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Capítulo 2

Author: Pôr do Sol
Eu escrevi o meu "último recado" na última página do diário.

[Enrico, eu te amei por dez anos inteiros. Mas, se houver outra vida, eu nunca mais quero cruzar o seu caminho.]

Depois de escrever, coloquei o diário na gaveta do criado-mudo dele. Aquela era a ferida mais funda que eu deixaria em Enrico.

Eu comecei a tomar um remédio especial, capaz de simular uma parada cardíaca com precisão. Cada vez que eu engolia aquele comprimido, sentia a garganta arder como se tivesse sido cortada por cacos de vidro.

Mas eu precisava aguentar. Porque aquela era a minha única chance de sobreviver.

Valentina apareceu outra vez, segurando uma tigela de geleia real e exibindo um sorriso perfeito:

— Lara, eu mesma preparei esta geleia real. Tome logo, vai ajudar você a se recuperar.

Eu encarei Valentina e ouvi, dentro da cabeça dela, a maldição venenosa que ela me lançava em silêncio:

"Por que você ainda não morreu, sua desgraçada? Você já está se arrastando há tempo demais. Você é uma vadia nojenta."

"Enrico ainda gasta dinheiro com o seu tratamento. Era só cortar seus remédios e pronto."

Eu ergui a mão e derrubei a tigela. O líquido quente se espalhou pelo vestido caro de Valentina, deixando uma mancha enorme.

— Saia daqui.

A minha voz saiu rouca, mas fria como gelo.

O rosto de Valentina perdeu a cor. Em um segundo, os olhos dela se encheram de lágrimas, e ela assumiu aquele ar frágil e inocente que sabia usar tão bem.

— Lara, o que aconteceu com você? Você está passando mal?

Enrico entrou no quarto naquele exato momento. Sem pensar duas vezes, ele avançou e colocou Valentina atrás de si, protegendo-a. Ele olhou para mim como se eu fosse um estorvo no caminho dele:

— Lara, você já passou dos limites!

E, por dentro, ele pensava:

"Você não sabe reconhecer nada. Valentina veio te ver por bondade, e você ainda acha que tem o direito de surtar? Uma mulher venenosa como você já devia ter morrido faz tempo."

Eu fechei os olhos. Até a vontade de me defender desapareceu de vez.

"Enrico, não se preocupe. Muito em breve, eu vou realizar o seu desejo."

Eu deixei algumas coisas no quarto.

Um livro de poemas, com um ingresso vencido de parque de diversões entre as páginas.

No dia do meu aniversário, eu havia esperado por Enrico o dia inteiro. Mas ele tinha ido a Paris com Valentina.

Também deixei um desenho de terno, com as iniciais do nome dele bordadas na gola.

Aqueles objetos, que um dia eu havia guardado como símbolos do nosso amor, agora serviam apenas para me lembrar do quanto o meu amor tinha sido ridículo.

A hora havia chegado.

Naquele dia, Valentina chamou Enrico para acompanhá-la em uma prova de vestido de noiva. Eu calculei exatamente o horário em que eles voltariam.

No instante em que a porta foi aberta, eu levei a mão ao peito e caí para a frente, sem resistência.

— Lara!

Valentina soltou um grito agudo.

Enrico também ficou paralisado por um instante. Em seguida, ele correu até mim e me segurou nos braços.

Eu conseguia sentir as mãos dele tremendo. Com muito esforço, abri os olhos e encarei o rosto dele, tão perto do meu. Então ouvi a verdadeira voz que havia no coração de Enrico.

"Você está encenando de novo? Aguente firme. Não morra na família Miranda. Não me arrume mais problemas!"

Então era isso. Ele não estava preocupado com a minha vida, mas estava preocupado com a reputação da família Miranda.

Eu sorri, mas duas lágrimas escorreram pelo meu rosto ao mesmo tempo.

Antes de ser levada para a UTI, eu juntei a última força que ainda restava em mim e disse a ele:

— Enrico, eu desejo que você... seja feliz.

Eu já não conseguia mais dizer "eu te amo". Dentro de mim, restava apenas uma maldição muda.

E o que eu dizia no meu coração era:

"Enrico, adeus para sempre."

A porta da sala de emergência se fechou.

Do lado de fora, eu ouvi Valentina chorando com uma falsidade perfeita. Mas, por dentro, ela comemorava:

"Maravilha. Essa vadia finalmente vai morrer!"

Valentina chegou a abaixar a voz e dizer ao médico:

— Vocês só precisam fazer o possível. Não usem remédios muito caros nela. Não vale a pena desperdiçar.

Eu estava deitada na mesa cirúrgica gelada e deixei escapar um sorriso de deboche.

Naquela madrugada, o hospital anunciou que eu "não havia resistido às tentativas de reanimação" e que meu coração havia parado.

O meu "corpo" foi levado para fora, coberto por um lençol branco.

Enrico e Valentina estavam parados à porta. Eles pensavam que a minha vida havia terminado ali.

O que eles não sabiam era que, em outra saída do hospital, a minha amiga já estava a postos.

Eu fui retirada dali rapidamente e levada para um jatinho particular, com destino a outro país.

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