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Capítulo 7

作者: Sua Sombra
Quando Maitê abriu os olhos outra vez, o cheiro forte de antisséptico e os bipes constantes dos monitores revelaram que ela estava na Unidade de Terapia Intensiva.

O médico de plantão examinava os curativos em sua perna, ostentando uma expressão de profundo alívio:

— Faltou um milímetro para aquele pedaço de metal romper a sua artéria. A senhora nasceu de novo, porque se não tivessem chegado a tempo, nós não estaríamos falando em perder uma perna, mas sim a sua própria vida.

Maitê fez um esforço tremendo para forçar um sorriso pálido em agradecimento, mas sua mente continuava presa nos sussurros que havia escutado enquanto flutuava na inconsciência horas antes.

— A paciente perdeu muito sangue, por que o banco do hospital ainda não liberou as bolsas?

— Nem me fale. A namorada do senhor Nathan reclamou de dor na barriga, e ele mandou bloquear o banco de sangue inteiro da região. Todo o estoque deve ficar à disposição dela por precaução.

— Mas isso é um absurdo! Se não podemos usar o sangue, o que vai ser dessa moça aqui?

— Ela vai ter que lutar sozinha.

"Então o Nathan me queria morta de verdade?", ponderou Maitê consigo mesma. A dor física era tão dilacerante que acabou anestesiando qualquer resquício de sentimento em seu peito, deixando-a oca por dentro. Era curioso como, diante de tanta tragédia, ela não conseguia derramar uma lágrima sequer. A única coisa que a confortava naquela cama de hospital era saber que o prazo para a conclusão do divórcio estava a poucas horas do fim.

Quando a noite caiu, Nathan apareceu no quarto. O olhar do homem parou nos curativos espessos que cobriam a coxa da esposa e ali permaneceu por um longo tempo, antes que ele resolvesse quebrar o silêncio pesado:

— A Liliana salvou a minha vida no passado, então eu preciso arcar com essa dívida.

Em vez de responder ou gritar, Maitê apenas o encarou em silêncio. Ela observou cada traço do rosto daquele homem pelo qual havia sacrificado sete anos da sua juventude.

A vontade que tinha era de perguntar se ele não se recordava da paixão arrebatadora que sentiam. Queria jogar na cara dele que ela também havia perdido um filho naquela época, tudo por culpa daquela tragédia. Acima de tudo, sentia a urgência de saber se em algum momento ele parou para pensar no que faria caso ela tivesse morrido naquelas ferragens.

Um turbilhão de questionamentos inundou sua cabeça, mas, ao abrir a boca, a voz saiu seca e sem emoção:

— Eu entendo.

O fato era que ela compreendia a ausência de amor dele, a total indiferença em relação ao bebê que perderam e a frieza cortante que ele manteria mesmo se ela fechasse os olhos para sempre. A maior certeza que habitava seu coração era de que, a partir do dia seguinte, os dois passariam a ser completos estranhos.

Respirando fundo para reunir suas últimas forças, Maitê começou a selar o destino dos dois:

— Nathan, vamos div...

A fala foi interrompida pelo toque estridente do celular dele. Do outro lado da linha, a voz manhosa da amante vazou pelo alto-falante:

— Amor, a Sra. Joana acabou de chegar com os fotógrafos para tirarmos nosso retrato de família e só está faltando você aqui.

Um lampejo de pânico atravessou o rosto de Nathan, que desviou o olhar apressado para a cama, deparando-se apenas com a esposa de olhos fechados, alheia a tudo.

"Será que ela não se importa mais comigo?". O pensamento surgiu do nada para atormentá-lo, porém ele balançou a cabeça de imediato para afastar a ideia. Era óbvio que ela jamais o deixaria de amar. Além do mais, a sobrevivência da mãe de Maitê não dependia do dinheiro da família Ribeiro?

Ao encontrar esse conforto lógico, seu olhar suavizou de uma hora para a outra:

— Descansa um pouco, Maitê. Assim que os médicos derem alta, eu faço questão de ir buscar a sua mãe em pessoa para morar com a gente.

No instante em que o trinco da porta sinalizou a saída dele, a mulher abriu os olhos. Sem perder tempo, pegou o telefone debaixo do travesseiro e ligou para o mordomo da mansão:

— Quero que você pegue a bolsa cheia de documentos que deixei no meu quarto e traga direto para o hospital.

Em seguida, abriu o aplicativo de mensagens e enviou um texto curto para Yuri: [Vem me buscar.]

O relógio avançou por mais uma hora. Após apagar o número de Nathan e todos os rastros de contato que tinha dele em seu aparelho, Maitê se ajeitou em uma cadeira de rodas e deixou os corredores do hospital para nunca mais voltar.

A quilômetros de distância dali, bem no meio dos flashes da nova foto de família, o celular de Nathan vibrou no bolso com uma notificação do escritório de advocacia.

[Meus parabéns, Sr. Nathan. Informo que o seu divórcio com a Sra. Maitê foi concluído com sucesso.]

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