LOGINCapítulo 5
Ruby Lucchese Assim que acordei, passei a mão no celular para ligar para Magno. Eu não sou de deixar nada para depois, menos ainda algo tão sério assim. Estava digitando o número enquanto saía do quarto, caminhando pelo corredor norte, quando encontrei Safira. — Precisamos conversar, Ruby. Apaguei a tela sem ligar e a encarei. — O que precisa, Safira? — Eu não acho certo que você se case com um total estranho. Acho que devemos bater de frente com a alta cúpula. Não podemos aceitar isso tão facilmente. — Safira, você enlouqueceu de vez? — É isso! Chega de aceitar tudo, Ruby. Eles precisam saber quem somos! Você vai viver infeliz por causa das decisões dos nossos pais? Temos que revolucionar a família. — Nosso pai sabia exatamente o que estava fazendo. Se ele decidiu isso, é porque sabia o peso dessa decisão, Safira. Mas não se preocupe, eu vou me casar. Você pode seguir sua vida, casar por amor ou nunca casar. Faça como quiser. — E você vai se sacrificar por nós? Isso está errado, Ruby! — Não tem o que discutir, Safira. Eu já tomei minha decisão. Inclusive, ia ligar para Magno agora mesmo. Ela tentou tirar o celular da minha mão. Não sei o que está acontecendo com ela hoje. Jade deve ter escutado nossa discussão, pois logo apareceu, tentando nos separar. — Vocês estão loucas, brigando assim? Qual o motivo? — A Ruby não pode casar com o Russo! — Eu preciso, Safira. Temos que cumprir o acordo ou teremos uma guerra. — Parem com isso agora! Solta o celular da Ruby, Safira! Jade tentou intervir, mas eu acabei me descontrolando e empurrando as duas. — Chega! Essa é uma decisão minha e eu não volto atrás no que digo. Vocês estão cansadas de saber disso. — Eu não quero perder você também... Safira me soltou ao dizer isso, e então pude entender seu desespero. Era a perda, a distância... — Eu nunca vou me afastar de vocês. Temos jatinhos, sempre estaremos juntas. E você precisará ser forte, vai ter que cuidar de tudo quando eu me casar, Safira. Ela me olhou, escondendo a raiva e a mágoa. Nós três nos abraçamos. Infelizmente, é assim que tem que ser... Segui até o escritório, mas, quando ia fazer a ligação para Magno, Jack entrou. Olhei para ele, já irritada. Hoje, todo mundo resolveu me atrapalhar. Não é possível. — Senhorita Ruby, o Don do Japão está pedindo uma reunião com a representante da família Lucchese. — O que ele quer? Nem temos negócios com eles. — Ele quer comprar armas. E nós temos as melhores... — Marque para amanhã. Preciso resolver meu casamento hoje. Ele me olhou, e senti que queria dizer algo. — O que foi agora, Jack? — Eu não quero me intrometer, mas seu pai discutia tudo comigo... e ele não falou nada sobre esse contrato. — Mas ele fez! É a assinatura dele, Jack. Não tem mais o que discutir. E prefiro isso a uma guerra com a Rússia. Depois que meu avô quebrou as primeiras barreiras com os Schnepper, não vai ser na minha vez que o nome Lucchese vai se quebrar. A família Schnepper dominava a máfia alemã e tinha um casamento com Don Massimo, o Don Italiano. Foram anos para que meu avô conseguisse elevar nosso nome, e hoje somos quem somos. Os Schnepper são nossos aliados na Alemanha, mas não aceitam mais casamentos por contrato. Se aceitassem, meu pai certamente teria feito um acordo. São nossos maiores aliados. Magno Torricelli é descendente de Don Massimo, e às vezes sinto que ele não aceita bem o fato de não ser o Don... Mas deve ser impressão minha. Jack saiu a contragosto, e eu fiz a ligação. — Senhorita Ruby, a que devo a honra da sua ligação? — Estou ligando para informar que eu mesma vou me casar com o Russo. Ele ficou em silêncio por um tempo. Ouvi sua respiração oscilar. — Tem certeza disso? Você vai aceitar assim? Que estranho... Ele queria que eu recusasse? — Sim. Não tenho opção. Jamais causaria uma guerra por isso. Pode encaminhar para eles. Será como está no contrato, e eu, como irmã mais velha, vou cumprir! Ele desligou sem mais, e eu fiquei pensativa sobre o que Jack disse... e sobre a reação de Magno. Mas o que Masato Yoshida quer conosco? Eles sempre compraram armas da Rússia. O que está acontecendo? O dia voou, e eu me mantive em paz, evitando bater de frente com minhas irmãs ou debater minha decisão. Pela manhã do dia seguinte, fomos ao encontro do Don japonês em seu hotel, um local mais reservado. — Bom dia, Don. Sou Ruby Lucchese, e essas são minhas irmãs, Safira e Jade Lucchese. É uma honra estar aqui. — Agora percebo por que são chamadas de as Joias da Máfia. São realmente preciosas. De uma beleza surreal. Antes de falarmos de negócios, quero expressar meus mais sinceros sentimentos pela morte de seus pais. Foi uma grande perda para todos nós. Engoli o nó que senti na garganta, vendo minhas irmãs fazerem o mesmo. Safira agradeceu por todas, e continuamos a conversa. Ele passou uma lista de armas que precisava. Trabalhamos com todas, mas parecia que ele estava montando um verdadeiro arsenal de guerra. — Bom, eu consigo te entregar nessa quantidade em três meses. — Muito tempo. Preciso em um mês! Olhei para as meninas. Eu tinha quase tudo em estoque, mas por que tanta pressa? — Eu pago o dobro do valor se me entregar em um mês, senhorita Ruby. Temos um acordo? Ele estendeu a mão, me olhando fixamente. Olhei para ele, sentindo que algo estava errado. Antes de apertar sua mão para fechar o acordo, resolvi perguntar: — Tenho apenas uma dúvida. Por que está comprando conosco e não com a Rússia, como sempre fez? Ele me olhou como se eu não devesse saber dessa informação e abaixou a mão, olhando para seus homens, que se aproximaram rapidamente. Meus homens também se moveram ao perceber a agitação no ambiente. — Na verdade, a Rússia não tem cumprido prazos e tem deixado a desejar. Por isso a mudança. E... com a guerra iminente, precisamos estar preparados. — Guerra? — Sim. Soube que o elo entre várias facções criminosas está se quebrando. Não sabemos como será, mas ela vai acontecer. Quero estar pronto para defender meu território. Acordo fechado. Passei tudo para Jack providenciar. Metade do pagamento foi feita em dinheiro, e o resto era com Jack. Segui com minhas irmãs para organizar tudo para o jantar de noivado. Estava ansiosa. Os dias passaram rapidamente, e a noite que mudaria minha vida estava a poucas horas de acontecer. Enquanto me arrumava, vestindo um longo vestido prata, ouvi leves batidas na porta. Quando ela se abriu, revelou o pequeno grande amor da minha vida. Quanta saudade eu senti. Abracei meu irmão com ternura e escutei suas infinitas aventuras, enquanto minhas irmãs riam suavemente. Sentiria falta desses momentos, mas era necessário... Jack avisou: — Senhorita, o braço direito de Nicolai já chegou para averiguar a casa antes que ele adentre a propriedade. Igor Balabanov já está aqui. Ao ouvir esse nome, um calafrio percorreu meu corpo. A lembrança que veio à mente me deixou inquieta.Capítulo 72Ruby LuccheseTer meu pai de volta na minha vida é como presenciar um milagre. Um sopro de magia no meio do caos. Meses intensos se passaram enquanto ele recuperava a saúde, longe dos olhares do mundo, em segredo. Esperamos o momento certo. Preservamos detalhes, silêncios, verdades dolorosas até que o tempo dissesse: é agora.O reencontro entre nós três foi como alinhar o universo. Emocionante. A parte mais difícil? Contar a verdade sobre Ônix. Contrariando tudo o que Emma sempre me disse, meu pai não virou o rosto. Ele me acolheu. Com a mesma força e ternura que teria me acolhido anos atrás, as somente agora eu sei disso...Hoje é o marco de um novo começo, mais um entre tantos que a vida nos impôs nesse último ano, quase dois anos... Hoje, ele vai se apresentar ao Conselho. Vai tomar de volta o trono que sempre lhe pertenceu. E com isso, eu e minhas irmãs poderemos, finalmente, seguir nossas vidas. Livres. Don Giuseppe Lucchese voltará a ser o homem que nunca deveria ter
Capítulo 71Giuseppe LuccheseMeses se passaram desde aquela noite em que fui levado de volta para a mansão pelas mãos daquela linda jovem, as duas jovens que diziam ser minhas filhas. Jade e Ruby. Aos poucos, fui reconstruindo minha identidade. Fragmentos da minha vida voltavam como ondas, primeiro leves, depois mais intensas, como se cada pedaço do meu passado estivesse escondido em algum lugar dentro de mim, esperando apenas o momento certo para despertar.O tratamento ajudou. Médicos, especialistas em trauma e memória, psicólogos, tudo foi feito com o máximo de sigilo. As meninas mantiveram tudo em segredo. Apenas Jack, e os seguranças mais confiáveis e os médicos sabiam da minha presença.Passei noites inteiras encarando o teto, tentando me lembrar dos rostos que me surgiam em flashes: uma mulher chorando, uma menina rindo em um jardim, alguns tiros, um bebê menino. Às vezes, acordava gritando, outras em silêncio, com o peito pesado. Mas minhas filhas estavam ali. Ruby, firme, co
Capítulo 70 Jade LuccheseAinda parecia um sonho estranho, daqueles que a gente acorda com o coração acelerado e sem saber se está feliz ou em pânico... Meu pai estava vivo. Depois de tanto tempo, tantas lágrimas, tantas noites jurando que sentia sua presença, ele estava ali. Em carne, osso... e muita confusão.Ele não se lembrava de mim.Não se lembrava de Ruby, nem de Safira.Não se lembrava da sua vida,nem de seu cargo.Do nosso mundo, da máfia, da nossa casa, enfim de nada...E mesmo assim, cada gesto dele, cada olhar curioso que ele lançava para mim fazia meu coração bater mais rápido. Porque meu pai podia ter perdido a memória, mas a essência dele ainda estava ali. O homem forte, silencioso, intenso... o Don que moldou nossas vidas e nos ensinou a ser ferro antes de ser flor, ele estava ali, ele estava comigo.Jack dirigia com os olhos atentos na estrada, mas dava para ver que ele estava tão abalado quanto eu. O carro parecia pequeno demais para comportar toda aquela tensão. M
Capítulo 69 Capo Jack ManciniAs negociações com os croatas nunca foram simples. Cada palavra precisava ser medida, o tom de voz mantido sob controle, os olhares sempre firmes. Lembro que Don Giuseppe fazia questão de lidar pessoalmente com eles. Ele gostava do desafio. Mas agora… não temos mais essa opção.No mundo da máfia, qualquer hesitação é vista como fraqueza. E fraqueza, nesse universo, pode custar vidas.Mas nada, absolutamente nada, nesse dia me preparou para o que estava prestes a acontecer.Estávamos finalizando o acordo sobre o carregamento de granadas quando, ao sair do galpão, fui até os fundos fumar um cigarro e limpar a mente antes da parte burocrática. Foi então que o vi.Um homem sujo, carregando caixas pesadas para dentro de um caminhão. Até aí, nada incomum. Era habitual que chefes usassem pessoas vulneráveis, pobres e desesperadas para esse tipo de trabalho. Mas havia algo nele… algo que capturou minha atenção de forma visceral.A barba desgrenhada cobria metade
Capítulo 68Jade LuccheseEu odeio... odeio essa posição que a vida na máfia nos dá: ser juíza e executora. Mas, neste caso... neste caso, eu escolho ser as duas.Ela merece sofrer. Merece sentir dor. Muita dor.Ver ela gritar foi uma melodia harmoniosa para os meus ouvidos.Aplicar a injeção letal, sentir os últimos suspiros escapando dela... me fez bem. Muito bem.Fiquei um bom tempo observando sua cabeça caída para frente, seus olhos ainda abertos. Nos olhos dela, dava para ver toda a dor que passou... Mas agora, ela nunca mais verá a nossa dor.Nunca mais causará traumas em ninguém.Nunca mais vai machucar alguém que eu amo!Ruby beijou minha testa antes de entrar para cuidar dos filhos.Foi como se eu tivesse adivinhado que precisava vir, vim de surpresa. Cheguei minutos antes da ligação da minha... da Emma, e consegui estar ao lado da Ruby nesse momento.Se não fosse por isso, ela teria enfrentado tudo sozinha... de novo.Mikail e Joana só chegam na próxima semana, mas eu... eu
Capítulo 67 Ruby LuccheseEstar com Pérola nos braços me trouxe alívio até certo ponto. Ela está segura agora, mas o que me espera em casa é algo que, por muito tempo, achei que não teria coragem de fazer. Hoje, porém, Emma ultrapassou todos os limites possíveis. Algo imperdoável. E, diante de toda a bagagem, de todo o mal que causou... ela merece a morte. E não uma morte rápida, mas lenta, dolorosa. Como qualquer inimigo ousaria receber de mim.Assim que entrei em casa, Eleanor e Emiliana estavam me esperando, ansiosas, com Ônix ao lado, pronto para conhecer a irmã, sem nem imaginar tudo que enfrentamos para trazê-la de volta, salva, para casa.Entreguei Pérola a elas como se fosse um tesouro. Pedi que dessem banho nela, enquanto eu fazia o mesmo. Ia amamentar minha filha e ir até a sala de pedra. Não queria essa mulher aqui, nem mesmo amarrada.Os pais que compraram Pérola eram tão vítimas quanto nós da maldade de Emma. Deixei-os ir, mas mantive alguns homens os vigiando. É sempre







