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Capítulo 9: Entre a Vida e o Passado

Author: Rosa Julião
last update publish date: 2026-09-25 08:17:51

O corredor do Hospital Albert Einstein cheirava a antisséptico. Eram cinco e quarenta da manhã quando Henrique chegou, com o coração disparado. Tinha dormido menos de três horas. Passou a noite dividido entre a culpa pela saúde da mãe e a humilhação de trabalhar para a mulher que podia, com uma assinatura, desligar os aparelhos.

Para a surpresa dele, Olívia já estava lá.

Estava sentada na sala de espera VIP, com um conjunto de tricô creme, um copo de café de papel nas mãos e os olhos fixos na p
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    Henrique ainda sentia na palma da mão o calor da mão de Olívia, aquele segundo em que a segurou no hospital, quando entrou no saguão da Torre Albuquerque. Estava decidido. Ia achar as provas contra Marcos, ia limpar o próprio nome e, de algum jeito, ia pedir perdão a Olívia por cada gota de sangue que ela deu pela mãe dele. O arrependimento queimava, mas a esperança de reconstruir alguma coisa, mesmo que a partir do zero, o empurrava para a frente.Mas o saguão não estava normal.Um bando de jornalistas bloqueava as portas giratórias, com microfones e flashes por todo lado. Os telões, que costumavam mostrar cotações e gráficos, exibiam agora uma foto granulada, em tom de sépia. Nela, uma Olívia bem mais jovem segurava um bebê no colo na porta de uma instituição de caridade. O olhar dela na foto não era o da empresária implacável. Era o de uma menina assustada, protegendo o que tinha de mais precioso.A manchete, em letras enormes, dizia:"A FACE OCULTA DE OLÍVIA ALBUQUERQUE: ABANDONO

  • Assine o Divórcio, Sr. Bittencourt   Capítulo 9: Entre a Vida e o Passado

    O corredor do Hospital Albert Einstein cheirava a antisséptico. Eram cinco e quarenta da manhã quando Henrique chegou, com o coração disparado. Tinha dormido menos de três horas. Passou a noite dividido entre a culpa pela saúde da mãe e a humilhação de trabalhar para a mulher que podia, com uma assinatura, desligar os aparelhos.Para a surpresa dele, Olívia já estava lá.Estava sentada na sala de espera VIP, com um conjunto de tricô creme, um copo de café de papel nas mãos e os olhos fixos na porta do centro cirúrgico. Não parecia a "Rainha de Gelo" do escritório. Parecia cansada. Quase frágil, debaixo daquela luz branca.- Sra. Albuquerque... - Henrique se aproximou, com a voz fraca. - A senhora chegou cedo.Olívia levantou os olhos. Não havia deboche, só seriedade.- Eu prometi ao seu avô que ia cuidar da Adelaide, Henrique. Diferente de você, eu não quebro promessa por conveniência nem por prazer.Henrique se sentou a duas cadeiras de distância.- O médico disse que as chances são

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    Na segunda-feira, o sol batia sem dó nos vidros da torre. No fim de semana, as letras no alto do prédio tinham sido trocadas: onde antes se lia "Bittencourt", agora estava escrito "Albuquerque". Para Henrique, aquele brilho parecia a luz de uma sala de interrogatório. Estava parado na entrada, com um terno azul-marinho que Ricardo lhe entregara de manhã. O corte era bom, mas não tinha a etiqueta personalizada de antes. No peito, preso num cordão de náilon barato, balançava o crachá novo.Não dizia "CEO". Dizia: Henrique B. - Assistente Executivo Júnior.- Você está três minutos atrasado, Henrique. - A voz de Sofia veio de trás dele, e ela não disfarçava o prazer. - A Sra. Albuquerque não tolera atraso. Muito menos de quem está em período de experiência.Henrique respirou fundo. Ele, que chegava quando bem entendia e era recebido com café quente e silêncio respeitoso, só assentiu.- Onde ela está?- Na sala principal. E ela quer um latte de aveia com meia colher de açúcar mascavo. Nem

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    A garoa que caía sobre São Paulo não lavava a vergonha de Henrique, mas bastou para encharcar o terno de três mil dólares, que agora pesava no corpo como um trapo molhado. Ele andava sem destino, com a caixa de madeira protegida debaixo do braço como se fosse a última coisa que o mantinha vivo. Os hotéis que antes o recebiam com tapete vermelho tinham recebido um recado claro: o crédito de Henrique Bittencourt tinha acabado.Perto da meia-noite, exausto e com a febre começando a embaralhar as ideias, ele viu o letreiro de neon de um abrigo comunitário perto da zona portuária. O cheiro de sopa rala e de mofo agrediu o nariz acostumado a outra vida, mas o corpo não deu opção.- Nome? - perguntou um voluntário de meia-idade, sem tirar os olhos da prancheta.- Henrique... - Ele hesitou. Ali dentro, dizer "Bittencourt" parecia quase um pecado. - Só Henrique.- Muito bem, "Só Henrique". Você tem direito a um colchão e um cobertor. A sopa acabou às nove. Guarde as suas coisas no armário, se

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    A caneta de ouro em cima da mesa parecia pesar uma tonelada. Henrique leu o documento: uma confissão detalhada de adultério, negligência e má gestão. Se assinasse, o nome dele ia parar em todos os jornais de economia do mundo. Nunca mais seria chamado para um conselho. Deixaria de ser o "Bilionário de Gelo" para virar o pária do mercado.- O tempo está correndo, Henrique. - Olívia olhou o relógio no pulso, um Patek Philippe que Henrique tinha dado de presente a Clara no Natal e que ela havia recolhido do cofre da empresa naquela manhã. - Faltam sete minutos para o hospital suspender o crédito da sua mãe. Imagino que o oxigênio dela não seja barato.- Você virou um monstro, Olívia. - A voz dele tremia de raiva e desespero. - Nunca imaginei que a mulher que me levava chá todas as noites fosse capaz de uma crueldade dessas.Olívia se inclinou para a frente, com as mãos cruzadas sobre a mesa.- Eu não virei monstro nenhum. Só parei de ser a sua empregada. Durante três anos, fui o seu escu

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    O asfalto de São Paulo queimava através da sola dos sapatos italianos de Henrique. Ele continuava parado na calçada, no meio dos paparazzi, que se juntavam como urubus em volta do que tinha sobrado de um império. No dia anterior, era o rei daquela calçada. Agora, os seguranças que ele mesmo tinha contratado barravam a sua entrada no prédio que ainda levava o seu sobrenome no alto.- Saiam da frente! - gritou para os jornalistas, mas a voz já não pesava como antes. Sem os assessores e sem o vidro da torre para protegê-lo, Henrique era só um homem de terno caro debaixo de um sol forte demais.- Sr. Bittencourt! É verdade que a sua ex-mulher é a nova dona da empresa? - perguntou uma repórter, esticando o microfone.- Como é ser posto para fora pela "esposa troféu", Henrique? - debochou outro.Ele ignorou e pegou o celular. Na tela, a mensagem desesperada de Dona Adelaide, a mãe dele. O Hospital Albert Einstein não brincava com pagamentos. Sem a garantia da conta corporativa, que Olívia t

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