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A música começou baixa, quase contida, e Valentina sentiu o corpo entrar no movimento antes mesmo de pensar. A coreografia começava com distância. Ela de um lado, Alexander do outro, os dois avançando em trajetórias diferentes como se pertencessem a histórias separadas. Durante semanas, Marcelo havia insistido que aquela primeira parte precisava parecer resistência, não indiferença. Agora Valentina entendia exatamente a diferença. Alexander se aproximou primeiro. Ela recuou. Ele estendeu a mão e Valentina passou por ele sem aceitar. O movimento era conhecido, ensaiado dezenas de vezes, mas naquela noite carregava outra coisa. Cada separação parecia dizer o que os dois haviam tentado fazer fora do gelo. Cada reencontro parecia lembrar que, apesar de tudo, continuavam voltando ao mesmo lugar. A música ganhou força. Valentina acelerou. Alexander acompanhou. Entraram na primeira sequência de passos em perfeita sincronia. Mudança de direção, cruzamento, giro, separação rápida e reenco
Samuel e Helena Prado entraram no gelo poucos minutos depois.Valentina assistiu à apresentação ao lado de Alexander e Marcelo, tentando manter a cabeça na competição, mas havia outra coisa ocupando espaço demais dentro dela. Aquele quase abraço depois da nota. A mão de Alexander parando no meio do caminho. O cuidado exagerado em respeitar cada limite que ela havia imposto.Era isso que ela queria.Então por que parecia tão errado?Samuel e Helena fizeram uma apresentação forte. Limpa, precisa, segura. Quando a nota apareceu, ficaram poucos décimos atrás de Valentina e Alexander.Alexander soltou o ar devagar.— Continuamos em primeiro.Marcelo cruzou os braços.— Provisoriamente.— Você consegue estragar qualquer momento.— É meu trabalho.Valentina sorriu de leve, mas a tensão voltou quase imediatamente. O programa longo seria decisivo. Ali não haveria espaço para distração.No restante do dia, Marcelo manteve os dois longe do gelo. Queria recuperação física, descanso e concentração
Valentina acordou antes do despertador e demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto do hotel, a competição, Rafael oferecendo uma parceria para a próxima temporada, Alexander dizendo que respeitaria qualquer decisão. Tudo voltou de uma vez.Ela ficou olhando para o teto.Era estranho como, durante semanas, desejara exatamente isso: que Alexander parasse de insistir, parasse de invadir seu espaço, parasse de agir como se pudesse consertar tudo. Agora que ele finalmente havia entendido, alguma coisa nela parecia revoltada com a própria conquista.Levantou, tomou banho e se vestiu sem pressa. Quando chegou ao café, encontrou Marcelo e Helena, mas nenhuma sinal de Alexander.— Ele já desceu? — perguntou.Helena olhou para ela por cima da xícara.— Foi caminhar.Valentina tentou parecer indiferente.— Antes da competição?— Disse que precisava clarear a cabeça.Marcelo continuou comendo como se não tive
A cidade parecia diferente da primeira regional. Talvez porque agora Valentina soubesse exatamente o que estava em jogo. Na chegada ao hotel, não houve provocações, mãos dadas ou comentários sobre quem dormiria no quarto de quem. Alexander pegou a própria mala, Valentina carregou a dela, e os dois seguiram atrás de Marcelo e Helena como dois atletas disciplinados demais para alguém que, poucas semanas antes, mal conseguia ficar no mesmo ambiente sem
As três semanas seguintes foram as mais estranhas desde que Valentina e Alexander haviam se tornado uma dupla. Eles treinavam todos os dias. Faziam os mesmos movimentos, repetiam os mesmos levantamentos, dividiam o mesmo espaço e continuavam funcionando de uma maneira que irritava Valentina justamente porque nada no gelo parecia ter quebrado de verdade. Fora dele, porém, existia uma distância impossível de ignorar. Alexander respeitou cada regra. Não apareceu na casa dela. Não mandou mensagens que não fossem sobre treino. Não tentou conversar sobre o relacionamento. Não tocou nela além do necessário. Quando Helena pediu fotos promocionais, ele manteve distância suficiente para parecer profissional. Quando jornalistas perguntaram sobre o namoro, respondeu apenas que os dois estavam focados na temporada. Valentina havia pedido exatamente aquilo. Ainda assim, começou a perceber o silêncio. Antes, Alexander estava em toda parte. Uma provocação antes do trei
Valentina levou dois dias para dar uma resposta.Dois dias sem Alexander, sem mensagens, sem treinos em dupla e sem qualquer tentativa de Marcelo de pressioná-la. Ela precisava daquele silêncio para entender se queria realmente abandonar a temporada ou se estava tentando abandonar Alexander.A diferença parecia pequena.Não era.Na manhã do terceiro dia, voltou ao rinque antes do horário normal e encontrou Marcelo sozinho, sentado próximo à pista com uma caneca de café e uma pasta aberta sobre o colo. Ele ergueu os olhos assim que a viu.— Já decidiu?Valentina colocou a bolsa no banco.— Quero continuar.Marcelo não sorriu imediatamente.— Com Alexander?Ela respirou fundo.— Até o fim da temporada.A resposta parecia ensaiada porque era. Havia repetido aquelas palavras inúmeras vezes em casa.— Só profissionalmente — continuou. — Nada de namoro falso. Nada de entrevista sobre relacionamento. Nada de beijo para câmera, evento romântico, foto agarrada ou qualquer outra exigência do pa







