LOGINAngelina Clark
A semana passou voando, mal percebi os dias passarem. Ainda não recebi notícias das entrevistas que fiz há alguns dias, mas consegui agendar mais duas e estou tentando manter a esperança. Enquanto isso, o síndico — que também é o dono do apartamento onde moro — me lembra diariamente que meu prazo está acabando, o que só aumenta minha ansiedade. Por outro lado, Felipe tem sido uma presença constante. Ele aparece todos os dias e, aos poucos, nos tornamos amigos. Compartilhamos muitas coisas um com o outro, e, no final da noite, ele sempre insiste em me dar uma carona para casa. Além disso, tem sido incrivelmente gentil ao tentar encontrar meu pai, mesmo sem nenhum sucesso até agora. Passo um pano no balcão do bar para limpar um pouco de vodka que derramei, depois me sento no banquinho para respirar por um instante. Como sempre, às 22h30 em ponto, Felipe chega e ocupa seu lugar habitual. — Boa noite, Fe. Vai querer algo hoje? — pergunto, sorrindo. — Boa noite, Angel. Hoje não, mas queria conversar sobre algo com você. — Ah, claro! Pode falar, a noite está bem tranquila. Ele parece pensativo antes de continuar: — Na verdade, queria te fazer algumas perguntas. Você se importa? Franzo a testa, curiosa, mas balanço a cabeça em negação. — Quantos anos você tem? — Dezenove. Acho que nunca perguntei a sua idade também… — tento me lembrar. — Tenho trinta — ele sorri. — Agora, me diz, você tem alguma doença crônica? Algum vício? Faz uso de medicamento controlado? Fico confusa, tentando entender aonde essa conversa vai dar, mas respondo com sinceridade: — Para todas as perguntas, a resposta é não. Sou bem saudável, na verdade. Ele assente, parecendo absorver a informação. — Qual é o seu tipo sanguíneo? Tem namorado? Algum parceiro? — O negativo. E não, sem namorados, peguetes ou qualquer coisa do tipo — digo, rindo. — Depois dessa entrevista, espero ser contratada, hein? — brinco antes de me afastar para atender alguns clientes. Quando volto, encontro Felipe ainda ali, me observando atentamente. — Sabe aquela ideia que você me deu sobre barriga de aluguel? — ele pergunta, e eu confirmo com um aceno. — Sim, claro. — Pesquisei bastante essa semana, visitei algumas clínicas e percebi que essa pode ser uma opção viável para mim. Minha expressão se ilumina. — Nossa, Fe, isso é incrível! Fico feliz que tenha encontrado um caminho. Mas… o que essa sua pequena entrevista tem a ver com isso? Ele sorri de canto, como se estivesse prestes a me contar algo que pode mudar tudo. Felipe respira fundo, como se estivesse reunindo coragem para falar. — Eu quero que você seja minha barriga de aluguel. Fico completamente sem reação. — Eu? Por quê? — Porque eu não confio em ninguém. Não quero pagar uma desconhecida para gerar meu filho. — Ele me encara com seriedade, mas arqueio a sobrancelha. Afinal, sou praticamente uma desconhecida para ele. — Eu confio parcialmente em você. Você é uma menina bacana, não é interesseira… e é linda. Cruzo os braços, tentando processar aquilo. — Felipe, isso é loucura. Nos conhecemos há uma semana! E, acredite, eu não vou transar com você. — Não precisa. Eu jamais pediria isso. Podemos fazer uma inseminação, eu já pesquisei sobre o processo. Só precisamos fazer alguns exames e seguir os passos certos. Olho para ele, incrédula. — Olha minha situação. Eu nem emprego consigo, imagina grávida. Eu não tenho condição de manter essa criança dentro de mim. — Suspiro pesadamente. — Tem dias que eu mal consigo comer o suficiente, imagina ter que me alimentar por dois. Ele se inclina um pouco, sua expressão se suavizando. — Eu quitaria suas dívidas. Pagaria todas as despesas médicas, o procedimento, o parto. Além disso, te daria suporte financeiro nesses nove meses. Você não precisaria se preocupar com nada disso. Minha cabeça está girando. Me afasto para atender um grupo de clientes, tentando ganhar tempo para pensar. Quando volto, ainda estou atordoada. — Felipe, eu não sou esse tipo de mulher. Não quero nada do que é seu. Além disso, eu me sentiria como se estivesse vendendo uma criança, e isso não é certo. — Respiro fundo, sentindo um nó no peito. — Eu nem sei se tenho estrutura emocional para gerar um filho. Simplesmente… não estou pronta para isso. Ele sorri, mas seus olhos denunciam a decepção. Ainda assim, segura minha mão com gentileza. — Tudo bem. Acho que estou pedindo demais, né? Mas esquece isso, eu vou dar um jeito. — Me desculpa, eu só… não posso. Entende? Ele assente. — Eu entendo. Tá tudo bem. O silêncio paira entre nós por alguns instantes, até que ele muda de assunto. — Mas e você? Alguma resposta das entrevistas? Balanço a cabeça, frustrada. — Infelizmente, não. É difícil arrumar um emprego sem graduação e sem experiência suficiente. Ainda mais sendo tão nova. — Eu sei. O mercado tá complicado. Perguntei para alguns conhecidos, mas ninguém estava contratando para secretária ou copeira. Sorrio de leve. — Obrigada por tentar. Mas meus dias estão contados. O que eu ganho aqui não cobre a dívida absurda que meu pai deixou, muito menos os aluguéis e as contas. Suspiro e volto a atender um cliente. Quando retorno, Felipe me observa atentamente. — E o que você vai fazer? Dou um sorriso sem humor, me encostando no balcão. — Esperar um milagre. Já entreguei pra Deus. Se não conseguir nada, viro uma fugitiva sem teto. Mas uma coisa eu te garanto… eu não vou pra um prostíbulo nem arrastada. — Como assim? Felipe me encara, claramente confuso e preocupado. Respiro fundo, percebendo que talvez nunca tenha contado a ele toda a verdade sobre essa dívida. — Meu pai sumiu porque devia muito dinheiro a um agiota. Isso você já sabe. — Faço uma pausa, sentindo um aperto no peito. — Mas o que você não sabe é que a dívida passou para mim. E se eu não pagar, esse cara vai me levar para o prostíbulo dele para “trabalhar” e quitar o valor. Uma única lágrima escapa antes que eu possa segurá-la. Rapidamente a seco com a manga da blusa. Felipe fica tenso na mesma hora. Sua expressão muda completamente, o olhar antes tranquilo agora carregado de raiva contida. — Quem é esse cara? — Eu não sei o nome dele. Nem o rosto. Sempre tratei tudo com um intermediário. Na verdade, acho que nem meu pai sabe quem ele realmente é. Esses caras nunca aparecem, sempre agem nas sombras. Felipe se recosta no banco, respirando fundo como se estivesse tentando conter a frustração. — Angel, me deixa te ajudar. Pelo menos com os aluguéis atrasados, até você conseguir um emprego. Balanço a cabeça, tentando sorrir, mas minha voz sai mais baixa do que eu gostaria. — Não precisa, Fe. Obrigada, de verdade, mas eu não me sentiria bem com isso. Além do mais, já devo dinheiro demais… não posso dever mais ninguém. Ele segura meu olhar, insistente. — Você não ia me dever nada. Quero te ajudar como um amigo. Isso é muita coisa para você enfrentar sozinha. E você é muito nova. — Não se preocupa comigo. Eu sempre dou um jeito. Vou conseguir sair dessa. — Tento passar confiança, mas sei que não estou convencendo nem a mim mesma. Felipe solta um suspiro pesado. Ele não parece satisfeito, mas respeita minha decisão. Mudamos de assunto, tentando aliviar o clima pesado da conversa. Ainda assim, sinto que Fe ficou incomodado. Como se essa história estivesse martelando na cabeça dele. … — Hora de ir, vamos? — pergunto, pegando minha bolsa. — Vamos. — Felipe sorri de lado, mas seu olhar ainda carrega um resquício de tristeza. Como de costume, ele passa no caixa para pagar a comanda, mesmo que hoje só tenha bebido um suco. Depois seguimos para o carro. No caminho, observo Felipe enquanto ele dirige. Ele é bonito, gentil e educado. Em outra situação, talvez eu me permitisse gostar dele. E, com certeza, não faria o que a ex-noiva dele fez. Mesmo conhecendo Felipe há apenas uma semana, já sei que ele é um homem incrível. Só alguém muito tola o deixaria escapar. Mas o que mais me chama atenção agora é o brilho melancólico nos olhos dele. Passar essa semana ao seu lado me fez perceber o quanto ele deseja ser pai. E, honestamente, consigo imaginá-lo sendo um pai maravilhoso. Me perco nos pensamentos e, quando dou por mim, já estamos em frente à minha casa. — Você poderia me passar seu número? — ele pede. Confirmo com um aceno, pego o celular que ele me estende e digito meu contato. Antes de sair, mordo o lábio e abaixo um pouco o olhar. — Desculpa se te decepcionei… é só que… é muita responsabilidade. Ele balança a cabeça, oferecendo um sorriso fraco. — Você não me decepcionou, Angel. Foi uma ideia maluca, só isso. — Ele solta um suspiro e dá de ombros. — Se tiver que acontecer, vai acontecer. Sorrio levemente antes de me inclinar e deixar um beijo suave em sua bochecha. — Boa noite, Fe. — Boa noite, Angel. Saio do carro e sigo minha rotina de sempre: banho, algo rápido para comer e, por fim, minha cama. Assim que me deito, o celular vibra. Felipe: “Obrigado por nossas conversas. Você é uma ótima amiga.” Sorrio antes de responder. Eu: “Você é incrível, Fe.” Depois de enviar a mensagem, fecho os olhos e me entrego ao sono.Felipe Cooper Confesso que, depois de ser abandonado às vésperas do casamento pela minha ex-noiva, a última coisa que eu queria era me envolver com alguém de novo. Naquela noite, fui até o bar apenas para afogar as mágoas, sem intenção de conhecer ninguém, muito menos de me apegar. Mas então, eu vi ela. Angelina. A bartender de sorriso bonito e jeito de menina. Seus cabelos loiros refletiam a pouca luz do bar, e seus olhos carregavam algo que me intrigava, uma mistura de doçura e mistério. Desde o primeiro instante, ela despertou algo em mim que eu não soube explicar—um instinto protetor, uma necessidade de estar por perto. Eu voltava dia após dia, dizendo a mim mesmo que era apenas pelo ambiente, pela bebida… Mas a verdade é que era por ela. Nossas conversas fluíam de um jeito natural. Angelina tinha uma facilidade absurda de arrancar palavras de mim, como se soubesse exatamente onde tocar, quais perguntas fazer. Ela ria de coisas bobas, e mesmo nos dias em que eu sentia o p
Angelina Clark O médico termina de me examinar com atenção, observando cada detalhe. Depois de alguns minutos, ele pede que a enfermeira me traga um analgésico. Tomo o remédio e, com a ajuda de Fe, caminho até a sala do ultrassom. Deitada na maca, observo a tela enquanto ele faz o exame minuciosamente. — Bom, está tudo bem com o bebê e com você também — diz ele, me lançando um olhar tranquilizador. — Peço que fique de repouso pelo resto do dia e amanhã também. Se precisar, te darei um atestado. Fe suspira aliviado e segura minha mão com carinho. — Certo, doutor. Ela vai descansar direitinho. Eu cuido dela — ele garante, olhando para mim com ternura. Sorrio, sentindo o calor do seu cuidado. O médico se retira, dizendo que vai preparar minha alta e assinar o atestado. Assim que ele sai, Fe aperta minha mão entre as suas e me encara com um olhar preocupado. — Eu quase morri quando cheguei no seu apartamento e te encontrei no chão, apagada — sua voz sai baixa, carregada d
Angelina Clark Domingo, como sempre, era um tédio. Já tinha almoçado, já que Felipe avisou que não conseguiria vir cedo. Santiago apareceu na casa dos avós, e os dois decidiram ficar para o almoço. Agora, eu estava largada no sofá, vendo um filme qualquer, mas minha mente só conseguia focar em uma coisa: a vontade absurda de tomar um milk-shake de choco menta. Meu Deus, só de pensar já salivo. Tento ignorar, mas é impossível. Quanto mais penso, mais parece que preciso dele para continuar respirando. Suspirando, resolvo largar a preguiça e tomar um banho. A água quente ajuda a espantar a moleza, e logo estou colocando uma roupa leve e confortável. Como a sorveteria fica perto, aproveito para fazer uma caminhada. Um pouco de exercício não vai fazer mal—nem pra mim, nem para o bebê. Ao sair do prédio, percebo que o dia está agradável, nem muito frio, nem quente demais. O clima perfeito para andar sem pressa. Caminho pelas ruas tranquilas, observando a pracinha onde algumas f
Angelina Clark — Daqui a 30 minutos ele está aqui — Felipe avisa, balançando o copo quase vazio na mão. — E meu whisky de hoje, já pode botar na sua conta. — Se ele vier, ok — respondo, revirando os olhos enquanto ele ri e se afasta. Cruzo os braços e encaro Felipe com descrença. — Eu não acredito que você estava literalmente negociando seu próprio irmão! Ele dá de ombros, despreocupado. — Algum benefício aquele pé-rapado tem que me dar, né? — brinca, e eu nego com a cabeça, rindo. E, como prometido, exatamente 30 minutos depois, Santiago entra no bar. Ele caminha direto até onde Carla está, troca algumas palavras com ela e nos dá apenas um breve aceno antes de se concentrar totalmente nela. Felipe solta um suspiro indignado. — O puto nem olha pra gente, vê se eu aguento um trem desse… Não pode ver um rabo de saia! Dou risada, me divertindo com a indignação exagerada dele. — Deixa os dois, eu shippo. Ele ergue uma sobrancelha. — Eu falo isso brincando, mas
Angelina Clark O enjoo matinal me desperta antes mesmo do despertador tocar. Corro para o banheiro, sentindo o estômago revirar em protesto. Assim que termino, me apoio na pia, respirando fundo. Meus olhos encaram meu reflexo no espelho – olheiras leves, expressão abatida. Ligo o chuveiro e deixo a água quente escorrer pelo meu corpo, aliviando um pouco o mal-estar. Saio enrolada na toalha, ainda sentindo um leve incômodo no estômago. Visto um pijama confortável, sem pressa. Não vou sair agora mesmo. Sigo para a cozinha e preparo uma tigela de salada de frutas. Algo leve, que talvez não pese tanto. Me sento no sofá, equilibrando a tigela no colo enquanto deslizo o dedo pela tela do celular, abrindo meu e-mail. Espero encontrar alguma resposta positiva dos currículos que enviei nos últimos dias, ou quem sabe um retorno das entrevistas que fiz. Mas nada. Nenhuma novidade. Apenas notificações irrelevantes e propagandas insistentes. Solto um suspiro cansado. Me recosto no sofá,
Angelina Clark Acordo sentindo a leve claridade da manhã entrando pelas frestas da cortina. Me espreguiço preguiçosamente, esticando os braços acima da cabeça, e pego o celular no criado-mudo. A tela marca 06:30 da manhã. Ainda é cedo, mas meu estômago já está dando sinais claros de que não vai me deixar dormir mais. Suspiro e decido levantar. Vou até o banheiro, lavo o rosto com água fria para espantar o sono e cuido das minhas necessidades matinais. Me olho no espelho, ajeito os cabelos rapidamente e sigo direto para a cozinha, guiada pelo ronco da minha barriga. Penso em acordar o Fe, mas hesito. Não faço ideia do horário que ele tem que ir trabalhar e, sinceramente, ele parecia tão confortável dormindo que prefiro não incomodar. Melhor deixar ele descansar um pouco mais. Na cozinha, começo organizando o café da manhã. Encho a chaleira e coloco a água para ferver. Enquanto isso, abro o freezer e pego um pacote de pães de queijo congelados, distribuindo-os em







