MasukOs dias que se seguiram à minha recuperação foram uma dança cuidadosa entre a menina que eu deveria ser e a guerreira que era. Tulipa, fiel à sua palavra, conversou com meus pais sobre meu desejo de fortalecer o corpo e a mente após o incidente do veneno.
Para minha surpresa, ou talvez não, eles concordaram com uma facilidade tocante. A preocupação deles com minha saúde e segurança superava qualquer norma social que desaprovasse uma futura duquesa treinando combate. Meu pai até sugeriu que o treinamento poderia ser uma boa distração para minha mente, ainda abalada pela experiência. Minha rotina se transformou. As manhãs eram dedicadas aos estudos, e eu absorvia cada informação com a voracidade de uma faminta. Lia sobre a história das grandes casas nobres, suas alianças e rivalidades. Estudava as leis do reino, as rotas comerciais, as guarnições militares em cada ducado. Cada pedaço de informação era uma peça no meu tabuleiro de xadrez, e eu estava traçando cada movimento de Milton e seus cúmplices. Assim, fui descobrindo pequenos detalhes, principalmente sobre a Princesa Elara, a segunda na linha de sucessão, que havia renunciado ao seu direito ao trono. Ela é conhecida por sua fragilidade e sua devoção à arte e à fé. Havia um rumor antigo sobre um desapontamento amoroso que a levou a buscar refúgio em um convento distante, o que explicava sua renúncia no futuro. Eu preciso investigar isso. Uma peça fraca no tabuleiro pode ser virada contra seu dono. As tardes, por outro lado, eram meu calvário e minha redenção. Meus pais arranjaram um instrutor de esgrima local, um velho cavaleiro aposentado chamado Sir Kael, que havia servido meu avô. Ele tinha um ar cético ao me ver, uma menina de corpo frágil, pedir por treinamento com a espada. Ainda me lembro do nosso primeiro treino. — Jovem senhorita, a espada não é um brinquedo. Ela pesa. Ela corta. — seu semblante era sério, observando-me dos pés à cabeça. Corta, eu sei. Eu já vi cortar mais do que você pode imaginar, velho. Pensei. Sorri de forma inocente. — Estou pronta para o desafio, Sir Kael. Quero ser forte. — Ele suspira, entregando-me uma espada de madeira leve. Ao pegá-la, senti a leveza e a fragilidade, um contraste doloroso com o peso familiar do aço em minhas mãos na vida passada. Meu corpo infantil lutava para manter a postura correta, minhas pernas ainda instáveis, meus braços tremiam com o peso. Sir Kael balançava a cabeça, claramente duvidando da minha determinação. Apenas sorri, um sorriso que escondia a frustração e a determinação implacável que me impulsionava. Eu me dedicava aos exercícios físicos com uma ferocidade que assustava Tulipa. Corridas diárias, flexões, agachamentos – tudo o que podia para fortalecer meus músculos atrofiados de criança. A dor era excruciante no início; meus músculos protestavam a cada movimento, mas eu a acolhia. É uma dor limpa, diferente da agonia do fogo e da traição. Cada gota de suor, cada músculo latejante, era um passo para recuperar a Kendra que eu era, a General. Minha mente, que inicialmente parecia enferrujada, começava a se afiar novamente. A cada dia, mais detalhes da minha vida passada vinham à tona, como peças de um mosaico que se reconstruíam lentamente. Relatórios de batalha, planos de cerco, os rostos dos meus homens, os gritos do campo turbulento. Tudo. O veneno, ou o que quer que tenha me trazido de volta, parecia ter desbloqueado memórias que eu sequer sabia que existiam. Depois de tanto treino, estava quase pronta. Nessa noite, escondida sob os cobertores, iluminada por uma luz mágica, desenhei no verso de um mapa antigo as rotas de ataque dos Lobos Brancos na minha linha do tempo. Marquei com um "X" onde o primeiro grande ataque ocorreu. Olhei para o mapa do presente. Não batia. Havia algo mais. Enquanto passava os olhos pelo mapa, lembrei-me dos túneis de contrabando que os Lobos Brancos usavam para se mover rapidamente pelas montanhas sem serem detectados – pelo menos isso era o que acreditava antes de voltar. Eles foram descobertos apenas anos depois, quando o Império já os havia dizimado. O relatório dizia que eram túneis dos Lobos Brancos; agora, já não tenho tanta certeza. Eles não estão atacando dali. Estão sendo levados para lá. Alguém os está guiando para esses pontos. Ou pior... alguém os está fazendo parecer que estão ali. A informação sobre a cidade portuária dizimada martelava em minha mente. — Todos culpam os lobos brancos, mas é impossível, já que eles estão no norte agora. — Isso. Os ataques são muito distantes dos pontos de migração dos Lobos Brancos. Minha intuição de general, que nunca me falhava em campo de batalha, gritava que havia algo mais. Eles não eram os perpetradores daquela matança, mas as vítimas de uma conspiração. Saí de baixo das cobertas com tudo, assustando Tulipa, que cochilava na poltrona ao lado da cama. — Tulipa, os Lobos Brancos... eles são caçadores ferozes, não são? — Sim, senhorita. Mas dizem que são um povo honrado, que só lutam para proteger os seus. Meu avô sempre disse que nunca viam a tribo dos Lobos atacar sem motivo. — disse ela, enquanto esfregava os olhos de maneira sonolenta. Honrados. Eu matei um povo honrado. A culpa pesava, um fardo que eu carregaria até conseguir a redenção. — E eles vivem nas montanhas geladas, certo? Como sobreviveriam num lugar tão diferente como uma cidade portuária? — pergunto de maneira quase eufórica. — Eu... eu não sei, senhorita. Acho que eles são muito adaptáveis. — Tulipa franziu o cenho, pensativa. Não, não são. Isso é uma farsa. Eu sei que não posso confrontar Milton ou Sofia diretamente ainda. Precisava de provas irrefutáveis e de força para agir. Aquele incidente com o veneno é a chave. Ele me deu a desculpa para minhas mudanças de comportamento e meu foco no treinamento. Então, irei me dedicar ao meu treino. E então, pegar as raposas pelas caudas. ◇◆◇ Os dias se estenderam em semanas. Meu corpo, embora ainda não fosse o da general, estava respondendo. Meus músculos estavam mais definidos, minha resistência aumentou, e os movimentos com a espada de madeira começaram a fluir com uma familiaridade reconfortante. Sir Kael, no início cético, agora me olhava com uma expressão de surpresa e, às vezes, até mesmo respeito. Ele não sabia o que eu sabia, mas via o fogo da determinação em meus olhos. Um mês após meu renascimento, o ducado já se ajustara à minha nova rotina. Meus pais pareciam aliviados em me ver tão dedicada, acreditando que a atividade física me distraía dos pesadelos da doença. Eles não sabiam que meus pesadelos eram, na verdade, memórias vívidas de um futuro que eu estava desesperada para evitar. Em uma tarde ensolarada, o suor escorria pelo meu rosto enquanto eu treinava no campo particular do ducado. O cheiro de terra molhada e grama recém-cortada pairava no ar. Sir Kael observava cada um dos meus movimentos, corrigindo minha postura, aprimorando meu passo. — Mais força no golpe, senhorita! Sinta a espada como uma extensão do seu corpo! — ele instruiu. Minha mente se fechou para tudo, exceto o movimento, a respiração. Executei uma sequência de golpes e defesas, a espada de madeira girando em minhas mãos com uma precisão que, aos poucos, voltava a ser a minha. Essa sou eu; aquela era eu. Sir Kael, vendo a determinação inabalável em meus olhos, assentiu lentamente. — Está pronta para o próximo passo, senhorita Kendra. — ele disse, sua voz mais séria do que o habitual. Ele se afastou e, de um suporte próximo, pegou uma espada de treino de aço, embotada nas bordas, mas com o peso real do metal. Meu coração deu um salto. Era a primeira vez que seguraria uma arma de verdade desde que retornei. Engoli em seco, em ansiedade. Abaixei a espada de madeira e estendi a mão. A empunhadura fria do cabo na minha palma. O peso era diferente do que me lembrava com este corpo, mas a sensação familiar de poder percorreu meus braços. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. O metal gelado contra meus dedos. A vibração em meus pulsos. Era como se uma parte perdida de mim mesma tivesse finalmente retornado. Abri os olhos, a espada em punho, e olhei para Sir Kael. Não havia mais a menina. Havia a General. Meu sorriso era um misto de alívio e uma promessa sombria. O jogo de Milton estava prestes a mudar. Eu estou pronta para entrar nesse embate. ◇◇◆◇◇O silêncio tenso que se instalou no beco era quebrado apenas pelo ruído distante do comércio e pelo gotejar constante de água suja vindo do telhado de madeira acima de nossas cabeças. O cheiro acre de mofo, restos de comida e urina impregnava as paredes de pedra, mas Leonardo parecia não se importar. Ele permanecia encolhido contra o muro do fundo, o corpo franzino tenso como uma mola prestes a disparar. — Uma proposta? — zombou o garoto, a voz fina falhando levemente pela puberdade iminente, mas mantendo uma grosseria afiada. — Escuta aqui, sua dondoca, eu não nasci ontem. Gente da sua laia não vem até a lama pra fazer proposta pra pivetes de rua. Se não é a guarda real, é algum velho nojento querendo escravo pra trabalhar até morrer nas minas ou na cozinha. Vaza daqui antes que eu chame a molecada e a gente faça essa sua bolsinha de prata mudar de dono! Ele tateou a cintura com mais firmeza, sacando uma lâmina enferrujada e sem cabo, pouco maior que um canivete
A manhã seguinte na capital surgiu envolta em uma névoa clara e úmida que aos poucos se dissipava sob o calor do sol primaveril que anunciava a temporada social. Conforme meu pai previra, o portão de ferro do palacete não teve um segundo de descanso desde o raiar do dia. Antes mesmo que o desjejum fosse servido, uma chuva de envelopes selados com cera colorida, cartões de visita com detalhes em relevo e cestas de doces finos começou a lotar a mesa de entrada da casa urbana de Renatus. Para os olhos atentos que vigiavam nossa residência, o dia da filha do Duque de Renatus seguiu a rotina perfeitamente previsível de uma jovem nobre. Pela manhã, ocupei o salão de visitas ao lado de minha mãe e de Sofia. Passei duas longas horas selecionando convites para chás de caridade e encontros de jovens, avaliando tecidos que mercadores locais trouxeram em baús aveludados e discutindo a cor dos vestidos que usaríamos no grande baile de abertura da temporada, oferecido pela Cas
As rodas de madeira revestidas de ferro da carruagem principal produziam um estrépito metálico e ritmado ao baterem contra as pedras polidas da Via Imperial, a artéria principal que cortava a capital do Reino de Fênix. À medida que nos aprofundávamos por entre os bairros nobres, a imponência dos edifícios de calcário branco parecia fechar o horizonte acima de nós, erguendo-se em fachadas de três ou quatro andares adornadas por colunas trabalhadas, relevos em gesso e sacadas ornamentadas de ferro fundido. O contraste com as terras do norte era brutal. Em Renatus, a arquitetura nascia da necessidade de suportar o frio implacável e os ataques de feras; as pedras eram brutas, as janelas estreitas e o design funcional. Ali na capital, contudo, cada edificação parecia gritar uma ostentação deliberada, uma competição silenciosa para ver qual família nobre conseguia gastar mais ouro em detalhes puramente decorativos. Nas sacadas superiores, damas vestidas em sedas reluze
O dia da partida começou antes mesmo de o sol dar as caras no horizonte. A névoa espessa da manhã ainda cobria o pátio do castelo quando o som de cascos de cavalos, metal se chocando e ordens sendo gritadas no tom firme dos sargentos tomou conta de tudo. A mansão ducal de Renatus, que passara três longos meses de inverno mergulhada em um silêncio quase sepulcral, parecia agora uma colmeia furiosa prestes a transbordar. Eu estava parada perto das escadarias de pedra da entrada principal, ajustando as luvas de couro macio nas mãos enquanto observava o caos organizado da arrumação. Dalila estava ao meu lado, segurando uma capa de viagem pesada e resmungando baixinho a cada baú que os servos carregavam com dificuldade para a traseira das carruagens. — Se levarem mais um baú de vestimentas da Lady Sofia, os cavalos vão ter que ir arrastando as patas no chão, minha senhorita — comentou Dalila, fingindo ajeitar a gola do meu vestido só para disfarçar o riso. — Parecia até que a moça não ti
As semanas seguintes à chegada de Sofia viraram uma verdadeira maratona para tentar manter a minha sanidade em dia. O inverno no Ducado de Renatus parecia não querer ir embora nunca. Foram três longos meses de neve caindo lá fora, deixando a gente trancada dentro do castelo. O tempo passava devagar para o mundo, mas para mim parecia que os dias voavam na minha frente, me empurrando direto para aquilo que eu mais temia: a abertura da temporada social na capital do Reino de Fênix. Meu objetivo principal durante todo esse inverno foi um só: manter a Sofia o mais longe possível do prado leste e do pessoal do Feryr. Só de imaginar a minha prima perto dos Lobos Brancos meu estômago já dava nós. Então, eu fiz o que qualquer pessoa desesperada faria: joguei o jogo dela. Arrastei a menina para os salões internos, mostrei joias antigas que a minha mãe emprestou com o coração aberto para ela ajeitar as roupas velhas, e passei horas ouvindo o falatório dela sobre a nobreza da cidade.
A noite que se seguiu ao meu encontro com Feryr no prado leste trouxe consigo um silêncio denso e quase antinatural, daqueles que antecedem a ruína ou a redenção. Dormir fora um luxo ao qual meu corpo se recusara; cada vez que fechava os olhos, o cheiro de fumaça e o som de lâminas colidindo voltavam a ecoar na minha mente com a precisão de uma memória entalhada a ferro quente. No entanto, quando a alvorada de um novo dia finalmente rompeu a névoa fria do Ducado de Renatus, trazendo o aroma acre da terra molhada e do carvalho úmido, algo no ar parecia ter mudado. O sol de meio-dia já começara a declinar quando os portões de ferro do castelo ducal rangeram pesadamente sobre suas dobradiças de bronze. Do alto da minha janela, apoiando as mãos no peitoril de pedra fria cuja aspereza raspava a palma das minhas mãos, vi a comitiva se aproximar. À frente do contingente de cavaleiros trajando armaduras prateadas com o brasão de Renatus, cavalgava meu pai. O Duque de Renatus, Lorde Theron







