LOGINO nome pronunciado pelo padre Brennan ainda ecoava dentro de mim quando a loba branca levantou a cabeça.
Siobhán.
Minha tia.
A irmã mais nova da minha mãe.
Eu havia passado tantos anos acreditando que minha família se resumia às pessoas que conhecera na Itália que encontrar alguém do meu próprio sangue, escondida numa floresta irlandesa, parecia impossível.
Cillian O’RourkeO rosnado que ouvi do outro lado da porta me fez abandonar os documentos sobre a escrivaninha.Eu conhecia aquele som. Havia crescido cercado por lobos, aprendido a distinguir os chamados de alerta dos avisos territoriais e passado boa parte da vida ouvindo meu próprio animal reagir a ameaças que meus sentidos humanos ainda não haviam identificado. Um rosnado daquela natureza carregava uma vibração profunda, produzida por uma garganta que não pertencia inteiramente a um ser humano.E vinha do quarto de Valentina.Atravessei o corredor antes que Patrick, parado junto à escadaria, conseguisse perguntar o que estava acontecendo. A porta estava fechada, e uma faixa estreita de luz atravessava o espaço entre as cortinas e o chão. Consegui ouvir a respiração acelerada da minha esposa, o movimento de seus pés descal&cc
Valentina MorettiA primeira coisa que ouvi foi o coração de Cillian.Ele estava diante de mim, a poucos passos da cama, conversando com Patrick sobre a chegada do meu pai. Eu conseguia ver seus lábios se movimentando, reconhecer a preocupação que endurecia suas feições e acompanhar o movimento de suas mãos enquanto segurava os documentos encontrados entre os registros antigos. Entretanto, as palavras começaram a se misturar a um som profundo e ritmado que parecia preencher todo o quarto.Tum. Tum. Tum.Franzi a testa e levei os dedos à têmpora.— Valentina? — Cillian chamou.Tentei responder, mas outro som atravessou minha concentração.Um segundo coração.Mais rápido.Vinha de Patrick, que permanecia junto à porta
Cillian O’RourkeO primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi o silêncio de Patrick.Ele estava parado diante da minha escrivaninha havia quase um minuto, segurando uma folha de papel que provavelmente já havia lido várias vezes. Conhecia aquele homem desde a adolescência. Sabia reconhecer quando estava preocupado, quando discordava de alguma decisão minha e quando procurava uma maneira de transmitir uma notícia desagradável sem provocar uma reação imediata.Naquela manhã, havia algo diferente em sua expressão.— Patrick, fale.Ele respirou fundo.— Declan convocou uma assembleia extraordinária.Afastei os olhos do relatório que estava examinando.— Sem minha autorização?— Usou o regulamento de convocação da
Maeve O'RourkeEu conhecia aquela casa antes de Cillian aprender a caminhar.Conhecia o ruído dos canos durante o inverno, a madeira que estalava quando a temperatura caía abaixo de zero e o ponto exato do corredor onde o vento entrava pelas frestas, apesar das inúmeras reformas. Sabia quais janelas precisavam permanecer fechadas durante as tempestades vindas do Atlântico e quais flores resistiam melhor à umidade dos jardins. Havia passado tantos anos cuidando daquela propriedade que, às vezes, bastava fechar os olhos para saber em qual cômodo uma pessoa estava apenas pelo som de seus passos.Naquela manhã, porém, a mansão parecia pertencer a desconhecidos.Permaneci diante do espelho do meu quarto enquanto prendia os cabelos. Aos cinquenta e oito anos, ainda conservava a postura que minha mãe exigira de mim desde a infância: ombros alin
Aoife estava sentada no meio da minha cama, com as pernas cruzadas sobre o edredom e três livros espalhados ao seu redor, quando entrei no quarto depois de conversar com Giulia. Usava um pijama rosa-claro, com pequenas estrelas bordadas nas mangas, e havia prendido os cabelos num rabo de cavalo tão torto que reconheci imediatamente a tentativa de fazê-lo sozinha. O coelho de pelúcia descansava sobre seu colo, envolvido por uma das mantas que Maeve costumava deixar dobradas aos pés da cama.— Você demorou — reclamou, erguendo os olhos.Sorri enquanto fechava a porta.— Desculpa, princesa. Estava conversando com a Giulia.— Ela falou do Niall?A pergunta me fez rir.— Por que você quer tanto saber se eles conversaram?Aoife inclinou a cabeça, como se minha pergunta fosse completamente absurda.— Porque eles gostam um do outro.Aproximei-me da cama e me sentei ao seu lado, tomando cuidado com o braço machucado.— E como você sabe disso?— Porque o Niall fica olhando para ela quando ela n
Aoife estava parada na entrada do quarto, abraçada ao coelho de pelúcia, quando a marca em meu braço começou a queimar.O corredor atrás dela permanecia mergulhado numa penumbra azulada, iluminado apenas pelas pequenas luminárias instaladas próximas ao rodapé. Eu conseguia ouvir o funcionamento discreto do sistema de ventilação, o vento batendo contra uma janela distante e a respiração sonolenta da menina, que me observava com os cabelos desgrenhados.A imagem que havia atravessado minha mente segundos antes continuava tão nítida que senti dificuldade para respirar.Eu vira aquele mesmo corredor.A porta entreaberta.Aoife dormindo sob um cobertor azul.E uma presença que parecia conhecer cada detalhe da mansão.— Valentina? — ela chamou novamente.Forcei um sorriso, embora minhas mãos estivessem tremendo.— Oi, princesa. O que está fazendo acordada?A menina esfregou um dos olhos com o punho.— Acordei e você não estava no quarto.Meu coração apertou.— Estou aqui, meu amor.Ela cami







