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Capítulo 4

Author: EllenRoza
last update publish date: 2026-09-04 10:21:33

  O barulho da porta da frente sendo destravada com certa dificuldade me fez despertar de um pulo no sofá da sala. Olhei para o relógio na parede: quase quatro da manhã.

  Gia entrou tateando as paredes na penumbra, tirando os saltos de qualquer jeito e soltando um riso baixo sem motivo aparente. Os dois gatos correram para se esconder debaixo da mesa. Levantou-se cambaleante, visivelmente alterada.

  Caminhei até ela, passei o braço por sua cintura para dar apoio e a guiei devagar até o quarto dela.

  — Sarah... você é uma amiga incrível, sabia? — ela balbuciou, quase me esmagando com o próprio peso enquanto eu a deitava na cama e tirava seus sapatos.

  — Dorme, Gia. A gente se fala amanhã — sussurrei, cobrindo-a até os ombros.

  Na manhã seguinte, o sol mal tinha surgido quando levantei. Me arrumei em silêncio, tentando fazer o mínimo de barulho possível ao ver que Gia continuava apagada no quarto, ressonando fundo. Peguei um bloco de papel e uma caneta sobre o balcão e escrevi um bilhete rápido: “Fui ao apartamento do Max pegar minhas coisas. Volto mais tarde. Beijos!”. Deixei a folha na porta da geladeira, presa por um ímã de gato, e saí.

  Chegar àquele prédio me deu um nó no estômago. Subi pelo elevador sentindo o peito apertar a cada andar, mas mantive o passo firme ao parar em frente à porta do apartamento que até ontem eu chamava de lar. Enfiei a chave na fechadura e rodei.

  O silêncio do lugar era ensurdecedor. Assim que dei o primeiro passo para dentro, travei. Bem no meio da sala de estar, empilhadas de forma organizada, estavam quatro caixas de papelão e duas das minhas malas. Max já tinha separado a maioria dos meus pertences. Aquilo foi como uma bofetada. Ele parecia aliviado por eu ter saído, com pressa de apagar qualquer vestígio da minha presença ali.

  Em cima da mesa de jantar, havia um bilhete dobrado com a caligrafia rápida dele: “Sarah, deixei suas coisas principais juntas para facilitar. Pode pegar o tempo que precisar para levar o resto.”

  Soltei um suspiro pesado, engolindo a seco a onda de mágoa e humilhação que ameaçava me paralisar. Eu não ia perder meu tempo nem minhas lágrimas lamentando o fim daquilo tudo. A dor estava ali, queimando viva no meu peito, mas eu precisava reagir.

  Liguei para um serviço de frete e solicitei um pequeno caminhão de mudança. Passei o resto da manhã e metade da tarde empacotando o que restava. Levei quase tudo o que era meu por direito, mas fiz questão de deixar para trás cada presente, cada lembrança e cada objeto que Max tinha me dado ao longo dos dois anos. Não queria nada dele comigo.

  Quando o caminhão terminou de carregar tudo, fui direto para um complexo de depósitos operacionais a vinte minutos dali. Aluguei um box pequeno, descarreguei todas as caixas e mobílias que eu tinha acumulado e paguei a primeira mensalidade com o restinho das minhas economias. Para o apartamento da Gia, levei apenas uma única mala de rodinhas com minhas roupas essenciais.

  Assim que tranquei o box, decidi aproveitar o resto da tarde para procurar um lugar para morar. Eu não queria ficar dependendo da hospitalidade da Gia por muito tempo. Tempos atrás, quando ainda estávamos no início da faculdade, moramos juntas por um período e a convivência intensa gerou desentendimentos bêtas que quase destruíram nossa amizade. Eu não podia arriscar que isso acontecesse de novo, especialmente agora que ela era tudo que me restava naquela cidade. 

  Visitei três pequenos estúdios no centro da cidade. Contudo, ao ouvir o valor dos aluguéis e os depósitos caução exigidos pelos corretores, a realidade me atingiu em cheio. Estava totalmente fora do meu orçamento atual. Voltei para a calçada frustrada, mas tentando ser pragmática: precisava engolir o orgulho e esperar um pouco. Assim que eu começasse a trabalhar no novo emprego. e recebesse meus primeiros salários como secretária, tudo ficaria mais fácil. Até lá, eu e a Gia teríamos que fazer dar certo.

  Quando voltei ao apartamento, o sol já estava se pondo. A sala estava na penumbra, com as cortinas fechadas para barrar a luz. Gia estava deitada no sofá, usando óculos escuros e com uma bolsa de gelo na testa.

  — Onde você estava? — ela perguntou, a voz rouca de ressaca assim que ouviu o barulho da minha mala. — Por que não me esperou para ir junto ao apartamento do Max? Eu teria quebrado a cara dele por você!

  — Já está tudo resolvido — disse, deixando a mala no canto do corredor e desabando na poltrona.

  Gia tirou os óculos escuros devagar, me analisando com os olhos espremidos. Olhou para o corredor vazio e depois para mim.

  — Espera... cadê o resto das suas coisas? Você passou o dia todo fora, achei que voltaria com um caminhão.

  — Eu aluguei um box num depósito aqui perto — expliquei, ajeitando meu cabelo. — Deixei tudo lá.

  Gia sentou-se num pulo no sofá, franzindo a testa.

  — Ficou doida, Sarah? Não precisava gastar dinheiro com isso! Podia ter trazido tudo para cá.

  Balancei a cabeça, negando gentilmente.

  — Gia, eram caixas demais. Eu acumulei muita coisa achando que eu e o Max íamos comprar um apartamento nosso e nos casar no fim do ano. Nunca caberia tudo no seu espaço. O depósito foi a melhor opção.

  Ela suspirou, cedendo, mas logo mudou a expressão para uma curiosidade desconfiada.

  — Tá... mas mudando de assunto: por que você voltou tão cedo ontem à noite? Procurei você pelo pub inteiro e você simplesmente sumiu.

  Levantei, fui até a cozinha, peguei um copo de água gelada e voltei para me sentar no sofá, ao lado das pernas dela.

  — Eu rodei aquilo tudo e não te achei em lugar nenhum também — respondi antes de beber um gole. — E meu celular descarregou totalmente.

  — E como você voltou para casa?

  A imagem de Oliver veio instantaneamente à minha mente.

  — Alguém me deu uma carona até a estação de metrô mais próxima — comentei, mantendo o tom neutro.

  Gia deu um sorriso de canto, arqueando as sobrancelhas.

  — Olhe só! Eu também te procurei feito louca e cheguei a achar que você estava se divertindo com alguém. 

  Encarei minha amiga séria, balançando a cabeça.

  — Eu não consigo nem pensar numa coisa dessas, Gia. Sério. Eu ainda estou furiosa com Max, com o peito doendo e tentando entender a minha vida. Vai levar muito tempo até que eu consiga sequer me interessar por outra pessoa.

  Percebendo que o assunto era espinhoso, mudei o rumo da conversa rapidamente:

  — Mas e você? Como foi a sua noite com aquele cara de camisa xadrez?

  Gia soltou uma gargalhada e encostou a cabeça no braço do sofá.

  — Ah, eu me diverti bastante! Ele era bem legal, dançava super bem... mas não tenho a menor pretensão de ver ele de novo. Foi ótimo para distrair a cabeça e só.

  — Pelo menos uma de nós aproveitou a noite como devia — sorri de leve, sincera.

  — E você precisa aproveitar os próximos dias! — Gia rebateu, jogando a bolsa de gelo na mesa de centro. — Você ainda vai para aquele seu trabalho de meio-período na lanchonete hoje?

 — Não — respondi, sentindo um alívio imenso. — Já mandei mensagem avisando que não volto mais. Só preciso passar lá no fim de semana para pegar os ganhos dos últimos dias. Agora o meu foco é outro: preciso comprar roupas adequadas para o meu novo emprego. Não posso aparecer lá de jeans e bota batida.

  Os olhos da Gia brilharam na hora, esquecendo completamente a dor de cabeça da ressaca.

  — Eu vou com você! Posso te ajudar a montar vários looks. 

  — Você não tem aula na faculdade? — perguntei, surpresa.

  — Eu posso tirar um dia de folga — Gia acenou com a mão, descartando a ideia. — Preciso mesmo dar um tempo da cabeça cheia do TCC e das monografias. Fazer compras com você vai ser perfeito para eu respirar um pouco.

  — Ótimo. Só vou trocar de roupa e a gente sai. 

  Gia se levantou e deu uma espreguiçada. 

  — Preciso de um banho. 

  Quase duas horas depois, estávamos no centro da cidade, entrando e saindo de lojas, experimentando roupas e sapatos. Depois de comprarmos tudo o que queríamos, paramos para comer alguma coisa. Gia ainda reclamava da ressaca. 

  — Deveria ter ficado em casa. — falei. 

  — Se eu ficasse em casa, enlouqueceria. 

  Ri e olhei para ela, que estava com as bochechas avermelhadas. 

  — Depois de comermos, voltaremos pra casa. Já compramos tudo. Só preciso passar na copiadora com os documentos para segunda-feira. — avisei, com seriedade. 

  — Falou com Max, depois de tudo aquilo? — ela perguntou, mudando de assunto. 

  — Não. Ele não estava no apartamento. Nem me ligou. E para completar, ele deixou a maioria das minhas coisas na sala. Ou seja, parecia com pressa de se livrar de mim. 

  Lutei para não chorar no final da frase. Gia me olhou com atenção, pousando sua mão na minha. 

  — Sarah, não pense nisso. Sei que é diícil, que deve estar doendo, mas vai passar. 

  Não consegui verbalizar o que estava sentindo. Só queria conseguir abafar mesu sentimentos e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas isso, era pedir demais. 

  Depois de comermos, passamos na copiadora. Meus documentos estavam todos prontos, juntos em uma pasta transparente. Olhei para Gia, que murmurava algo sozinha. 

  — Acho que vou deixar os documentos na empresa. Não quero esperar até segunda. 

  — Mas se levar agora, não poderá assinar os documentos, que podem não estar prontos. — protestou ela, levantando uma sombrancelha. 

  — Assino na segunda. 

  Ela assentiu e entramos no carro. 

  Gia me levou na Global Corp. Apesar de eu não estar vestida para a ocasião, não queria desistir só porqie estava de calça Jeans e camiseta branca, além de um tênis surrado. Pedi para falar com alguém do RH, explicando que tinha sido contratada, e que embora fosse assinar os documentos na segunda, queria deixar meus documentos à disposição. Liberaram minha entrada e me orientaram a pegar o elevador até o segundo andar. 

  Respirei fundo e apertei o botão do elevador. Esperei alguns minutos, que pareceram eternidade, talvez pela ansiedade. Assim que a porta se abre, meu coração dá um salto no peito. 

  "Parece que o mundo é mesmo pequeno", pensei. 

  Era ele. Oliver. 

  — Chloe?

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