhante algum, porque considere isto mais como água quente do que um chá propriamente dito.Dou um gole e sinto o corpo satisfeito com a briga dos climas dentro de mim.Pego o remote da minha Google TV e coloco futebol na minha TV IMAX de 70 polegadas.Está passando em direto dois times que não conheço, só sei que são da La Liga, na posição de baixo mesmo. Vou torcer por quem ganhar.Se bem que poderia entrar um pouco de leite neste chá, mas porque decidi que não vou tomar leite hoje, então vou sobreviver à tentação. Não go
Marioneta— Camargo e Fantielle — diz ela, claro que iria usar o apelido da Cleusa, já que é o mais próximo do francês — Vocês ainda estão juntos?eu fico atordoada— como assim, ainda estão juntos? você sabia deles?— Sabia, por quê? — ela responde com uma voz de surpresa.— por nada — respondo dando de ombros — só que eu não sabia, só soube poucos dias atrás, não faz nem uma semana.Ela dá uma única risada prolongada, o corpo todo dela ri junto.— eles namoram a mais de um ano, então, a tua amiga Cleusa não é muito de falar sobre seus namorados, nem mesmo o que é colega de vocês!— pelo visto disfarçam bem também, para nunca perceberem comportamento na sala — disse o vendedor da fruta que batizamos de fruta-algodão-doce, embora o mais fácil teria sido perguntar o nome ao vendedor. o resultado da intromissão dele onde não foi convidado foi que todo mundo teve vontade de lhe lançar míssil, visto o olhar que recebeu de nós quatro.o vendedor se sentiu envergonhado e abaixou o rosto par
Marioneta— Mari — ela me chama de Marioneta francesada, Mari ou Marie, é a mesma coisa. — já recebi por email a apostila enviada pelo seu professor — ela arregala os olhos para o notebook como se o texto fosse microscópico. — Técnicas de ensino para iniciantes — ela lê, obviamente, o título.Até aqui tudo bem, mas o maluco falou que vai dar aulas presenciais para ela. Mas que di… ora, vou manter a minha alma em paz, deixar de me preocupar com uma adulta que tem a própria vida. Podem se ensinar à vontade… mas se ele se meter, o louco vai ver só comigo.— Irmã — ela me chama e eu já olhava para ela, então mantive o olhar. Está a clicar a seta de "para frente", provavelmente a folhear o documento antes de ler, como uma criança de primeira classe a folhear o livro para ver desenhos antes de chegar ao conteúdo dessa página. — Você tem um notebook, não tem?— Tenho, mas quase não uso, uso mais o celular.— Ah, que pena — retruca sem tirar os olhos da tela. — Queria jogar CS. Jogava muito c
MarionetaA chuva não dá tréguas. Os limpadores trabalham, mas a visibilidade é pouca. Passamos por uma banca na beira da estrada, daquelas de plástico azul, com uma lona esticada. Duas pessoas estão encolhidas debaixo dela, a tentar escapar da água.Reconheço as silhuetas.Camargo Debres e Cleusa Fantielle.Ela está agarrada ao braço dele, a rir de algo que ele disse. Ele está a olhar para a estrada, como se procurasse algo, ou alguém.Aperto os dedos no banco.— Passa — digo, a voz mais curta do que queria.— Por quê? Não são teus amigos? — ele pergunta. Não vejo a expressão dele, ainda estou ocupada a pensar no que dizer para o Debres. Como fazer ele entender que não tenho nada com o professor, sem explicar do jeito óbvio? É como se eu fosse obrigada a dar satisfações para o Debres. Mas não sou.— Primeiro — começo a explicar, detalhadamente, o porquê de devemos passar — está a chover, eles não vão se molhar para o van. Segundo, o carro do teu xará Camargo está ali.Falo, apontando
Marioneta— Você já se encontrou com ela? — ele pergunta. Mas antes que eu possa responder, faz outra pergunta que soa prioritária: — Como viveu no lixão? Como se livrou do mesmo?— Vivem pessoas lá, no lixão de Marivela, em tendas. Sobrevivem catando lixo, tentando encontrar comida em algum bom estado, assim como objetos preciosos para vender.Surge um silêncio. Depois continuo:— Tristeza quando a barriga roncava. E sumia quando comíamos alguma coisa e depois brincávamos no lixo como se fosse a coisa mais saudável do mundo. E esquecíamos de que, para jantar, ia ser necessário rezar para algum caminhão vir despejar lixo de patrões que gostam de deixar muita comida no prato, se chamando de gente fina por não limpar o prato com a colher.Faço uma pausa. O silêncio se instala. Continuo:— Fomos crescendo até eu começar a ganhar vida às escondidas.Eu lanço-lhe um olhar neutro e falo:— Sabe do que tô falando. Só não me pergunte a idade com que comecei.Ele assentiu.— Foi difícil — ele
Prof Camargo RodrigoMarioneta. Um nome que descobri há pouco tempo que é chamada na zona e que ela gosta. Então resolvi jogar o nome Olívia no lixo.Ela vem com seu vestido longo, vermelho e transparente. Ainda bem que tem mini-saia não transparente por dentro — muito curta, mas pelo menos fecha as partes sagradas. Seria péssimo se visse calcinha que certamente vou tirar hoje.Ela chegou e está com uma cara que não revela bem as suas emoções neste momento, mas posso chutar que não são muito boas, ainda mais pelo jeito que acabou de se jogar do meu lado no banco de alumínio.— Que bicho te mordeu, Marioneta? — pergunto, olhando para ela. Ela só olha para a frente, parecendo olhar para nada em específico, abanando a cabeça e os pés.— O doutor me disse o valor para tratar das minhas queimaduras.— Eeee? — fico muito curioso.— É necessário que eu seja um Musketeer — ela diz, sem vida na voz.Fico imóvel com os olhos abertos, mas fechados por um momento para ter a certeza de que nada me







