INICIAR SESIÓNLuna sente a respiração falhar.
Quase cinco mil libras.
Ela aperta o papel com cuidado, como se aquilo pudesse desaparecer se fosse brusca demais.
Babá...
Apesar de sua mãe ter tido um abrigo, após elas se mudarem para NY, Luna não teve contato com outras crianças. Muito menos quando estava mais velha.
Mas por cinco mil euros mensais, Luna estava disposta a ser babá até de cachorro.
O endereço chama sua atenção. Chelsea. Um dos bairros mais caros de Londres.
— Isso só pode ser brincadeira… — murmura.
Ela vira o papel, esperando encontrar alguma explicação, um nome, qualquer coisa. Mas há apenas um detalhe a mais, escrito à mão no rodapé:
“Compareça hoje, às 19h. Pergunte por Sebastian Hale.”
O café já esfriara em suas mãos, esquecido. Aquele trabalho não era dela. Nunca fora. O envelope tinha dono. Dona. A mulher apressada. A verdadeira candidata.
— Não é meu… — sussurra, mais para se convencer do que por certeza.
Ela imagina a mulher voltando à cafeteria, percebendo o envelope perdido, o desespero ao lembrar da entrevista. Imagina alguém como ela, contando moedas, agarrando-se àquela oportunidade como a última boia em mar aberto.
Luna fecha os olhos por um instante.
Roubar o emprego de outra pessoa.
A ideia a faz se contorcer por dentro.
Mas então o pensamento inevitável volta, cruel e insistente: o bilhete na geladeira. 05/05. Suas coisas na calçada. O aluguel atrasado. O último dinheiro gasto naquele café superfaturado.
Ela abre os olhos.
— E quem vai me roubar se eu não for? — murmura, amarga.
Talvez a mulher nem fosse à entrevista. Talvez tivesse desistido. Talvez já tivesse algo melhor. Talvez aquele envelope não fosse mais importante para ela.
Luna passa os dedos pelo papel mais uma vez, sentindo a aspereza agora como um aviso. Aquilo podia dar errado.
Mas também podia ser tudo o que ela precisava.
Ela dobra o papel com cuidado e o guarda novamente no envelope. Olha ao redor da cafeteria, para as pessoas elegantes, tranquilas, que nunca precisaram escolher entre dignidade e sobrevivência.
O relógio na parede marca 17h42.
Ela tinha pouco mais de uma hora para decidir se iria até Chelsea.
[...]
Luna desce na estação mais próxima de Chelsea e logo percebe que algo está errado.
Não havia movimento. Nem lojas. Nem o burburinho típico da cidade. Apenas ruas largas, árvores altas e casas escondidas atrás de muros e portões imponentes.
Ela confere o endereço no papel pela terceira vez.
— É por aqui… — murmura.
O restante do caminho ela teria que fazer a pé.
O céu já começa a escurecer. Luna ajeita a bolsa no ombro e começa a caminhar.
A cada quarteirão, as construções ficam maiores. Portões de ferro. Jardins extensos. Câmeras discretas presas aos muros.
“Talvez eu esteja cometendo um erro enorme.”
Ela pensa em voltar. Mais de uma vez. Mas então o rosto da gerente da Maison Ardent surge em sua mente. O bilhete na geladeira. O número escrito no papel: 4.800 libras.
Luna segue.
Quando finalmente chega, precisa parar.
À sua frente, ergue-se uma mansão afastada da rua, protegida por um portão negro de ferro trabalhado. O nome Hale está gravado discretamente em uma placa de metal ao lado do interfone.
Ela ergue a mão, hesita por um segundo… e aperta o botão do interfone.
O silêncio se prolonga.
Então, um clique.
— Sim? — uma voz masculina surge.
— Boa noite… — começa, sentindo a garganta seca. — Meu nome é Luna Clarke. Eu vim por causa da vaga de babá.
Há uma pausa do outro lado.
Longa demais.
— Espere aí. — diz a voz, por fim.
O portão começa a se abrir lentamente, rangendo baixo.
Luna dá os primeiros passos para dentro da propriedade e percebe que o caminho até a mansão é muito mais longo do que imaginara. Uma estrada de pedra clara serpenteia por um jardim amplo, perfeitamente cuidado, iluminado por postes baixos que lançam uma luz amarelada e fria ao mesmo tempo.
Ela caminha devagar e então vê uma mulher vindo da direção oposta.
Ela caminha rápido, quase tropeçando, como se estivesse fugindo. Os cabelos estão presos de qualquer jeito, a maquiagem borrada. Os olhos inchados e vermelhos denunciam o choro recente. Quando se aproxima, a mulher diminui o passo e encara Luna com intensidade demais para uma desconhecida.
— Você… — a voz sai rouca. — Vai entrar?
Luna para instintivamente.
— Eu… vim por causa da vaga — responde, insegura.
A mulher solta uma risada curta, sem humor algum. Um som quebrado.
— Não faça isso consigo mesma. — diz, aproximando-se mais um pouco. — Dá meia-volta. Vai embora enquanto ainda pode.
Luna engole em seco.
— Por quê?
A mulher passa a mão pelo rosto, nervosa, como se tentasse apagar algo que não sai.
— Essa casa... aquela criança... eles vão te enlouquecer. Ele também. Ele é... cruel.
Ela encara a mansão ao fundo e volta a encarar a mulher.
— Ele?
A mulher não responde.
Por um segundo, parece lutar contra algo dentro de si. Seus lábios se abrem, como se fosse dizer mais alguma coisa, mas nenhuma palavra sai. Em vez disso, ela apenas balança a cabeça, num gesto derrotado.
— Vá embora… — murmura, já se afastando. — Enquanto ainda consegue.
E então segue apressada pelo caminho de pedras, sem olhar para trás, os passos cada vez mais rápidos até desaparecer na escuridão que levava ao portão.
Luna permanece parada por alguns segundos. Ela olha para a mansão outra vez.
Talvez a mulher estivesse exagerando. Cansada. Frustrada. Desesperada como ela própria estivera horas antes.
— As pessoas enlouquecem por menos… — murmura para si mesma, tentando racionalizar.
Luna respira fundo, ajeita a bolsa no ombro e retoma o caminho.
Quando finalmente alcança as portas principais, duas folhas altas de madeira escura com detalhes em metal, ela sente um arrepio percorrer sua espinha. Ergue a mão, hesita apenas um instante… e b**e.
A porta abre lentamente. Uma mulher de meia-idade surge no vão. Uniforme impecável, postura rígida, olhar atento que a analisa da cabeça aos pés em um segundo calculado.
— Eu sou...
Luna tenta se apresentar, mas a empregada a interrompe.
— Eu sei. A babá. Entra. Ele está esperando.
O coração de Luna começa a bater forte demais. Há algo errado. Muito errado. Mas tudo acontece rápido demais para que ela consiga formular qualquer pergunta coerente.
[ANOS DEPOIS]O verão londrino havia chegado com um céu intensamente azul e um sol generoso que banhava os imensos jardins da mansão Hale. Os tempos sombrios de escândalos, tribunais e ameaças pareciam parte de uma vida passada, completamente soterrados pela felicidade e pela paz que a família finalmente havia conquistado.Naquele dia, a propriedade estava em festa. Balões em tons de azul e prata decoravam os gramados perfeitamente aparados, onde risadas de crianças e o som de conversas animadas preenchiam o ar. Era o aniversário de doze anos de Oliver.O garoto, que agora exibia o início de uma postura firme e decidida que lembrava muito a de Sebastian, corria pelo jardim com seus amigos da escola, celebrando a nova idade com a energia de quem se sentia profundamente amado e seguro.O tema da festa não poderia ser outro: futebol. Oliver era completamente apaixonado pelo esporte, jogava nas categorias de base locais e o gramado da mansão havia sido transformado em um verdadeiro campo
Os passos apressados da equipe técnica e o falatório baixo dos produtores finalmente começaram a desaparecer pelos corredores da mansão Hale. Margaret guiava os jornalistas e os cinegrafistas até a porta principal, garantindo que nenhum detalhe da intimidade da família permanecesse exposto após o encerramento da transmissão.O silêncio que se instalou na imensa sala de estar era quebrado apenas pelo estalo baixo da lareira. Finalmente, os quatro estavam sozinhos: Benjamin, Lucrécia, Sebastian e Luna.Lucrécia foi a primeira a quebrar a rigidez que exibia diante das câmeras. Soltando um longo suspiro de alívio que fez seus ombros relaxarem, ela se levantou do sofá de veludo. Suas mãos, que antes seguravam discretamente um lenço, agora se moveram com elegância enquanto ela caminhava em direção ao aparador que servia como minibar no canto da sala.— Meu Deus, eu achei que meu coração fosse sair pela boca — ela comentou, a voz recuperando o tom aristocrático enquanto pegava uma garrafa de
— Serena sabia perfeitamente que a mídia já estava vigiando cada passo nosso desde que ela havia "voltado dos mortos". Ela sabia que a imprensa faria um circo se uma história de abandono de incapaz envolvendo os Hale viesse à tona. Seria a nossa aniquilação completa. Então, ela mostrou um teste de DNA para a Luna e deu um ultimato: se ela não pegasse as suas coisas e sumisse definitivamente das nossas vidas, aquela seria a versão que ela venderia para os tabloides no dia seguinte.Luna baixou os olhos por um segundo, engolindo em seco ao relembrar a dor daquele dia. Sebastian olhou para ela antes de prosseguir.— E Luna, com aquele coração puro e querendo proteger a todos nós da destruição, sacrificou a própria felicidade. Ela simplesmente pegou as suas coisas e se foi, desaparecendo sem deixar rastros.Dentro do presídio, as detentas começaram a murmurar alto, os olhares sobre Serena tornando-se cada vez mais pesados. Serena segurava as grades imaginárias da TV, o suor frio escorrend
— Boa tarde a todos — Sebastian começou, dando um passo a frente. — Eu entendo perfeitamente que os olhos do mundo inteiro estão voltados para a minha família desde o momento em que a minha ex-esposa, Serena, reapareceu publicamente, depois de passar anos sendo dada como morta. Quando ela retornou, ela nos contou uma história terrível. Nós acreditamos quando ela afirmou que havia sido mandada para outro país e usada como mercadoria humana, em uma suposta troca para que o nosso filho, Oliver, fosse devolvido daquele sequestro.Na tela, Sebastian fez uma pausa e soltou um suspiro pesado, o maxilar trincando por um breve segundo ao reviver a linha de mentiras em que havia caído. Ao sentir a tensão dele, Luna, do seu lado, pousou a mão delicadamente sobre o braço dele, murmurando com suavidade:— Fique calmo...Sebastian sentiu o toque dela, respirou fundo e continuou, olhando fixamente para a lente da câmera:— Nós lhe demos abrigo, demos o benefício da dúvida. Mas os meses foram se pass
O cheiro forte de desinfetante barato e umidade impregnava o ar do pavilhão C do presídio feminino de segurança máxima. Era uma sexta-feira cinzenta, e a rotina dentro do complexo seguia com a sua habitual e sufocante monotonia. Para as detentas, os dias eram medidos pelos horários rígidos das refeições, pelas trocas de turno das carcereiras e pelas horas obrigatórias de trabalho forçado para garantir alguma redução de pena.Naquela tarde, Serena estava encarregada da manutenção da sala comunitária, um espaço amplo e frio com algumas cadeiras de plástico enfileiradas e uma televisão antiga presa ao teto por um suporte de ferro.Com um pano encardido em uma das mãos e um balde de água suja aos seus pés, ela esfregava sem o menor entusiasmo a superfície de uma das mesas. A televisão estava ligada em um canal de notícias local, o som baixo servindo apenas como um ruído de fundo para o falatório de outras presas que circulavam pelo corredor, mas Serena não prestava a menor atenção à tela.
Luna pegou um casaco confortável para proteger a si e à barriga do vento frio de Manhattan, e os dois saíram da kitnet. Ao passarem pela portaria, Sebastian fez questão de cumprimentar o porteiro com um aceno de cabeça e um sorriso discreto.Eles começaram a caminhar lado a lado pelas calçadas de Staten Island em direção ao carro de Sebastian, que estava estacionado um pouco mais à frente, bem na porta da padaria de Mariane. Conforme se aproximavam do estabelecimento, Sebastian olhou de relance para a fachada de vidro e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.— Acredita que eu tenho vindo nessa padaria a semana inteira? -- ele comenta. -- Eu ficava sentado ali, da sete da manhã até o meio-dia, tomando um café e esperando por você, rezando para ver você passar por aquela porta. E justamente hoje, a única sexta-feira em que eu me atrasei por causa de um brinquedo que Oliver perdeu, você resolveu aparecer.Naquele mesmo segundo, a mente de Luna fez um estalo e todas as peças do que







