FAZER LOGINParada na frente da porta metalizada do elevador, no saguão espelhado da Global Corp., meu coração errou algumas batidas dentro do meu peito.
As portas duplas se abriram com um bipe suave e lá estava ele. Oliver. Ele vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado e carregava uma pasta de couro na mão. Não parecia tão mal-humorado quanto naquela noite no pub, mas ainda ostentava uma aura austera e inalcançável. Fiquei completamente desconcertada. O ar fugiu dos meus pulmões e a única coisa que consegui fazer foi dar um aceno rápido e tenso com a cabeça de ouvir ele me chamar de Chloe. Oliver retribuiu com um olhar atento e um leve inclinar de queixo, saindo do elevador e passando ao meu lado. Entrei rapidamente na cabine, me virando a tempo de vê-lo se afastar pelo saguão enquanto conversava com um homem mais baixo e com ar preocupado. Soltei um suspiro longo, sentindo o alívio lavar meu peito conforme ele desaparecia de vista. Apertei o botão do terceiro andar. O trajeto até o Departamento de Recursos Humanos foi tão rápido que não reparei em mais nada pelo caminho. Fui atendida por uma analista simpática, entreguei toda a documentação necessária para adiantar o processo antes de segunda-feira e tirei a foto para o crachá temporário. Quando terminei, desci até o estacionamento externo e entrei no carro de Gia, que me esperava com o motor ligado e uma música animada tocando no rádio. — E aí? Deu tudo certo lá dentro? — ela perguntou, ajustando o espelho retrovisor. — Sim! Eles conferiram tudo e disseram que está perfeito. Segunda-feira só preciso assinar o contrato e já começo a trabalhar. Gia me olhou de lado por um segundo antes de puxar o freio de mão e encarar meu rosto de frente. — Você tá estranha. Parece um pouco nervosa... Aconteceu alguma coisa lá dentro? Pensei em dar qualquer desculpa vaga, mas conhecia a Gia o suficiente para saber que ela desconfiaria na hora. Engoli em seco e resolvi falar a verdade. — Lembra de quando te falei que peguei carona para voltar para casa? Que um cara me levou até a estação de metrô? — Lembro. O que tem? — Esse cara... ele estava lá dentro, Gia. Eu cruzei com ele saindo do elevador no saguão. Gia arregalou os olhos, soltando um assobio baixo. — Mentira! Sério? Mas foi mesmo só uma coincidência? — Claro que foi! — respondi, ajeitando o cinto. — Eu nem sabia onde ele trabalhava, só sabia o nome. Tanto que até dei um nome falso para ele no carro porque pensei que nunca mais fosse ver a cara dele na vida! Gia me encarou, segurando o riso. — Pensa comigo, Sarah: se você tinha certeza de que nunca mais ia ver o cara, qual era a necessidade de inventar um novo falso? — Gia, eu assisto noticiários. Já vi notícias ruins demais para arriscar dar meu nome verdadeiro para um completo estranho na madrugada — rebatia, indignada. — Tá, mas você pegou carona no carro dele, o que é mil vezes mais arriscado do que falar seu nome! — Eu conheci o cara dentro do pub! — protestei. — Depois reencontrei ele na calçada. Tudo bem que ele foi um babaca completo no bar, mas depois se desculpou e foi super educado me deixando no metrô. Gia deu um sorriso de canto, me provocando com um tom de voz maldoso: — Mas me conta... ele é bonito? — Gia! — a encarei, séria. — Eu tô nervosa de verdade! Não sei se ele estava lá só de passagem, fazendo alguma reunião, ou se ele realmente trabalha na Global Corp. — Amiga, relaxa — Gia colocou a mão no meu ombro, tentando me tranquilizar. — Mesmo se ele trabalhar lá, esse prédio é gigante. Tem milhares de funcionários espalhados por dezenas de andares. Você não precisa se preocupar com isso. O cara deve ser só mais um funcionário de algum setor aleatório. Você vai passar a maior parte do seu tempo num andar específico, sentada na sua mesa, à disposição de uma única pessoa. Vocês nem vão se cruzar. Apertei os lábios e assenti devagar. O raciocínio dela fazia sentido. A Global Corp. ocupava um prédio inteiro de vinte andares. As chances de eu trombar com ele de novo no dia a dia eram insignificantes. Senti o aperto no peito aliviar um pouco. O fim de semana foi uma batalha silenciosa contra os meus próprios pensamentos. Por mais que eu tentasse me focar no trabalho novo, a imagem do Max não saía da minha cabeça. A essa altura, ele devia estar aproveitando a tão sonhada "liberdade" no apartamento que um dia foi nosso. Provavelmente saindo com outras mulheres, sem remorso, sem peso na consciência e, principalmente, sem mim para "sufocá-lo". Aquilo me corroía por dentro. A mágoa queimava ao perceber que os últimos dois anos da minha vida pareciam ter sido uma grande e elaborada mentira. Eu vivi aquele relacionamento sozinha. Amei sozinha. Fiz planos para dois, sozinha. Larguei a faculdade no meio do curso para acumular dois, três empregos ao mesmo tempo, sacrificando minhas noites de sono para juntar dinheiro para um casamento que só existia na minha cabeça. Tudo em vão. No fim das contas, eu só perdi tempo, energia e sonhos. Não ganhei nada. Quando o despertador tocou às seis da manhã de segunda-feira, decidi que não deixaria o passado estragar o meu futuro. Levantei antes do sol, tomei um banho demorado e me arrumei com todo o cuidado. Vestia uma calça de alfaiataria preta e uma camisa de seda bege — uma das peças elegantes que comprei com a ajuda da Gia. Tomei um café rápido na cozinha enquanto minha amiga me dava os últimos desejos de boa sorte e saí para enfrentar meu primeiro dia. A imponência da torre de vidro da Global Corp. parecia ainda maior sob a luz da manhã. Assim que passei pelas catracas da recepção, fui orientada a me dirigir à sala de reuniões do décimo quinto andar. Lá, assinei os papéis finais do meu contrato de trabalho e um rigoroso termo de confidencialidade. — Tudo pronto, senhorita Wash — a supervisora do RH sorriu, recolhendo os papéis. — Agora vou acompanhá-la até o andar da diretoria executiva para que você conheça o seu local de trabalho e o seu chefe direto. Subimos pelo elevador privativo até o último andar. O corredor era silencioso, com carpete aveludado, iluminação suave e portas de madeira nobre. A mulher parou em frente à maior porta do corredor, deu três batidas firmes na madeira e aguardou. — Pode entrar — uma voz grave e marcante ecoou do lado de dentro. A supervisora girou a maçaneta, abrindo espaço para mim. — Com licença, sr. Pattinson. Estou com a sua nova secretária. Gostaria de apresenntá-la. Passei pela porta com a cabeça erguida e o melhor sorriso profissional que consegui moldar no rosto. Mas, no segundo em que meus olhos cruzaram a sala imensa e pousaram na pessoa sentada atrás da imponente mesa de vidro, meu sorriso congelou. Elegante, com as mangas da camisa branca dobradas até os antebraços e uma caneta nobre entre os dedos, Oliver ergueu o olhar. O choque foi mútuo. Por um fração de segundo, os olhos cinza-azulados dele se arregalaram levemente, fixando-se no meu rosto.A presença de Oliver no acostamento da avenida congelou o tempo. Ele caminhou na nossa direção com passos firmes. Cada passada do seu sapato de couro contra o chão, fazia com que qualquer um notasse sua aura autoritária. Max soltou meu braço imediatamente, dando um passo involuntário para trás, mas tentando se recompor logo em seguida. A diferença entre os dois era brutal: Max, com o casaco desalinhado e a expressão descontrolada; Oliver, totalmente controlado em seu terno sob medida, exalando poder. — Quem é você? — Max peitou, inflamando o peito numa tentativa desesperada de parecer ameaçador, embora sua voz tenha falhado no final. — Isso é um assunto particular entre mim e a minha noiva. Não se mete! — Ex-noiva — corrigi imediatamente, dando dois passos para trás e ficando mais próxima de Oliver. O aroma amadeirado do seu perfume me envolveu, um contraste absurdo com o caos daquela calçada. Oliver nem se deu ao trabalho de olhar para Max no primeiro segundo. Seus olhos c
A segunda-feira começou com a chuva fina batendo contra os enormes painéis de vidro da Global Corp. O café da manhã com Gia tinha sido rápido, e a sensação de ter bloqueado o número do Max no fim de semana ainda me dava uma onda estranha de leveza, com uma pontinha de ansiedade. Ele tentara me ligar de outro número no domingo à noite, mas recusei sem hesitar. Eu não voltaria para aquele buraco. Cheguei à minha mesa às sete e quarenta. Ajustei a agenda, chequei as confirmações das reuniões e organizei as pastas da diretoria. Quando o elevador privativo abriu às oito em ponto, Oliver surgiu. Ele usava um terno cinza-escuro que acentuava seus ombros largos e o olhar atento. Passou pela minha mesa, mas desacelerou os passos assim que nossos olhos se cruzaram. — Bom dia, Sarah — disse ele, a voz grave cortando o silêncio do andar. — Bom dia, senhor Pattinson — respondi, me levantando ligeiramente. — A pauta da reunião das dez com o setor financeiro já está na sua mesa. Oliver p
Os passos de Oliver ecoaram pelo corredor como tiros. O passos lentos, firmes e pesados trazia a tensão que fez o ar do décimo quinto andar parecer instantaneamente rarefeito. A analista do financeiro, que há segundos flertava com August, murmurou uma desculpa esfarrapada e desapareceu por uma das portas laterais. August nem se deu ao trabalho de se recompor. Continuou apoiado na borda da minha mesa, ajeitando o copo de café na mão, com um sorriso debochado estampado no rosto enquanto via o irmão mais velho se aproximar. — O que você está fazendo aqui, August? — a voz de Oliver veio baixa, mas com a autoridade tão cortante que me fez encolher sutilmente na cadeira. — Vim visitar meu irmão favorito — August respondeu, ajeitando a postura e dando um gole no café. — E, de quebra, conhecer a nova contratação. Você tem um gosto excelente, Oliver. Ela é muito mais simpática que a anterior. Os olhos de Oliver faiscaram ao ouvir August se referir a mim. Ele não olhou para mim; mante
A frase dele reverberou dentro da cabine do elevador, fazendo o meu sangue congelar e subir direto para as minhas bochechas. Encarei o painel espelhado à nossa frente. No reflexo, os olhos cinza-azulados de Oliver estavam fixos em mim, carregados de uma ironia calma e divertidamente presunçosa. — Eu posso explicar... — comecei, engolindo em seco e me virando de frente para ele. — Naquela noite, a gente não se conhecia. Eu estava sozinha, no meio da madrugada, e... bom, achei que "Chloe" era uma camada segura de proteção caso você fosse um psicopata. Oliver soltou um riso baixo, um som grave e contido que fez meu estômago dar uma volta estranha. Ele ajeitou os punhos do paletó, sem tirar os olhos do meu rosto. — Um psicopata que te deu carona e esperou você entrar na estação de metrô para garantir que ficaria bem? — ele arqueou uma sobrancelha. — Exatamente — mantive o tom firme, embora por dentro estivesse me desfazendo de vergonha. — Pessoas cautelosas sobrevivem mais tem
A supervisora parecia pronta para fazer o discurso de apresentação, mas a voz do meu novo chefe cortou o silêncio do ambiente antes que ela dissesse uma palavra. — Na verdade, nós já nos conhecemos — Oliver disse, a voz grave e perfeitamente ritmada, com a postura confiante de quem tem controle absoluto do espaço. Um leve sorriso de canto surgiu em seus lábios, quase imperceptível para quem olhava de fora, mas claro o suficiente para fazer meu rosto queimar de calor. Chloe. Aquele sorrisinho irônico gritava o nome falso que eu tinha inventado no carro. — É um prazer conhecê-la, senhorita Wash — ele continuou, estendendo a mão para um aperto firme, seco e profissional. — Acredito que a equipe RH já tenha lhe mostrado o andar? — Ainda não, senhor Pattinson — a supervisora interveio, visivelmente sem jeito. — Estávamos esperando a primeira apresentação com o senhor para depois circular pelas áreas. — Não se preocupe, eu mesmo posso orientá-la com o básico mais tarde — Oliver
Parada na frente da porta metalizada do elevador, no saguão espelhado da Global Corp., meu coração errou algumas batidas dentro do meu peito. As portas duplas se abriram com um bipe suave e lá estava ele. Oliver. Ele vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado e carregava uma pasta de couro na mão. Não parecia tão mal-humorado quanto naquela noite no pub, mas ainda ostentava uma aura austera e inalcançável. Fiquei completamente desconcertada. O ar fugiu dos meus pulmões e a única coisa que consegui fazer foi dar um aceno rápido e tenso com a cabeça de ouvir ele me chamar de Chloe. Oliver retribuiu com um olhar atento e um leve inclinar de queixo, saindo do elevador e passando ao meu lado. Entrei rapidamente na cabine, me virando a tempo de vê-lo se afastar pelo saguão enquanto conversava com um homem mais baixo e com ar preocupado. Soltei um suspiro longo, sentindo o alívio lavar meu peito conforme ele desaparecia de vista. Apertei o botão do terceiro andar. O trajet







