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Capítulo 5

Autor: Sua Sombra
No décimo dia do período de reflexão para o divórcio, Maitê foi à embaixada e, por fim, resolveu as pendências do seu visto.

Às sete da noite em ponto, ela cruzou os portões de ferro da mansão antiga da família Ribeiro. O banquete de aniversário exalava uma ostentação impecável, com o salão repleto de rostos conhecidos das famílias mais influentes da alta sociedade, um círculo restrito ao qual, num passado não muito distante, a própria família Soares também pertencia.

— De todas as garotas da capital, só a Maitê está à altura do nosso Nathan. — Costumava repetir Joana aos quatro ventos, sempre com um sorriso acolhedor no rosto. — Se um dia ela casar com meu filho, dou a minha palavra de que vou cuidar dessa menina como se fosse minha própria filha.

No entanto, após a trágica falência dos Soares, foi essa mesma Joana quem revelou sua verdadeira índole. Durante o funeral do pai, a sogra não teve o menor pudor em jogar um cheque de cem mil reais no rosto da jovem enlutada, exigindo com frieza absoluta que ela pegasse o dinheiro e desaparecesse, para não arruinar o futuro brilhante de Nathan.

Respirando fundo para conter o turbilhão de emoções, Maitê adentrou o salão principal. Quase no mesmo instante, o peso dos olhares alheios recaiu sobre seus ombros, carregados de um misto cruel de deboche, desdém e daquela curiosidade mórbida de quem aguarda um espetáculo deprimente.

No centro do salão, Joana segurava as mãos de Liliana com uma intimidade ensaiada, esbanjando sorrisos largos enquanto conversava com os convidados ao redor.

— Isso mesmo, esta é a Liliana, a namorada do Nathan. — Anunciava Joana, com orgulho. — Ela já está no terceiro mês de gestação, imaginem a nossa alegria!

— Mas a nora da senhora não era a Maitê? — Provocou uma das socialites, exibindo um sorriso carregado de malícia. — Exibir a nova companheira dele desse jeito não vai causar um escândalo familiar?

Revirando os olhos, Joana soltou um riso de puro desprezo.

— E por que eu teria algum receio? Ela não passa de uma falida sem eira nem beira, que só sobrevive às custas do meu filho. Se não fosse pela bondade do Nathan em acolher essa coitada, sabe-se lá em que sarjeta ela estaria jogada agora. Além do mais, que moral tem uma mulher incapaz de dar à luz? Se ela se acha tão superior, que engravidasse primeiro.

A ironia daquelas palavras tinha um sabor amargo e cruel, pois Maitê já havia esperado um filho, há três anos.

Naquela época, enquanto Nathan dirigia rumo ao litoral para verem o mar, os freios do carro falharam, resultando em um engavetamento terrível. Naquela fração de segundo entre a vida e a morte, ela não hesitou em se jogar sobre o corpo do marido para protegê-lo do impacto. Os estilhaços do para-brisa rasgaram sua pele sem piedade, e a escuridão tomou conta de sua consciência no mesmo lugar.

Quando abriu os olhos no hospital, foi recebida com a notícia mais devastadora da sua vida. O médico informou que ela estava grávida, mas a violência da batida causara um aborto e, para piorar, as graves lesões no útero a deixariam incapaz de ser mãe no futuro. Aquela revelação roubou o chão de Maitê, fazendo-a chorar em silêncio durante toda a madrugada.

Enquanto lidava com o luto, o mordomo da família veio informá-la de que Nathan havia sido resgatado dos escombros por uma jovem e, em sinal de profunda gratidão, o marido decidiu contratá-la como sua assistente pessoal na empresa.

Aquela garota era Liliana.

Com um brilho de autoescarnecimento nos olhos e o coração anestesiado, Maitê se afastou daquela multidão sufocante, buscando refúgio no jardim dos fundos para tentar esvaziar a mente.

Liliana, contudo, não estava disposta a deixá-la em paz. Esgueirando-se pelo gramado bem cuidado, a jovem se aproximou com passos furtivos, parando ao lado da esposa traída.

— Nossa, Maitê, o que você está fazendo aqui fora sozinha? — Indagou a amante, piscando os olhos com uma inocência fingida para garantir que a provocação fosse nítida. — Será que ficou com medo de ver a Sra. Joana me tratando tão bem e não conseguiu segurar o choro? Olha só o que ela acabou de me dar... Disse que é uma joia tradicional, que só a matriarca da família Ribeiro tem o direito de usar. O que achou?

Ela ergueu o braço, exibindo o bracelete de jade com um sorriso vitorioso.

O coração de Maitê já estava machucado demais para se importar com aquelas alfinetadas infantis.

— Vá direto ao ponto. O que você quer? — Retrucou ela, sem alterar o tom de voz.

— Quero dizer que o Nathan já perdeu o interesse em você faz muito tempo, e a Sra. Joana não suporta olhar para a sua cara. Não entendo por que você insiste em se humilhar, tentando segurar a todo custo o título de Sra. Ribeiro. Deveria ter o mínimo de dignidade e sair do meu caminho de uma vez por todas. Ontem à noite mesmo, ele me prometeu que assumiria nosso relacionamento em público, porque não quer que eu ou o nosso bebê passemos por nenhum constrangimento.

O tom de Liliana era agressivo e territorial, mas, diante de tanta arrogância, Maitê apenas soltou um riso leve e desinteressado:

— Sendo assim, meus parabéns.

"Eu já não quero saber nem dessa família ridícula, nem do Nathan.", pensou ela, sentindo um alívio imenso invadir seu peito. Sem acrescentar mais nenhuma palavra, deu as costas para a rival e começou a caminhar de volta para a saída.

Foi então que Liliana, agindo com uma rapidez calculada, soltou um grito estridente e despencou no chão, forçando uma queda bizarra.

— Socorro! Alguém me ajude, por favor! A minha barriga está doendo muito! — Berrava a amante, contorcendo-se no gramado de forma teatral.

Nathan surgiu correndo quase no mesmo instante, deparando-se com a cena da amante agarrada ao próprio ventre, choramingando de dor. Movido por um impulso cego, ele avançou na direção de Maitê, erguendo a mão e acertando um tapa violento no rosto da esposa.

— Como você pode ser tão suja, Maitê?! Ter a coragem de agredir uma mulher grávida! — Esbravejou o homem, com os olhos injetados de raiva.

Com a bochecha ardendo e o rosto virado pelo impacto, ela levou a mão ao local do golpe, encarando o marido com uma decepção profunda e imutável.

— Eu não encostei nela. — Respondeu ela, em um murmúrio firme e cansado.

— Não minta para mim, eu vi tudo! — Nathan agarrou o pulso dela com uma força brutal, apertando os ossos finos como se quisesse esmagá-los ali mesmo. — Você já esqueceu o aviso que te dei da última vez? Presta bem atenção! Se acontecer qualquer coisa com a Liliana, eu juro por Deus que mando desenterrar a sua mãe e queimar os restos dela até virarem cinzas!

— Não precisamos esperar por uma próxima vez, vamos resolver isso agora. — Disparou Joana, aproximando-se a passos largos.

Acompanhada por dois seguranças robustos, a matriarca ordenou que imobilizassem a nora pelos braços, sem dar espaço para defesa.

Ainda caída, Liliana começou a chorar em prantos e balançou a cabeça num teatro perfeito.

— Por favor, Sra. Joana... Nathan... deixem isso para lá. A Maitê não fez por maldade. É natural que ela sinta ciúmes, porque eu estou carregando o seu filho, eu consigo entender a dor dela. — Num movimento dramático, a garota se arrastou pelo chão e se ajoelhou diante da esposa imobilizada. — Vamos fazer assim, Maitê. Você pode me bater de novo, se isso aliviar a sua raiva. Eu aceito qualquer coisa, de verdade. Só te imploro... te imploro que não machuque o meu bebê!

A audácia daquela cena era tão absurda que Maitê quase soltou uma gargalhada de pura indignação.

— Eu já disse que não empurrei ninguém. Se vocês se recusam a acreditar em mim, existem câmeras de segurança espalhadas por todo o jardim. Basta puxar as gravações para verem o que de fato...

Antes que ela pudesse terminar a frase, o rosto de Liliana perdeu a cor de supetão. Percebendo a ameaça iminente de ser desmascarada, a jovem apertou os dentes, fechou os olhos e desabou no gramado, encenando um desmaio para encerrar o assunto.

Aquilo foi o estopim para a fúria irracional de Nathan. Cego pelo ódio, ele arrastou Maitê sem piedade até a borda da piscina, agarrou seus cabelos e afundou a cabeça dela na água gelada. Uma, duas, incontáveis vezes.

A água invadiu o nariz e a boca de Maitê, inundando seus pulmões com brutalidade. A dor excruciante escureceu sua visão, sentia o gosto metálico de sangue arranhando a garganta, e um zumbido ensurdecedor tomou conta de seus ouvidos, bloqueando os sons ao redor. Enquanto ela lutava para não se afogar, Liliana já havia despertado na margem, aninhando-se nos braços de Joana com a expressão de uma vítima indefesa.

Os convidados em volta assistiam à cena em choque, trocando sussurros estarrecidos.

— Meu Deus, o senhor Nathan pegou pesado demais. Ele vai acabar matando a coitada desse jeito.

— Bem feito, quem mandou tentar matar o bebê dos outros? Ela procurou por isso e está colhendo o que plantou.

Pareceu uma eternidade até que, meia hora depois, ele finalmente afrouxou o aperto e a soltou. Nathan caminhou de volta para a amante, a voz subitamente mansa e carregada de afeto.

— Shh, não precisa mais ter medo de nada. Eu já te vinguei e fiz ela pagar pelo que fez. A barriguinha ainda dói? Vem, vou te levar para o hospital agora mesmo.

Ele a pegou no colo com extrema delicadeza e marchou para longe, sem sequer olhar para trás. Joana se aproximou do corpo ensopado, acertou um chute desdenhoso nas costelas da nora e se retirou resmungando impropérios. O jardim se esvaziou aos poucos. Apenas Maitê permaneceu ali, largada no piso de pedra como um animal abatido, encharcada e ofegante.

Quando as lágrimas secaram e não restava mais nada além de um vazio insuportável, ela fixou o olhar na aliança de casamento em seu dedo. Um riso rouco, desesperado e de cortar o coração rasgou sua garganta, ecoando a ruína completa de tudo o que havia vivido até ali. Com as mãos ainda trêmulas, pegou o celular no bolso molhado e discou um número desconhecido, que atendeu na primeira chamada.

"A farsa desta família termina hoje.", pensou consigo mesma, com uma frieza inabalável tomando conta de si.

— Aquela nossa conversa ainda está de pé? — Perguntou ela, com a voz firme e cortante. — Você me disse uma vez que pagaria trezentos milhões de reais em troca das provas de sonegação fiscal da família Ribeiro. Quero saber se a oferta ainda é válida.

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