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CAP. 2 - A Noiva Errada

Author: N. E. Autora
last update publish date: 2026-07-26 07:22:46

POV/ Hellen

Cada passo pelo tapete vermelho da Catedral de Chicago parecia pesar uma tonelada. O ar congelante da igreja arrepiava os meus braços e a minha nuca, mas o pior era o nó na minha barriga — um aperto puro de pânico. Por baixo do véu grosso de renda, tentei controlar a minha respiração descompassada, engolindo o gosto metálico de sangue que ainda continuava na minha boca.

Por que a Genna tinha que fugir logo agora? Por que ela tinha me deixado para trás para pagar essa dívida desgraçada?

Eu entendia o desespero dela. A Genna foi criada numa bolha de vidro, vigiada por babás e moldada pelo meu pai para ser o sacrifício perfeito. Mas eu não. Eu lutei para ir para uma escola normal, fiz amigos e guardei cada centavo que pude numa conta secreta no banco. Eu tinha dezoito anos e um milhão de planos. Era para eu começar a faculdade no mês que vem, viver, conhecer o mundo. Em vez disso, os meus sonhos de liberdade foram destruídos no segundo em que a minha irmã mais velha sumiu no meio da noite.

Agora, em vez de focar nos meus estudos, eu estava sendo forçada a um casamento. E o pior: tinha um prazo de dois anos para engravidar de um homem que eu nunca tinha visto na vida. Eu ainda era virgem. Toda a minha experiência romântica se resumia a beijos rápidos e doces nos corredores da escola. Eu não sabia nada sobre sexo, e a ideia de entregar o meu corpo sem toque para um homem violento me apavorava de um jeito difícil de explicar.

Desde que a nossa mãe faleceu, há catorze anos, durante o parto da minha irmã mais nova, a Bianca, a nossa vida sob o teto de Vittorio Rossi tinha virado um inferno. O meu pai nunca nos tratou como seres humanos. Para ele, a Sienna, a Bianca, a Genna e eu éramos só mercadoria mantida no cativeiro dele para fechar negócios com a alta sociedade de Chicago. Ele tinha prometido me deixar terminar a faculdade primeiro, mas essa promessa inteira tinha ido para o lixo.

Olhei por baixo da renda do véu na direção dos primeiros bancos. As minhas irmãs mais novas estavam sentadas ali, alinhadas. Sienna, de dezesseis anos, e Bianca, de catorze. Todas nós tínhamos herdado os traços marcantes da nossa mãe: cabelos castanhos compridos e olhos verdes vivos como joias. Mas hoje, aqueles olhos verdes estavam apagados, cheios de uma tristeza funda e de lágrimas seguradas. Elas sabiam que eu estava andando direto para o abate no lugar da Genna.

Mas eu não vou me entregar, pensei, apertando o buquê com tanta força que os meus nós dos dedos ficaram brancos. Eu ainda tenho o dinheiro que guardei. Ainda tenho a minha cabeça. O Damian Vance pode trancar o meu corpo na mansão dele, mas ele nunca vai mandar na minha alma.

Vittorio Rossi apertou o meu braço com mais força, avisando que estávamos chegando aos degraus do altar. A música instrumental começou a sumir, e um silêncio pesado tomou conta da catedral.

O homem que estava de costas para mim finalmente começou a se virar.

O meu coração falhou uma batida. As minhas pernas bambearam por um segundo. Eu esperava encontrar um homem estranho, velho ou deformado, que combinasse com a fama de sadismo dele, mas a realidade bateu como um soco no meu peito.

Damian Vance era, sem dúvida, o homem mais bonito e intimidante que eu já tinha visto na vida.

Ele era enorme. Enquanto eu tinha apenas um metro e sessenta e cinco, ele passava fácil de um metro e oitenta e cinco, com ombros largos e uma postura forte que exalava poder absoluto. O terno preto sob medida parecia desenhado num corpo extremamente forte e musculoso. O rosto parecia esculpido em mármore, com o maxilar marcado coberto por uma barba escura e bem feita.

Mais do que a beleza física, o que realmente me travou foram os olhos dele. Um azul gélido, marcante e afiado, emoldurado por sobrancelhas grossas que davam a ele uma expressão permanentemente perigosa. Não tinha calor nenhum naquele olhar. Tinha apenas uma arrogância fria — o olhar de um predador que sabia exatamente que era dono de tudo ao redor. Inclusive de mim.

Quando parei na frente dele, o contraste era brutal. Eu era baixa, encorpada e tremia, enquanto ele se erguia sobre mim como uma parede. O olhar dele desceu pelo meu corpo, avaliando o vestido de noiva apertado, antes de travar direto nos meus olhos.

O meu pai soltou o meu braço e deu um passo para trás com um sorriso cínico, me deixando completamente sozinha na cova dos leões. O Damian deu um passo para a frente, diminuindo a distância até eu conseguir sentir o cheiro do perfume caro dele misturado com notas de couro. Ele ergueu a mão grande e firme, levando os dedos devagar até a borda do meu véu, e jogou o tecido de renda para trás para revelar o meu rosto de vez.

Os nossos olhos se cruzaram. Naquele segundo, um arrepio violento desceu por toda a minha espinha. Ele olhou no fundo das minhas pupilas, absorvendo a minha imagem, e eu soube na hora que ele tinha percebido que eu não era a Genna.

Sem dizer uma única palavra para os convidados, ele estendeu a mão e pegou o meu braço para nos posicionar diante do altar. Os dedos dele apertaram exatamente o ponto onde o meu pai tinha cravado as garras minutos atrás. Um arfar de dor escapou dos meus lábios antes que eu conseguisse segurar. O meu rosto se contorceu, mas o Damian não soltou a pegada e nem demonstrou reação alguma. Ele simplesmente ignorou a minha dor, mantendo os olhos fixos para a frente.

Pelos minutos seguintes, eu virei uma estátua. Um bloco de gelo. Eu só tinha consciência da presença enorme do homem ao meu lado e do medo sufocante no meu peito.

— Eu vos declaro marido e mulher — a voz do padre finalmente me tirou do transe. — Pode beijar a noiva.

O pânico voltou com tudo. Meu Deus, pensei, sentindo as minhas mãos suarem frio contra o buquê.

Olhei para cima, hesitante. O Damian se virou para mim, com os olhos azuis frios cravados nos meus lábios. Ele deu um passo à frente, deixando a sombra dele me cobrir por inteiro. Antes que eu pudesse reagir, a mão grande e pesada dele subiu, enfiando os dedos com firmeza no cabelo da minha nuca e puxando a minha cabeça levemente para trás.

O beijo não foi romântico. Foi só um selinho firme, duro e possessivo. O calor dos lábios dele contra os meus fez o meu corpo inteiro tensionar.

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