FAZER LOGINDois anos atrás.
A batida na porta veio cedo demais. — Raika, Raika… A voz da minha mãe atravessou a madeira como se o mundo estivesse acabando. Eu enterrei o rosto no travesseiro e grunhi. Acordar um adolescente no fim de semana deveria ser crime. Abri a porta de mal humor, cabelo bagunçado, short de dormir curto demais e o sutiã torto. — O que foi, mãe? Alguém morreu? Ela cruzou os braços, o olhar de sempre: metade carinho, metade cobrança. — Não acredito que você se esqueceu. Seu tio chega hoje para morar conosco. Seu pai pediu para estarmos todos reunidos. Levantei a mão, interrompendo. — Entendi. Vou me arrumar. Quando ele chegar estarei lindíssima e de braços abertos. O sarcasmo saiu solto. Ela balançou a cabeça, fechou a porta e me deixou sozinha com o coração já acelerado por motivo nenhum. A última vez que vi Kevin eu tinha dez anos. Lembrava só de um homem alto que cheirava a cigarro e a madeira, que me dava presentes caros e sumia por meses. Agora ele vinha morar aqui. Em Brasília. Na mesma casa. No quarto de frente ao meu. Tomei banho rápido, escolhi um vestido florido curto, fresco o bastante para o calor escaldante, e desci a escada. As vozes na sala me atingiram antes mesmo de eu virar a esquina. Meu pai ria. Minha mãe falava alto demais. E então eu o vi. Um metro e noventa. Cabelos castanhos escuros, barba por fazer, olhos cor de mel iguais aos do meu pai, mas mais escuros, mais perigosos. O corpo era o que me prendeu: ombros largos, braços marcados sob a camisa preta, cintura estreita, pernas longas. Pecado em pessoa. Deus grego que a família chamava de tio. Meu pai me puxou pela mão. — Desceu na hora certa, filha. Seu tio acabou de chegar. Kevin se virou. O olhar desceu por mim uma fração de segundo a mais do que deveria — vestido curto, pernas à mostra, cabelo loiro ainda úmido — e depois subiu de novo, educado, distante. Ele sorriu com a boca, não com os olhos. — Raika. Cresceu. A voz era grave, baixa, o tipo de voz que fazia a pele arrepiar. Eu respondi alguma coisa educada, mas por dentro o sangue já batia diferente. Naquele instante eu não era mais a filha única mimada que reclamava de acordar cedo. Eu era uma menina de dezesseis anos olhando para o homem que, daquela hora em diante, iria ocupar cada pensamento sujo que eu ainda não sabia que tinha. O quarto dele ficava bem em frente ao meu. Só um corredor estreito e uma porta separavam nós dois. Eu ouvia a água do banheiro quando ele tomava banho. Sentia o cheiro do aftershave quando ele passava. À noite, deitada na cama, eu ficava imaginando se ele dormia de camiseta ou sem. A primeira semana passou numa tensão silenciosa. Ele trabalhava no escritório do meu pai, saía cedo, voltava tarde. Eu inventava desculpas para cruzar o corredor na hora certa. Ele me tratava com educação excessiva, como se eu fosse de cristal. Eu provocava com olhares longos demais, com perguntas inocentes que não eram inocentes, com o corpo sempre um pouco mais à mostra do que o necessário. Ele desviava. Sempre desviava. Na sexta-feira à noite eu o convidei para o luau no Pontão do Lago. Meus amigos iam. Música, fogueira, lago escuro, cerveja escondida. Ele aceitou com um meio sorriso, como se estivesse fazendo um favor à sobrinha. Às sete e meia alguém bateu na porta do meu quarto. — Entra — gritei, achando que era minha mãe. A porta se abriu. Kevin parou no vão. Eu estava só de calcinha preta e sutiã, o cabelo solto, o corpo ainda úmido do banho. O olhar dele desceu, travou, subiu de novo. As maçãs do rosto escureceram. Ele virou o rosto para a parede tão rápido que quase bateu a cabeça. — Sua… mãe pediu para te chamar — a voz saiu rouca, quebrada. Eu agarrei a toalha, o rosto queimando, o coração disparado. — Desculpa, tio. Achei que fosse ela. Ele saiu sem olhar para trás. Fechei a porta e me apoiei nela, respirando pela boca. A vergonha misturada com algo quente e sujo entre as pernas. Eu tinha visto o desejo no olhar dele, mesmo que por um segundo. E isso mudou tudo. No luau ele ficou deslocado. Meus amigos tinham entre dezesseis e vinte anos; ele, vinte e sete, alto demais, sério demais, bonito demais. Bebeu uma cerveja, conversou pouco, depois sumiu entre as árvores dizendo que ia dar uma volta. Combinamos de nos encontrar duas horas depois em frente ao carro do meu pai. Eu me despedi dos amigos e segui o caminho de terra entre as árvores. O ar cheirava a lago e a fogueira. O som da música ficava cada vez mais distante. E então eu o vi. Kevin estava encostado numa árvore, uma mulher colada nele. Loira, mais velha, vestido curto. As mãos dela desciam pela camisa dele, entravam pela cintura da calça. A boca deles se devorava sem pudor. Beijo molhado, profundo, o tipo de beijo que faz barulho. Ele a puxou pelo cabelo, virou o rosto dela e mordeu o pescoço. A mão dela desceu mais, apertou a frente da calça dele. Eu ouvi o gemido baixo que ele soltou. Fiquei escondida atrás de um tronco, o peito subindo e descendo rápido demais. O calor subiu pelo estômago, espalhou entre as pernas, apertou a garganta. Eu queria ser aquela mulher. Queria aqueles dedos nos meus cabelos, aquela boca na minha, aquele gemido por minha causa. O desejo veio sujo, urgente, proibido. Eu apertei as coxas uma contra a outra e senti a calcinha úmida. Eles se separaram. Trocaram números. Ela riu baixo e sumiu entre as árvores. Kevin ficou sozinho, ajustando a camisa, a respiração ainda pesada. Eu dei um passo para trás. O galho quebrou sob o meu pé. O estalo ecoou como um tiro. Ele se virou. Os olhos cor de mel me encontraram no escuro. O rosto passou de prazer residual para choque em menos de um segundo. — Raika? A voz saiu baixa, perigosa. Ele veio em minha direção com passos largos. Eu engoli seco, inventei a mentira na hora. — Eu… estava indo para o carro. Coincidência. Ele parou a um metro de mim. O cheiro dele — madeira, suor, perfume da mulher — me atingiu em cheio. Os olhos desceram pela minha boca, pelo meu pescoço, pelo vestido curto, e voltaram. Havia raiva ali. Havia vergonha. E havia algo mais escuro que nenhum dos dois queria nomear. — Hum. Sei. — Ele passou a mão pelo cabelo, a mandíbula travada. — Vamos. Já está tarde. Seu pai deve estar preocupado. — Sim, titio. A palavra saiu doce demais, provocadora demais. Ele me lançou um olhar afiado, mas não respondeu. Viramos juntos em direção ao carro. Eu caminhava meio passo atrás, o corpo ainda latejando, a imagem da mão daquela mulher na calça dele gravada atrás dos olhos. No banco do passageiro eu apertei as mãos no colo até as unhas doerem. O silêncio dentro do carro era denso, carregado. Kevin dirigia com os dedos firmes no volante, o olhar reto na estrada, a respiração ainda um pouco irregular. Eu olhei de lado, vi o perfil dele cortado pela luz dos postes, a boca ainda um pouco inchada do beijo, e senti o desejo subir de novo, mais forte, mais teimoso. Quando o carro parou na frente de casa, ele desligou o motor e ficou alguns segundos parado, as duas mãos no volante, como se precisasse se recompor. Eu abri a porta, desci, e antes de fechar me virei. — Boa noite, tio. Ele me olhou por cima do ombro. Os olhos mel estavam mais escuros. — Boa noite, Raika. Eu subi as escadas sem olhar para trás. Entrei no quarto, fechei a porta, tirei o vestido e fiquei só de calcinha de novo. O espelho me devolveu a imagem: cabelo loiro bagunçado, olhos azuis brilhantes demais, boca entreaberta, peito subindo rápido. Eu passei a mão pela própria garganta, desci até o peito, apertou o tecido úmido entre as pernas e soltei um gemido baixo, abafado pelo travesseiro. Do outro lado do corredor, a porta do quarto dele se fechou com um estrondo seco. Eu sorri no escuro, os dedos ainda apertando a calcinha, o coração batendo tão forte que doía no peito, e murmurei para mim mesma, a voz rouca de desejo e decisão: — Ele vai ser meu. E eu não vou esperar mais dois anos para provar esse beijo.Bárbara Eu só queria segurar meu filho nos braços e finalmente sentir que a tempestade tinha acabado, mas as contrações rasgavam meu corpo, o medo de algo dar errado ainda latejava e a memória de tudo o que eu tinha sido ameaçava roubar a pureza daquele momento. As dores vinham em ondas brutais. Eu gritava. Anderson dirigia como um louco, uma mão no volante e a outra apertando a minha com força. Cada contração era uma faca quente atravessando a barriga. Eu não entendia como ninguém tinha me avisado que doía daquele jeito. O carro parou em frente ao hospital. Anderson me pegou no colo. Vi o desespero nos olhos dele enquanto os enfermeiros me colocavam na maca. Ele ficou do lado de fora da sala de parto, as mãos no cabelo, andando de um lado para o outro. Dentro da sala eu gritava, chorava, xingava o mundo. O médico repetia: — Faz força, mamãe. Estamos quase lá. Calma. Calma? Se ele falasse aquilo mais uma vez eu ia pular da mesa. Empurrei com tudo o que restava de mim. Um grito fin
Anderson O que a Liza quer agora? Depois de anos sumida, ela escolhe exatamente o momento em que eu finalmente respirei. No carro, vi o olhar de Bárbara mudar quando o nome apareceu na tela. Ela não perguntou nada, mas o silêncio dela foi pior que qualquer acusação. Eu não podia explicar. Não agora. Não ia estragar o que a gente tinha acabado de construir. Chegamos em casa. Bruna e Léo esperavam na sala com sorrisos. Cumprimentei rápido e fui direto para o escritório. Tranquei a porta, sentei na cadeira e disquei o número com a mão já trêmula. — O que você quer? A voz dela saiu doce e venenosa ao mesmo tempo. — Oi, Anderson. Quanto tempo, não é? Vejo que depois de matar a minha irmã você está bem feliz. Até casou de novo. O estômago revirou. — Some da minha vida. Eu fiquei anos preso nisso. Eu não matei a Sabrina. Passei muito tempo sem ser feliz. Agora encontrei alguém e quero viver. Ela riu baixo, cruel. — Você realmente acredita que o filho que essa Bárbara espera é seu?
Bárbara Eu só queria viver aqueles dias em Angra como uma mulher comum, amada e segura, sem o fantasma do passado soprando no meu ouvido, mas a felicidade ainda era recente demais e qualquer sombra — como o nome de uma mulher desconhecida no celular do meu marido — bastava para fazer o peito apertar de medo. Quando o carro parou em frente à pousada, quase perdi o fôlego. O mar estava colado no horizonte, azul-escuro batendo nas pedras. As árvores inclinadas pelo vento carregavam o cheiro de sal e terra molhada. Anderson observava meu rosto com um sorriso discreto. — Este lugar é um paraíso — murmurei, ainda de boca entreaberta. — Você merece muito mais, querida. Ele me beijou com calma, depois desceu a cabeça e pousou os lábios sobre a barriga de quatro meses. O bebê se mexeu, como se respondesse. Anderson riu baixo contra a minha pele. — Agora vamos para o quarto. Não vamos desperdiçar nem um segundo. O beijo no meu pescoço me arrepiou inteira. Ri e deixei que ele me guiasse.
Bárbara Eu só queria atravessar aquele corredor de cabeça erguida, dizer “aceito” sem a voz falhar e começar uma vida limpa ao lado do homem que me escolheu apesar de tudo, mas o peso do passado, a ausência da minha mãe e o medo de que a felicidade ainda pudesse ser arrancada de mim faziam meu coração bater como se eu estivesse prestes a cair. Olhei para o espelho e quase não me reconheci. Os olhos brilhavam. A maquiagem estava impecável, o cabelo preso em um coque baixo com alguns fios soltos emoldurando o rosto. A barriga já aparecia debaixo da camisola de seda. Seis meses. Um filho. Um futuro que eu nunca tinha ousado sonhar. A porta se abriu. Léo entrou primeiro, o sorriso largo, os olhos marejados. — Amiga, sua maquiagem e seu cabelo estão um arraso. Ele pegou minha mão e me fez girar devagar. Logo atrás veio a Bruna. Ela parou, levou a mão à boca e depois se aproximou, colocando a palma quente sobre minha barriga. — Está ainda mais linda grávida, mana. Mamãe com certeza est
Bárbara Eu só queria sobreviver mais um dia sem desmoronar, cuidar da minha irmã e da sobrinha e nunca mais precisar vender o corpo, mas o homem que eu tinha mandado embora continuava aparecendo, a dor da morte da minha mãe ainda latejava e o desejo que eu não conseguia matar me empurrava de volta para os braços dele. Anderson estendeu a mão. Eu aceitei. Quando fiquei de pé, ele me puxou para um abraço. O corpo dele era sólido, quente, familiar. Eu não aguentei. Enterrei o rosto no peito dele e apertei com força, como se pudesse absorver a proteção que eu não sentia desde o enterro da minha mãe. Fiquei ali segundos a mais do que deveria. As buzinas atrás de nós nos arrancaram daquele momento. Saímos do meio da rua e fomos até a praça. Léo chegou correndo, o rosto preocupado. — Você está bem, Bárbara? Se machucou? — Estou bem. Me leva pra casa, por favor. Anderson segurou meu braço antes que eu andasse. — Eu preciso falar com você. Esse tempo que você sumiu eu quase enlouqueci. P
Bárbara Eu só queria cuidar da minha mãe até o fim e finalmente deixar para trás a vida que me envergonhava, mas a morte dela, o dinheiro que acabou e o vazio que Anderson deixou no peito me empurraram de volta para a mesma escuridão de onde eu tinha tentado escapar. Fechei a porta atrás dele com as mãos tremendo. Anderson saiu de cabeça baixa, sem olhar para trás. Eu me encostei na madeira fria e desmoronei. O choro veio alto, feio, descontrolado. Eu tinha me iludido. Acreditei, nem que fosse por algumas horas, que um homem como ele podia me ver como algo além de um corpo alugado. Que idiota. Enxuguei o rosto com a manga da camisa e respirei fundo até o peito parar de arfar. Não ia ficar ali me lamentando. Eu ainda tinha uma mãe doente esperando por mim. Em menos de uma hora estava pronta. Mala grande, porque pretendia ficar meses. Fechei a porta da casa pela última vez naquela temporada e saí decidida. A viagem foi longa. Cada quilômetro me afastava dele e me aproximava do único l







