LOGIN“José Miguel”
Depois de uma pequena batalha comigo mesmo eu acabei decidindo ir atrás da maníaca perseguidora e conversar com ela com calma. Talvez aquilo tudo não passasse de um acaso do destino e dos mais irritantes, mas podia ser, porque ela também pareceu surpresa ao me ver. Talvez, se eu corresse, eu ainda a pegasse na saída, se não eu teria que ir até a casa dela que era do outro lado da cidade e isso acabaria com o meu dia. Mas se eu tivesse sido injusto, era o certo a se fazer.
Eu saí às pressas do escritório e quando cheguei na portaria do prédio eu vi, logo ali na frente, no meio da rua, a Carmem e a maníaca perseguidora no maior b**e boca. O mundo ia desmoronar na minha cabeça eu já estava vislumbrando o apocalipse. Eu voltei para dentro do prédio, peguei o celular e chamei o segurança.
- Julio, resolve aquela encrenca ali fora, por favor! Não dá pra permitir isso em frente a empresa. – Eu pedi e ele sorriu.
- É, Sr. Rossi, a loira quase passou em cima da moça bonita. – Ele comentou com um sorriso e saiu em direção ao tumulto.
- Julio! – Eu chamei e ele olhou para trás. – Oferece ajuda a moça bonita, a faça entrar no prédio. – Eu pedi e ele deu uma risada de quem tinha entendido. Só que ele não tinha entendido. Eu balancei a cabeça, peguei o celular e, enquanto caminhava de volta para os elevadores, fiz a chamada, que foi atendida logo.
- Candinha, minha querida, sou eu! – Eu falei com carinho ao telefone.
- Não precisa dizer nada, já sei que a Sra. Carmem foi te aborrecer com as reclamações dela. – A Candinha deu uma risada. – Pode deixar, ligo pra ela em cinco minutos e invento qualquer coisa para ela vir pra casa.
- Ah, Candinha, o que seria de mim sem você? – Eu brinquei e ela deu uma gargalhada do outro lado da linha.
- Sem mim ela já teria te deixado louco. – A Candinha brincou e encerrou a ligação.
Agora eu tinha que esperar, mas a Carmem não podia me ver ou ela começaria a me atormentar ali na entrada do prédio mesmo e do jeito que estava nervosa, seria um escândalo, então eu fui para o banheiro que ficava perto dos elevadores e esperei, observando por uma frestinha na porta.
E foi exatamente como eu calculei, a Carmem entrou no prédio e veio em direção aos elevadores a passos firmes, apertou o botão e o celular dela tocou. Quando o elevador se abriu a Candinha já tinha convencido a Carmem a voltar para casa para impedir alguma catástrofe doméstica.
Eu esperei só um pouquinho no banheiro e quando saí a Carmem já tinha ido, o carro dela não estava mais em frente ao prédio, e a Srta. Eva Sanchez estava sentada em uma das poltronas do hall de entrada, entretida com alguma coisa. Eu caminhei até lá e me sentei em frente a ela.
Foi até bonitinho de se ver, os olhos dela subindo lentamente dos meus pés até o meu rosto e a cara de choque que ela fez ao ter certeza de que era eu. Ela era mesmo linda!
- Pronto! Olha aqui, meu senhor, eu já estou de saída, só estou... – Ela começou a falar e se levantou toda irritadinha.
- Sente-se, Srta. Sanchez! – Eu falei com a voz controlada e autoritária, para que ela me ouvisse e não continuasse o palavrório desnecessário.
- O que o senhor quer? – Ela perguntou, mas não se sentou.
- Acredito que a senhorita entenda que foi um choque para mim vê-la em minha sala, não é mesmo?! – Eu a encarei e ela bufou e cruzou os braços.
- E para mim o senhor pensa que foi o quê? – Ela me perguntou e eu me segurei para não rir, porque ela ficava uma graça irritada e a minha própria irritação já tinha passado.
- Srta. Sanchez, talvez eu tenha me precipitado, mas eu gostaria de conversar com a senhorita. Será que podemos fazer isso de maneira séria e respeitosa? – Eu a encarei. Ela batia o pezinho no chão deixando claro que estava impaciente. Eu abrandei a voz e insisti. – Sente-se, Eva, por favor. Vamos resolver isso da melhor forma para nós dois.
Ela me observou por um segundo e se sentou. Foi então que eu vi melhor o que ela avaliava, era um ralado no joelho dela e percebi o desfiado da meia que se esgueirava por baixo da saia.
- Srta. Sanchez, acho que antes de mais nada, nós precisamos esclarecer sobre aquela noite da boate. – Eu a encarei e ela fechou os olhos. – Aquilo foi um erro, monumental, não deveria mesmo ter acontecido, eu me deixei levar pelo momento e...
- Acho que nós dois concordamos e entendemos que foi um erro monumental, uma verdadeira burrice! – Ela me encarou e me surpreendeu.
- Eu não diria burrice, mas não deveria ter acontecido. – Eu completei e ela ficou me olhando bastante séria. – Srta. Sanchez, eu estou numa situação delicada aqui. Eu preciso de uma assessora e a senhorita foi muito bem recomendada, além do mais o seu currículo é bem interessante, a senhorita possui todos os requisitos para o cargo. Mas, eu não sei o que fazer.
- Ora, o senhor já fez, me acusou de o estar perseguindo e eu renunciei ao cargo. Nem entendo o que estamos fazendo aqui! – Ela respondeu toda atrevida.
Eu respirei fundo e tentei pensar em como fazer isso para não virar uma bomba que me destruiria completamente. Eu precisava de uma assessora, precisava de alguém para preencher aquele cargo o quanto antes, porque eu já não aguentava mais as cobranças da Carmem e porque eu já estava sobrecarregado demais e precisava de ajuda.
Mas não era só isso, eu não sabia o que iria dizer para a Melissa, porque eu já tinha dito que tinha contratado a amiga dela. E eu nem imaginava o que a Melissa sabia sobre o meu encontro furtivo com a Srta. Sanchez. Eu respirei fundo e tentei organizar meus pensamentos, eu precisava resolver aquilo depressa.
- Olha, foi um choque para mim vê-la em meu escritório, eu nem sabia o seu nome! – Eu tentei me justificar, mas ela só ergueu as sobrancelhas e me encarou como quem não dava a mínima. – Eva, eu me precipitei, me desculpe, foi o choque do momento. Olha, eu realmente preciso de uma assessora e você preenche os requisitos, além de ter sido indicada por alguém que eu respeito muito.
- Sr. Rossi, eu não tinha a mínima idéia que o senhor e aquele homem da boate eram a mesma pessoa. Mas eu não vou tolerar ser tratada com grosseria. – Ela me encarou.
- Eu não trato os meus funcionários com grosseria, Eva! – Eu a encarei com seriedade. – O que eu estou propondo a você é que esqueçamos que aquela noite existiu e você aceite o emprego. Simples, só não tocarmos nesse assunto nunca mais.
- Olha, geralmente eu não me comporto daquele jeito. – Ela bufou e colocou a mão no rosto. – Eu nunca me comporto daquele jeito. Mas aí, na única vez em que eu me dou ao luxo de ser irresponsável, olha aí o que aconteceu!
- E eu não deveria ter me comportado daquele jeito! – Eu acabei falando, levado pelas palavras dela. – Eva, eu preciso de uma funcionária e pelo que a Melissa me disse, você precisa do trabalho. – Eu insisti e ela me encarou, como se avaliasse os prós e contras da situação.
- Eva, me desculpe, mas tive que arrancar os dois saltos, estavam perdidos. – O Julio apareceu com os sapatos da Srta. Sanches arruinados, o que era uma pena, eles eram um clássico!
- Obrigada, Julio, está ótimo assim, pelo menos consigo voltar pra casa. – Ela pegou os sapatos, colocou nos pés e se levantou, me olhando com seriedade, como se pensasse no que deveria me responder.
"Giovana"A vida tem um jeito muito próprio de fechar os seus ciclos e nos lembrar de que nenhuma tempestade dura para sempre, tampouco pode nos afogar quando a gente se cerca das pessoas certas. Eu, com certeza, estava cercada pelas melhores pessoas e por muito amor.Meu filho já estava prestes a completar um ano. Ele era uma réplica minúscula do pai. Os mesmos olhos sérios, a mesma calma e aquele jeito ordenado e observador. Desde aquela noite em nossa casa, quando descobrimos que o nosso bebê estava a caminho, o nosso mundo se transformou por completo e nos jogou na operação mais exaustiva, recompensadora e barulhenta das nossas vidas: a paternidade em dose dupla na família. Quantas noites o Rui e o Anderson ninaram as crianças no corredor de madrugada para que a Bianca e eu pudéssemos dormir depois de amamentar; quantas vezes eu peguei o meu filho dormindo no peito do pai exausto e o levei para o berço; quantas vezes o Tio Rubens, o Bóris e o meu pai apareceram, "sequestraram" as
"Giovana"O Anderson piscou devagar, como se tentasse decifrar uma mensagem em outra língua. Ele olhou para mim, olhou para as três caixas em cima da mesa de centro, voltou a me encarar e passou a língua levemente pelos lábios, como se estivessem ressecados. - Enjoada... com o cheiro dos croissants? - Ele repetiu, a voz saindo num sussurro.- Sim, Gracinha. - Eu limpei uma lágrima teimosa que tinha escapado e apertei a mão dele. - Meu implante contraceptivo não venceu há duas semanas. Eu olhei a agenda. Ele venceu há três meses. Eu cometi um erro, perdi o prazo e... aconteceu. Quando você pensou que eu estava grávida lá atrás, você jurou que estaria comigo. Agora eu preciso que você realmente esteja, que... - minha voz caiu para uma súplica quase inaudível. - Eu preciso que você continue me amando do mesmo jeito, mesmo que eu tenha feito uma grande bagunça.A ficha dele finalmente caiu. Eu vi a postura rígida e controlada do Anderson desabar por completo na minha frente. Eu vi os olh
"Giovana"A placa sobre a minha mesa com o nome Delegada Cavalcante brilhava com o reflexo da luz da tarde que entrava pela jenela, mas para a equipe inteira daquela delegacia eu continuava sendo a Delegada Ferinha. E eu gostava de ser a Delegada Ferinha! Havia se passado pouco mais de um ano desde que eu ocupei a vaga de delegada aqui e o Bonfim tomou posse como Delegado-Geral. Um ano em que a nossa rotina tinha se estabilizado de forma perfeita: eu comandava as investigações e aprendia tudo o que o Flávio podia me ensinar, e o Anderson brilhava no Ministério Público, seu trabalho sendo reconhecido cada vez mais, o que me dava um orgulho absurdo. Nós éramos perfeitos juntos, nos entendíamos no olhar e ele era sempre tão atencioso as menores coisas que me emocionava. Ontem mesmo eu caí no choro quando cheguei em casa exausta e ele me carregou da porta até o sofá, tirou os meus coturnos e massageou os meus pés, beijando cada um com reverência. Droga, eu estava ficando molenga e choro
"Giovana"Era como se a mulher a minha frente fosse alguém totalmente diferente, mais discreta, mais elegante e certamente mais agradável. Eu não via a Maya há muito tempo. Tudo o que eu soube foi que ela tinha trancado a faculdade faltando poucas matérias para se formar e nunca mais voltou. - Ah, qual é Giovana, sua língua é mais afiada que isso. Vai, pode mandar, fala o que você está pensando. - Ela sorriu e abriu os braços mostrando que estava pronta para receber as minhas implicâncias. - Tá... mas depois não reclama. Eu sempre quis saber, o que aconteceu com o trabalho de conclusão de curso. Você agarrou a posse e propriedade? - Eu sorri, me lembrando da última vez que tinha falado com ela. - Ridícula! - Ela riu. - Eu fiz melhor. Enquanto eu estava olhando para aquele quadro e tentando engolir aquele tema, a caloura mais abusada e irritante que eu já vi na vida resolveu aparecer para pegar no meu pé. Mas, eu não sei se foi sem querer... ou se foi querendo... acontece que ela me
"Giovana"Antes que eu pudesse chorar mais um pouco, o Felipe e a Juliana se aproximaram de nós segurando taças de água. O Felipe estava com aquele sorriso enigmático típico dele, cutucando o sogro com o cotovelo. Ele não dava um minuto de paz para o Bonfim e o Bonfim fingia que não gostava, mas se o Felipe passava uma tarde sem ligar para ele, ele acabava resmungando ordens mau humoradas na delegacia para todos nós.- É uma noite de grandes anúncios para a Segurança Pública, hein, sogrinho?! - O Felipe começou, com um brilho puramente atrevido nos olhos, piscando para a Juliana. - Meus parabéns! - Ele bateu a mão nas costas do Bonfim e o puxou para um abraço.- Moleque atrevido! Não larga essa mania de me chamar de sogrinho. - O Bonfim resmungou, mas abraçou o Felipe dando tapinhas nas costas. - Ah, mas pelo menos se tornou responsável e não bebe mais e nem deixa a minha Jujubinha beber. Vem, filhinha do papai, dá um abraço. - O Bonfim puxou a filha para um abraço sentimental e, não
"Giovana"O evento da noite era algo do qual eu não esperava participar um dia, muito menos tão no início da carreira, mas me fez perceber que conhecer algumas pessoas faz portas se abrirem mais fácil. A atmosfera no grande salão de convenções do Palácio do Governo era de pura imponência entre festa e solenidade. Dezenas de oficiais da Polícia Militar com fardas de gala, políticos, Promotores de Justiça, Juízes e o alto escalão da Polícia Civil preenchiam o espaço sob o brilho dos lustres de cristal. Aquele lugar não se chamava palácio à toa, era riquíssimo em arquitetura e decoração, realmente imponente. O Anderson estava impecável ao meu lado, de terno escuro, cumprimentando membros do judiciário com uma desenvoltura impressionante e atraindo os olhares de respeito, ele já era o jovem Promotor de Justiça que se destacava pela competência e dedicação. Ele me apresentava com um orgulho que brilhava na sua voz e nos seus olhos. Eu não era apenas a esposa, ele fazia questão de dizer q







