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Duas horas.
Era exatamente esse tempo que eu encarava aquela tela branca.
Nenhuma pincelada.
Nenhuma ideia.
Nada.
Talvez o meu talento tivesse ido embora... e eu fosse a última pessoa a perceber.
Minha mãe fez horas extras durante meses para pagar meu curso de pintura.
Meu pai vendeu a caminhonete.
E eu...
Eu não consigo terminar um único quadro.
O brilho da tela interrompe meus pensamentos antes que eu afunde ainda mais neles. Olho para o brilho e encontro o contato de Summer, minha melhor amiga.
Largo o pincel com um suspiro de alívio e limpo os dedos sujos de tinta na calça jeans surrada.
“Você tem exatamente duas horas para ficar pronta.
E não inventa desculpa.
Verde-esmeralda é sua cor.”
Olho da mensagem para o meu quadro sem vida e tomo uma decisão rápida. Qualquer coisa — até mesmo a festa da empresa onde a Summer trabalha — é melhor do que continuar encarando o meu próprio fracasso artístico. Apenas respondo com um "Ok" e corro para o banho.
No espelho, o vestido verde parecia a única cor viva em um dia completamente cinza. Por um segundo me questiono se ele é realmente a escolha mais adequada para o momento…
Mas, antes que eu possa ter uma crise de arrependimento e me enfiar de volta no pijama, a campainha toca. A voz elétrica de Summer atravessa a madeira da porta:
— Vamooos, Clara! Eu não posso me atrasar!
Abro a porta com um meio sorriso.
— Já estou pronta. Só preciso colocar os saltos e retocar o batom.
Summer me olha de cima a baixo, os olhos brilhando.
— Uau, Clara... você está linda! Eu não disse que verde é a sua cor? Estou tão animada! Hoje o CEO vai estar lá também. Sabia que quase ninguém nunca o viu fora das paredes daquele escritório? Ele é praticamente um mito.
Ao chegarmos ao luxuoso salão do hotel, o impacto é imediato.
O espaço é gigantesco. Me sinto deslocada.
Apenas o lustre sozinho devia valer mais do que todo o meu apartamento.
Tudo que se passa em minha mente é que nunca mais teria chance de pisar naquele lugar.
O contraste é nítido: quase todo mundo veste roupas elegantes em tons sóbrios.
Olhando para o meu próprio vestido vibrante, sinto um frio na barriga e dou um passo atrás.
Por um segundo, me sinto pronta para correr para longe.
— Summer, você não acha melhor a gente voltar? Eu posso passar em casa rapidinho e colocar algo mais... discreto?
— Deixe de bobagem, você está maravilhosa! — ela sussurra, me dando um empurrãozinho de leve com o ombro. — Olha, aquela ali é a fila de recepção. Vamos!
Antes que eu possa protestar, Summer já me arrasta pela mão em direção à entrada principal do salão.
Uma pequena fila de convidados se move em um ritmo corporativo perfeito.
— Olha! Aqueles são o CEO e o diretor de operações da empresa — sussurra Summer no meu ouvido, quase dando pulinhos.
De longe, por entre as cabeças à minha frente, observo a figura de dois homens.
Um deles carrega um sorriso gentil e polido, esbanjando simpatia com cada funcionário que passa. O outro... bem, o outro passa uma sensação intensa.
Ele ostenta um sorriso quase mecânico e um olhar gélido, como se preferisse estar em qualquer outro lugar do mundo, menos ali.
Os funcionários sorriem para o homem de expressão gentil.
Para o outro...
Apenas abaixam discretamente a cabeça.
A cada passo em direção a eles, minha coragem ficava alguns metros para trás.
Eu definitivamente não pertenço àquele lugar.
Logo chega a nossa vez de sermos cumprimentadas. Summer vai na frente, sendo recebida pelo homem de sorriso simpático.
— Olá, senhorita Summer. É um prazer ter você conosco hoje — ele diz, com um aperto de mão leve e educado.
— Esta é minha amiga, Clara — ela me apresenta, com um tom de voz que esbanja uma empolgação notória, criando um contraste absurdo com a figura imponente e fria logo ao seu lado.
Quando me dou conta, estou cara a cara com ele.
Estendo minha mão, relutante diante da pressão esmagadora do seu olhar sobre mim.
Assim que a sua mão grande entra em contato com a minha, o calor da mão dele atravessa a minha pele antes que eu consiga lembrar como se respira e sem ter para onde fugir, levanto lentamente a cabeça e, pela primeira vez naquela noite, esqueço completamente onde estou.
Por um segundo, sinto a pressão de seu aperto mudar.
Ficamos parados ali, em silêncio e, sem que nenhum de nós perceba, o toque se estende por muito mais tempo do que o necessário para um cumprimento formal.
O diretor ao lado dele — cujo crachá indica se chamar Victor — pigarreia sutilmente, nos arrancando daquele transe.
Seus dedos deslizaram lentamente pela minha pele antes de, enfim, me libertarem.
POV Gabriel De LucaHá mais de vinte minutos estou ouvindo as reclamações incansáveis de Victor em meus ouvidos.Imediatamente me arrependo de ter aceitado vir com ele a esta exposição.— Ok, Victor, eu já entendi — digo, revirando os olhos ao sentir o carro desacelerar em frente a um prédio moderno e clean, com grandes portas e paredes de vidro que revelam algumas obras de arte e uma pequena multidão no interior.— Gab, eu te avisei desta exposição há mais de um mês, e você furou comigo todos os dias. As melhores obras já devem ter sido vendidas — meu amigo faz questão de repetir, como se eu já não estivesse ouvindo suas queixas diariamente há quatro semanas.— Eu já expliquei que minha agenda estava lotada. Você poderia ter vindo sem mim se estava tão interessado — saio do carro antes que ele tenha a chance de recomeçar o sermão.— Sabe, eu me sinto tão querido quando você descarta a minha companhia desse jeito — ele dramatiza, usando um tom falsamente ofendido. — Não vim sozinho po
Saímos do hospital sem trocar uma única palavra e vamos direto para o meu apartamento. Sum não me faz mais nenhuma pergunta.Ela apenas me ajuda a trocar de roupa, me cobre na cama e vai embora, levando consigo um milhão de dúvidas e uma pequena foto borrada da vida que começou a se formar em mim.No dia seguinte, só me levanto da cama para comer e ir ao banheiro.Estou tão entorpecida pela notícia que quase me esqueço do início da exposição.Às dezessete horas em ponto, Summer já está em casa para me ajudar a me arrumar.Ela escolhe cuidadosamente um vestido longo preto de seda com as costas nuas.Meu cabelo vai preso em um coque polido e baixo, e nos pés, uma bota de couro traz um ponto de descontração para o visual.Antes de sair, me pego olhando para o meu reflexo e, automaticamente, levo a mão à minha barriga ainda pequena.Com os olhos marejados, vejo pelo espelho Summer se aproximar.Ela apoia a mão sobre a minha, tão emocionada quanto eu.Os primeiros dias de exposição passam
— Boa tarde, senhorita Clara. Sou o Dr. Caleb e estou cuidando do seu caso — ele diz, de forma muito profissional. — Sua amiga me passou algumas informações sobre o seu histórico recente e eu gostaria de confirmar alguns pontos — ele continua, alternando o olhar apreensivo entre mim e Sum.Pelo canto do olho, noto as mãos de Summer começarem a tremer.— Certo, doutor, pode falar… — Minha voz sai tão fraca que mal a reconheço. Estou tão nervosa que sinto que vou vomitar.Agarro-me com força às bordas de metal da maca, tentando fazer a sala parecer um pouco mais estável sob os meus pés.— Você está com vinte e cinco anos, certo? — o Dr. Caleb pergunta, já com a caneta posicionada sobre a prancheta.— Sim…— É solteira, correto, senhorita Smith? — Essa pergunta vem com um pouco mais de ênfase, e ele me encara por cima dos óculos.— Sim… — respondo, engolindo em seco, sem entender onde ele quer chegar com aquilo.— Tem sentido essas ânsias e dores abdominais há quanto tempo?— Mais ou men
Victor não desiste fácil.Pouco depois de quase ser expulso da minha sala, ele entra novamente, desta vez com uma postura um pouco mais profissional, embora o brilho divertido ainda continue em seus olhos.— Tudo bem, chefe, prometo focar no trabalho agora — ele diz, apoiando as mãos na minha mesa de forma descontraída. — Mas, falando sério, tenho um convite maravilhoso para você — ele completa, com um meio sorriso — O dono de uma pequena galeria de arte no centro é um grande amigo meu e me ligou hoje cedo. Ele está organizando uma exposição para lançar uma artista nova.Encaro-o, sem entender onde ele quer chegar.— E o que eu tenho a ver com isso, Victor? Sabe que não tenho paciência ou tempo para ficar olhando para telas e fingindo que entendo de pinceladas.— Você precisa comprar algumas obras para decorar o novo saguão do hotel da De Luca Company, lembra? — ele argumenta, com um sorriso convencido. — É a oportunidade perfeita. Apoiar uma artista independente é excelente para o ma
As semanas seguintes passaram voando.Quando finalmente me dou conta, já faz um mês — quatro semanas exatas — desde aquela fatídica noite.Eu não me sentia tão inspirada há muito tempo.Meu ateliê agora está caótico, porém vivo, cercado de novos quadros e telas secando por todos os cantos.Em uma tarde silenciosa, posiciono-me diante de um cavalete com o pincel firme em mãos, pronta para começar uma nova pintura.No entanto, no instante em que aproximo o pincel do rosto, o cheiro forte do solvente me atinge e sinto uma náusea avassaladora subir pela garganta.O pânico é imediato.Largo o pincel de qualquer jeito e corro para o banheiro, quase sem conseguir alcançar o vaso sanitário a tempo de colocar tudo para fora.Depois de me recuperar, escovo os dentes e encaro meu próprio reflexo pálido no espelho.Faço uma nota mental para desacelerar o ritmo.— É só estresse — sussurro para mim mesma, tentando me convencer. — Excesso de trabalho e muitas horas seguidas respirando esse cheiro de
Acordo sobressaltada com um leve movimento na cama, bem ao meu lado.Abro os olhos por um segundo, mas os fecho imediatamente ao perceber onde estou.O teto alto, os lençóis de algodão egípcio absurdamente macios e o cheiro amadeirado que agora conheço tão bem dominam o ambiente.Continuo de olhos bem fechados, fingindo um sono profundo, controlando a minha respiração para parecer o mais natural possível.Só me permito mover um músculo quando ouço o som abafado do chuveiro sendo ligado no banheiro da suíte.No segundo seguinte, a adrenalina dispara e sou inundada por uma onda de vergonha absoluta.Agora, sem o efeito anestésico do álcool ou o calor do desejo que me possuiu na noite anterior, a realidade cai sobre a minha cabeça como um balde de água fria.Eu dormi com o CEO da empresa onde minha melhor amiga trabalha.Eu fugi com um homem que mal conheço.Só de imaginar a possibilidade de encará-lo à luz do dia, de ter que manter uma conversa formal depois de tudo o que fizemos naquel







