LOGINDiego subia a escada rolante em direção ao coworking do shopping com o envelope pardo debaixo do braço e a mente presa na cena de minutos antes.
Terminar com Diana havia sido irritantemente fácil. Sem dramas, sem lágrimas cinematográficas, sem escândalos que pudessem atrair os olhares dos curiosos.
O rompimento fora o reflexo exato do que o relacionamento deles havia sido nos últimos anos: morno. Uma conveniência social que agora se tornara um passivo caro demais para manter.Mas as últimas palavras dela ainda reverberavam, como um zumbido persistente, em sua cabeça:
"São só dois anos? Eu posso esperar por você."Diego não tinha prometido nada. Ele não era do tipo que assinava notas promissórias emocionais.
Mas ele conhecia a determinação silenciosa de Diana; ela não aceitaria o papel de "ex" tão facilmente enquanto houvesse um prazo de validade no contrato dele com Suzie.Ele apertou o passo, sentindo o peso da responsabilidade.
Traições estavam estritamente proibidas. Uma única foto comprometedora, um único deslize com Diana, e ele entregaria a Colt de bandeja para a "Abelhinha". E ele preferia ver a Colt pegando fogo do que dar esse gostinho a Suzie Martini.Quando a porta de vidro do coworking se abriu, o som do sino pareceu um gongo anunciando o início do round.
Suzie já estava lá.
Ela parecia um ponto loiro contra o cinza minimalista da sala. Estava cercada por papéis, três copos de café e uma expressão que indicava que ela já tinha lido cada linha do contrato pelo menos dez vezes.
— Você está cinco minutos atrasado — ela disparou, sem sequer levantar os olhos do tablet. — O trânsito de Londres era pior e eu nunca me atrasei para uma reunião.
— Eu não estava no trânsito, Suzie — Diego rebateu, jogando o contrato sobre a mesa com uma força que fez os copos de café tremerem. — Estava resolvendo os destroços da minha vida pessoal que o seu pai e o meu decidiram implodir.
Ele puxou a cadeira, sentando-se com uma agressividade controlada.
— Agora, vamos assinar essa sentença de morte logo, ou você vai querer analisar a gramática das cláusulas de fidelidade primeiro?
Suzie finalmente levantou o olhar do tablet. Suas íris pareciam duas pedras de gelo polidas, sem um pingo de empatia.
— Se você teve que fazer uma limpeza no seu estoque de namoradas, considere isso um ajuste de mercado.
Diego recostou na cadeira com um sorriso lento, do tipo que antecede algo que vai doer.
— Faz sentido você ver isso como ajuste de mercado. — ele pausou um segundo, só o suficiente. — Nunca foi exatamente um mercado competitivo no seu caso.
O silêncio que se seguiu foi do tipo que ocupa espaço físico.
Suzie não piscou. Não se mexeu. Devolveu os olhos para o tablet com a tranquilidade de quem acabou de ouvir algo completamente irrelevante.
"Essa doeu, Alencar. Mas não vai sair barato pra você."
Um dos advogados tossiu discretamente.
O outro advogado se adiantou, abrindo a pasta com o cuidado de quem manuseia algo que pode explodir.
— O contrato base estabelece dois anos de união civil, proibição de escândalos ou traições, sob pena de transferência total das ações para a parte lesada, e a unificação dos blocos de voto na Colt. — Ele pousou os papéis na mesa. — Qualquer adendo que vocês queiram incluir pode ser anexado como cláusula complementar.
Diego e Suzie se entreolharam.
Cláusula complementar.
Aquelas duas palavras abriram um portal.
Se iam ser condenados à convivência, eles fariam questão de cercar o território com cercas elétricas invisíveis.
A reunião seguiu por duas horas de pura mesquinharia corporativa. Os advogados, sentados nas pontas da mesa, trocavam olhares de profunda exaustão, sentindo que seus diplomas de Direito estavam sendo desperdiçados em uma briga de quinta série.
— Próxima cláusula — Suzie disse, a voz absolutamente neutra. — Residência. Eu escolho. Londres me ensinou que espaço e luz natural são inegociáveis.Diego arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Aceito. Mas com uma ressalva: eu escolho qual será o meu quarto exclusivo.
— Ótimo. Desde que seja bem longe do meu — ela rebateu, com um sorriso gélido. — Próxima: transporte independente. Eu quero um carro exclusivo da empresa para ir ao escritório. Não vou passar quarenta minutos por dia ouvindo suas playlists de rock duvidoso no trânsito.
"É, mas na faculdade vivia me pedindo minhas playlists, né, sua cara de pau?" pensou ele, a memória de Suzie com fones de ouvido divididos com ele piscando por um milésimo de segundo antes de ser esmagada pelo presente.
Diego sorriu de um jeito que Suzie deveria ter reconhecido como perigoso.
— Justo. Mas, se por algum acaso o seu carro "sofrer uma falha mecânica" e você precisar de carona no meu, haverá uma multa de cem reais por quilômetro rodado. Pago imediatamente em dinheiro vivo.
Suzie ergueu os olhos do tablet, avaliando.
— Em dinheiro vivo? — ela repetiu. — Que específico. Algum trauma recente com transferências?
— Só uma preferência por garantias reais. Gente que some por quatro anos costuma ser difícil de ser cobrada posteriormente.
— Tanto faz. — ela disse, digitando.
Um dos advogados levou a mão ao rosto, tentando disfarçar o riso.
O outro já não fazia questão.
— Próxima cláusula — Suzie continuou, implacável. — Uso de áreas comuns. Proibição de permanência simultânea na piscina.
Diego inclinou o corpo para frente.
— Concordo. Não tenho interesse em compartilhar o mesmo espaço aquático que você.
Suzie estreitou os olhos, anotando a provocação.
— Inclua também uma proibição de circulação em trajes impróprios nas áreas comuns. Nada de andar pela casa apenas de toalha ou sem camisa. Eu assinei um contrato de sócia, não um passe para um strip-club de baixo orçamento.
Diego soltou uma risada curta, se jogando pra trás na cadeira.
— Medo de não conseguir manter o foco no balanço trimestral, Suzie? — Ele rabiscou algo no papel. — Ok. Também seria bom deixar claro que em eventos sociais a proximidade é obrigatória apenas para fotos. Não quero ser forçado a ficar mais do que cinco segundos ao seu lado.
— Ótimo. Estamos alinhados. — ela disse, estendendo a mão para a caneta. — Mais alguma coisa ou podemos finalmente transformar esse circo em documento oficial?
Diego soltou um suspiro resignado e assinou sem dizer mais nada.
Os advogados se cumprimentaram com um alívio quase cômico, recolheram as pastas e saíram da sala de vidro, deixando os dois a sós por um breve e sufocante instante.
Suzie e Diego saíram logo em seguida, sem cerimônia, em direções opostas pelo shopping.
E na cabeça de ambos, além da dor lancinante, o mesmo pensamento latejava insistentemente, no ritmo exato de seus passos:
"Quando foi que estarmos juntos se tornou tão ruim?"
E assim encerramos a história de Diego e Suzie.Quero agradecer imensamente a cada leitor que reservou um momento do seu dia para acompanhar esta obra, deixar seu apoio e torcer por esse casal que começou na base da desconfiança e terminou descobrindo o verdadeiro significado de família.Escrever é uma troca constante, e a presença de vocês até o último ponto final é o meu maior prêmio.Suzie e Diego finalmente encontraram o lugar onde pertencem, e agora é hora de eu voar para novos horizontes.Um novo projeto já está ganhando vida na minha mente, e mal posso esperar para compartilhar essa nova história com vocês muito em breve.Que vocês levem consigo a mesma mensagem que eles me ensinaram ao longo dessa jornada: às vezes a vida dá voltas enormes, mas aquilo que é verdadeiro sempre encontra o caminho de volta.Obrigada por fazerem parte desta aventura.Com todo o meu carinho,Aya Lins
O cheiro de carne na brasa e o som de conversas descontraídas preenchiam o quintal gramado da casa de Júlio.Sentada na cadeira de balanço da varanda, Suzie tomava um suco de frutas cítricas enquanto observava a cena com um sorriso leve nos lábios.Sentados próximos à churrasqueira, Julio e Horácio discutiam com a mesma intensidade de sempre.A única diferença era o assunto.— Eu continuo dizendo que o peixe era maior que isso. — Horácio gesticulou.— Você continua mentindo do mesmo jeito que mentia há trinta anos. — Julio respondeu.Suzie apoiou a cabeça na mão e soltou uma risada.— Eu só queria entender uma coisa.Os dois olharam para ela.— Como vocês vão pular do assunto pescaria para o assunto Colt Enterprises?Julio fez uma careta.— Não vamos.— Nem sob tortura. — Horácio completou.— A Colt agora é problema de vocês.— Mérito. — Horácio corrigiu imediatamente. — Afinal, nós sabemos que a empresa está sendo muito bem administrada.Julio ergueu a cerveja.— E eu pretendo contin
No dia seguinte, Suzie acordou com o sol batendo no rosto e um cheiro inconfundível de café fresco no quarto.Ela virou para o lado à procura de Diego, mas encontrou o lugar vazio.No entanto, em cima do colchão, tinha uma bandeja caprichada com um café da manhã completo e um bilhete escrito com a caligrafia firme dele: “Para a mamãe e o bebê mais famosos do mundo corporativo”.Suzie pegou o papelzinho e sorriu.— Famosos? — Suzie murmurou baixinho, ainda sonolenta, com um sorriso de canto começando a surgir.O celular vibrou em cima da mesa de cabeceira, trazendo a realidade de volta em um segundo.— A essa hora da manhã?Suzie esticou o braço, desbloqueou a tela e foi totalmente surpreendida pela quantidade de notificações.Eram mensagens de parabéns de acionistas, e-mails de felicitações de parceiros comerciais e links de colunas de fofoca corporativa falando sobre o "anúncio do ano".Parecia que o mundo inteiro tinha decidido falar com ela ao mesmo tempo.A porta do quarto se abri
O salão do hotel parecia ter congelado por um milésimo de segundo.A frase de Suzie ainda ecoava pelas caixas de som, flutuando no ar antes que o cérebro de Diego finalmente processasse a informação.Ele piscou, os olhos verdes arregalados, olhando da boca de Suzie para a mão dela espalmada na barriga.— Suzie... — ele murmurou, a voz sumindo. — Você está grávida?Mas ela só sorriu de volta, com os olhos brilhando.A ficha caiu. E caiu com tudo.Diego soltou uma risada alta, uma mistura de alívio e pura felicidade, e não pensou duas vezes: largou toda a pose de CEO sério, avançou e pegou Suzie no colo, tirando os pés dela do chão e girando-a bem no centro do palco.Suzie soltou uma gargalhada gostosa, jogando a cabeça para trás, enquanto se segurava nos ombros dele.— Você está grávida! — ele repetia como se ainda não acreditasse. — Meu Deus, você está grávida!No mesmo instante, o salão explodiu.O barulho dos aplausos foi ensurdecedor, acompanhado por gritos de comemoração vindos da
O silêncio no salão continuava absoluto.Todos os olhos estavam grudados no centro do palco, onde a postura calma e controlada de Suzie contrastava com o clima pesado que Diana tinha acabado de criar.Sem demonstrar um pingo de nervosismo, Suzie ajeitou o microfone e começou a falar, com a voz firme e calma.— Quatro anos atrás, a Diana sabotou a minha apresentação final da faculdade, me fazendo acreditar que tinha sido o Diego o responsável.O comentário pegou o salão de surpresa.— O motivo?Suzie manteve o olhar nela.— Ciúmes. Ela queria nos afastar e... bem, conseguiu. Eu passei quatro anos em Londres odiando o Diego por algo que ele não tinha feito.Diego sentiu o peito apertar ao ouvir aquilo.Porque, por mais que ambos tivessem seguido em frente, aqueles quatro anos continuavam sendo uma ferida.Suzie continuou falando com segurança.— Quando eu voltei, o Diego decidiu dar um fim no relacionamento com a Diana, e ela, óbvio, não aceitou.Os olhos de Diana se arregalaram.Suzie
Durante os primeiros minutos, tudo pareceu normal.Diana conduziu a cerimônia com profissionalismo impecável, agradecendo aos investidores presentes, mencionando a trajetória da Colt Enterprises e exaltando a importância daquele momento para a companhia.Quem não a conhecesse jamais imaginaria que ela estava ali por motivos muito diferentes dos que aparentava.Quando chamou Diego ao palco, o salão inteiro respondeu com aplausos.Ele atravessou o espaço sob os holofotes com a postura firme de quem havia passado a vida inteira se preparando para aquele momento.Horácio observava da primeira mesa com um orgulho impossível de esconder.Julio não estava muito diferente.Suzie também sentiu o peito aquecer.Porque, independentemente de tudo que estivesse acontecendo ao redor deles, aquela conquista era real.Diego segurou o microfone e deixou o olhar percorrer o salão antes de começar.Falou sobre responsabilidade.Sobre legado.Sobre o privilégio de assumir uma empresa construída por duas







