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Capítulo 6

Author: Sua Sombra
Após aquele fatídico dia, Maitê não pôs mais os pés em casa, preferindo se isolar em um quarto de hotel por quase duas semanas.

Durante esse período, como se quisesse castigá-la, Nathan fez questão de atualizar suas redes sociais todos os dias com fotos e declarações envolvendo Liliana.

Ele celebrou o aniversário da amante e a presenteou com aquele exato broche de pedras preciosas que Maitê tanto desejava. Além disso, o homem levou Liliana para morar na casa deles, deixando-a dormir nos lençóis que a própria esposa havia escolhido a dedo para a cama do casal. Para piorar a humilhação, ele chegou a concordar em dar uma festa de casamento para a outra, reservando a mesma igreja onde havia trocado alianças com Maitê.

Os amigos da alta roda não pouparam elogios e felicitações, comentando como os dois formavam um casal deslumbrante. Diziam aos quatro ventos que Nathan por fim havia recobrado o juízo e que já havia passado da hora de se livrar daquela esposa sem graça e ultrapassada. Um dos comentários mais curtidos sugeria que, se era para fazer as coisas, que fizessem direito. Exigiam que ele se divorciasse de Maitê de uma vez por todas para assumir Liliana no papel.

Essa mensagem ficou cravada no topo da página e o próprio Nathan não respondeu a uma única palavra. No dia seguinte, a publicação inteira havia sido apagada.

Maitê, no entanto, ignorou todas essas provocações fúteis, focando toda a sua energia e atenção nas negociações do seu acordo com Yuri Xavier.

O tempo voou até o vigésimo nono dia do período de espera para a conclusão do divórcio. Foi então que Maitê decidiu voltar à casa que um dia dividiu com o marido.

Como era de se esperar, a decoração do ambiente inteiro já exibia os gostos de Liliana. Todas as fotos e roupas de Maitê estavam rasgadas ou cortadas em pedaços espalhados pelo chão. Por sorte, os documentos importantes e o acordo de divórcio, que ela havia escondido no fundo do armário, continuavam intactos.

Com a papelada segura nas mãos, ela se virou para ir embora, mas deu de cara com Liliana bloqueando a porta e exibindo a barriga de grávida com um ar de triunfo.

— Ora, ora, Maitê, confesso que estou surpresa com a sua capacidade de engolir sapo. Mesmo depois de eu transformar você na maior piada da nossa roda social, você ainda insiste em se agarrar à família Ribeiro com unhas e dentes. — Provocou Liliana, com um sorriso carregado de veneno. — Mas, pensando bem, faz sentido. Com o seu pai tendo se jogado de um prédio e a sua mãe morta há tão pouco tempo, é claro que você precisa se segurar nesse barco salva-vidas. Afinal de contas, quem mais na capital inteira olharia para a sua cara além do Nathan?

Naquele instante, uma lembrança perversa pareceu cruzar a mente de Liliana, e ela abriu um sorriso de dar arrepios ao fingir inocência:

— Sabe por que o Nathan é tão louco por mim? Porque eu contei a ele que, no dia daquele acidente de carro, você o largou para trás para salvar a própria pele, e fui eu quem o tirou das ferragens. Quando eu o levei para o hospital, você ainda estava lá, presa no banco do passageiro, sangrando sem parar. Eu vi de perto você perder aquele bebê, sabia? Ah, e tem a história da sua mãe também. Fui eu quem pagou o médico para convencer o Nathan de que não haveria problema nenhum em desligar os aparelhos dela, só para você ter o desprazer de ver a sua própria mãe morrer na sua frente. Com tudo isso que eu já fiz e desfiz, Maitê, como você acha que tem alguma chance de ganhar de mim?

O som da bolsa caindo no chão ecoou pelo quarto. O limite da sanidade de Maitê havia sido rompido e, movida por uma fúria cega, ela ergueu a mão e desferiu um tapa estalado no rosto de Liliana. No segundo seguinte, ela sentiu uma dor aguda na nuca e o mundo escureceu por completo.

Quando recobrou a consciência, percebeu que estava presa dentro de um carro retorcido junto com a rival, repetindo a mesma tragédia daquele acidente de três anos atrás. A única diferença brutal era que, dessa vez, quem detinha o poder de escolha em suas mãos era o próprio Nathan.

Um dos socorristas avaliou as ferragens com uma expressão pesada, virando-se para o homem do lado de fora:

— Senhor Nathan, tanto a senhora Maitê quanto a senhorita Liliana estão presas na parte da frente do carro. O tempo está correndo contra nós e só temos condições de remover uma delas agora. Quem o senhor quer que a gente tire primeiro?

Sem hesitar, ele começou a responder:

— Tirem a Mai...

Contudo, antes que o homem pudesse terminar o nome da esposa, Liliana levou as mãos ao ventre e gemeu com uma voz embargada e frágil:

— Nathan, salva a Maitê. Ela dedicou sete anos da vida dela a você, enquanto eu fui apenas a pessoa que te salvou uma vez. Pode escolher ela, não tem problema se algo acontecer comigo e com o nosso bebê.

Aquela chantagem emocional atingiu Nathan em cheio, fazendo com que ele engolisse as palavras que já estavam na ponta da língua.

— Podem tirar a Liliana! — Ordenou ele em um tom frio.

O socorrista franziu a testa, perplexo com a decisão.

— O senhor tem certeza absoluta disso? A senhorita Liliana está apenas contida pelo airbag, enquanto a perna inteira da senhora Maitê está esmagada pelas ferragens. O quadro dela é mais grave e qualquer atraso pode resultar em uma amputação...

— Eu já falei para tirar a Liliana primeiro! — Retrucou Nathan, com a voz tão gelada quanto uma nevasca. — A Maitê é minha mulher. Mesmo que ela perca a perna, eu tenho dinheiro para sustentá-la pelo resto da vida. Com a Liliana é diferente. Ela me salvou no passado e eu tenho a obrigação de assumir a responsabilidade por ela.

Diante daquela frieza, a equipe de resgate desistiu de argumentar e acionou as ferramentas pesadas para arrombar a porta. Maitê ficou ali, imóvel, assistindo enquanto eles retiravam a outra mulher com todo o cuidado do mundo. Do seu lado, a pressão do metal retorcido fazia com que lascas afiadas cravassem ainda mais fundo em sua coxa, irradiando uma dor insuportável que lhe roubava o ar.

Em meio ao delírio da dor, sua mente a arrastou para uma lembrança de sete anos atrás. Ela havia tropeçado de mau jeito e arranhado o joelho, e Nathan se ajoelhara no chão, soprando o machucado com uma delicadeza ímpar.

— Amor, você quer me matar de preocupação, é? — A voz dele ecoava em sua memória.

Agora, ela sangrava até quase perder os sentidos, presa em um monte de sucata. A última imagem que seus olhos capturaram foi a figura de Nathan carregando Liliana nos braços, afastando-se a passos largos até sumir de vista.

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