Home / Romance / Apenas amigos / Onde o perigo mora

Share

Onde o perigo mora

last update publish date: 2026-01-21 22:31:08

MEL RODRIGUES

O trajeto até o apartamento de Koen foi um borrão de luzes da cidade e o som rítmico dos limpadores de para-brisa, embora não estivesse chovendo era apenas o silêncio entre nós que parecia pesado demais para suportar. Eu estava vestida com o moletom dele, que tinha um cheiro profundo de sabão em pó e algo amadeirado, um contraste bizarro com o cheiro de fumaça que ainda parecia impregnado nos meus poros.

— Está entregue

Disse ele, estacionando a caminhonete em frente a um prédio de fachada moderna na Barra da Tijuca.

Eu olhei para o edifício e depois para as minhas próprias mãos, que ainda tremiam levemente. A ficha estava caindo. Eu não tinha mais chaves, não tinha minha coleção de livros, não tinha nem mesmo o par de brincos que minha avó me deu. Eu era uma hóspede forçada no território de um homem que representava tudo o que eu tentava evitar.

— Koen, se isso for um problema para você... as suas namoradas, ou quem quer que frequente sua casa... eu posso dar um jeito

Eu disse, tentando manter a voz firme enquanto subíamos pelo elevador espelhado.

Ele soltou uma risada curta, mas não era carregada de deboche. Era quase... cansada.

— Mel, eu acabei de tirar você de um prédio em chamas. A última coisa que me preocupa agora é a opinião de "namoradas". Além disso, não tem ninguém fixo o suficiente para reclamar de você ocupar o quarto de hóspedes.

"Claro que não tem", pensei comigo mesma. O quarto de hóspedes provavelmente era o lugar mais subutilizado daquela casa, já que Koen nunca parecia querer que ninguém ficasse tempo suficiente para tomar o café da manhã.

Quando a porta do apartamento se abriu, fui recebida por um ambiente que gritava masculinidade moderna: sofás de couro escuro, uma TV enorme, uma cozinha americana com balcão de granito e uma vista de tirar o fôlego para o mar. Estava impecavelmente limpo, o que me surpreendeu.

— O quarto é ali à direita.

Ele indicou com a cabeça, carregando a única sacola com os itens básicos de higiene que compramos na farmácia do hospital.

— Tem um banheiro privativo. Vou pegar algumas toalhas limpas para você.

Eu o segui, sentindo-me pequena naquele espaço. O quarto era simples, mas confortável. Koen entrou e colocou as coisas sobre a cama, depois se virou para mim. O corredor era estreito, e por um momento, ficamos perto demais. Pude ver as pequenas manchas de fuligem que ele ainda não tinha conseguido lavar perto da orelha. A química que eu mencionei na sinopse não era apenas uma ideia; era uma presença física, um magnetismo que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem.

— Você precisa descansar, Mel. Amanhã a gente resolve a burocracia do seguro, as roupas e o novo celular.

— Por que você está fazendo isso?

A pergunta saiu antes que eu pudesse contê-la.

— Quero dizer, você poderia ter me deixado em um hotel, ligado para algum outro amigo do Cadu...

Koen suspirou, encostando-se no batente da porta. Ele cruzou os braços, e os músculos do seu antebraço, marcados por uma pequena cicatriz de queimadura antiga, saltaram.

— Porque é você, Melissa. E porque eu estava lá. Se eu te deixasse em um abrigo ou em um hotel qualquer sabendo que você acabou de perder tudo, seu irmão me mataria, e eu não conseguiria dormir.

Havia algo no olhar dele que não era o de um "galinha" inveterado. Era o olhar do homem que, horas antes, colocou a vida em risco para me tirar de um inferno. Mas assim que esse pensamento passou, ele deu aquele sorriso de lado, o sorriso que partiu corações em todo o colégio.

— Além disso, vai ser divertido ter alguém para reclamar da minha bagunça por cinco meses. Boa noite, vizinha.

Ele saiu, fechando a porta suavemente. Eu me deixei cair na cama, o silêncio do apartamento de Koen sendo quebrado apenas pelo som distante das ondas.

A primeira semana foi um exercício de sobrevivência emocional. Descobri que morar com Koen Fiore era como viver dentro de uma montanha-russa. Pela manhã, ele era o profissional focado. Ele acordava às cinco, fazia uma rotina de exercícios intensa na sala que me deixava paralisada na porta da cozinha, hipnotizada pela disciplina dele, e saía para o batalhão.

À noite, ele voltava com o cheiro do trabalho ou da academia, e era aí que o perigo morava.

— Mel? Está acordada?

Ele bateu na minha porta na noite da quarta-feira.

Eu estava sentada na cama, usando uma das camisetas dele que ele me emprestara "até eu comprar as minhas". O tecido chegava ao meio das minhas coxas.

— Oi. Pode entrar.

Ele abriu a porta, segurando dois copos de vinho.

— Achei que você precisasse disso. O perito do seguro ligou para mim hoje. Ele disse que o seu apartamento foi o foco inicial, provavelmente um curto-circuito no ar-condicionado da vizinha de cima que derreteu a fiação comum.

Senti um nó na garganta.

— Então não sobrou nada mesmo, né?

Koen sentou-se na beira da cama, entregando-me o copo. Pela primeira vez, ele não parecia estar tentando ser o herói ou o conquistador.

— Quase nada. Mas eles acharam uma caixa de metal no que era o seu closet. Algumas fotos e documentos sobreviveram. Eu vou buscar amanhã no batalhão para você.

As lágrimas, que eu vinha segurando com todas as forças para não parecer uma "donzela em perigo" na frente dele, finalmente transbordaram.

— Obrigada, Koen. De verdade.

— Ei...

Ele se aproximou, e antes que eu pudesse recuar, ele passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para um abraço de lado.

— Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Apenas amigos   Estamos juntos nessa .

    — Eu sabia que seus pais eram uns surtados com essa doideira de gente rica e tudo mais, mas daí a fazer tudo isso só para te pressionar a casar por causa de uma fusão de negócios?!— Não creio que seja só isso, Sara. Conhecendo o meu pai como conheço, tem muito mais sujeira escondida nisso, tenho certeza Afirmei, apertando o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — E é por isso que vou fingir que aceito esse casamento e esse filho. Só depois de descobrir toda a verdade por trás dessa farsa é que vou conseguir me libertar deles de uma vez por todas... e ser feliz na vida que escolhi para mim, do lado da mulher que eu amo.Houve uma breve pausa antes de a postura defensiva da Sara ruir completamente.— Pode contar comigo, Koen. Eu não vou deixar a sua família pisar nos sentimentos da minha amiga como se não fossem nada. E você e a Mel merecem ser felizes juntos... tá mais do que na cara que vocês se amam.O alívio me percorreu de solavanco.— Obrigado, Sara

  • Apenas amigos   Esse jogo eu também sei jogar

    KOEN FIORE — Se eles estão pensando que tudo isso vai ficar assim, estão muito enganados Declarei, sustentando o olhar de Keilen enquanto sentia a raiva fervilhar sob a pele. — Esse jogo eu também sei jogar, e você vai me ajudar.Keilen franziu o cenho, encostando-se na parede e cruzando os braços, a expressão oscilando entre a curiosidade e a apreensão.— O que você tem em mente, Koen?— Você vai dizer a eles que eu vim aqui. Vai fazer com que acreditem que eu dobrei o joelho, que aceitei esse casamento forçado e a história desse filho.Respondi, soltando uma risada seca e sem humor.Meu irmão me encarou por alguns segundos, ponderando a gravidade das minhas palavras antes de dar um passo à frente.— E quanto à Mel, o seu trabalho, os seus amigos... toda a sua vida?— Eu tenho um plano. Vou te explicar tudo com calma depois, mas, por hora, só faça o que te pedi.Pedi, passando a mão pelo rosto e soltando um suspiro pesado.Detestava ter que recorrer ao meu lado Fiore. Passei anos

  • Apenas amigos   O plano em ação

    KOEN FIORE Keilen soltou um longo suspiro antes de se levantar da cadeira. Caminhou até o pequeno bar do escritório, serviu duas doses de uísque e estendeu um dos copos para mim.— Vai precisar disso.Recusei com um gesto.— Fala logo, Keilen. Minha paciência já acabou faz tempo.Ele deu um gole na bebida antes de começar.— Há cerca de alguns mêses, nossos pais receberam uma visita.Franzi a testa.— De quem?— Da família Bianchi.Meu sangue gelou.— Os pais da Emily.Keilen assentiu.— Eles apareceram aqui dizendo que a filha estava grávida. Na época, ela afirmou que o filho era seu.Fechei os punhos.— Isso é mentira. Eu nunca tive um relacionamento com aquela mulher só a usava ela como meu par em eventos da empresa e de caridades como escudo para outra mulheres superficiais não ficarem me rodeando.— Eu sei.Olhei para ele, surpreso.— Como assim você sabe?— Porque eu investiguei.Meu irmão apoiou as mãos sobre a mesa.— A história nunca fez sentido. Você nunca escondeu de mim q

  • Apenas amigos   Em busca da verdade

    BRUNO MARTINEZO telefone chamou uma...Duas...Três vezes.Nada.Rafael afastou o aparelho da orelha e encarou a tela por alguns segundos antes de desligar a ligação.— Caixa postal...Um silêncio pesado caiu entre nós.Aquilo não era normal.Koen podia ser muitas coisas, mas ignorar uma ligação nossa sem mandar sequer uma mensagem explicando o motivo nunca fez parte do jeito dele.— Estou começando a ficar preocupado de verdade. Murmurou Thiago.Balancei a cabeça concordando.— Eu também. Ele nunca some assim.Antes que pudéssemos continuar a conversa, o alarme do quartel ecoou pelo pátio.A sirene de emergência.Todos nós nos levantamos imediatamente.O sargento apareceu correndo.— Incêndio residencial! Equipe Alfa, comigo!Enquanto pegávamos nossos equipamentos, olhei para os rapazes.— Mais tarde eu passo no apartamento do Koen e descubro o que aconteceu. Espero que seja alguma coisa séria... e não que aquele safado tenha tirado o dia para ficar transando com a Mel.Fiquei pens

  • Apenas amigos   Me refazer

    MEL RODRIGUES Acabei pegando no sono depois de tanto chorar. Estava deitada no quarto de hóspedes da casa da minha melhor amiga e, sinceramente, se não fosse a Sara, eu nem sei onde estaria agora. Como uma noite tão perfeita com o homem que sempre amei conseguiu se transformar nesse caos poucas horas depois? Parecia até castigo do destino. Talvez fosse um sinal. Talvez Koen Fiore e eu nunca tivéssemos sido feitos um para o outro. Agora isso estava mais evidente do que nunca. Pelo menos, ninguém poderia tirar de mim a lembrança daquela noite. Foi um momento único, bonito e verdadeiro, que eu guardaria comigo para o resto da vida. Depois de conversar comigo por horas, Sara apareceu com uma caneca de chá de camomila. Ela sabia exatamente do que eu gostava e fazia de tudo para cuidar de mim. Sempre foi assim. Era o tipo de amiga que aparecia quando o mundo parecia desabar. O chá começou a fazer efeito ou talvez meu corpo simplesmente tivesse chegado ao limite. Depois de tanto

  • Apenas amigos   Não quero te perder

    Koen Fiore — Ela disse para onde ia? Por que ela foi embora? Eu deixei um bilhete, eu disse que a gente ia conversar! Minhas mãos tremiam, eu passava os dedos pelo cabelo, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.— Ela disse que não queria mais dar despesa, mas... — Seu Jorge hesitou, me olhando com uma mistura de pena e reprovação. — Eu ia perguntar se tinha sido aquela mulher loira grávida que fez alguma coisa para ela. Ela saiu logo depois que a moça foi embora.Meu sangue congelou. O mundo parou de girar por um segundo.— Mulher loira... grávida? Repeti, as palavras saindo secas, sem vida.— É .Seu Jorge confirmou, cruzando os braços sobre o peito. — A mulher que entrou no seu apartamento. Ela tinha as chaves, disse que era sua conhecida, que tinha livre acesso.Fechei os olhos com força, sentindo uma dor aguda na têmpora. Emily. Só podia ser ela. Como ela conseguiu as chaves? Como ela descobriu? A conta fechou na minha cabeça e o resultado foi um desastre

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status