Uma Virgem Na Fazenda

Uma Virgem Na Fazenda

last updateÚltima atualização : 2026-10-21
Por:  Luísa Faruk Gerente Atualizado agora
Idioma: Portuguese
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Sofia Ferrari tinha apenas dez anos quando perdeu os pais em circunstâncias misteriosas. Entregue aos cuidados da tia Clotilde e do tio Henrique, sua vida se transformou em um pesadelo silencioso, marcado por abusos. Por nove longos anos, ela suportou as agressões da tia e o comportamento invasivo e perturbador do tio, até que, na noite de seu aniversário de dezenove anos, tudo mudou. Quando Henrique tentou ultrapassar todos os limites, Sofia fugiu para a noite escura, levando apenas uma camisola fina e uma boneca de pano, a única lembrança do amor e da segurança que um dia conhecera. Perdida e desesperada, Sofia é acolhida por Marlene e Antônio, um casal bondoso que lhe oferece comida, roupas e algum dinheiro antes de deixá-la em uma praça italiana. Sozinha em um país estrangeiro, ela logo descobre que o mundo pode ser ainda mais cruel do que imaginava. Quando duas garotas tentam convencê-la a entrar em um ambiente perigoso, Sofia se vê diante de uma escolha desesperadora: continuar nas ruas, sem proteção, ou aceitar um caminho que pode lhe custar a liberdade. Sem saber em quem confiar, ela aceita a ajuda de Valentina, uma mulher que conhece de perto o sofrimento e a luta pela sobrevivência. No entanto, o lugar onde Valentina vive é marcado pelo medo, pela exploração e por regras cruéis. Sofia logo percebe que escapar daquela situação não será tão simples quanto imaginava. Quando o homem que controla o local decide negociá-la em um leilão por um milhão de euros, ela acaba nas mãos de Rafael Almeida, um fazendeiro que a leva até Leandro Costa e a apresenta como sua futura noiva. Assim, Sofia é lançada em uma nova realidade, na qual sua vontade parece não ter importância. Leandro, um homem rude de trinta e oito anos, não deseja uma esposa e deixa claro que ela deve permanecer longe de seu caminho. Mas Sofia, que já sobreviveu a sofrimentos inimagináveis, está determinada a não se deixar derrotar. Entre o medo e a esperança, ela começa a compreender que a verdadeira liberdade não depende apenas de onde se está, mas também da coragem de lutar pelas próprias escolhas. E, dessa vez, ela está disposta a lutar por seu futuro.

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Capítulo 1

1

Prólogo

Dez anos. Esse é o tempo exato em que estou ocupando espaço neste planeta, e se há uma coisa que aprendi nas últimas vinte e quatro horas é que o destino não tem apenas um senso de humor macabro — ele gosta de tripudiar.

Estou, neste exato segundo, espremida no banco de trás de um Fiat caindo aos pedaços que cheira a uma mistura tóxica de mofo, gasolina aditivada e o perfume barato de alfazema da minha tia Clotilde. O destino? Uma cidadezinha perdida nas montanhas do interior da Sicília, um lugar tão esquecido pelo mapa que o conceito de civilização parece ter sido abolido na Idade Média.

Até semana passada, a minha vida era perfeitamente previsível. Eu tinha um quarto com papel de parede colorido, panquecas com xarope de bordo aos domingos e pais que me amavam mais do que tudo no mundo. Agora? Zero. Meus pais desapareceram do mapa. Literalmente. Meus tios decidiram adotar a tática mais covarde da pedagogia moderna: o silêncio absoluto. Eles agem como se o assunto "meus pais" fosse uma doença contagiosa.

Minhas únicas lembranças daquele dia são um borrão digno de um filme de suspense psicológico com orçamento estourado. Lembro-me da chuva caindo em camadas grossas contra o para-brisa, de rostos desconhecidos se contorcendo em um choro silencioso nas calçadas e de caminhões vermelhos imensos rasgando a noite. As sirenes não pareciam sons de emergência; soavam como feridas abertas no ar, uivando que o meu mundo como eu conhecia tinha acabado.

Ninguém me diz nada, mas o ar carrega aquele peso denso e sufocante de quando algo quebrou em mil pedaços e não existe cola no mundo capaz de consertar.

When o carro finalmente desacelera diante da minha nova "residência", engulo em seco. A construção de pedra envelhecida e musgo parece um castelo de filme de terror gothic-trash. As janelas são tão estreitas e escuras que parecem olhos desconfiados me encarando, julgando a minha presença ali antes mesmo de eu colocar os pés para fora do veículo.

— Chegamos — anuncia a tia Clotilde, sem se dar ao trabalho de virar o pescoço para me encarar pelo retrovisor. A voz dela tem a textura agradável de uma lixa grossa esfregada em madeira seca. — Sem dramas, Sofia. Não tenho paciência para chiliques de criança mimada. Aqui nós trabalhamos. Você ajuda na casa, mantém a boca fechada e agradece a Deus todas as noites por não ter ido parar em um orfanato público.

Sigo a dupla para dentro da casa, arrastando os pés. Meu "novo quarto" é, na verdade, um depósito de ferramentas gourmetizado. O espaço é tão ridiculamente reduzido que, se eu espirrar um pouco mais forte, corro o risco real de bater a testa na parede oposta. Cabe apenas uma cama de ferro enferrujada — cujo colchão tem a densidade de um bloco de concreto — e um baú antigo no canto, coberto por uma camada de poeira da época do Império Romano.

Acomodo meus únicos pertences no topo daquela madeira carcomida: duas mudas de roupa surradas, um pente de plástico cor-de-rosa com metade dos dentes faltando e a minha boneca de pano. A boneca que o meu pai me deu no meu aniversário de oito anos. Ela é, oficialmente, meu único escudo contra a falência emocional completa.

— Sofia! A mesa! Agora! — o grito da minha tia atravessa o corredor de pedra como uma chibatada bem dada.

Corro para a cozinha, disposta a ser a hóspede modelo para evitar qualquer pretexto para ser despachada para o primeiro reformatório da Europa. Pego a pilha de pratos de cerâmica pesada sobre o balcão, mas minhas mãos decidem virar geleia. O pânico e o cansaço são péssimos assistentes para a coordenação motora.

Em um segundo de pura física cruel, a gravidade ganha a disputa.

O som da louça se espatifando no chão de cerâmica soa como uma orquestra de desastres. Estilhaços brancos voam para todos os lados.

Maldita gravidade. Mil vezes maldita.

Antes que eu possa formular um pedido de desculpas, sinto o impacto seco na minha bochecha esquerda. Um estalo estrondoso. Minha cabeça gira para o lado e minha pele entra em combustão instantânea. A dor lateja como um motor desgovernado.

— Sua desequilibrada! Incompetente! — a tia Clotilde esbraveja, a centímetros do meu rosto. Os olhos dela estão inflamados de pura fúria e as veias do seu pescoço saltam como cordas esticadas. — Se quiser viver sob o meu teto, o mínimo que você faz é fingir que não existe! Não vou tolerar desastres e incompetência sob a minha responsabilidade. Se pisar fora da linha de novo, garanto que encontrará um destino muito mais desagradável do que a perda dos seus pais!

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