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Capítulo 4

Autor: João Beijão
No dia seguinte, assim que soube que a casa havia sido colocada à venda, Francisco voltou às pressas. Assim que chegou, me puxou bruscamente para longe das malas.

— Gabriela, o que significa isso? Você vendeu a nossa casa? Ficou louca?

Todas as emoções que eu vinha reprimindo finalmente explodiram. Soltei uma risada fria e, sem conseguir me conter, ergui a mão e lhe dei um tapa no rosto.

"Casa? Ele ainda tinha coragem de chamar aquilo de casa."

— Francisco, foi divertido me fazer de idiota durante todo esse tempo?

As marcas dos meus cinco dedos logo apareceram em seu rosto, mas Francisco não se irritou.

Em vez disso, como sempre fazia depois de uma briga entre nós, foi o primeiro a suavizar o tom.

— Terminou? Já passou a raiva? Eu admito que errei ao mentir para você. Mas foram sete anos, Gabriela. Não dá para simplesmente acabar com tudo de uma hora para outra. Eu devo a minha vida a você. Foi você quem me curou. Como eu poderia realmente trair você?

Eu não queria ouvir mais nenhuma daquelas palavras hipócritas e me virei para ir embora.

Francisco, porém, bloqueou meu caminho e, de repente, perdeu o controle, me prendendo com força em seus braços.

— Leonor é filha do vice-presidente da empresa. Quando o pai dela morreu, ele me pediu que cuidasse dela. Eu admito que fui um canalha e acabei me envolvendo com ela... Também pensei em terminar, mas Leonor sofre de um grave transtorno de ansiedade. Sempre que falo em acabar com tudo, ela ameaça se machucar. Eu simplesmente não consigo ficar de braços cruzados e deixar que alguma coisa aconteça com ela. — Ele enterrou o rosto nos meus cabelos. — Gabriela, nunca pensei em me separar de você. Você e Leonor são mulheres maravilhosas, são as duas pessoas com quem mais me importo. Não quero magoar nenhuma de vocês. Finja que nunca soube de nada. Podemos continuar vivendo como antes. Eu vou cumprir todas as minhas responsabilidades, e nada vai lhe faltar. Está bem?

Senti tanto nojo daquelas palavras que nem consegui responder.

Francisco, porém, interpretou meu silêncio como se eu tivesse cedido. Se levantou e seguiu em direção à cozinha:

— Você passou o dia inteiro ocupada e com certeza ainda não comeu. Vou preparar a moqueca que você gosta.

Mal havia entrado na cozinha quando um estrondo ecoou pela casa. Henrique tinha acabado de arrombar a porta da frente com um chute.

Antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo, Renata avançou sobre mim e me deu um tapa com toda a força.

— Gabriela! O que você fez com o bebê?

Leonor veio logo atrás e caiu de joelhos diante de mim.

— Dra. Gabriela, por favor, devolva o meu bebê! Eu devolvo Francisco para você, só peço que não faça mal ao meu filho...

Toda a ternura desapareceu instantaneamente do rosto de Francisco.

— O que você disse? A criança sumiu?

— Leonor levou o bebê para tomar vacina há pouco. Assim que terminou de pagar e voltou, alguém já tinha levado a criança! — Gritou Renata, com os olhos vermelhos. — Quem mais, além dela, sequestraria um bebê que acabou de completar um mês?

Ao ouvir aquilo, as veias na testa de Francisco ficaram salientes. Ele avançou sobre mim e apertou meu pescoço com toda a força.

— Foi você que mandou alguém pegar o bebê? Gabriela, você enlouqueceu?

Parecia que meu pescoço seria esmagado. Tentei desesperadamente arrancar os dedos dele de mim e consegui dizer, com a voz rouca:

— Não fui eu... Sou médica. Como eu poderia sequestrar uma criança?

Desabada no chão, Leonor chorava aos gritos:

— Por favor, Dra. Gabriela... Se alguma coisa acontecer com o meu filho, eu também não vou conseguir continuar vivendo...

Francisco me arremessou para o lado. Seus olhos estavam vermelhos de fúria.

— Então fale de uma vez!

— Eu já disse que não fui eu! Por que vocês simplesmente se recusam a acreditar em mim?

— Quem mais poderia ter sido?

Henrique permanecia ao lado, e no rosto daquele que um dia havia me defendido com unhas e dentes agora só havia frieza.

— Mana, se você continuar se recusando a dizer a verdade, vou ter que resolver isso pela via judicial!

Quando balancei a cabeça, Renata perdeu de vez a paciência. Me agarrou pelos cabelos e me arrastou até o depósito.

Com movimentos precisos, abriu o armário, pegou o desfibrilador, retirou os adesivos dos eletrodos e os pressionou contra o meu corpo:

— Gabriela, eu realmente me enganei a seu respeito! O bebê acabou de completar um mês! Como você teve coragem de fazer uma coisa dessas? Você não vai mesmo falar? Vai mesmo me obrigar a fazer isso com você?

Ela sabia que meu maior medo era levar choques. Sabia exatamente como me forçar a dizer a verdade.

"Mas como eu poderia confessar algo que nunca fiz?"

— Gabriela, foi você quem nos obrigou a chegar a esse ponto! — Com a paciência esgotada, Renata apertou o botão de descarga sem hesitar.

A corrente elétrica atravessou meu corpo com violência. Meu corpo inteiro se arqueou como uma marionete cujos fios haviam sido rompidos e, em seguida, despencou no chão.

Minha nuca bateu com força contra o piso, e minha visão ficou completamente branca por um instante. Logo depois, senti um líquido morno escorrer pela parte interna das minhas coxas.

Todos ficaram paralisados.

— Gabriela, você...

Naquele instante, porém, a voz de um policial veio da sala:

— É a Srta. Renata? Encontramos a criança! Pedimos que os familiares retornem ao hospital o mais rápido possível.

Com um baque, o desfibrilador caiu no chão.

O alívio e a alegria imediatamente se espalharam pelo rosto de todos. Na ânsia de sair, quase se atropelaram ao deixar o cômodo e correr para fora de casa.

Ninguém sequer olhou para trás. Eu apenas fiquei ali, imóvel, observando a mancha escarlate se espalhar cada vez mais pelo meu vestido enquanto as lágrimas caíam.

Algumas horas depois, eles voltaram com o bebê nos braços.

Assim que entraram na sala, viram o sangue espalhado pelo chão, o laudo do exame médico e o pen drive deixados sobre a mesa.

O bolo de morango que haviam trazido para pedir desculpas caiu no chão.

Com movimentos rígidos, Francisco pegou o laudo. No mesmo instante, seu rosto perdeu toda a cor.

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