INICIAR SESIÓNRaika
Quinze dias depois. Eu não me reconhecia mais. Na sala de aula o professor falava de equações e eu só conseguia sentir a língua imaginária de Kevin percorrendo minha pele, descendo pelo pescoço, apertando os seios, entrando entre as pernas. Eu, que sempre fora a aluna excelente, a filha única que tirava dez sem esforço, agora rabiscava o caderno com o nome dele e apertava as coxas uma contra a outra até doer. O desejo era sujo, constante, e crescia cada vez que ele desviava o olhar. Desde a noite do luau, Kevin corria de mim como o diabo foge da cruz. Eu sabia que ele tinha me visto escondida entre as árvores. Sabia que o choque no rosto dele não fora só vergonha de ser pego — fora o reconhecimento de que a sobrinha de dezesseis anos olhava para ele com a mesma fome que aquela mulher. Por isso ele não conseguia mais me encarar direito. Chegava tarde, saía cedo, jantava em pé na cozinha e sumia para o quarto antes que eu pudesse abrir a boca. Eu não desisti. Todas as noites eu tomava banho perto do horário em que ele costumava chegar. Deixava a porta do banheiro entreaberta, saía só de toalha, o cabelo loiro escorrendo água pelas costas, o tecido curto demais cobrindo quase nada. Consegui esbarrar nele duas vezes. Nas duas ele parou no meio do corredor, os olhos cor de mel descendo pelo meu corpo como se estivessem queimando a pele, a respiração presa. Nas duas ele murmurou um “desculpa” rouco e trancou a porta do quarto sem descer para jantar. Hoje ele não escaparia. Meus pais tinham ido para uma pousada com amigos. Eu menti com a cara mais limpa do mundo: trabalho enorme para segunda-feira, ia passar o fim de semana na casa da Stefanini. Minha mãe acreditou. Meu pai beijou minha testa e pediu que eu me comportasse. Eu sorri e prometi. Mentira gostosa. Mentira necessária. Assim que o portão da casa se fechou atrás deles, o silêncio ficou pesado e delicioso. Eu subi, abri a gaveta onde escondia a lingerie preta minúscula — a que comprei escondida depois daquela noite — e me vesti só com aquilo. Sutiã que quase não cobria os seios, calcinha de renda que sumia entre as nádegas. O espelho me devolveu uma imagem que eu mal reconhecia: olhos azuis brilhantes de nervoso e tesão, boca pintada de vermelho vivo, corpo de menina que já não queria ser menina. Ouvi os passos dele subindo a escada. O coração disparou. Posicionei-me de costas para a porta, perto da cama, e comecei. Tirei uma alça do sutiã, depois a outra, rebolando lento. Os dedos foram ao fecho nas costas. O sutiã caiu aos meus pés. Coloquei as mãos na lateral da calcinha e desci o tecido com uma lentidão cruel, o tecido roçando a pele sensível. — Caralho… A palavra saiu baixa, quase um gemido. Eu me virei, as mãos em X cobrindo os seios, o sorriso inocente no rosto. — Oi, tio. Não sabia que já estava em casa. Ele estava parado no vão da porta como uma estátua. Os olhos famintos percorriam cada centímetro nu. A mandíbula travada. A mão apertando o batente com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos. Eu retirei as mãos. Os seios ficaram empinados, os bicos duros com o ar-condicionado e com o olhar dele. Dei um passo. Outro. O cheiro dele — madeira, suor de final de expediente, o aftershave que eu já conhecia de cor — me atingiu. Kevin saiu do transe num sobressalto. — Desculpa. Achei que não tivesse ninguém. Virou-se, entrou no próprio quarto e bateu a porta com força. O estrondo ecoou pelo corredor. Eu fiquei nua no meio do meu quarto, o peito subindo e descendo rápido, o calor latejando entre as pernas. Ele fugiu. De novo. Mas a voz dele quando xingou ainda vibrava no ar, e eu sabia que tinha vencido aquela rodada. Vista a lingerie de novo, joguei por cima um vestido branco solto e absurdamente curto. Se eu me abaixasse um pouco, a bunda ficava completamente exposta. Passei o batom vermelho outra vez, mais grosso, e bati na porta dele. — Tio… a janta está pronta. Fiz a macarronada que você gosta. Vem antes que esfrie. A porta se abriu. Kevin apareceu de camisa social ainda abotoada, a gravata frouxa, o cabelo um pouco bagunçado como se tivesse passado a mão nele várias vezes. O olhar desceu até minha boca, travou no batom, desceu mais pelo decote generoso e voltou. Eu sorri, largo, confiante. — Não estou com fome. Vou sair com uns colegas. Barzinho. A decepção no meu rosto foi ensaiada, mas o aperto no peito foi real. Eu não podia deixar ele escapar. Não hoje. Não com a casa só nossa. — Poxa… fiz com tanto carinho. Sua preferida. Fiz a cara de cachorro abandonado que sempre funcionava com meu pai. Kevin hesitou. Os olhos oscilaram entre minha boca e a porta atrás de mim. — Tudo bem. Depois do jantar eu saio. Vou só avisar o Pedrão que chego mais tarde. Ele tirou o celular do bolso. Eu desci em direção à cozinha, mas parei no final do corredor, escondida, o coração martelando. Ouvi a voz dele baixa, tensa: — Então tá, Pedrão. Não sei direito onde é o bar, mas vou de táxi. Primeiro Bar, não é? Preciso sair de casa… espairecer um pouco. Ok. Até já. Espairecer. Fugir de mim. A raiva e o desejo se misturaram num calor que subiu pelo pescoço. Eu corri para a cozinha, coloquei os pratos, servi a macarronada fumegante e esperei. Quando ele entrou, o ar ficou denso. — Você não ia dormir na casa da amiga? — perguntou, desconfiado, puxando a cadeira. — Vou. Ela tinha um compromisso mais cedo. A gente se encontra depois. Estou com o tempo estourado, inclusive. Nossas mãos se tocaram quando eu entreguei o prato. Ele quase deixou cair. O contato foi elétrico, quente, proibido. Eu senti o tremor nos dedos dele. Sentei na frente, cruzei as pernas de propósito, o vestido subindo até a raiz da coxa. — Pode ficar tranquilo, titio. Sei me cuidar muito bem. Já sou grandinha… acho que você deve ter percebido. O sarcasmo saiu doce. Pisquei. Kevin parou com o garfo no ar, os olhos presos na minha língua quando eu lambi o lábio inferior, sentindo o gosto do batom. A macarronada escorreu do garfo e caiu direto na calça jeans dele, bem na altura da virilha. — Que porra! Ele se levantou num sobressalto. Eu também. Peguei o guardanapo e me abaixei antes que ele pudesse reagir. O tecido branco pressionou o volume duro e quente sob a calça. Eu senti o tamanho, a rigidez, o calor que atravessava o jeans. Meu dedo mindinho roçou de propósito. Kevin soltou um som baixo, quase um gemido engolido. Os olhos dele me encontraram quando eu levantei o rosto. Havia fome ali. Havia raiva. Havia medo. Ele agarrou meu pulso e afastou minha mão com força. — Tenho que ir. A voz saiu rouca, quebrada. Virou-se e saiu da cozinha em passos largos, sem olhar para trás. A porta da frente bateu segundos depois. O táxi deve ter sido chamado ainda no corredor. Eu fiquei parada no meio da cozinha, o guardanapo ainda na mão, o cheiro da macarronada misturado ao cheiro dele. O coração batia tão forte que eu sentia o eco no ouvido. Entre as pernas a calcinha estava encharcada. Eu apertei as coxas, soltei um gemido baixo e frustrado, e olhei para a porta pela qual ele fugira. Com os dedos ainda tremendo de tesão e raiva, eu peguei o celular, digitei o nome do bar que ele mencionara e sorri no escuro da cozinha vazia, a respiração quente contra o próprio peito.Bárbara Eu só queria segurar meu filho nos braços e finalmente sentir que a tempestade tinha acabado, mas as contrações rasgavam meu corpo, o medo de algo dar errado ainda latejava e a memória de tudo o que eu tinha sido ameaçava roubar a pureza daquele momento. As dores vinham em ondas brutais. Eu gritava. Anderson dirigia como um louco, uma mão no volante e a outra apertando a minha com força. Cada contração era uma faca quente atravessando a barriga. Eu não entendia como ninguém tinha me avisado que doía daquele jeito. O carro parou em frente ao hospital. Anderson me pegou no colo. Vi o desespero nos olhos dele enquanto os enfermeiros me colocavam na maca. Ele ficou do lado de fora da sala de parto, as mãos no cabelo, andando de um lado para o outro. Dentro da sala eu gritava, chorava, xingava o mundo. O médico repetia: — Faz força, mamãe. Estamos quase lá. Calma. Calma? Se ele falasse aquilo mais uma vez eu ia pular da mesa. Empurrei com tudo o que restava de mim. Um grito fin
Anderson O que a Liza quer agora? Depois de anos sumida, ela escolhe exatamente o momento em que eu finalmente respirei. No carro, vi o olhar de Bárbara mudar quando o nome apareceu na tela. Ela não perguntou nada, mas o silêncio dela foi pior que qualquer acusação. Eu não podia explicar. Não agora. Não ia estragar o que a gente tinha acabado de construir. Chegamos em casa. Bruna e Léo esperavam na sala com sorrisos. Cumprimentei rápido e fui direto para o escritório. Tranquei a porta, sentei na cadeira e disquei o número com a mão já trêmula. — O que você quer? A voz dela saiu doce e venenosa ao mesmo tempo. — Oi, Anderson. Quanto tempo, não é? Vejo que depois de matar a minha irmã você está bem feliz. Até casou de novo. O estômago revirou. — Some da minha vida. Eu fiquei anos preso nisso. Eu não matei a Sabrina. Passei muito tempo sem ser feliz. Agora encontrei alguém e quero viver. Ela riu baixo, cruel. — Você realmente acredita que o filho que essa Bárbara espera é seu?
Bárbara Eu só queria viver aqueles dias em Angra como uma mulher comum, amada e segura, sem o fantasma do passado soprando no meu ouvido, mas a felicidade ainda era recente demais e qualquer sombra — como o nome de uma mulher desconhecida no celular do meu marido — bastava para fazer o peito apertar de medo. Quando o carro parou em frente à pousada, quase perdi o fôlego. O mar estava colado no horizonte, azul-escuro batendo nas pedras. As árvores inclinadas pelo vento carregavam o cheiro de sal e terra molhada. Anderson observava meu rosto com um sorriso discreto. — Este lugar é um paraíso — murmurei, ainda de boca entreaberta. — Você merece muito mais, querida. Ele me beijou com calma, depois desceu a cabeça e pousou os lábios sobre a barriga de quatro meses. O bebê se mexeu, como se respondesse. Anderson riu baixo contra a minha pele. — Agora vamos para o quarto. Não vamos desperdiçar nem um segundo. O beijo no meu pescoço me arrepiou inteira. Ri e deixei que ele me guiasse.
Bárbara Eu só queria atravessar aquele corredor de cabeça erguida, dizer “aceito” sem a voz falhar e começar uma vida limpa ao lado do homem que me escolheu apesar de tudo, mas o peso do passado, a ausência da minha mãe e o medo de que a felicidade ainda pudesse ser arrancada de mim faziam meu coração bater como se eu estivesse prestes a cair. Olhei para o espelho e quase não me reconheci. Os olhos brilhavam. A maquiagem estava impecável, o cabelo preso em um coque baixo com alguns fios soltos emoldurando o rosto. A barriga já aparecia debaixo da camisola de seda. Seis meses. Um filho. Um futuro que eu nunca tinha ousado sonhar. A porta se abriu. Léo entrou primeiro, o sorriso largo, os olhos marejados. — Amiga, sua maquiagem e seu cabelo estão um arraso. Ele pegou minha mão e me fez girar devagar. Logo atrás veio a Bruna. Ela parou, levou a mão à boca e depois se aproximou, colocando a palma quente sobre minha barriga. — Está ainda mais linda grávida, mana. Mamãe com certeza est
Bárbara Eu só queria sobreviver mais um dia sem desmoronar, cuidar da minha irmã e da sobrinha e nunca mais precisar vender o corpo, mas o homem que eu tinha mandado embora continuava aparecendo, a dor da morte da minha mãe ainda latejava e o desejo que eu não conseguia matar me empurrava de volta para os braços dele. Anderson estendeu a mão. Eu aceitei. Quando fiquei de pé, ele me puxou para um abraço. O corpo dele era sólido, quente, familiar. Eu não aguentei. Enterrei o rosto no peito dele e apertei com força, como se pudesse absorver a proteção que eu não sentia desde o enterro da minha mãe. Fiquei ali segundos a mais do que deveria. As buzinas atrás de nós nos arrancaram daquele momento. Saímos do meio da rua e fomos até a praça. Léo chegou correndo, o rosto preocupado. — Você está bem, Bárbara? Se machucou? — Estou bem. Me leva pra casa, por favor. Anderson segurou meu braço antes que eu andasse. — Eu preciso falar com você. Esse tempo que você sumiu eu quase enlouqueci. P
Bárbara Eu só queria cuidar da minha mãe até o fim e finalmente deixar para trás a vida que me envergonhava, mas a morte dela, o dinheiro que acabou e o vazio que Anderson deixou no peito me empurraram de volta para a mesma escuridão de onde eu tinha tentado escapar. Fechei a porta atrás dele com as mãos tremendo. Anderson saiu de cabeça baixa, sem olhar para trás. Eu me encostei na madeira fria e desmoronei. O choro veio alto, feio, descontrolado. Eu tinha me iludido. Acreditei, nem que fosse por algumas horas, que um homem como ele podia me ver como algo além de um corpo alugado. Que idiota. Enxuguei o rosto com a manga da camisa e respirei fundo até o peito parar de arfar. Não ia ficar ali me lamentando. Eu ainda tinha uma mãe doente esperando por mim. Em menos de uma hora estava pronta. Mala grande, porque pretendia ficar meses. Fechei a porta da casa pela última vez naquela temporada e saí decidida. A viagem foi longa. Cada quilômetro me afastava dele e me aproximava do único l







