FAZER LOGINEntre encontros que ninguém planejou e desejos que se recusam a obedecer, este box de contos revela casais que se descobrem no instante em que o destino decide brincar. Há ela: mulher de olhar afiado, rotina impecável e corpo que há tempos não se deixa tocar de verdade. E ele: homem de silêncios densos, mãos firmes e uma presença que invade o espaço como se sempre tivesse pertencido ali. Eles não se conheciam. Não deveriam se encontrar. Mas uma noite qualquer — um elevador travado, um bar quase vazio, um erro de endereço — coloca os dois no mesmo pedaço de escuridão. O ar muda. Os olhares se cruzam e não soltam. Ele se aproxima sem pedir permissão, a voz baixa roçando a orelha dela: — Você também sente isso? Ela não responde com palavras. Apenas gira o corpo, prende a gravata dele entre os dedos e o puxa até a boca colidir com a dela. O beijo é voraz, urgente, quase violento de tanta necessidade reprimida. As mãos dele sobem pela cintura dela, apertam, exploram. O corpo dela responde antes da razão, arqueando-se contra o dele, entregando-se ao calor que sobe rápido demais. É só o começo. Nas páginas que seguem, outros casais se encontram da mesma forma: de repente, sem aviso, com atração tão intensa que desafia lógica, orgulho e destino. Histórias curtas, densas e irresistíveis que prendem desde a primeira linha e não soltam até a última. Permita-se mergulhar. Descubra até onde o desejo pode levar quando duas pessoas param de fingir que conseguem resistir.
Ver maisBárbara Eu só queria segurar meu filho nos braços e finalmente sentir que a tempestade tinha acabado, mas as contrações rasgavam meu corpo, o medo de algo dar errado ainda latejava e a memória de tudo o que eu tinha sido ameaçava roubar a pureza daquele momento. As dores vinham em ondas brutais. Eu gritava. Anderson dirigia como um louco, uma mão no volante e a outra apertando a minha com força. Cada contração era uma faca quente atravessando a barriga. Eu não entendia como ninguém tinha me avisado que doía daquele jeito. O carro parou em frente ao hospital. Anderson me pegou no colo. Vi o desespero nos olhos dele enquanto os enfermeiros me colocavam na maca. Ele ficou do lado de fora da sala de parto, as mãos no cabelo, andando de um lado para o outro. Dentro da sala eu gritava, chorava, xingava o mundo. O médico repetia: — Faz força, mamãe. Estamos quase lá. Calma. Calma? Se ele falasse aquilo mais uma vez eu ia pular da mesa. Empurrei com tudo o que restava de mim. Um grito fin
Anderson O que a Liza quer agora? Depois de anos sumida, ela escolhe exatamente o momento em que eu finalmente respirei. No carro, vi o olhar de Bárbara mudar quando o nome apareceu na tela. Ela não perguntou nada, mas o silêncio dela foi pior que qualquer acusação. Eu não podia explicar. Não agora. Não ia estragar o que a gente tinha acabado de construir. Chegamos em casa. Bruna e Léo esperavam na sala com sorrisos. Cumprimentei rápido e fui direto para o escritório. Tranquei a porta, sentei na cadeira e disquei o número com a mão já trêmula. — O que você quer? A voz dela saiu doce e venenosa ao mesmo tempo. — Oi, Anderson. Quanto tempo, não é? Vejo que depois de matar a minha irmã você está bem feliz. Até casou de novo. O estômago revirou. — Some da minha vida. Eu fiquei anos preso nisso. Eu não matei a Sabrina. Passei muito tempo sem ser feliz. Agora encontrei alguém e quero viver. Ela riu baixo, cruel. — Você realmente acredita que o filho que essa Bárbara espera é seu?
Bárbara Eu só queria viver aqueles dias em Angra como uma mulher comum, amada e segura, sem o fantasma do passado soprando no meu ouvido, mas a felicidade ainda era recente demais e qualquer sombra — como o nome de uma mulher desconhecida no celular do meu marido — bastava para fazer o peito apertar de medo. Quando o carro parou em frente à pousada, quase perdi o fôlego. O mar estava colado no horizonte, azul-escuro batendo nas pedras. As árvores inclinadas pelo vento carregavam o cheiro de sal e terra molhada. Anderson observava meu rosto com um sorriso discreto. — Este lugar é um paraíso — murmurei, ainda de boca entreaberta. — Você merece muito mais, querida. Ele me beijou com calma, depois desceu a cabeça e pousou os lábios sobre a barriga de quatro meses. O bebê se mexeu, como se respondesse. Anderson riu baixo contra a minha pele. — Agora vamos para o quarto. Não vamos desperdiçar nem um segundo. O beijo no meu pescoço me arrepiou inteira. Ri e deixei que ele me guiasse.
Bárbara Eu só queria atravessar aquele corredor de cabeça erguida, dizer “aceito” sem a voz falhar e começar uma vida limpa ao lado do homem que me escolheu apesar de tudo, mas o peso do passado, a ausência da minha mãe e o medo de que a felicidade ainda pudesse ser arrancada de mim faziam meu coração bater como se eu estivesse prestes a cair. Olhei para o espelho e quase não me reconheci. Os olhos brilhavam. A maquiagem estava impecável, o cabelo preso em um coque baixo com alguns fios soltos emoldurando o rosto. A barriga já aparecia debaixo da camisola de seda. Seis meses. Um filho. Um futuro que eu nunca tinha ousado sonhar. A porta se abriu. Léo entrou primeiro, o sorriso largo, os olhos marejados. — Amiga, sua maquiagem e seu cabelo estão um arraso. Ele pegou minha mão e me fez girar devagar. Logo atrás veio a Bruna. Ela parou, levou a mão à boca e depois se aproximou, colocando a palma quente sobre minha barriga. — Está ainda mais linda grávida, mana. Mamãe com certeza est






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