LOGINMEL RODRIGUES
Ficar ali, aninhada sob o braço dele, era como brincar com eletricidade. Eu sentia o calor do seu corpo, a firmeza dos seus músculos e a proteção que ele emanava. Mas minha mente gritava: Ele não é para você. Ele não acredita em compromisso. Ele só está sendo legal porque é o que bombeiros fazem. Eu me afastei delicadamente, limpando o rosto. _ Você deve ter muitos encontros marcados, não? Desculpe ter estragado sua agenda. Koen soltou uma risada rouca e bebeu um gole do vinho. — Minha agenda está bem tranquila, Melissa. Acredite ou não, eu gosto da minha própria companhia. — Aham. E das outras dez companhias que você troca toda semana. Eu provoquei, tentando retomar meu escudo de sarcasmo. Ele me olhou intensamente, o copo de vinho parado no ar. — As pessoas mudam, Mel. Ou talvez elas só fiquem cansadas de procurar algo que parece não existir. A tensão no quarto tornou-se palpável. O ar parecia ter acabado. Koen olhou para os meus lábios por um milésimo de segundo um tempo curto demais para ser um convite, mas longo o suficiente para me deixar sem fôlego. — Melhor eu ir dormir. Ele disse abruptamente, levantando-se. — Tenho plantão de 24 horas amanhã. Você fica bem sozinha? — Fico. Já sou bem grandinha, Koen. — Eu percebi. Ele murmurou, quase para si mesmo, antes de sair do quarto e fechar a porta. Eu fiquei ali, segurando o copo de vinho com as duas mãos, o coração batendo como um tambor. Eu tinha cinco meses pela frente. Cinco meses dividindo a cozinha, o sofá e a tensão com o homem que era meu maior sonho e meu pior pesadelo. Se o incêndio no meu apartamento tinha sido devastador, eu tinha a sensação de que o que estava prestes a acontecer entre aquelas paredes seria um fogo que nenhum bombeiro, nem mesmo Koen Fiore, seria capaz de apagar. Amanhã eu teria que começar a comprar minhas próprias roupas. Teria que reconstruir minha identidade. Mas, enquanto olhava para a camiseta dele no meu corpo, eu sabia de uma coisa: eu não era mais a "irmãzinha do Cadu". E, pela forma como Koen me olhou, ele também tinha percebido isso. O problema era que eu queria um "felizes para sempre", e Koen... Koen era o mestre do "apenas por agora". E em uma guerra entre o coração e a razão, geralmente é o fogo que vence. Na manhã seguinte, o sol do Rio de Janeiro entrou pelas frestas da cortina, lembrando-me de que o mundo lá fora continuava girando, mesmo que o meu tivesse parado. Ouvi o som da porta da frente batendo Koen indo para o plantão. Fui até a cozinha e encontrei um bilhete em cima da cafeteira, junto com um cartão de crédito. "Compre o que precisar. Não discuta, é um empréstimo até o seguro pagar. Tem café fresco. Tente não colocar fogo na minha cozinha. K." Eu ri, uma risada genuína que não dava há dias. Ele era irritante, convencido e perigosamente atraente. E pelos próximos 150 dias, ele seria o meu único lar. No que será que isso vai dar? Eu não tinha a menor ideia, mas enquanto tomava aquele café, sentindo o aroma preencher o apartamento, eu soube que as cinzas do meu passado estavam finalmente esfriando, dando lugar a um tipo de calor muito mais perigoso. KOEN FIORE O fim de semana chegou como uma bênção para mim. Depois de mais um plantão exaustivo, a promessa de uma noite com os meus amigos era um alívio. Eu tinha ligado para Mel antes de sair do trabalho, avisando que estaria fora e que ela não se preocupasse. A conversa foi breve e profissional, como vinhamos tentando manter a relação nos últimos dias, mas a voz dela ainda me perturbava de um jeito estranho. Eu encontrei meus amigos Lucas, o brincalhão do grupo; Thiago, o mais quieto e observador; Bruno, o cobiçado por todas as moças da zona sul; e Rafa, o mais velho e sensato no bar/restaurante que nós frequentavamos há anos. O lugar estava lotado, a música tocava em um volume agradável e o cheiro de petiscos e cerveja gelada preenchia o ar. — Finalmente, a lenda aparece! Achei que tinha virado padre depois dessa última missão. Lucas brincou, dando um tapa nas minhas costas enquanto eu me sentava. — Qual é, Lucas. Só estou cansado. E a missão foi um inferno Pedi uma cerveja, os olhos ainda um pouco avermelhados da fumaça dos últimos dias. — Falando em inferno… Thiago, que estava do meu lado me cutucou. — Fiquei sabendo que você salvou uma gata linda outro dia. No incêndio lá na Zona Oeste. Dei de ombros, pegando minha cerveja. — Faz parte do trabalho, né? — Sim, mas me disseram que você parecia conhecer a moça. Tipo, conhecer mesmo. Thiago insistiu, com um sorriso malicioso. — Quem era a sortuda? Bebi um longo gole. Eu sabia que essa pergunta viria. — Era a Melissa. Mel. Irmã do Cadu. Lucas e Bruno se entreolharam, surpresos. — A Melissa? Caramba! A irmãzinha do Cadu? Aquela pirralha virou um mulherão! Bruno exclamou, os olhos arregalados. — Eu lembro dela correndo no quintal com a gente. Ela era uma pestinha, mas já dava para ver que ia ficar gostosa. — Bruno! Eu o repreendo, sentindo o meu rosto esquentar. — Qual é, Koen. Ela é gata pra caramba! Lucas concordou. — Mas espera aí. Se ela é a irmã do Cadu, e você a salvou... ela tá onde? No hospital? Na casa dos pais? Eu hesitou por um momento,mas sabia que meus amigos iriam descobrir cedo ou tarde. — Ela está na minha casa. Temporariamente. O apartamento dela pegou fogo, e os pais estão viajando. O Cadu também está fora. Ela não tinha para onde ir. Um silêncio momentâneo caiu sobre a mesa. Então, Lucas foi o primeiro a se recuperar.— Eu sabia que seus pais eram uns surtados com essa doideira de gente rica e tudo mais, mas daí a fazer tudo isso só para te pressionar a casar por causa de uma fusão de negócios?!— Não creio que seja só isso, Sara. Conhecendo o meu pai como conheço, tem muito mais sujeira escondida nisso, tenho certeza Afirmei, apertando o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — E é por isso que vou fingir que aceito esse casamento e esse filho. Só depois de descobrir toda a verdade por trás dessa farsa é que vou conseguir me libertar deles de uma vez por todas... e ser feliz na vida que escolhi para mim, do lado da mulher que eu amo.Houve uma breve pausa antes de a postura defensiva da Sara ruir completamente.— Pode contar comigo, Koen. Eu não vou deixar a sua família pisar nos sentimentos da minha amiga como se não fossem nada. E você e a Mel merecem ser felizes juntos... tá mais do que na cara que vocês se amam.O alívio me percorreu de solavanco.— Obrigado, Sara
KOEN FIORE — Se eles estão pensando que tudo isso vai ficar assim, estão muito enganados Declarei, sustentando o olhar de Keilen enquanto sentia a raiva fervilhar sob a pele. — Esse jogo eu também sei jogar, e você vai me ajudar.Keilen franziu o cenho, encostando-se na parede e cruzando os braços, a expressão oscilando entre a curiosidade e a apreensão.— O que você tem em mente, Koen?— Você vai dizer a eles que eu vim aqui. Vai fazer com que acreditem que eu dobrei o joelho, que aceitei esse casamento forçado e a história desse filho.Respondi, soltando uma risada seca e sem humor.Meu irmão me encarou por alguns segundos, ponderando a gravidade das minhas palavras antes de dar um passo à frente.— E quanto à Mel, o seu trabalho, os seus amigos... toda a sua vida?— Eu tenho um plano. Vou te explicar tudo com calma depois, mas, por hora, só faça o que te pedi.Pedi, passando a mão pelo rosto e soltando um suspiro pesado.Detestava ter que recorrer ao meu lado Fiore. Passei anos
KOEN FIORE Keilen soltou um longo suspiro antes de se levantar da cadeira. Caminhou até o pequeno bar do escritório, serviu duas doses de uísque e estendeu um dos copos para mim.— Vai precisar disso.Recusei com um gesto.— Fala logo, Keilen. Minha paciência já acabou faz tempo.Ele deu um gole na bebida antes de começar.— Há cerca de alguns mêses, nossos pais receberam uma visita.Franzi a testa.— De quem?— Da família Bianchi.Meu sangue gelou.— Os pais da Emily.Keilen assentiu.— Eles apareceram aqui dizendo que a filha estava grávida. Na época, ela afirmou que o filho era seu.Fechei os punhos.— Isso é mentira. Eu nunca tive um relacionamento com aquela mulher só a usava ela como meu par em eventos da empresa e de caridades como escudo para outra mulheres superficiais não ficarem me rodeando.— Eu sei.Olhei para ele, surpreso.— Como assim você sabe?— Porque eu investiguei.Meu irmão apoiou as mãos sobre a mesa.— A história nunca fez sentido. Você nunca escondeu de mim q
BRUNO MARTINEZO telefone chamou uma...Duas...Três vezes.Nada.Rafael afastou o aparelho da orelha e encarou a tela por alguns segundos antes de desligar a ligação.— Caixa postal...Um silêncio pesado caiu entre nós.Aquilo não era normal.Koen podia ser muitas coisas, mas ignorar uma ligação nossa sem mandar sequer uma mensagem explicando o motivo nunca fez parte do jeito dele.— Estou começando a ficar preocupado de verdade. Murmurou Thiago.Balancei a cabeça concordando.— Eu também. Ele nunca some assim.Antes que pudéssemos continuar a conversa, o alarme do quartel ecoou pelo pátio.A sirene de emergência.Todos nós nos levantamos imediatamente.O sargento apareceu correndo.— Incêndio residencial! Equipe Alfa, comigo!Enquanto pegávamos nossos equipamentos, olhei para os rapazes.— Mais tarde eu passo no apartamento do Koen e descubro o que aconteceu. Espero que seja alguma coisa séria... e não que aquele safado tenha tirado o dia para ficar transando com a Mel.Fiquei pens
MEL RODRIGUES Acabei pegando no sono depois de tanto chorar. Estava deitada no quarto de hóspedes da casa da minha melhor amiga e, sinceramente, se não fosse a Sara, eu nem sei onde estaria agora. Como uma noite tão perfeita com o homem que sempre amei conseguiu se transformar nesse caos poucas horas depois? Parecia até castigo do destino. Talvez fosse um sinal. Talvez Koen Fiore e eu nunca tivéssemos sido feitos um para o outro. Agora isso estava mais evidente do que nunca. Pelo menos, ninguém poderia tirar de mim a lembrança daquela noite. Foi um momento único, bonito e verdadeiro, que eu guardaria comigo para o resto da vida. Depois de conversar comigo por horas, Sara apareceu com uma caneca de chá de camomila. Ela sabia exatamente do que eu gostava e fazia de tudo para cuidar de mim. Sempre foi assim. Era o tipo de amiga que aparecia quando o mundo parecia desabar. O chá começou a fazer efeito ou talvez meu corpo simplesmente tivesse chegado ao limite. Depois de tanto
Koen Fiore — Ela disse para onde ia? Por que ela foi embora? Eu deixei um bilhete, eu disse que a gente ia conversar! Minhas mãos tremiam, eu passava os dedos pelo cabelo, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.— Ela disse que não queria mais dar despesa, mas... — Seu Jorge hesitou, me olhando com uma mistura de pena e reprovação. — Eu ia perguntar se tinha sido aquela mulher loira grávida que fez alguma coisa para ela. Ela saiu logo depois que a moça foi embora.Meu sangue congelou. O mundo parou de girar por um segundo.— Mulher loira... grávida? Repeti, as palavras saindo secas, sem vida.— É .Seu Jorge confirmou, cruzando os braços sobre o peito. — A mulher que entrou no seu apartamento. Ela tinha as chaves, disse que era sua conhecida, que tinha livre acesso.Fechei os olhos com força, sentindo uma dor aguda na têmpora. Emily. Só podia ser ela. Como ela conseguiu as chaves? Como ela descobriu? A conta fechou na minha cabeça e o resultado foi um desastre







