FAZER LOGINSempre odiei voar.
Não por medo, é claro. O medo é um luxo inútil, reservado exclusivamente para as pessoas que têm a audácia de acreditar que possuem algum tipo de controle real sobre o próprio destino. Eu não era um tolo. Eu apenas odiava, do fundo da minha alma, a simples ideia de entregar a minha vida e a minha segurança nas mãos de outra pessoa — mesmo que essa pessoa fosse um piloto altamente treinado e pago por mim. Ficar confinado em uma caixa de metal a milhares de metros de altura, dependendo de engrenagens e da estabilidade do vento, ia contra a minha natureza de estrategista. Eu gostava de pisar no chão. Gostava de controlar as variáveis. Ainda assim, naquela madrugada fria, embarquei no meu jato particular sem hesitar por um único segundo. A lealdade à Tríade passava por cima de qualquer preferência pessoal. Enquanto a aeronave cortava as nuvens escuras rumo à Itália, deixando a silhueta congelada de Moscou para trás, o meu notebook permanecia aberto sobre a mesa à minha frente. Fotografias em alta resolução do modelo do avião de Adrian, relatórios confidenciais de inteligência, mapas de satélite do Mar Mediterrâneo e linhas complexas de investigação ocupavam toda a tela brilhante. O acidente de Adrian. Ou melhor, o suposto acidente. Quanto mais eu lia e relia os dados preliminares enviados pelos nossos contatos militares e espiões cibernéticos, menos eu engolia a narrativa de que aquilo tivesse sido uma trágica fatalidade. O jato executivo dele havia desaparecido completamente dos radares poucos minutos depois de realizar uma mudança sutil na sua rota original. Não houve qualquer pedido de socorro por rádio. Nenhuma mensagem de alerta dos pilotos. Não houve tempo para nada. Teve apenas uma explosão súbita registrada por sensores térmicos e, até aquele momento, quase nenhum destroço havia sido localizado pelas equipes da região. Era um trabalho limpo demais. Cirúrgico. E, no meu mundo, quando alguma coisa parecia limpa e perfeita demais, normalmente significava que alguém muito inteligente, poderoso e perigoso estava operando por trás das cortinas. Fechei a tela do computador com um estalo seco e apoiei as costas no assento de couro, massageando as têmporas. Olhei pela janela oval da cabine. As nuvens espessas da madrugada escondiam o mundo lá embaixo, criando um tapete cinzento e infinito. Involuntariamente, a minha mente viajou no tempo, resgatando a memória da primeira vez que conheci Adrian. Lembrei-me de que, por muito pouco, Massimo e eu não o matamos. Sorri sozinho, um riso sem humor que se perdeu no som abafado das turbinas. Aquele americano maluco havia aparecido em uma reunião de altíssimo escalão em solo europeu sem ter sido convidado por ninguém. Ele simplesmente marchou para dentro da sala, interrompeu uma negociação bilionária de armas e teve a audácia inacreditável de dizer na nossa cara que todos nós estávamos cometendo um erro estratégico crasso. A reação de Massimo foi imediata: levantou-se e colocou o cano de uma arma carregada diretamente contra a testa do homem. Qualquer um teria implorado pela vida ou urinado nas calças. Adrian? Ele apenas sorriu, ajeitou o terno sob medida e olhou para o Don italiano com uma calma irritante. — Se você vai me matar, Capone, pelo menos espere eu terminar de explicar por que vocês dois estão prestes a perder bilhões de euros por pura teimosia — foi o que ele disse na época. Aquele idiota tinha coragem de sobra. Ou uma loucura sem cura. Sinceramente, talvez fosse uma mistura exata das duas coisas. O fato era que, no final daquela mesma reunião, após analisar os pontos que ele colocou na mesa, percebi que o americano estava coberto de razão. Massimo percebeu a mesma coisa logo em seguida. Foi exatamente naquele dia, selado sob a tensão de uma execução quase consumada, que nasceu algo muito maior e mais poderoso do que uma simples parceria comercial de fachada. Nasceu a Tríade Negra. Três homens de ferro. Três impérios criminosos distintos. Um único juramento inquebrável de sangue. Quem ousasse tocar em um dos vértices daquele triângulo, responderia imediatamente aos três. Respirei fundo, sentindo o peso da realidade esmagar as lembranças. Agora, um de nós havia desaparecido. E aquilo mudava absolutamente tudo. Poucas horas depois, a voz do piloto ecoou pelo sistema de som da cabine, anunciando a nossa aproximação do território italiano. Observei atentamente pela janela quando a costa recortada surgiu no horizonte, banhada pelos primeiros raios tímidos do sol da manhã. Mesmo no inverno rigoroso europeu, havia algo essencialmente diferente naquele país. A Rússia impunha o seu respeito através do medo, da brutalidade cinzenta e do frio que congelava os ossos; a Itália, por outro lado, seduzia os sentidos com as suas cores, a sua história e a promessa de prazeres carnais e luxo. Eram duas terras completamente opostas em essência. Assim como os seus líderes. Assim como os seus métodos. Assim que as rodas do jato tocaram o asfalto da pista privada e a aeronave parou totalmente, a porta se abriu e eu desci as escadas de metal. Encontrei um comboio imponente já me esperando diretamente na pista de pouso. Quatro SUVs blindadas de cor preta, com os motores roncando baixo, cercavam o perímetro. Homens fortemente armados com submetralhadoras mantinham a guarda, todos exibindo o brasão da família Capone preso discretamente na lapela de seus paletós escuros. No centro do comboio, encostado na lateral do veículo principal, estava Massimo. — Você está com uma cara de merda, Massimo — disparei como saudação assim que os meus pés pisaram no asfalto quente da pista, aproximando-me dele e apertando a sua mão com firmeza mútua. — A noite foi longa, irmão — ele respondeu secamente, os olhos tensos e a expressão visivelmente desgastada pelas horas sem dormir. Ele soltou a minha mão e apontou para a porta aberta da SUV. — Vamos entrar. Não temos um único segundo a perder aqui fora. O motorista dele abriu totalmente a porta traseira do veículo blindado, inclinando-se formalmente. — Bem-vindo à Itália, senhor Volkov. Apenas assenti com a cabeça, entrando no interior espaçoso e climatizado do carro. Massimo se acomodou logo ao meu lado. O motorista fechou a porta com um baque surdo, assumiu o volante e ligou o veículo. Partimos imediatamente em direção à região de Piemonte. Pelo retrovisor, pude ver Sergei e os meus outros seguranças russos entrando nos veículos de trás, formando um comboio altamente discreto nas rodovias, mas completamente letal para quem tentasse qualquer gracinha. Dentro do carro, o silêncio durou apenas o tempo estritamente necessário para que o comboio saísse da área restrita do aeroporto e ganhasse a estrada principal. — Alguma notícia realmente nova vinda da equipe de busca avançada? — perguntei, quebrando a quietude enquanto puxava o meu tablet e começava a verificar as últimas mensagens criptografadas que chegavam da Rússia. — Damon já assumiu a coordenação direta das equipes no local da última coordenada — Massimo respondeu, mantendo os olhos fixos na paisagem que corria velozmente através da janela lateral. — Nossos homens estão usando drones de última geração com sensores térmicos agora, tentando mapear o fundo do mar e as encostas rochosas. A área geográfica é densa e o clima não está ajudando. Mas uma coisa eu te garanto, Matteo: se o Adrian estiver naquela região, nós vamos encontrá-lo. Vivo ou morto. Assenti lentamente, mantendo o meu rosto transformado em uma verdadeira máscara de pedra. O sumiço dele era um golpe que não poderíamos tolerar. — Certo. E quanto ao acordo comercial em Piemonte, Massimo? Soube que os representantes das famílias do Norte estão extremamente nervosos com os boatos. Eles são idiotas, acham que a queda desse avião é um sinal claro de que a Tríade Negra está fraca e sangrando no topo. — É exatamente por esse motivo que nós dois estamos indo pessoalmente até lá resolver isso hoje — Massimo respondeu, virando o rosto na minha direção, o olhar brilhando com uma intensidade assassina. — Aqueles bastardos do Norte precisam ver com os próprios olhos que, se um de nós cai temporariamente, os outros dois que ficam de pé se tornam ainda mais perigosos e impiedosos. O Adrian queria essa negociação fechada nestes termos exatos, e nós vamos entregar esse contrato assinado a ele quando o trouxermos de volta. Não haverá nenhuma margem para renegociação de valores ou prazos. Eles vão assinar exatamente o que foi combinado previamente, ou o Norte inteiro sentirá o peso esmagador da nossa mão. Apoiei os cotovelos nos joelhos, concentrado. A partir daquele momento, a conversa fluiu de forma puramente técnica e cirúrgica. Passamos o restante da viagem planejando cada linha, cada vírgula e cada detalhe da reunião que teríamos em poucas horas. Antecipamos todas as possíveis resistências e argumentos que os fornecedores italianos tentariam usar para barganhar vantagens em cima do nosso momento de crise. Eles achavam que a Tríade estava desestabilizada. Eles achavam que o Pakhan russo e o Don italiano estariam fracos. Mas eles descobririam, da pior maneira possível, que o império que havíamos construído juntos não dependia apenas de um homem. Dependia de uma engrenagem de sangue e poder que nenhuma explosão seria capaz de destruir.Poucos minutos depois, o som forte da campainha principal anunciou a chegada da segunda família convidada para a noite. As portas duplas se abriram mais uma vez e o mordomo indicou a entrada dos últimos convidados. Tratava-se da família Miller, uma das alianças mais influentes que meu irmão mantinha nos Estados Unidos, com conexões diretas na costa leste americana. Entraram o patriarca, Richard Miller, um homem de cabelos grisalhos e terno elegante, acompanhado por sua esposa, Eleanor. Logo atrás do casal, vinham os dois filhos: Thomas, um rapaz alto e reservado de ombros largos, e a filha mais nova, Chloe. Chloe Miller era a imagem perfeita da alta sociedade nova-iorquina. Usava um vestido justo de cetim vermelho com um fenda ousada, cabelos loiros perfeitamente modelados e uma maquiagem impecável. Mas o que realmente chamou a minha atenção — e me fez semicerrar os olhos no mesmo segundo — foi para onde a atenção dela foi direcionada assim que pisou na
POV: SOFIA CAPONE O ar frio da noite atingiu a minha pele no instante em que cruzamos as portas de vidro que davam acesso ao jardim. O piso de pedra desenhado entre os canteiros de rosas estava iluminado por luminárias baixas, criando uma atmosfera suave e elegante. No entanto, por dentro, eu estava queimando. A mão de Jean-Luc Laurent continuava firme na minha cintura, uma presença invasiva que me fazia querer dar um passo para longe a cada segundo. Caminhamos em silêncio por alguns metros. Eu mantinha a cabeça erguida, o vestido de tweed rosa marcando meus passos, mas meus pensamentos ainda estavam presos no olhar duro que Matteo tinha me lançado antes de eu sair da sala. — O jardim da sua família é impressionante, senhorita Capone — Jean-Luc começou, quebrando o silêncio com a voz mansa e o sotaque francês carregado de formalidade. — Bastante reservado. Um bom lugar para conversas mais profundas. — É apenas um jardim, Je
No entanto, uma onda visceral de raiva e posse subiu pelo meu peito quando vi Jean-Luc dar um passo à frente. O francês estendeu a mão com uma cortesia refinada e, sem pedir licença, colocou a mão dele na cintura de Sofia, conduzindo-a com firmeza e suavidade em direção à porta de saída que dava acesso ao jardim. A imagem da mão daquele sujeito tocando o corpo dela fez meus dedos apertarem o charuto até quase amassá-lo. Assim que os dois sumiram do meu campo de visão, soltei a respiração pausadamente para reprimir o instinto de ir atrás deles. Caminhei a passos firmes até o outro lado da sala, parando ao lado de Massimo, que observava a movimentação com um copo de bebida na mão. — Massimo — chamei em tom baixo, aproximando-me do seu ombro. — Qual é a real intenção de Vittorio nesse jantar? Massimo tomou um gole da bebida, sem desviar os olhos do salão. — Na verdade, ele marcou esse jantar para fechar um grande negócio de ex
POV: MATTEO VOLKOV Eu segurava o meu charuto entre os dedos, mantendo a postura firme ao lado do bar, enquanto o movimento na sala de estar da mansão Capone começava a esquentar. O ar estava pesado com a mistura de perfumes caros, vozes alinhadas e a tensão velada que sempre precedia grandes acordos. Mas, por mais que eu tentasse manter a minha mente focada na segurança e na diplomacia que a noite exigia, meu autocontrole foi posto à prova no exato segundo em que o som de saltos no mármore anunciou a chegada delas. Girei o rosto devagar e travei no lugar. Sofia e Giulia desciam as escadas juntas, e a visão das duas cruzando o hall cortou o meu raciocínio ao meio. Sofia usava um vestido rosa estruturado, curto e provocante, que deixava claro o quanto ela sabia o poder que tinha sobre qualquer homem naquela sala — especialmente depois da audácia que ela tinha demonstrado na madrugada na cozinha. Mas o meu olhar foi inevitavelmente puxado pa
POV: SOFIA CAPONE Passei o dia inteiro repassando cada segundo da noite anterior na minha cabeça. A revelação de que a Giulia tinha tomado a iniciativa de beijar o Matteo no jardim não me provocou um pingo de ciúmes ou raiva. Muito pelo contrário. A ideia de ver a minha amiga nos braços do russo que sempre mexeu com os meus sentidos foi incrivelmente sexy. Pensar nos dois juntos acendeu um fogo novo em mim, uma excitação deliciosa ao me dar conta de que eu não queria escolher entre um e outro — eu queria os dois para mim. Eu já era apaixonada pelo Matteo há muito tempo, acostumada com aquela postura séria e dominante dele. Mas a Giulia tinha chegado para bagunçar tudo de um jeito bom, trazendo um sentimento inédito, doce e fascinante. Enquanto me arrumava no quarto, o burburinho na mansão indicava que a noite seria longa. O meu irmão tinha organizado um jantar importante, reunindo duas famílias influentes para selar negó
Ela não se assustou. Em vez disso, deu uma risada abafada e deliciada, alisando o pulso onde meus dedos estiveram antes. — Você pode fingir que é feito de pedra o quanto quiser, Matteo — ela disse, dando dois passos para trás sem tirar os olhos dos meus. — Mas eu sei reconhecer um homem queimando por dentro quando vejo um. Boa noite, Pakhan. Ela deu meia-volta, a camisola balançando com o movimento do corpo, e desapareceu pelo corredor com a mesma facilidade com que tinha surgido. Soltei o ar pela boca devagar, deixando o copo na pia. Apoiei as duas mãos na bancada de mármore e inclinei a cabeça para baixo, tentando recuperar o controle sobre mim mesmo. Aquela casa estava se tornando um campo minado emocional que eu não tinha planejado atravessar. Deixei a cozinha e segui pelo corredor escuro em direção ao meu quarto. Quando me aproximei da base da escadaria superior, vi uma figura alta surgindo da entrada lateral. Era Serg







