FAZER LOGINOs olhos de Davi ficaram marejados, mas ele também viu o menino no vídeo.Hoje em dia a tecnologia de IA já é tão avançada que consegue enganar qualquer um. Só que, naquele vídeo, as expressões vivas no rostinho do pequeno não tinham nada de artificial, nenhum sinal de algo gerado por computador.Davi tinha certeza de que não era uma montagem. Ele olhou, atônito, para Fabiano e depois voltou a encarar o ambiente em que o menino estava no vídeo: tantos equipamentos médicos, uma cabine de isolamento.Era preciso ter um corpo muito frágil para precisar ficar internado num lugar daqueles.Por um instante, Davi sentiu um aperto tão forte no peito que ele nem conseguiu falar. Ele era só amigo da mãe daquela criança e já estava sofrendo daquele jeito. Como Ivone iria aguentar?Os dedos de Fabiano estavam tão tensos segurando o celular que ficaram brancos e trêmulos. Com a outra mão, ele abraçava com força Ivone, que estava à beira de um colapso. Ele precisava dar um tempo para que ela absorve
Fabiano sentiu de verdade o corpo de Ivone enrijecer nos braços dele.Mas, de repente, Ivone tirou uma força que ninguém sabia de onde tinha vindo e se desvencilhou dele com violência, empurrando Fabiano para longe com toda a força que tinha.— Fabiano! — Gritou Ivone.Ivone ofegava, ergueu o rosto para encará‑lo. O olhar que antes estava vazio, por causa das palavras de Fabiano, agora carregava ódio. Um ódio escancarado por Fabiano. Os vasinhos rompidos nos olhos deixavam os olhos dela ainda mais vermelhos, uma cena que doía só de olhar.— Como você teve coragem… — Ivone franziu a testa de dor, chorando entre os dentes. — Como você teve coragem de usar o nosso filho para mentir para mim.A dor tomou conta dela como uma onda gigante. Ivone apertou o peito com força e curvou as costas, mas nem encolhida daquele jeito ela conseguia aguentar.Se Fabiano não tivesse passado o braço de novo pelos ombros dela, Ivone teria caído da cama. Só que ela não ligou para isso. Na cabeça dela, cenas d
A palma da mão de Fabiano encostou de leve na lateral do rosto dela:— Ivi, espera só mais um pouco.Fabiano se lembrou da conversa que tinha tido, na UTI do último andar, pouco antes de Davi ir atrás dele, quando o médico responsável lhe dissera:"Sr. Fabiano, o cariótipo de Samuel e o do Cofrinho deram compatibilidade. Com os recursos que nós temos hoje e com o estado físico do Cofrinho, o transplante vai ser feito daqui a uma semana."A condição do corpo de Cofrinho era especial. Ele tinha uma alteração de medula causada por envenenamento, algo bem diferente dos casos comuns de transplante de medula óssea.Há muito tempo o médico já tinha pedido para ele se preparar psicologicamente: mesmo que o transplante desse certo, não havia garantia de que Cofrinho conseguiria sobreviver por muito tempo.Ele podia fazer tudo o que estivesse ao alcance dele, mas, depois da cirurgia, tudo ia depender do próprio Cofrinho.De repente, o celular no bolso de Fabiano vibrou. Era uma ligação do médico
Ofegante de tanto esforço, Maia voltou a perguntar:— Eu te perguntei para quem é essa doação de medula!Ela não sabia por que, mas sentiu um pressentimento terrível. Durante tanto tempo, Fabiano tinha engolido e relevado tudo por causa dela e, no fim, o que ele queria dela era justamente um transplante de medula.Pelo nível de paciência que ele tinha tido com ela, a pessoa que precisava daquele transplante era, para Fabiano, alguém extremamente importante. Talvez não mais importante do que Ivone, mas, com certeza, alguém por quem ele seria capaz de arriscar a própria vida.Quem era a pessoa… que tinha tanto peso assim para Fabiano?No mundo, não existiam muitas pessoas importantes para ele. Os pais de Fabiano tinham morrido, a avó também, e só tinha sobrado Ivone. E Maia nunca tinha ouvido falar de ninguém próximo a ele que estivesse doente a ponto de precisar de um transplante de medula.O coração de Maia começou a bater mais rápido, descompassado. Enquanto as mãos dela, tomadas pela
Davi sabia exatamente o quanto, naquela época, Ivone tinha esperado pelo nascimento daquele bebê.Foi a primeira vez que ele sentiu uma verdadeira ternura vindo dela, a primeira vez que enxergou, nela, o amor de mãe nascendo por uma criança que estava prestes a chegar....Em um quarto de hospital vigiado pela polícia e pelos seguranças de Fabiano.Maia estava deitada na cama, com o corpo cheio de tubos ligados aos aparelhos ao lado, que mantinham os sinais vitais dela.O cobertor que estava sobre ela ficava totalmente colado na parte de baixo do corpo, sem deixar ver o contorno das pernas.Por causa daquela explosão, Maia tinha perdido as duas pernas. Ela tinha ficado paraplégica em nível alto e tinha se tornado uma verdadeira pessoa com deficiência.Nesta vida, mesmo que ela conseguisse sair dali um dia, só poderia se mover em cima de uma cadeira de rodas. E, na prática, ela já não tinha mais nenhuma chance real de voltar para fora.Porque Fabiano já tinha entregue à polícia as prova
O ar do corredor parecia ter congelado num único instante.A presença de Ivone ali, junto com aquela pergunta desesperada que ela lançou, fez o coração de Fabiano se contrair de repente.O rosto de Fabiano ficou sombrio, e ele reprimiu a respiração trêmula enquanto caminhava rápido até ela.— Não é como você está pensando. — Disse Fabiano.Davi também veio atrás dela, saindo para o corredor. Ele não tinha esperado ver Ivone ali, muito menos que ela tivesse ouvido justo a conversa entre ele e Fabiano.— Você não dormiu direito, por isso começou a pensar besteira. Vamos voltar para o quarto primeiro. — Disse Davi.A mão de Davi pousou no apoio lateral da cadeira de rodas.Atrás de Ivone, Raul, que até então empurrava a cadeira, estava com o rosto completamente pálido. Ele abaixou a cabeça, o coração apertado ao ver Ivone à beira do descontrole.— Senhorita. — Chamou Raul.Quando Raul ia estender a mão para soltar os dedos de Ivone, que estavam agarrados nas pontas do próprio cabelo, Fabi







