LOGINO som do pigarro de Victor ecoa como um trovão silencioso entre nós.
Gabriel — o homem que agora eu sabia ser o CEO implacável daquela empresa de bilhões — pisca lentamente, a frieza habitual retornando aos seus olhos como uma cortina que se fecha.
Ele quebra o silêncio quase constrangedor que nos rodeia:
— Aproveite o evento, senhorita... — diz, olhando diretamente em meus olhos, sua voz grave vibrando direto no meu peito.
— Clara — respondo, já me apressando para sair dessa atmosfera que me puxa de forma quase magnética para mais perto dele.
Saio quase correndo em direção ao bar, nem lembrando que minha amiga está me esperando bem na minha frente.
Eu preciso urgentemente de uma bebida, ou receio não aguentar nem mais uma hora dentro do mesmo ambiente que aquele homem.
— Clara! Espera! — A voz abafada de Summer tenta me alcançar no meio da multidão, mas eu continuo avançando como um trator pelo salão luxuoso.
Minha mão ainda formiga onde seus dedos tocaram.
Chego ao balcão do bar com o coração batendo na garganta e peço a primeira bebida forte que me vem à mente.
Viro metade do copo de uma vez só, sentindo o líquido queimar a minha garganta e aquecer meu peito, tentando desesperadamente espantar aquela sensação de eletricidade estática.
Foi apenas um aperto de mãos, repito para mim mesma, segurando o copo com os dedos trêmulos.
Apenas uma reação boba ao magnetismo de um homem imponente.
Tento me recompor; Summer finalmente me alcança, com os olhos arregalados de choque e uma expressão dividida entre a bronca e a pura fofoca, mas eu mal consigo prestar atenção no que ela diz.
Durante as horas seguintes, tento me misturar, rir e fingir que sou apenas uma convidada comum.
Mas eu sinto.
Sempre que olho de soslaio para a área VIP elevada do salão, aqueles olhos implacáveis estão lá me encarando.
Talvez seja coincidência.
Talvez não.
Mas a sensação de estar sendo observada cresce a cada minuto.
A atmosfera do salão de repente parece sufocante demais.
— Sum, eu preciso de um pouco de ar puro — aviso, deixando meu copo vazio em uma mesa de apoio. — Vou até a varanda, volto num minuto.
Escapo da multidão e empurro as pesadas portas de vidro que dão para o terraço privativo do hotel.
A brisa fresca atinge meu rosto instantaneamente.
Apoio as mãos no parapeito de mármore, olhando para as luzes da cidade e respirando fundo, tentando colocar meus pensamentos em ordem.
O som suave das portas de vidro se abrindo atrás de mim interrompe o silêncio.
Eu não preciso me virar para saber quem é; sua presença pesa sobre meu corpo.
O perfume amadeirado e marcante preenche o ar antes mesmo de qualquer passo ser dado.
— Fugir para o bar não estava no protocolo da noite, senhorita Clara — a voz de Gabriel De Luca ecoa pela varanda vazia, fazendo todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.
— Desculpa fugir do protocolo, receio que ainda não aprendi as regras de um evento corporativo — digo, tentando parecer o mais descontraída possível perto dele.
Viro-me de volta na direção da linda e movimentada cidade aos nossos pés, buscando qualquer ponto de foco que não seja o homem ao meu lado.
Sinto sua aproximação em passos lentos e marcantes.
Em segundos, consigo observar pelo canto do olho a sua silhueta.
De perto, ele parece ainda maior.
Era impossível conversar olhando para qualquer outro lugar.
Ele se apoia no parapeito de mármore e me encara por um instante antes de desviar os olhos para a paisagem.
— Tudo bem. Eu também não sei muito bem como me portar nestes eventos — diz ele, a voz grave misturando-se com o som da brisa da noite.
— O senhor não deveria estar acostumado a isso? — pergunto, ainda lutando bravamente para manter a minha voz estável.
Gabriel solta um riso soprado, quase imperceptível.
— Na verdade, eu odeio esses eventos. Na maioria das vezes, o Victor é quem cuida de todo o traquejo social. Eu prefiro muito mais lidar com os números do que com as pessoas.
Deixo o silêncio cair entre nós por um segundo.
Não é um silêncio perturbador, mas sim acolhedor — daqueles em que nossos pensamentos apenas vagam para longe.
Observo como a lua está linda entre os prédios altos, mesmo com a poluição visual da cidade.
Abro a bolsa e pego o celular apenas para fazer um registro rápido da cena; aquela iluminação daria um quadro perfeito mais tarde.
Assim que guardo o aparelho de volta, percebo que ele me encara fixamente, com uma expressão leve de dúvida no rosto esculpido.
— Você realmente gosta da vista de prédios cinzas? — ele me questiona, genuinamente curioso.
— Não gosto apenas dos prédios. Gosto de como a lua se alinha às construções de concreto, e de como isso faz eu me sentir — respondo, olhando de novo para o horizonte. — Gosto de pensar que as pessoas lá embaixo não fazem ideia de como a cidade está linda vista daqui de cima. Gosto de ver que, por mais que tente, a cidade nunca vai conseguir engolir a natureza de verdade. E... gosto de como este momento está me trazendo sensações diversas. — Termino a frase virando o rosto e olhando diretamente nos olhos dele.
Ele me encara por longos segundos, com uma mistura de admiração e uma ponta de incredulidade brilhando nas pupilas escuras.
Quando finalmente desvia os olhos para a cidade, tenho a estranha impressão de que já não a enxerga da mesma maneira.
— Você realmente consegue pensar em tudo isso apenas observando? Faz isso sempre? Imaginar?
— Sim — sorrio de leve, sentindo o vento bagunçar meus cabelos. — Eu não sei explicar, apenas sempre fiz. Gosto de poder viajar para qualquer lugar com um simples fechar de olhos. Gosto de criar as paisagens e os sentimentos que esses lugares podem trazer.
— E como você faz isso? — A voz dele desce um tom, ficando mais rouca, mais próxima.
O silêncio entre nós parece um desafio.
E, pela primeira vez naquela noite, tenho coragem de aceitá-lo.
Fico de frente para ele.
Me aproximo mais alguns passos, precisando ficar na ponta dos pés para diminuir a diferença de altura entre nós.
— Feche os olhos — peço, em um sussurro ousado.
Para minha surpresa, o grande e implacável CEO obedece.
Suas pálpebras se fecham, suavizando a linha tensa de sua expressão.
— Imagine que você está no topo de um prédio. O mais alto que puder — digo, fechando os meus próprios olhos para guiar nós dois pelo mundo da imaginação. — Você olha em volta e vê uma linda árvore crescendo em um vaso de argila. Sente o vento fresco bater no seu rosto, trazendo um cheiro suave de flores silvestres. Ao seu redor, neste terraço, há um banco de madeira rústica e um pequeno gramado sob seus pés. Além das barreiras desse terraço, há uma metrópole barulhenta e caótica, mas este pequeno espaço é o seu porto seguro.
Respiro fundo, sentindo a calmaria da minha própria projeção.
— Agora me conta... você conseguiu ir para lá?
Abro os meus olhos devagar.
Porém, antes que eu possa focar a vista, sou puxada para frente com firmeza.
Minha respiração falha quando meu corpo colide contra o peito largo e rígido dele.
Uma de suas mãos grandes está espalmada na minha cintura, me segurando contra si, enquanto a outra sobe para a lateral do meu pescoço.
Ele vacila por um segundo, piscando lentamente.
E como se não conseguisse se controlar, vejo seu olhar dançar entre meus olhos e minha boca.
POV Gabriel De LucaHá mais de vinte minutos estou ouvindo as reclamações incansáveis de Victor em meus ouvidos.Imediatamente me arrependo de ter aceitado vir com ele a esta exposição.— Ok, Victor, eu já entendi — digo, revirando os olhos ao sentir o carro desacelerar em frente a um prédio moderno e clean, com grandes portas e paredes de vidro que revelam algumas obras de arte e uma pequena multidão no interior.— Gab, eu te avisei desta exposição há mais de um mês, e você furou comigo todos os dias. As melhores obras já devem ter sido vendidas — meu amigo faz questão de repetir, como se eu já não estivesse ouvindo suas queixas diariamente há quatro semanas.— Eu já expliquei que minha agenda estava lotada. Você poderia ter vindo sem mim se estava tão interessado — saio do carro antes que ele tenha a chance de recomeçar o sermão.— Sabe, eu me sinto tão querido quando você descarta a minha companhia desse jeito — ele dramatiza, usando um tom falsamente ofendido. — Não vim sozinho po
Saímos do hospital sem trocar uma única palavra e vamos direto para o meu apartamento. Sum não me faz mais nenhuma pergunta.Ela apenas me ajuda a trocar de roupa, me cobre na cama e vai embora, levando consigo um milhão de dúvidas e uma pequena foto borrada da vida que começou a se formar em mim.No dia seguinte, só me levanto da cama para comer e ir ao banheiro.Estou tão entorpecida pela notícia que quase me esqueço do início da exposição.Às dezessete horas em ponto, Summer já está em casa para me ajudar a me arrumar.Ela escolhe cuidadosamente um vestido longo preto de seda com as costas nuas.Meu cabelo vai preso em um coque polido e baixo, e nos pés, uma bota de couro traz um ponto de descontração para o visual.Antes de sair, me pego olhando para o meu reflexo e, automaticamente, levo a mão à minha barriga ainda pequena.Com os olhos marejados, vejo pelo espelho Summer se aproximar.Ela apoia a mão sobre a minha, tão emocionada quanto eu.Os primeiros dias de exposição passam
— Boa tarde, senhorita Clara. Sou o Dr. Caleb e estou cuidando do seu caso — ele diz, de forma muito profissional. — Sua amiga me passou algumas informações sobre o seu histórico recente e eu gostaria de confirmar alguns pontos — ele continua, alternando o olhar apreensivo entre mim e Sum.Pelo canto do olho, noto as mãos de Summer começarem a tremer.— Certo, doutor, pode falar… — Minha voz sai tão fraca que mal a reconheço. Estou tão nervosa que sinto que vou vomitar.Agarro-me com força às bordas de metal da maca, tentando fazer a sala parecer um pouco mais estável sob os meus pés.— Você está com vinte e cinco anos, certo? — o Dr. Caleb pergunta, já com a caneta posicionada sobre a prancheta.— Sim…— É solteira, correto, senhorita Smith? — Essa pergunta vem com um pouco mais de ênfase, e ele me encara por cima dos óculos.— Sim… — respondo, engolindo em seco, sem entender onde ele quer chegar com aquilo.— Tem sentido essas ânsias e dores abdominais há quanto tempo?— Mais ou men
Victor não desiste fácil.Pouco depois de quase ser expulso da minha sala, ele entra novamente, desta vez com uma postura um pouco mais profissional, embora o brilho divertido ainda continue em seus olhos.— Tudo bem, chefe, prometo focar no trabalho agora — ele diz, apoiando as mãos na minha mesa de forma descontraída. — Mas, falando sério, tenho um convite maravilhoso para você — ele completa, com um meio sorriso — O dono de uma pequena galeria de arte no centro é um grande amigo meu e me ligou hoje cedo. Ele está organizando uma exposição para lançar uma artista nova.Encaro-o, sem entender onde ele quer chegar.— E o que eu tenho a ver com isso, Victor? Sabe que não tenho paciência ou tempo para ficar olhando para telas e fingindo que entendo de pinceladas.— Você precisa comprar algumas obras para decorar o novo saguão do hotel da De Luca Company, lembra? — ele argumenta, com um sorriso convencido. — É a oportunidade perfeita. Apoiar uma artista independente é excelente para o ma
As semanas seguintes passaram voando.Quando finalmente me dou conta, já faz um mês — quatro semanas exatas — desde aquela fatídica noite.Eu não me sentia tão inspirada há muito tempo.Meu ateliê agora está caótico, porém vivo, cercado de novos quadros e telas secando por todos os cantos.Em uma tarde silenciosa, posiciono-me diante de um cavalete com o pincel firme em mãos, pronta para começar uma nova pintura.No entanto, no instante em que aproximo o pincel do rosto, o cheiro forte do solvente me atinge e sinto uma náusea avassaladora subir pela garganta.O pânico é imediato.Largo o pincel de qualquer jeito e corro para o banheiro, quase sem conseguir alcançar o vaso sanitário a tempo de colocar tudo para fora.Depois de me recuperar, escovo os dentes e encaro meu próprio reflexo pálido no espelho.Faço uma nota mental para desacelerar o ritmo.— É só estresse — sussurro para mim mesma, tentando me convencer. — Excesso de trabalho e muitas horas seguidas respirando esse cheiro de
Acordo sobressaltada com um leve movimento na cama, bem ao meu lado.Abro os olhos por um segundo, mas os fecho imediatamente ao perceber onde estou.O teto alto, os lençóis de algodão egípcio absurdamente macios e o cheiro amadeirado que agora conheço tão bem dominam o ambiente.Continuo de olhos bem fechados, fingindo um sono profundo, controlando a minha respiração para parecer o mais natural possível.Só me permito mover um músculo quando ouço o som abafado do chuveiro sendo ligado no banheiro da suíte.No segundo seguinte, a adrenalina dispara e sou inundada por uma onda de vergonha absoluta.Agora, sem o efeito anestésico do álcool ou o calor do desejo que me possuiu na noite anterior, a realidade cai sobre a minha cabeça como um balde de água fria.Eu dormi com o CEO da empresa onde minha melhor amiga trabalha.Eu fugi com um homem que mal conheço.Só de imaginar a possibilidade de encará-lo à luz do dia, de ter que manter uma conversa formal depois de tudo o que fizemos naquel







