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Capítulo 19

Author: L.G.Coelho
last update publish date: 2026-09-05 02:00:54

O silêncio tenso que se instalou no beco era quebrado apenas pelo ruído distante do comércio e pelo gotejar constante de água suja vindo do telhado de madeira acima de nossas cabeças. O cheiro acre de mofo, restos de comida e urina impregnava as paredes de pedra, mas Leonardo parecia não se importar. Ele permanecia encolhido contra o muro do fundo, o corpo franzino tenso como uma mola prestes a disparar.

— Uma proposta? — zombou o garoto, a voz fina falhando levemente pela puberdade
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  • As Lágrimas Da Fênix - Rainha Renascida em Fogo   Capítulo 19

    O silêncio tenso que se instalou no beco era quebrado apenas pelo ruído distante do comércio e pelo gotejar constante de água suja vindo do telhado de madeira acima de nossas cabeças. O cheiro acre de mofo, restos de comida e urina impregnava as paredes de pedra, mas Leonardo parecia não se importar. Ele permanecia encolhido contra o muro do fundo, o corpo franzino tenso como uma mola prestes a disparar. — Uma proposta? — zombou o garoto, a voz fina falhando levemente pela puberdade iminente, mas mantendo uma grosseria afiada. — Escuta aqui, sua dondoca, eu não nasci ontem. Gente da sua laia não vem até a lama pra fazer proposta pra pivetes de rua. Se não é a guarda real, é algum velho nojento querendo escravo pra trabalhar até morrer nas minas ou na cozinha. Vaza daqui antes que eu chame a molecada e a gente faça essa sua bolsinha de prata mudar de dono! Ele tateou a cintura com mais firmeza, sacando uma lâmina enferrujada e sem cabo, pouco maior que um canivete

  • As Lágrimas Da Fênix - Rainha Renascida em Fogo   Capítulo 18

    A manhã seguinte na capital surgiu envolta em uma névoa clara e úmida que aos poucos se dissipava sob o calor do sol primaveril que anunciava a temporada social. Conforme meu pai previra, o portão de ferro do palacete não teve um segundo de descanso desde o raiar do dia. Antes mesmo que o desjejum fosse servido, uma chuva de envelopes selados com cera colorida, cartões de visita com detalhes em relevo e cestas de doces finos começou a lotar a mesa de entrada da casa urbana de Renatus. Para os olhos atentos que vigiavam nossa residência, o dia da filha do Duque de Renatus seguiu a rotina perfeitamente previsível de uma jovem nobre. Pela manhã, ocupei o salão de visitas ao lado de minha mãe e de Sofia. Passei duas longas horas selecionando convites para chás de caridade e encontros de jovens, avaliando tecidos que mercadores locais trouxeram em baús aveludados e discutindo a cor dos vestidos que usaríamos no grande baile de abertura da temporada, oferecido pela Cas

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    As rodas de madeira revestidas de ferro da carruagem principal produziam um estrépito metálico e ritmado ao baterem contra as pedras polidas da Via Imperial, a artéria principal que cortava a capital do Reino de Fênix. À medida que nos aprofundávamos por entre os bairros nobres, a imponência dos edifícios de calcário branco parecia fechar o horizonte acima de nós, erguendo-se em fachadas de três ou quatro andares adornadas por colunas trabalhadas, relevos em gesso e sacadas ornamentadas de ferro fundido. O contraste com as terras do norte era brutal. Em Renatus, a arquitetura nascia da necessidade de suportar o frio implacável e os ataques de feras; as pedras eram brutas, as janelas estreitas e o design funcional. Ali na capital, contudo, cada edificação parecia gritar uma ostentação deliberada, uma competição silenciosa para ver qual família nobre conseguia gastar mais ouro em detalhes puramente decorativos. Nas sacadas superiores, damas vestidas em sedas reluze

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    O dia da partida começou antes mesmo de o sol dar as caras no horizonte. A névoa espessa da manhã ainda cobria o pátio do castelo quando o som de cascos de cavalos, metal se chocando e ordens sendo gritadas no tom firme dos sargentos tomou conta de tudo. A mansão ducal de Renatus, que passara três longos meses de inverno mergulhada em um silêncio quase sepulcral, parecia agora uma colmeia furiosa prestes a transbordar. Eu estava parada perto das escadarias de pedra da entrada principal, ajustando as luvas de couro macio nas mãos enquanto observava o caos organizado da arrumação. Dalila estava ao meu lado, segurando uma capa de viagem pesada e resmungando baixinho a cada baú que os servos carregavam com dificuldade para a traseira das carruagens. — Se levarem mais um baú de vestimentas da Lady Sofia, os cavalos vão ter que ir arrastando as patas no chão, minha senhorita — comentou Dalila, fingindo ajeitar a gola do meu vestido só para disfarçar o riso. — Parecia até que a moça não ti

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    As semanas seguintes à chegada de Sofia viraram uma verdadeira maratona para tentar manter a minha sanidade em dia. O inverno no Ducado de Renatus parecia não querer ir embora nunca. Foram três longos meses de neve caindo lá fora, deixando a gente trancada dentro do castelo. O tempo passava devagar para o mundo, mas para mim parecia que os dias voavam na minha frente, me empurrando direto para aquilo que eu mais temia: a abertura da temporada social na capital do Reino de Fênix. Meu objetivo principal durante todo esse inverno foi um só: manter a Sofia o mais longe possível do prado leste e do pessoal do Feryr. Só de imaginar a minha prima perto dos Lobos Brancos meu estômago já dava nós. Então, eu fiz o que qualquer pessoa desesperada faria: joguei o jogo dela. Arrastei a menina para os salões internos, mostrei joias antigas que a minha mãe emprestou com o coração aberto para ela ajeitar as roupas velhas, e passei horas ouvindo o falatório dela sobre a nobreza da cidade.

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    A noite que se seguiu ao meu encontro com Feryr no prado leste trouxe consigo um silêncio denso e quase antinatural, daqueles que antecedem a ruína ou a redenção. Dormir fora um luxo ao qual meu corpo se recusara; cada vez que fechava os olhos, o cheiro de fumaça e o som de lâminas colidindo voltavam a ecoar na minha mente com a precisão de uma memória entalhada a ferro quente. No entanto, quando a alvorada de um novo dia finalmente rompeu a névoa fria do Ducado de Renatus, trazendo o aroma acre da terra molhada e do carvalho úmido, algo no ar parecia ter mudado. O sol de meio-dia já começara a declinar quando os portões de ferro do castelo ducal rangeram pesadamente sobre suas dobradiças de bronze. Do alto da minha janela, apoiando as mãos no peitoril de pedra fria cuja aspereza raspava a palma das minhas mãos, vi a comitiva se aproximar. À frente do contingente de cavaleiros trajando armaduras prateadas com o brasão de Renatus, cavalgava meu pai. O Duque de Renatus, Lorde Theron

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