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2 - Pérolas

last update Data de publicação: 2026-02-04 23:11:52

 

    O elevador panorâmico do Edifício Itália subia com uma suavidade que fazia os ouvidos de Beatriz estalarem. Através do vidro, São Paulo se desdobrava em um tapete infinito de luzes, mas ela não conseguia apreciar a vista. Suas mãos, enluvadas pela primeira vez na vida, apertavam a pequena bolsa de cetim com tanta força que os dedos começavam a formigar.

Ao seu lado, Caio Vilela era a personificação da calma aristocrática. Ele havia trocado o terno de trabalho por um smoking de corte impecável. O colarinho rígido da camisa branca destacava o bronzeado de quem passava os fins de semana em barcos, não em ônibus lotados. Ele exalava um perfume amadeirado que parecia preencher todo o espaço do elevador, tornando o oxigênio escasso para ela.

— Respire, Beatriz — ele disse, sem olhar para ela, observando o próprio reflexo no espelho lateral enquanto ajustava as abotoaduras de ônix. — Você está pálida. Lembre-se: você não é minha secretária hoje. Você é a mulher que eu escolhi para dividir a vida. Se você não acreditar nisso, eles também não acreditarão.

— É difícil acreditar quando o sapato custa mais que o meu barraco, Sr. Vilela — ela sussurrou, a voz trêmula.

Caio finalmente se virou. Ele deu um passo em direção a ela, reduzindo a distância até que Beatriz pudesse ver os reflexos dourados em suas íris. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que a pegou desprevenida, tocou o queixo dela, forçando-a a erguer o rosto.

— Chame-me de Caio. Se o "Sr. Vilela" escapar da sua boca diante do Veronese, o contrato morre antes do couvert. E Beatriz... — ele fez uma pausa, os olhos descendo pelo vestido de seda que abraçava as curvas dela de forma perigosa. — Você está magnífica. Use isso a seu favor. A beleza é uma arma tão eficaz quanto qualquer cláusula contratual.

As portas se abriram com um tilintar discreto. O restaurante era um oceano de tapetes espessos, cristais tilintando e o som baixo de um piano de cauda ao fundo. O maître os conduziu imediatamente para uma mesa reservada em um recanto mais privativo, onde um homem de cabelos brancos e expressão severa já os aguardava.

— Alberto Veronese — anunciou Caio, assumindo instantaneamente uma postura de confiança absoluta. — Lamento o pequeno atraso. Gostaria de apresentar minha noiva, Beatriz Cavalcante.

O homem se levantou, analisando Beatriz com olhos que pareciam calcular o valor de mercado de cada fibra de seu ser. Beatriz sentiu o coração bater na garganta, mas o treinamento silencioso de anos observando Caio em reuniões assumiu o controle. Ela estendeu a mão com a palma para baixo, um gesto que vira Melissa fazer mil vezes, e deu um sorriso que não chegava aos olhos, mas que brilhava com a intensidade certa sob os lustres.

— É um prazer imenso, Sr. Veronese — disse ela, a voz saindo mais firme do que esperava. — Caio fala com muita admiração sobre sua visão para o futuro da arquitetura urbana.

Veronese pareceu surpreso. Ele beijou a mão dela e gesticulou para que se sentassem.

— Uma mulher que entende de negócios, Vilela? — Veronese comentou, servindo o vinho. — Isso é raro no nosso meio. Geralmente, as noivas dos CEOs estão mais preocupadas com a cor das flores do casamento do que com a visão urbana.

— Beatriz é... diferente — Caio respondeu, cobrindo a mão dela com a dele sobre a mesa. O toque foi possessivo, quente e enviou uma descarga elétrica pelo braço de Beatriz que quase a fez derrubar a taça. — Ela é minha bússola.

O jantar seguiu como uma dança coreografada. Caio conduzia a conversa sobre números e expansão imobiliária, enquanto Beatriz intervinha com comentários pontuais e inteligentes sobre a história dos bairros de São Paulo, algo que ela conhecia por vivência, mas que ali soava como erudição acadêmica. Veronese estava encantado. Ele via nela a sofisticação que faltava ao pragmatismo frio de Caio.

No entanto, a tensão sob a mesa era quase insuportável. Cada vez que Caio apertava sua mão para enfatizar um ponto, ou quando ele se inclinava para fingir um sussurro carinhoso no ouvido dela, Beatriz sentia a pele queimar. Era uma atuação, ela repetia para si mesma. Mas o modo como o hálito dele roçava seu pescoço parecia real demais.

— E sobre o novo projeto? — Veronese perguntou, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — A revitalização da zona oeste. O projeto "Nova Era". Li que haverá uma limpeza profunda no terreno.

Caio endureceu imperceptivelmente.

— Sim. Vamos transformar aquela área degradada em um complexo de luxo. Shopping centers, torres residenciais de alto padrão. É o progresso inevitável.

— O senhor se refere à Vila Esperança? — Beatriz perguntou, a voz subitamente gélida. O nome do bairro saiu de seus lábios antes que ela pudesse conter.

Caio apertou os dedos dela com força, um sinal claro de advertência.

— Sim, querida — ele disse, com um sorriso tenso. — A área que discutimos. Onde o governo já deu o aval para a desapropriação.

— Desapropriação é uma palavra limpa para o que acontece lá, não acha? — Beatriz continuou, sentindo uma fúria surda borbulhar sob a seda preta. — Milhares de famílias moram naquele terreno há décadas.

Veronese arqueou uma sobrancelha, curioso com a súbita mudança de tom. Caio interveio rapidamente, sua voz ganhando uma autoridade cortante.

— Beatriz tem um coração muito generoso, Alberto. Ela se preocupa com o impacto social, o que é louvável. Por isso, estamos desenvolvendo planos de realocação... — ele olhou fixamente para ela, os olhos prometendo uma tempestade mais tarde — ... planos que ainda são confidenciais, não é, meu amor?

O jantar terminou com um aperto de mãos e a promessa de que o contrato seria assinado na manhã seguinte. Veronese saiu convencido de que Caio Vilela era o homem certo, equilibrado por uma mulher de fibra e consciência.

Assim que entraram no carro, o silêncio explodiu.

— O que foi aquilo? — Caio rugiu, desfazendo o nó da gravata borboleta com um gesto brusco. — Você quase jogou um ano de trabalho no lixo! "Desapropriação é uma palavra limpa"? Você enlouqueceu?

— A Vila Esperança é a minha casa, Caio! — Beatriz gritou de volta, as lágrimas de frustração finalmente vencendo a barreira dos cílios. — Minha mãe mora lá. Meus amigos moram lá. O seu "progresso inevitável" vai passar por cima do meu quarto, da cozinha da minha mãe, da padaria do Seu Zé!

Caio parou de falar. Ele a encarou, o peito subindo e descendo com a respiração pesada. A iluminação dos postes de luz passava rapidamente pelo rosto de Beatriz, revelando o rímel borrado e a dor genuína em seus olhos.

— Você mora lá? — ele perguntou, a voz subitamente baixa, quase inaudível.

— Eu disse que o senhor não sabia onde eu morava. O senhor apenas viu um endereço em uma ficha funcional. Para você, é um ponto no mapa. Para mim, é a minha vida.

Ela se virou para a janela, soluçando silenciosamente. O luxo do carro agora parecia sufocante, uma caixa de metal que a separava da realidade. Caio não disse mais nada. Ele se recostou no banco, olhando para o vazio, enquanto o motorista dirigia pelas ruas desertas da madrugada.

Quando o carro parou na entrada da Vila Esperança, o contraste era brutal. O sedã preto parecia um alienígena em meio ao lixo e à poeira. Beatriz abriu a porta antes que o motorista pudesse ajudá-la.

— O dinheiro será depositado na sua conta amanhã — Caio disse, sem olhar para ela. — Não precisa voltar ao escritório amanhã. Tire o dia de folga.

— Eu não quero o seu dinheiro para destruir a minha casa, Caio.

Ela saiu, batendo a porta. Caminhou pela rua escura, sentindo o salto alto afundar na terra batida, arrancando as pérolas do pescoço e sentindo cada uma delas cair no barro, perdidas para sempre.

O que ela não viu foi que, dentro do carro, Caio Vilela permaneceu imóvel por muito tempo, observando-a desaparecer na penumbra, sentindo pela primeira vez que o império que ele tanto lutava para construir tinha um cheiro de cinzas.

No dia seguinte, a foto dos dois no Terraço Itália estaria em todas as colunas sociais, sob o título: "O Novo Casal de Ouro da Vanguard". Mas, para Beatriz, o pesadelo estava apenas começando. Ao entrar em casa, ela viu sua mãe dormindo na poltrona, alheia ao fato de que o homem que sua filha acabara de beijar era o mesmo que assinaria a ordem de despejo de sua vida.

Beatriz sentou-se à mesa da cozinha, abriu a pasta de couro que trouxera escondida e encarou os mapas de demolição. A sabotagem não era mais uma opção; era uma necessidade de sobrevivência.

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Último capítulo

  • Apenas um Favor    O MANIFESTO DO BARRO

    A Vila Esperança não terminou no momento em que as máquinas de Sofia Vilela silenciaram ou quando o "Cérebro" de Otávio se fragmentou em estática digital. A verdadeira conclusão de uma saga que atravessou quatro décadas — do asfalto quente de 1995 ao magnetismo frio de 2015 — não reside no fechamento de um ciclo, mas na abertura de uma nova forma de existência. Se o vidro era a transparência enganosa do poder e o ferro era a rigidez da resistência, o barro, elemento primordial desta jornada, revelou-se como a única matéria capaz de absorver o impacto do tempo sem se quebrar.Beatriz Cavalcante Vilela, sentada agora no centro daquela anomalia urbana que ajudou a parir, compreendia que a sua vida fora uma sucessão de demolições necessárias. A primeira demolição foi a da sua própria identidade como uma simples assistente; a segunda, a do império corrupto que ostentava o seu apelido; e a última, a da própria realidade digital que tentou classificar o seu povo como obsoleto. Ela olha

  • Apenas um Favor    36 - Uma cidade dividida

    O ar nos túneis subterrâneos era espesso, uma mistura de humidade milenar e o cheiro metálico da eletrólise. Beatriz, Caio, Dante e Sofia avançavam com a água pelos joelhos, iluminados apenas pela luz azulada do cristal de níquel que Dante carregava. À medida que se aproximavam das fundações do arranha-céu da Aegis, o betão bruto das galerias pluviais dava lugar a uma estrutura de aço inoxidável e polímeros de alta resistência.Sofia parou diante de uma escotilha pressurizada.— Daqui para a frente, o sistema de segurança é biométrico. Se a minha pulsação estiver acima de 100 batimentos por minuto, o edifício entra em confinamento.— Respira fundo — Beatriz colocou a mão no ombro da sobrinha. — Lembra-te do que a tua mãe dizia: o medo é apenas um dado que ainda não aprendeste a processar.A escotilha abriu-se com um suspiro pneumático. O grupo entrou numa câmara de vácuo que os elevou silenciosamente até ao núcleo do 60º andar. Quando as portas se abriram, não encontraram uma sala de s

  • Apenas um Favor    35 - O Silêncio dos Vencidos

    Sofia não aceitou a mão de Beatriz de imediato. Ela ficou ali, de joelhos, sentindo a humidade do barro infiltrar-se no seu traje tático de milhares de dólares. O silêncio que se seguiu ao desligamento abrupto do sistema de indução era ensurdecedor. Para Sofia, aquele não era apenas o fim de um protocolo; era o fim de uma era onde a certeza matemática governava a vida.— O sistema... — Sofia sussurrou, a voz quebrada. — Ele não deveria ter parado assim. O algoritmo previa uma falha crítica, não uma anulação total.— O teu algoritmo esqueceu-se que esta terra tem memória, Sofia — disse Caio, aproximando-se com dificuldade, mas sem a bengala, apoiado no ombro de Dante. — Tu tentaste medir a nossa alma com sensores de pressão.Dante afastou-se da fenda. As suas mãos brilhavam com uma fina poeira prateada, o resíduo do níquel que reagira com o núcleo da Aegis. Ele olhou para o horizonte; os grandes ecrãs publicitários da Avenida Paulista, visíveis do topo da Vila, estavam negros. O p

  • Apenas um Favor    34 - O Epicentro

    O solo sob a Vila Esperança não apenas tremeu; ele rugiu. A indução de baixa frequência da Aegis atingira o ponto de ressonância. Nas cozinhas, as louças saltavam das prateleiras; nas ruas, o asfalto, já castigado por décadas de remendos e lutas, abria-se em sulcos profundos que revelavam a terra vermelha e o brilho metálico do níquel latente.— Dante, tira o teu pai daqui! — gritou Beatriz, agarrando-se ao corrimão de ferro do reservatório enquanto a estrutura oscilava violentamente.— Eu não vou a lugar nenhum, Bia! — Caio fincou a bengala numa fresta do concreto. — Se este solo abrir, eu quero ver o que Otávio escondeu com os meus próprios olhos!Lá no alto, um dos drones de elite da Aegis, atingido pelo pulso eletromagnético final de Dante, começou a perder altitude de forma errática. Diferente dos pequenos modelos de vigilância, este era um "Nexo-Vigil", uma unidade de comando que carregava o núcleo de processamento local da Sofia. Ele colidiu contra a parede do armazém da c

  • Apenas um Favor     33 - FREQUENCIA DA MEMÓRIA

    O impacto dos drones atingindo o solo da Vila soava como marteladas metálicas contra o silêncio da noite. Nos monitores da Aegis-Nexus, a falha de sinal era interpretada como um erro de rede, mas para Sofia, observando da sua varanda de vidro temperado, era uma afronta pessoal. Ela via os pontos de luz vermelha apagarem-se um a um no mapa escuro, como se a Vila Esperança estivesse a devorar a sua tecnologia.— Eles estão a usar interferência de rádio — disse Sofia para o seu chefe de segurança, a voz fria como o metal. — Encontre a frequência e esmague-a. Se eles querem viver no século passado, dê-lhes a escuridão absoluta. Ativem os inibidores de sinal de banda larga. Ninguém entra, ninguém sai, nem por rádio, nem por pensamento.Dentro da Vila, o clima era de uma euforia contida. Dante desceu do telhado com as mãos sujas de graxa e o rosto iluminado por um sorriso que Beatriz não via há muito tempo.— Funcionou, mãe. O sistema de navegação deles baseia-se em algoritmos de proximidade

  • Apenas um Favor    32 - O Silêncio das Redes

    Às 00h00, o isolamento prometido por Sofia concretizou-se com uma precisão matemática. Não houve barulho de cabos rompidos, apenas um vácuo súbito. Nos ecrãs dos telemóveis dos moradores, as barras de sinal desapareceram; os terminais de pagamento da cooperativa tornaram-se placas de plástico inerte e, no mapa digital de São Paulo, o polígono que definia a Vila Esperança transformou-se num borrão cinzento, uma "Terra de Ninguém" para os satélites que governavam o fluxo da cidade.Beatriz estava na cave do centro comunitário, onde Dante montara um laboratório improvisado. Ela observava o filho analisar uma amostra de sangue de Caio sob um microscópio eletrónico alimentado por baterias de reserva.— O sistema médico central bloqueou o acesso ao histórico do pai no momento do apagão — disse Dante, sem tirar os olhos da ocular. — Mas eu consegui descarregar os dados brutos da última biópsia antes de o sinal cair. Mãe, isto não é um desgaste natural.Beatriz sentiu um nó na garganta.

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